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amores urbanos Archives - Análise Macro

Amores Urbanos: capítulo 6

By | Romances

Há dois tipos de mulheres, o leitor mais astuto e experiente já deve saber disso. Há as que te levam do ponto onde está para frente e as que, do contrário, te mandam de volta para o começo ou até, quando o caso é grave, para bem longe desse pseudo zero absoluto. O tempo que passei ao lado de Ana me mostrou que ela definitivamente não me mandaria de volta para a terra de onde saí. Estava a certa altura de nosso relacionamento convencido de que havia chegado nesse nirvana poético – e inatingível para a maioria dos poetas – chamado felicidade. Se alguma época, pedaço de tempo ou circunstância cheguei relativamente próximo desse sentimento mágico a que todo ser humano em sã consciência está em busca, foram nos braços pálidos, porém reconfortantes, daquela linda morena de olhos azuis. Nossas noites eram quase todas elas acompanhadas de poesia, beijos e abraços aos montes e um sorriso meio envergonhado por parte dela. Nesse ponto, a propósito do fato, Ana nunca deixou de ser uma menina tímida e encantadora, do primeiro ao último fio dos belos e brilhantes cabelos pretos. Tinha uma áurea feminina que os tempos contemporâneos trataram de empurrar para debaixo do tapete. Era doce, sem ser ingênua. Era sensual, sem apelar para a vulgaridade. Tinha traços de inteligência, perspicácia e determinação, sem querer uma independência pasteurizada, voltada apenas para uma provação feminista com pouco sentido. Ana nunca sofreu dessa necessidade que algumas mulheres de hoje sentem em provar algo para todo mundo. Pelo contrário, Ana sempre quis provar da vida, nada mais nada menos que isso.

Queria viajar, conhecer lugares distantes, fazer coisas que contribuíssem para o progresso do seu país. Não queria, tinha quase que um horror escatológico, para o lugar comum, a vida vazia e rabugenta que a maioria de nós, pobres mortais, levamos. Se tivesse que ser assim, dizia aos quatro ventos e sem medo de ser repreendida, era melhor não viver. Era como ter uma doença terminal e vegetar sobre um rio de possibilidades a sua frente. O mundo, pensava, está tão cheio de coisas magníficas para construir que parece ser algo contraproducente viver à margem disso tudo.

Quando a conheci, confesso ao leitor e mesmo à leitora que ainda me vê com bons olhos, tive um pouco de vergonha quando ouvia esse e muitos outros devaneios. Minha vida até então era um mar de ignorâncias e picardias juvenis. Era um inculto, um ogro pouco instruído para lidar com mulheres daquele tipo. Se Ana fosse uma matéria de faculdade, só poderia ser cursada depois de cumpridos toda a sorte de pré-requisitos. E eu, como não os tinha, me sentia o pior dos vagabundos, esses seres que pouco sabem da vida e nada mais querem aprender sobre ela.

O fato, sórdico ou não, é que eu sempre quis amar alguém. Nessa época e mesmo hoje. Acho que é mentiroso alguém que se acha auto-suficiente, pela contínua interdependência que existe entre nós. Mesmo aqueles que não conseguem desenvolver algum tipo de relacionamento sólido têm a plena convicção e intenção de alcançar algo pleno em alguma época da vida. Alguns amam apenas uma mulher, outros tantos amam várias mulheres. Eu, aos quatorze anos, só queria amar alguém. Hoje, com a distância, confesso que não sei ao certo se Ana foi minha grande paixão na vida. De certo que naquela época, tinha plena certeza disso. Independente do que seja o mais correto, o que importa é apenas o que vivemos. E tivemos nossos momentos. A maior parte deles muitos bons. Poucos, muito poucos, um percentual ridículo sobre o total, de maus momentos. Ana sabia exatamente o que se passava em minha cabeça. Sabia quando eu estava preocupado com alguma coisa. Tinha a exata noção de quando eu estava bem e, de outro lado, quando eu estava mal. Se de fato existe esse tipo lunático de percepção determinística sobre almas gêmeas, não tenho dúvidas de atestar que ela, somente ela, seria a minha.

Ana e eu nos encontrávamos quase todas as noites. Tivemos um pouco de sorte nesse sentido, digo logo ao leitor. Nossos pais eram seres liberais, defensores extremados de uma filosofia de vida bastante simples: quanto mais você prender seu filho, mais merda ele vai fazer na vida. O inverso não é necessariamente verdadeiro, mas há muito mais adultos problemáticos que vieram de lares repressores do que propriamente o contrário. E desse contexto, tínhamos a liberdade de ficar até duas ou três horas da madrugada conversando sobre os fatos da vida. Éramos, recorde o leitor, vizinhos de muro e quando o sono apertava era questão de apenas pulá-lo. Ana me tornou uma pessoa melhor do que eu provavelmente seria sem ela. Lia para mim poesias, crônicas, romances e contos dos mais diversos autores. Dos clássicos brasileiros, como Machado, Aluísio, Alencar, Azevedo e tantos outros aos internacionais, como o mal-amado Sartre, Hobbes, Platão e milhares de outros.

No início ouvia tudo aquilo com arredio. Como um cavalo que está sendo treinado para um circuito cheio de obstáculos. Depois, porém, me acostumei com a voz doce e aveludada. Acabei, por fim, apreciando as lições noturnas e até hoje sinto falta de uma pessoa que me tenha como um aprendiz rebelde, mas ajustável.

