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Fernando Barbosa

Estamos virando a página da recessão?

By | Indicadores, PIB

Vivemos uma das mais longas e profundas recessões da nossa história. Imagino que você, tanto quanto eu, queira virar essa página. Mas estamos perto da virada?

A melhora dos indicadores de confiança é um dos primeiros sinais de reversão da atividade econômica, porém também pode mostrar “falsos positivos”. Foi isto que aconteceu com os índices agregados em meados do ano passado.

Agora, os índices entraram em uma fase de recuperação que aparenta ser mais sólida. Todas as sondagens divulgadas pela FGV esta semana mostraram crescimento em março, confirmando tendência positiva nos últimos três meses. A sondagem da indústria, por exemplo, subiu 3,3%, atingindo o maior patamar desde maio de 2014. A recuperação é difundida entre os diversos setores considerados nas pesquisas.

A melhora de indicadores macroeconômicos nos últimos meses aumenta a esperança de que estejamos, enfim, saindo do fundo do poço. Pelo lado do consumidor, a rápida queda da inflação alivia a perda de poder de compra. E a liberação das contas inativas do FGTS não deixa de ser uma ajuda ao consumo e à redução do endividamento. Pelo lado das empresas, a trajetória declinante de juros reduz o custo de capital.

 

Será que enfim estamos diante da recuperação econômica?

 

Após o impeachment da presidente Dilma Rouseff, os indicadores captaram rápido crescimento da confiança. Entretanto eles eram quase exclusivamente formados por expectativas quanto ao futuro, sem respaldo na situação presente da economia. O caso mais claro é o da confiança do consumidor, conforme o gráfico abaixo.

No fim de 2016 houve certa “correção” do excesso de otimismo e, desde então, os índices ensaiam nova recuperação. Neste ciclo atual as expectativas ainda são o principal driver de alta, mas a “situação atual” começou a reagir. As intenções de compras de bens duráveis subiram, o estoque da indústria está mais ajustado e os índices de emprego deixaram de piorar. Mas note que os índices de confiança ainda estão muito baixos quando comparados às médias históricas, próximas de 100 pontos.

Em suma, as mudanças no ambiente macroeconômico e a recuperação mais disseminada na abertura das sondagens de confiança aumentam as chances de que estejamos no turning point da atividade econômica. Mas vale deixar claro que a retomada da economia só será possível se combatermos diversos desafios, como o desarranjo fiscal do governo e a incerteza politica. Por enquanto, o desemprego tende a aumentar e o consumo a retomar força de forma muito lenta.

Ainda podemos ter vários percalços. Tomara que eles não nos impeçam de sermos içados do poço.

 

Como a chuva lavou a inflação? O efeito do El Niño

By | Inflação

O IPCA está em rápida desaceleração com ajuda da forte queda dos preços dos alimentos. A importância desse grupo se dá, primeiro, porque "alimentação e bebidas" representa mais de 25% da cesta do IPCA. Segundo, a oscilação dos seus itens é grande se comparada aos outros itens da cesta.

Para analisar os preços de alimentos é fundamental considerar a ocorrência ou não do El Niño - o aquecimento das águas na costa do Pacífico. O fenômeno altera os padrões de chuva no Brasil, influenciando diretamente a produtividade das safras agrícolas. Neste post, vou apresentar as ultimas reversões do El Niño e seus efeitos sobre a inflação de alimentos.

A métrica mais comum para monitorar o El Niño chama-se Oceanic Niño Index. Valores superiores a 0,5 indicam que o fenômeno está "ativo"; quanto maior o índice, maior o efeito sobre o clima. Em 2015-16 tivemos o maior El Niño desde 1950, similar apenas aos de 1982-83 e 1997-98.

 

O que acontece com a inflação de alimentos durante e após o El Niño?