Amores Urbanos: capítulo 5

By | Romances

Sempre achei curioso e ao mesmo tempo um tanto quanto assustador o fato de que o curso total ou parcial de nossas vidas depende de uns poucos eventos. Anos ficam à sombra de parcos minutos ou no máximo horas. Um ou outro acontecimento determina uma grande parte do tempo em que respiramos nesse mundo. A curiosidade me vem em imaginar como minha vida seria diferente se determinadas situações tivessem se materializado de maneira distinta. Se por acaso do destino uma escolha que fizesse fosse mudada, tudo o mais constante, como seria meu futuro? Tal comportamento sempre me traz a cabeça o velho Sampaio, professor de História dos meus primeiros anos de ginásio. O “se”, ele dizia, não entra no estudo histórico, porque ele simplesmente não aconteceu. Ficava enfurecido, o senhor de face arredondada, óculos fundo de garrafa e estatura desproporcional, toda vez que um aluno seu imaginava outra versão para os fatos. E se, cogitava alguém só para implicar com o velho, Napoleão não tivesse invadido a Rússia, hoje falaríamos todos francês? “Não faça isso seu peralta inconseqüente!”, o velho gritava lá da frente, dando murros vibrantes no quadro negro. E pagava sempre o mesmo sermão, reavivando nossas memórias para os fatos. A História trata apenas dos fatos, dizia ele. Nada mais do que os fatos. Mas mesmo com aqueles avisos constantes e os murros esbravejados, nunca perdi o hábito de cogitar outras versões para minha própria história.

Conjuntamente com tal hábito, mantive e, talvez mantenha até os dias de hoje, um terrível medo paralisante em reconhecer que os próximos anos da minha vida podem ser definidos no próximo badalar do relógio. A vida é milimetricamente desleixada, regida tão somente por uma sucessão de eventos caóticos, pouco ou nada previsíveis. Mesmo que faltosamente tentemos a todo o instante programar nossos próximos passos somos quase sempre obrigados a reconhecer nossa completa incompetência em fazê-lo. O mundo que conhecemos é a mais bela, destemida e raivosa demonstração do quão pequenos cada um de nós somos frente a ele.

De fato, em poucos meses, entre a primavera e o verão daquele ano, passei de uma criatura quieta, avessa às curtições da época e mesmo recluso, a um honorável alvo e apreciador de carinhos femininos. Quase tudo por conta de uma partida bem jogada de futebol. Três gols, um deles classificado como antológico, foram o suficiente para que Fernanda, a diabinha risonha que desafiava minha consciência, me atacasse naquele banheiro sujo com grande voracidade. E não fosse tal ataque, certamente premeditado, não teria notado a influência e o fascínio que uma simples partida de futebol pode provocar sobre as mulheres. E nessa cadeia de acontecimentos, Ana não teria vindo bater no meu portão naquela noite estrelada de verão. Por fim, eu não estaria em uma aflição maldita, dividido entre os carinhos reconfortantes de um anjo e os beijos torpes e calientes daquela diaba atrevida.

Tudo o que eu planejava antes de ser atacado com virulência naquela manhã ensandecida era apenas ser jogador de futebol. Nada mais me chamaria atenção antes daquela noite na pia. Era um garoto tímido, volto a repetir, e em certa medida estudioso e apaixonado única e exclusivamente pelo futebol. Adorava o contato com a bola e tudo o que ela representava. Tirando as manhãs no colégio, o restante do meu dia era todo ele dedicado ao futebol. As tardes treinava sério na escolinha do Botafogo. Já as noites relaxava com os amigos de rua, jogando uma pelada sem compromisso. Sonhava com o dia em que, vestindo a camisa do Glorioso, marcaria meu primeiro gol no Maracanã.  Tudo isso, porém, mudou quando entrei em contato com meus instintos. O futebol teve de dividir espaço com seios, barrigas, cabelos, olhos, bundas e todo o resto que vem junto. E tudo o que tinha evitado inconscientemente até aquele momento, floresceu de forma assustadora.

Mas não, não fui cafajeste: não fiquei com as duas. A minha mudança não foi tão longe assim. Ainda guardava um senso de honestidade e coragem bem altos, que com o tempo haveria de diminuir, a leitora que vá logo se acostumando. Mas ali, vi que só tinha uma coisa a fazer. Refleti bastante após a saída de Ana e conclui que o mais correto era terminar com Fernanda. Sentia algo diferente pela vizinha do lado direito. Algo que nunca haveria de ter sentido até então. Era certo que pela diaba tudo o que sentia era uma bruta protuberância entre minhas coxas. Nada mais. Nossas conversas eram uma sucessão sem fim de novelas mexicanas mal acabadas. Só ela falava quando estávamos juntos. Pouca coisa eu ouvia, é certo. Só o que queria era aproveitar o momento acariciando suas torneadas coxas, passar levemente ou estrondosamente, dependendo de quantas pessoas estivessem ao redor, as mãos pelos seus seios e provar aqueles lábios ardentes. Nada mais, leitor e leitora. Reuni assim todo o meu estoque de coragem e o mais fresco suspiro de honestidade e fui ter com Fernanda uma conversa definitiva, na noite seguinte, em seu apartamento.

Não quis perder tempo. Por mais inocente que fosse nesse campo, sabia que quanto mais adiasse o inevitável, poderia ter problemas com Ana. E pensando assim que aportei na noite seguinte no apartamento da pobre diaba. Ela imaginava, com a sua mãe no trabalho, que teríamos mais uma noite de beijos e amassos no sofá da sala. Mudou a face, porém, quando disse que precisávamos conversar. E como remédio ruim, imaginei que se falasse tudo de uma vez, doeria menos. Olhei fixamente nos olhos dela e disse que não tínhamos nada em comum. Expliquei que pouco conversávamos sobre qualquer coisa que não envolvesse fofocas sobre as meninas do colégio, provas e algumas frases pornográficas ao pé do ouvido. O melhor, portanto, era terminarmos tudo logo de uma vez.

Disse assim de bate pronto, em um tiro curto e ágil. A idéia que planejei no caminho de casa até lá era que eu diria tudo aquilo, ela ficaria um tanto quanto zonza e eu daria adeus. Feito. Correria para os braços de Ana e ainda poderíamos contar as estrelas em mais uma noite regada a mangas doces e suculentas. O leitor não ria, eu era um perfeito idiota naquela época. Desses que acreditam na racionalidade por trás de todas as decisões e escolhas femininas. Fernanda ficou possessa com toda aquela conversa. Rangendo os dentes, perguntou o nome da ordinária. Queria que eu dissesse de qual turma era. Apontou assim de memória uns quatro ou cinco nomes de mulheres que estariam afim de mim. E prometeu que arrancaria os cabelos de uma delas, por se atrever a roubar o seu homem.

Fiquei atônito com a reação. Disse que era apenas falta de compatibilidade entre nós. Não havia ninguém. E sobre isso não menti, já que meu desconforto era real toda vez que ouvia o bla, bla, bla sobre as amigas e as fofocas da escola. Mas cometi mais um erro ao dizer que não era ninguém da escola. Então quem é, disse ela, já agora levantando o tom de voz. Se não era da escola, era da minha rua, cogitou; queria o nome das minhas vizinhas. Uma delas havia me roubado, já agora era enfática. Puta que pariu, pensei, em que merda que me meti. A diaba não engoliu o papo furado, na cabeça dela, de falta de  compatibilidade. E eu, sentado em sua frente, começava a me arrepender por ter entrado em um relacionamento que estava fadado desde o início ao fracasso completo. Todo homem deveria evitar entrar em algo que tenha como única e exclusiva motivação o sexo. E isso aprendi não sem dor. A diaba tinha toda a certeza que estava sendo trocada. Queria por que queria o nome da vagabunda, já a essa altura gritava para quem quisesse ouvir. Não era justo, dizia, depois de tudo o que vivemos. Nesse momento, quase ri, confesso, e cometi outro erro: o de discordar dela. A questionei dizendo que não tínhamos vivido nada demais: apenas alguns beijos e amassos. Esqueci dos ensinamentos do tio Afonso e aleguei que nos faltava química. Ela então, em um lampejo de desespero, pegou no meu membro e com o nariz colado no meu, disse suavemente: “você não sente essa química aqui!”. No impulso tirei a mão dela de lá. Disse que isso era outra estória e que uma coisa era a atração natural que sentiria por qualquer mulher, outra, completamente diferente, era ter o coração batendo mais forte toda vez que se vê alguém. Expliquei o frio na barriga, o olhar sem querer, o sorriso que acusa, mas deixa no ar algum tipo diferente de sentimento. Isso, definitivamente, nós não tínhamos.

Fernanda então, vendo que eu explicava algo que de fato estava sentindo, não por ela, mas por outra mulher, sentou no sofá. Colocou as duas mãos no rosto e usou o último recurso possível: começou a chorar. Chorava de forma copiosa. As lágrimas lhe manchavam a maquiagem e o rímel caia sobre sua face. Até então eu nunca havia visto uma menina daquela idade chorando de forma tão dramática. Muito menos tinha feito uma ter tal descompassamento. Senti no momento em que ela retirou as mãos do rosto uma leve pontada no peito. Um ir e vir sincronizado, no peito direito. Era o sintoma do remorso por tê-la feito estar ali, naquela posição tão vulnerável. Tinha assim minha segunda lição sobre as mulheres: como era difícil terminar um relacionamento. E mesmo um que simplesmente não existia. Era fruto solitário da mente daquela menina, com traços esporádicos de mulher, ali sentava à minha frente.

O aperto no peito acabou me fazendo recuar um pouco. Sentei ao seu lado no sofá. A abracei. Deixei que chorasse por muitos minutos. Não a interrompi em seu suplicio por nenhum instante. Apenas passei a mão pelos seus cabelos e a coloquei envolta em meu peitoral. A confortei como pude, achando que era a maneira mais honesta de fazer o que estava fazendo. Afinal, mesmo que nada existisse entre nós, me achei no dever de não tornar as coisas mais difíceis. Era, imaginei, o mais certo a fazer.

Fernanda, então, de possessa, pois se a vítima. Dizia que havia me escolhido muito antes daquela cena do banheiro. Acalentava em seu coração uma espécie de amor platônico, me olhando todos os dias cruzando a quadra da escola e me vendo sorrir toda vez que marcava um gol. A idéia do banheiro, dizia, teve há muito tempo atrás, mas a curtiu em banho Maria, tentando tomar coragem para executá-la. De tudo o que fez, não se arrependeu. Provocou meus instintos por saber que eu nem notara sua existência até então. A única coisa que uma mulher como ela poderia fazer era me tentar e assim, tão logo eu fosse tomado pela excitação natural da espécie, nós nos poderíamos conhecer melhor. E por isso, não cedeu naquela noite ensandecida, e em nenhuma das outras tentativas que fiz. Sabia que tão logo tivesse minha sede saciada, correria para os braços de outra. E mais outra, até dar conta de toda a arquibancada. Os homens, tinha toda a certeza, querem apenas o corpo das mulheres. E somente por isso, usou aquele artifício.

De tudo o que esperava acontecer naquela noite, isso que o leitor acabou de ler eu nem ao menos cogitei como possibilidade. Fernanda, para mim, era apenas uma moleca desenfreada, que usava e abusava de uma sensualidade aflorada para conquistar quem quisesse. E em alegando que eu nunca a notara, respondi já de pé e em posição bem ereta, que nunca imaginei que uma garota como ela, absolutamente linda, me daria bola. Eu era, expliquei, o tipo comum de menino, muito distante dos rostos bem tratados dos outros quase-modelos que existiam naquele colégio. Ela retrucou, porém, que para as coisas do coração não há muito que explicar e sim, apenas, sentir. E assim ficamos, por horas a fio, retrucando filosofias pessoais sobre o instinto carnal que nos uniu e o pretenso amor que ela sentia por mim.

Tudo o que eu retrucava, ela rebatia. As coisas que tentava explicar sobre não sentir passarinhos voando toda vez que a via, ela do outro lado da sala, impávida, refutava, agora sem lágrimas, minhas divagações, dizendo que isso nasce com o tempo. Por hora, dizia, o importante é que tínhamos uma puta química sexual e que poderíamos explorá-la de forma plena, se eu ainda estivesse afim. Meus argumentos, os poucos que tinha ensaiado para o momento, iam minguando a cada passada de ponteiro do imenso relógio que ficava na parede principal da pequena sala de Fernanda. A certa altura da agora conversa, em tom mais convencional, me senti como devem se sentir os soldados na guerra, quando seu estoque de munição está por um slot apenas de balas e tudo o que ele enxerga é a aproximação cada vez mais ligeira do inimigo.