Em quase todos os ciclos observados houve aceleração de alimentos nos anos com El Niño e reversão significativa no ano seguinte. O gráfico a seguir mostra a inflação acumulada em 12 meses de "Alimentação e bebidas" nos anos em que ocorreram as principais desinflações de alimentos. O ponto "t0" no eixo-x corresponde aos meses de dezembro do ano em que o El Niño terminou. Isto é, o ano que começa após a barra vermelha são os anos de "calmaria climática", sem El Niño. Notem que geralmente o El Niño termina em julho-agosto, desta forma a queda dos preços começa antes do início do ano de calmaria.

Podemos ver que o movimento atual se assemelha ao de 2009. Se olharmos apenas o subgrupo alimentos no domicílio, os movimento são bem parecidos.

 

Para montar o gráfico, utilizamos o código abaixo. A grande dificuldade foi não poder trabalhar como série temporal, já que cada série representa períodos de anos diferentes. Tive então que usar alguns truques para construir o eixo-x do gráfico como uma série de texto e unir todas as séries.

eixo_x <- as.character(seq(-23,24, by=1))
eixo_x = c(paste("t", eixo_x, sep='')) 
eixo_x = factor(eixo_x, unique(eixo_x)) 
 
janelas <- data.frame(eixo_x, janela2004, janela2006, janela2009, janela2017)

 

Qual seria o tamanho da desaceleração dos preços de alimentos?

Umas das abordagens que testei foi um modelo baseado no box do Relatório de Inflação do Banco Central de junho de 2016, disponível aqui.

Na minha versão, substituí "alimentação no domicílio" pelo grupo mais amplo "alimentação e bebidas". Testei ambos e as conclusões são parecidas. Além disso, troquei o Índice de Commodities do BC (IC-Br) pelo ICI-Inflação, publicado pelo Itaú aqui. A projeção disponível deste número me facilita estimar a inflação para 2017 como um todo. A equação ficou da seguinte forma:

(1)   \begin{equation*}\pi_t^{alim} = \sum_{i=0}^1\phi_i\;\Delta\xi_{t-i} + \sum_{i=0}^1\beta_i \;\Delta ICI_{t-i}^{inflacao}+\delta\; nino_{t-1} + \gamma\; h_t + \sum_{i=1}^4\alpha_i\;T_i + \epsilon_t \end{equation*}

\pi_t^{alim}: inflação de alimentos e bebidas

\Delta\xi_{t}: variação da taxa de câmbio nominal

\Delta ICI_{t-i}^{inflacao}: variação do ICI-Inflação, composto pelos preços das commodities, medidas em dólares, que são relevantes para o IPCA

nino_{t-1}: primeira defasagem da dummy se o mundo está ou não sob efeito do El Níño

h_t: hiato do produto

 T_i: dummies sazonais

O coeficiente encontrado para a dummy El Niño foi  de 1,1. Ou seja, o fim do El Niño em um determinado trimestre reduz a inflação de alimentos em 1,1p.p. no trimestre seguinte. Isto representa quase 0,3p.p. de efeito no IPCA. Especialmente em 2017, podemos ter efeito ainda maior, já que acabamos de passar por um dos maiores El Niño da história. A taxa de câmbio e os preços de commodities no mercado internacional também são muito significantes na determinação da inflação de alimentos. A apreciação de 1,0% no câmbio retira 0,16p.p.da inflação de alimentos, e -1,0% no índice de commodities implica em -0,11p.p em alimentos.

 

Rendered by QuickLaTeX.com

 

Em suma, a reversão do El Niño no início do 2º  semestre de 2016 já reduziu significativamente a inflação no final do ano passado e deve ter forte impacto também no IPCA de 2017. Supondo, por exemplo, que a inflação ex-alimentos seja de 4,5%, mas os alimentos e bebidas subam 3% (próximo ao padrão de 2009), a inflação de 2017 seria de 4,1%. Portanto, bem abaixo do centro da meta de inflação.

A inflação de alimentos mais baixa facilita ao BC atingir a meta também em 2018, pois "lava" parte dos efeitos da indexação/inércia inflacionária, ainda muito fortes no Brasil. Um belo presente da natureza para o Banco Central, hein?

 

Agradeço a Elisa Andrade pelo auxílio na preparação deste conteúdo.

 

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