Já havia dito tudo, enfim, que me havia preparado para dizer e a diaba travessa recuperou-se incrivelmente. Com o time desvanecido e a defesa completamente desorganizada, demonstrou uma profusão de reviravolta e me atacou com grande afinco. Parecia determinada a dar a volta por cima, sentindo que eu recuara, agora, em demasia. Já não tinha mais nada a dizer, verdade que era. E o caminho que entrei, o de tentar alguma argumentação plausível, na vã esperança de fazê-la sofrer menos só fez com que o término se alongasse mais do que deveria.

Não ai, nessa cena, mas muitos anos depois é que fui notar a importância do choro feminino. O tal último recurso, aquele que deixa qualquer homem desnorteado, é uma espécie de cavalo de tróia na batalha eterna dos sexos. Sem ele, já estaria longe, provavelmente nos braços do leitor sabe quem. Com ele, porém, o cansaço me foi tomando o corpo de assalto. E me senti como um lutador de boxe nas cordas, totalmente desguarnecido, tomando diretos de direita e de esquerda, apenas ao sabor do adversário. Ouvia sem reação os proclames da pobre diaba. Já estava combalido, sem munição, com armas dilaceradas, para tentar explicar mais alguma coisa. Ela, porém, parecia ter muitos aliados com poderosos recursos, tamanha era a carga de idéias e argumentos que demonstrava sem pestanejar. Já não havia, portanto, jeito de me safar sem usar qualquer comportamento que para mim seria xucro, mas que a essa altura, era meu último recurso.

 

- Fernanda, chega! – gritei, levantando as duas mãos – Acabou! Nós não temos mais nada.

 

Ela, então, vendo a mudança de tom no meu rosto, tentou vir para cima de mim ensaiando voltar ao tal recurso do choro. Pegou pelos meus braços, tentando me abraçar, dizendo que me amava e que não era justo o que eu estava fazendo. Mas fui ágil nesse instante e novamente gritei que tudo entre nós estava acabado, se é que algum dia havia existido. Libertei minhas mãos, impedindo que ela me abraçasse. A empurrei, então, levemente para o sofá e disse agora com tom menos agudo que tudo estava acabado, não deixando de olhá-la fixamente nos olhos, tentando encontrar neles algum resto de sobriedade e auto-estima. Vi ambos apenas de relance, quando ela me encarou de modo soberbo como se intimamente dissesse que não precisava de mim, pois assim como fez comigo, poderia conquistar qualquer outro homem, seja da escola, seja de outro lugar. Mas esse instante passou rápido e lá estava ela novamente colocando as mãos no rosto e se pondo a chorar.

Dessa vez, porém, mandei que as tropas incinerassem qualquer vestígio de animal traiçoeiro que entrasse em meu território. Dei as costas, atravessei ligeiro o pequeno corredor que ligava a sala à porta da frente e antes que ela pudesse vir a meu encontro, abri e fechei a porta, saindo com ar de recuo, mas já a essa altura, puto o suficiente para me arrepender de qualquer coisa que havia dito. Muito pelo contrário, tudo o que pensava era na maluquice das palavras que aquela garota havia proferido para mim. As frases que ela havia dito, como a que “me amava” e “tudo o que vivemos”, me pareciam uma encarnação da loucura epilética de Quincas Borba e sua ensandecida conclusão que se tornara Napoleão Bonaparte. Nada ali me era minimamente razoável de ser concebido como verdade. Afinal, tudo o que havíamos vivido, o leitor sabe bem disso, eram cenas memoráveis de descoberta do corpo de ambos. Nada mais nos foi dado por experiência. Foi isso o que pensei e que sussurrei no caminho do apartamento dela até minha casa. Em atos, sai desse caldeirão de loucuras, recorrendo a socos e pontapés no ar para libertar todo o meu descontentamento, e fui lentamente me dando conta da outra face daquela estória.

E foi assim que como numa ópera bem interpretada, saí do clímax em direção bem vagarosa a redenção. Quando o apartamento de Fernanda já me era razoavelmente distante, senti uma mudança radical por dentro. As pontadas no peito foram substituídas por uma inebriante excitação. Pensei em tudo o que estaria por vir na minha vida. O sonho de ser jogador sendo realizado, o namoro com Ana indo às vias de fato. Casaríamos, formaríamos família e, de certo, teríamos alguns filhos. Amigos viriam me visitar nas tardes de domingo para saborear um bom churrasco e conversar sobre os fatos da vida. A felicidade, imaginei – ou delirei, não sei ao certo – era para mim um caminho sem volta. Já ali não tinha dúvidas sobre isso. E o leitor, teria alguma?

Amores Urbanos: capítulo 4

By | Romances

Deixei Ana um tanto quanto desapontada algumas páginas antes. Aqui volto a ter com ela contato. O faço para cessar minha dívida com o leitor e também para que o mesmo recupere o próprio fôlego. O que disse é que aprendera com ela minha primeira lição em relação às mulheres. Todas elas, sem exceção nesse caso, perdem o interesse quando são plenamente cortejadas. E eu, demonstrando a menor das atenções possíveis, me fiz o melhor alvo que Ana teria daquele dia em diante. Não passava um dia em que não viesse acompanhar  as peladas na rua. Ao ouvir da primeira batida de bola, lá estava ela a abrir o portão e sentar-se carinhosa e cuidadosamente no banquinho de cimento da sua calçada. Meus olhos a essa altura brilhavam, é claro. Tudo o que o leitor já sabe se repetia toda vez que dava de cara com aqueles olhos azuis.

O detalhe sórdido é que entre o “oi, você joga muito bem” e o “calma, você vai me comer, mas não hoje” passaram-se apenas algumas semanas. O suficiente, entretanto, para que eu me esquecesse completamente do primeiro e aguardasse com ansiedade de uma criança a espera do brinquedo novo pelo segundo. Passei os dias que seguiram aquela noite ensandecida completamente atônito. Não pensava em mais nada que não fossem os seios em formato de pêra, a barriguinha chapada, os lábios carnudos e as nádegas pequenas, porém perfeitas, daquela diaba. Toda aquela cena na pia, minhas mãos raivosamente retirando a calcinha rosa, os pêlos pubianos cuidadosamente raspados, iam e voltavam a todo instante.

Fernanda, porém, parecia acostumada a tudo aquilo. Quando me via no colégio cumprimentava com os costumeiros “oi, jogador!” e o sorriso moleca característico. Nada aparentava que daqui a poucos dias, a teria de novo em meus braços. Assim era na frente de todos. Por debaixo dos panos, me mandava bilhetes precavidos sempre discretamente deixados sobre minha mesa. E sempre entre as páginas do livro de geografia. Nunca outro. Era a senha que queria falar comigo, o leitor já adivinha onde. E lá ia eu ter com ela beijos roubados e amostras da excitação daquela noite acalorada na pia da cozinha. Tudo muito rápido que mal dava para apalpar novamente seus seios ou mesmo sua bundinha.

Foi assim por quase toda a primavera. Fernanda me enfeitiçava, me iludibriava, tinha total controle sobre a situação. Era minha senhora, portanto. Ao longo das semanas, porém, um estranho comportamento se abateu sobre a morena. Os bilhetes fortuitos foram substituídos por comunicados pessoais mais diretos, do tipo “quero falar com você”, quando eu estava em presença de outros moleques da escola. E daí para andar de mãos dadas e dar abraços mais íntimos no meio do pátio passaram-se dias. Tudo muito rápido que nem me dei conta de que minha virgindade de origem ainda era toda minha e Fernanda e eu já embrenhávamos por outro tipo de compromisso, muito além do sexual.

Só fui dar com isso quando o Banana, o velho e grande Banana, me perguntou se eu já tinha comida a minha namorada. Disse, assim, de bate pronto que não, não tinha ainda. Dois ou três segundos depois, daqueles atrasos que podem custar a vida de tantos, é que atentei para o “minha namorada”. Eu, o leitor sabe disso, não tinha a menor intenção de namorar Fernanda. Éramos, que ficasse bem claro, apenas parceiros na fina arte de descobrir o corpo, um do outro. Nada mais, nada menos que isso.

O problema é que como no estalar da revelação, toda a escola já pensava o contrário. As meninas que gritavam na arquibancada da quadra tinham outra idéia sobre Fernanda e eu. Éramos oficialmente namorados. Todos, absolutamente todos, sabiam disso, menos eu, é claro. Quando finalmente percebi o que se passara fiquei embasbacado em como a diaba era esperta. Tinha me enrolado com o papo da pia e de quebra ainda havia se comprometido comigo. “Filha da puta”, pensei. E ri em seguida, afinal não era lá grande sacrifício que estava fazendo. Fernanda era bonita, tinha um corpinho de dar inveja à maior parte das meninas da escola. Era extrovertida, com uma inteligência Macunaíma e um jeito que despertava meus instintos mais carnais. Não havia, portanto, nenhum empecilho que pudesse me afastar dela. A não ser, claro, a vizinha do lado direito.

E foi assim que terminei a primavera daquela ano. Sendo o melhor jogador do colégio e namorando uma bela ninfeta. Ainda que guardasse um paixonite secreta por Ana, que se mostrara com o passar do tempo ainda mais presente, vivia o melhor momento que um garoto dessa idade pode viver. Era popular na escola e fazia um sucesso desproporcional com o público feminino. Não que eu fosse feio à época. Era o que minha tia Angélica chamava de “bonitinho”. Tinha um corpo atlético, altura um pouco maior do que a média da sala, cabelos pretos escorridos e nenhuma espinha no rosto. Olhos castanhos claros e brilhosamente vívidos. Apesar disso, hoje, somente hoje, sei que não era minha aparência que motivava os gritos. O encanto vinha total ou em grande parte pelo que acontecia no campo de jogo.

Não sei se faria alguma diferença significativa se eu soubesse disso à época. Possuído por uma ingenuidade desconcertante, associei, a princípio, as investidas de Fernanda e os olhares constantes das outras meninas a um dom natural com o sexo oposto. Dei por mim que eu poderia ser alguém que pudesse ter qualquer mulher a seus pés. Tentando entender melhor essa nova realidade, entrava em quadro ou campo cada vez mais disposto a confirmar minha teoria. A cada gol que fazia, jogava beijinhos e fazia corações para as arquibancadas. Um drible mais ousado, um riso para uma menina. Um passe bem dado, um olhar distribuído. A resposta que imaginava veio rápido. Sentia os corações se abaterem a cada gesto que fazia. As meninas comentavam entre si toda vez que passava pelos corredores. Em sala, um ou outro olhar disperso me era direcionado. Tudo, portanto, confirmava minha suspeita: estava mesmo abafando.

É claro que teve uma pessoa que não gostou nada dos meus novos gracejos para com a torcida. E talvez por isso tenha se dado a mudança de comportamento que notara algumas páginas antes. Fernanda ficava enfurecida a cada beijinho, coração ou aceno que fazia. Saltava aos olhos sua raiva. E as meninas eram todas danadinhas: não respeitavam nem mesmo quando ela estava em minha companhia. Tínhamos o costume de passar o intervalo entre as aulas sentados no corredor dos troféus da escola. Ficávamos juntinhos, encostados na parede, conversando sobre qualquer coisa apenas para passar o tempo. Ali, reclusos, éramos sempre interrompidos por um ou outro olhar mais atento. Mesmo que comedidos, eles eram sempre direcionados. A diaba ficava possessa da vida. Olhava para a algoz, olhava para mim e nada podia concluir. Não havia nada, era verdade. Apenas flertes descompromissados entre os gritos femininos e eu.

O que deveria preocupar Fernanda era justamente algo que ela nem imaginaria existir. A vizinha do lado direito, a medida que minha indiferença ia ganhando vulto, resolveu passar do banquinho de cimento do portão de casa para algo mais ousado. Já vinha a todo fim de partida me oferecer água, refrigerante, suco, salgadinhos e qualquer outro pretexto para me abordar. Achava à época que ela estava apenas sendo bondosa com o vizinho de muro. Isso, claro, a despeito de todos os alertas que recebia dos outros meninos da pelada. “Ela ta te dando o maior mole garoto”, eram o que diziam as boas e más línguas. Eu, porém, dizia que não, era apenas gentileza sem maiores pretensões.

A correnteza virou quando em uma noite quente de dezembro daquele mesmo ano, ela me apareceu no portão. Eu jogava a bola continuamente no muro, como de costume. Ao ser interrompido pelas batidas sincronizadas, perguntei meio que irritado quem era. Ela disse eu, em uma voz que não reconheci a princípio. Ao abrir, dou de cara com o belo par de olhos azuis embalados em um vestido branco que dava nos joelhos. Nas mãos tinha um cesto todo feito de palha cheio que estava de mangas espadas. “Acabei de colher algumas, você aceita?”, me perguntou. Disse que sim e pedi que ela entrasse. Agradeci a gentileza e propus que comecemos juntos aquelas belas mangas maduras. Como se já esperasse o convite, aceitou prontamente. Entramos pelos fundos da minha casa em direção à área colada com a cozinha. Nos sentamos no chão a alguns palmos de distância um do outro. Nos separava apenas o cesto de mangas. Nossos olhos, porém, estavam a mesma altura e se entreolhavam há quase todo instante.

O céu daquela noite estava todo repleto de estrelas e a lua iluminava meus pensamentos. Perto dela eu voltava a ser aquele peralta tímido de alguns meses antes. Não balbuciava uma palavra que fosse para puxar assunto. O silêncio entre nós só era interrompido pelo cantar de mariposas, que aquela altura anunciavam mais um dia típico de verão no Rio de Janeiro. Na escolha da manga mais doce, nossas mãos se tocavam vez ou outra. No início o toque era encarado com certa vergonha e receio. Com o passar do tempo, porém, um riso comedido de ambas as partes deu o tom. Os nossos olhos se entreolhavam cada vez mais, quase que não disfarçando o interesse mútuo. Cada músculo do meu corpo reagia impiedosamente aqueles segundos em que ficávamos conectados.

O pudor, porém, impedia que o tempo do contato fosse mais longo. Olhava para o céu, ela olhava para a parede onde tinha o tanque de lavar roupa. Nesse vai e vem, com as mangas diminuindo em número, me perdi quando Ana resolveu chupar um caroço de uma delas. Meus olhos já não mais queriam parar de olhar aquela cena. Aqueles lindos lábios vermelhos vívidos plenamente lambuzados de manga. E ali, de posse dos tais instintos selvagens, me pus a colocar a mão em seu rosto, retirando alguns fios de cabelo que se misturavam ao líquido da fruta. Ela baixou os olhos, como se imaginasse o que eu iria fazer em seguida. Não dei trela para a vergonha e meti os dedos em seu queixo, aguachei sobre o cesto, tirei o caroço do caminho e a beijei. Um beijo não tão longo, com nossas línguas em pleno contato, apenas para sentir qual seria a sua reação. Passados alguns segundos, retirei meus lábios dos dela e fui novamente ao encontro dos seus olhos. Estavam selados, como esperava que estivessem. Sorri, então. A tinha para mim, era certo que tinha.

Quando ela começou a abri-los, dei-lhe outro beijo. Esse mais longo, sem pausa, com o intuito apenas de tirar-lhe o fôlego. Foi ai que tirei a mão esquerda que até então me apoiava no chão e coloquei na sua nuca. Sem o apoio, caí quase que imediatamente por cima dela, enquanto o caroço de manga fazia estrago no seu lindo vestidinho branco. Um desajuste providencial, leitor. Estava eu ali, com o rosto colado na menina cujos olhos eram os mais bonitos que já conheci. Sorri. Ela retribuiu o sorriso, balbuciando um “eu estava esperando por isso já há algum tempo” e me beijando em seguida. Muitos outros beijos se seguiram naquela noite. Depois de satisfeita a vontade, ficamos abraçados, em um silêncio agora compartilhado pelas mariposas, olhando para a lua e para todas as estrelas.

Amores Urbanos: capítulo 3

By | Romances

Uma única vez, isso não posso deixar de relatar, minha excitação futebolística aumentou por apenas um grito feminino. Por apenas um ungido solitário e plenamente identificável. Quando a vizinha do lado direito resolvia torcer por mim, com gritinhos abafados, porém plenamente absorvidos, eu sentia algo diferente. A vontade de jogar mais e melhor permanecia, mas não se tratava agora apenas disso. O que eu queria com tudo aquilo era que ela permanecesse comigo, torcendo por mim.

Morena clara, cabelos lisos e curtos. Olhos azuis esmeralda, cintilantes e vibrantes. O sorriso de Ana, lembro vivamente, fazia uma covinha envergonhada no canto esquerdo da bochecha. Achava aquilo de uma sensualidade ímpar, que parecia tirar o brilho de todas as outras mulheres. Tio Afonso, honorável boêmio e freqüentador do templo do futebol desde que este fora inventado, dizia que quando todas as outras mulheres se apagam perto de apenas uma, só tinha um nome: era amor. Tomava aquele conselho com espanto toda vez que Ana ia me ver jogar. Afinal, nenhum garoto de quatorze anos está suficientemente preparado para amar alguém.

O leitor ansioso não repare as mudanças de tom ou de mulher, mas é que Ana e Fernanda são como duas faces da mesma moeda. Minhas lembranças naquela noite fatídica estavam quase todas concentradas em meus amores urbanos e a minha iniciação sexual pode ser vista como uma opção que tomei por esse caminho. Afinal, se cheguei até ali, foi pelos braços meigos e singelos de Ana, ou pelas peripécias macabras de Fernanda? A resposta parece óbvia, mas nem tudo é tão simples quanto parece.

Nos primeiros dois anos em que Ana morou ao meu lado, não esbanjei um lampejo que fosse de coragem para chamá-la para sair ou mesmo para tentar uma conversa que fosse. Ensaiava algumas vezes coisas bisonhas como “você quer tomar um sorvete comigo?” ou “você gostaria de ir à festa da escola comigo?”, mas todas tinham como testemunha solitária o espelho do meu quarto. Ana me fazia tremer mais e muito antes do que Fernanda. Enquanto esta me deixava desajeitado, aquela fazia eu ter frios estranhos no estômago.

Ana era sem dúvida alguma a mulher mais bonita da rua. Seu jeito de andar e se comportar sugeriam uma superioridade natural frente às outras meninas dali. Talvez por conta dessa áurea que criei em torno dela,  Ana se tornou para mim uma espécie de mulher intocável. Ao lado dela, eu parecia mais um pária hindu; alguém com quem não se pode falar, nem mesmo pisar-lhe a sombra. A única coisa que fazia era, ao ouvir os gritinhos abafados, dar um sorriso comedido em direção à calçada da casa dela, onde ficavam as amigas e a fofoca era para lá de animada.

Meninas de quatorze anos quando se reúnem só tem um tema: os meninos. Já não se brinca mais de boneca nessa idade e tudo o que se tem de prioridade na vida são as descobertas sobre o sexo oposto. Reunidas, lá ficavam assobiando e dando risinhos para nós, meninos. Corríamos mais, nos empolgávamos a cada um desses gritinhos. Minha motivação secreta e até aqui cercada por nuvens carregadas, porém, só se manifestava quando a vizinha do lado direito estava por perto. Todos os outros gritinhos somados não me proporcionavam fôlego idêntico para driblar meia dúzia de brutamontes. E assim que, a princípio sem entender o porquê, meus dribles e arrancadas proporcionariam o primeiro contato que lembro entre Ana e eu. Foi em uma dessas tardes ensolaradas de domingo no Rio de Janeiro que Ana me deu o primeiro “oi”, seguido que foi de um “você joga muito bem!”. Coitado de mim, leitor, não dei bola para a pobre vizinha, acredita? Apenas sorri e agradeci. Por dentro minha vontade era de agarrá-la e beijar aqueles lábios carnudos e saborosos. Por fora meu semblante era apenas do cansaço natural das peladas de rua. Feito o agradecimento comedido, virei as costas e fui para casa, sentindo-me, com toda a razão, o pior de todos os idiotas desse mundo. Essa, porém, seria minha primeira grande lição em relação às mulheres, que conto daqui a algumas páginas.

Deixo Ana por enquanto e caio nos braços de Fernanda. Ao menos foi o que imaginei na noite que antecedeu nosso encontro. O estranho pedido, tomado por iniciativa daquela ninfeta de olhos castanhos cor do pecado. De todas as coisas que me imaginei fazendo, não havia uma se quer que não envolvesse sacanagem. Tinha, o leitor já está ciente, uma queda pura e inocente por Ana, mas tinha absoluta certeza que Fernanda seria minha primeira transa. A moeda, afinal, era a mesma.

Na noite seguinte lá estava eu pontualmente à porta do endereço posto cuidadosamente em meu livro de geografia. Escrito com canetinhas coloridas e perfumado com uma lavanda irritante, mas demonstrando algum tipo peculiar de afeto. Com o coração quase saindo pela boca, fui recebido por uma criança de no máximo sete anos de idade. Vestia um short marrom escuro e usava óculos com armação preta, sem nenhum detalhe de riqueza. Olhou para mim de baixo para cima, em uma inspeção rigorosa que foi desde o All Star preto sujo, passando pelo jeans lavado e a camisa social marrom clarinha que usava para o encontro. De posse de todas as informações que precisava, o garoto não teve dúvidas e gritou pela possível irmã: “Fernanda, é pra você!”. A cena aliviou um pouco meu estresse e serviu como aperitivo para o que viria.

Rapidamente a possível irmã mais velha do garotinho apareceu na porta. Vestia uma calça preta de seda, colada nas polpudas coxas e um top vermelho deliciosamente ajustado ao par magnífico de seios. Os fios de cabelo estavam todos irritados por duas presilhas pretas, uma do lado esquerdo, outra do lado direito. Os lábios foram tingidos por uma base clara, quase do tom da própria pele. A maquiagem era quase imperceptível, mas existia, principalmente nos cílios.

- Oi! – cumprimentei, um pouco sem jeito e com grande dificuldade em controlar a respiração.

- Olá! – retribuiu o gesto com um sorriso de auto-controle no rosto – Você foi pontual hein jogador! – tocou meu ombro e pediu que entrasse, pois aguardava pela mãe para liberá-la do trabalho de babá do garotinho que abrira a porta – Ela só foi ao mercado fazer algumas compras, já deve estar chegando.

- Não tem problema, a gente espera – aceitei o percalço inesperado e sentei no sofá enquanto ela foi à cozinha pegar alguma coisa para a gente beber.

 

O garotinho desfez a curiosidade e voltou-se para o videogame que ocupava quase toda a extensão da mesinha de centro. Um Atari caindo aos pedaços e ao redor fitas e fitas de joguinhos que iam de homem-aranha a pac-man. Coisas que hoje dariam mais sono na garotada do que o mínimo vestígio de excitação juvenil. O moleque, porém, não desgrudava o olho da televisão, enquanto eu tudo o que queria era estar bem longe dali. Tudo o que imaginava era que daqui a algumas horas, me tornaria homem, era líquido e certo.

No instante em que me imaginei retirando o sutiã de Fernanda, a campainha tocou raivosamente. Ela saiu ligeira da cozinha e veio ao encontro da porta. Do outro lado, era a mãe do garotinho. Trocaram alguns burburinhos e o menino de óculos saiu esbaforido gritando “mamãe”, “mamãe” e um por último “trouxe chocolate pra mim?”. A mãe do menino dizia que não, enquanto agradecia Fernanda por tomar conta do moleque. Um maço de algumas notas de cruzeiro trocaram de mão e a porta se fechou rapidamente, com um agradecimento ríspido e um “até logo” envergonhado.

 

- Enfim, sós! – respirou aliviada, provavelmente ansiosa que estava por aquele momento – e então, jogador, você bebe cerveja?

- Para falar a verdade não, – disse, um pouco baixo – o que foi inútil pois rapidamente me entregou um copo barato de uma cerveja da pior espécie.

- E então, você pensou aonde a gente vai? – agachou-se com os dois joelhos no sofá, a dois palmos de mim.

- Pensei em comermos uma pizza no restaurante aqui em baixo, o que acha? – perguntei, dando o primeiro gole no copo.

- Para começar, está bom – riu-se, enquanto dava uma golada única no seu copo de cerveja.

 

A idéia de que minha virgindade viraria pó naquela noite se tornava cada vez mais provável. Conferi, então, o bolso esquerdo, com as camisinhas que me foram dadas pelo tio Afonso na semana anterior ao encontro. Estavam todas lá, ainda bem. O suor tomava-me conta do corpo e num lampejo de coragem líquida, resolvi que já era tempo de tomar algum tipo de iniciativa naquele estranho relacionamento. Novamente então com o coração quase saindo pela boca, sequei o copo fétido e avancei em direção à cozinha. Lá estava ela, de frente para a pia, lavando alguns pratos e cantarolando uma música que não tinha a menor idéia do que fosse. Não dei bola. Segui em sua direção e agarrei sua cintura. Ela soltou um “até que enfim, jogador!”, dando um risinho diabólico. A beijei, tomando seus cachos de cabelo pela mão direita enquanto a esquerda descia em direção à sua bunda; que foi prontamente redirecionada primeiro de volta à sua cintura e posteriormente, quando o beijo já lhe fazia cozer a espinha, em direção aos seus seios. Apalpei-os e em um instinto selvagem que sei lá de onde veio, retirei o top vermelho e avancei em direção ao sutiã. Quando desabotoei o empecilho que faltava, eis que surge um impedimento inesperado: a campainha toca novamente.

Era a mãe de Fernanda. Maldita. Logo agora que o sutiã já estava em minhas mãos e os seios da diabinha estavam à mostra. Por pouco, muito pouco, não foi ali mesmo que já se ia minha inocência juvenil. Quase não me recuperei e já dei de cara com Dona Sofia, que trazia bolsas de compras para a cozinha. Tinha o ar exausto, fruto provavelmente do dia intenso de trabalho e das obrigações que ainda restavam pela noite adentro. Soube depois, muito tempo depois, que a mãe da diaba tinha dois empregos. De dia era faxineira em um salão de beleza de grife, de noite era camareira em um hotel, ambos na zona sul. Naquela em especial teve folga, coisa que Fernanda jurou não lembrar. Pensava que a mãe só voltaria de madrugada, tempo suficiente para que completasse minhas investidas.

Dona Sofia apresentava tamanho cansaço que num vislumbre sorrateiro, Fernanda me apresentou como se a pobre coitada já me conhecesse: “Mãe, o Mário a senhora já conhece lá da escola”, disse. A mulher quase deu de ombros, limitando apenas a um “oi, meu filho”. Deixou as sacolas em cima da mesa, do jeito que trouxe, e correu para o banheiro dizendo que iria tomar um banho e deitar, pois estava “aputefada” pelo dia de trabalho. A filha, pouco disfarçando o top semi-rasgado, pediu benção à mãe e prometeu guardar as compras na dispensa. A mulher recolheu-se, fechando a porta do quarto e lá estávamos novamente sozinhos na cozinha.

 

- Essa foi por pouco – suguei um pouco de ar.

- Cala a boca e me beija! – caiu em cima de mim como um touro sedento por sangue, nem dando tempo para que eu próprio recuperasse um pouco do fôlego perdido.

- Mas e a sua mãe? – perguntei, tentando desviar a minha boca da dela.

- Ela não volta mais! – sentenciou a juíza de minha virgindade quase perdida.

 

Meu coração disparou por completo com o dilema a que estava exposto: traçar aquela ninfeta sob a possibilidade real de ter um encontro nada agradável com os olhares atentos da mãe. Ao contrário de não conseguir fazer nada, fiquei ainda mais excitado com a situação. Uma explosiva protuberância brotou em minha calça, desfazendo qualquer possibilidade de não pegar no tranco aquela altura. A diaba notou e, com um riso venenoso no rosto disse: “entrou em campo, hein jogador!”. Aquilo me excitava profundamente e estava quase a espera do êxtase quando em mais um instinto selvagem a coloquei em cima da pia, tendo o cuidado perverso de acabar de rasgar o top e retirar-lhe a calça. O sutiã já tinha ido na primeira investida e para o transe ficar completo, só restava uma calcinha rosa com rendinhas nas pontas. Era agora. Não tinha mais o que desviar. Com ela de pernas abertas e comigo com a boca nos seios, desci as duas mãos da cintura e fui em direção ao último dos zagueiros restante. Quando lá cheguei ouvi, porém, um “não” sonoro, mesmo que abafado. “Devo estar ouvindo coisas”, pensei com meus botões. Continuei a descer a calcinha, mas ela refugava, com as mãos sobre as minhas. “Minha mãe”, dizia e completava: “Ela pode entrar a qualquer momento!”. E para parar de vez com aquilo, me deu um tapa no rosto. Foi o suficiente para que eu acordasse. Voltasse do transe em que me encontrava e reavivasse os riscos ali embutidos. A menina diaba, ciente que eu voltara a ser eu, declarou:

 

- Calma, você vai me comer, mas não hoje! – e vestiu-se, com uma calma quase psicopata.

Amores Urbanos: capítulo 2

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Não me lembro ao certo quanto tempo permaneci ali, naquele meio-fio; só o que me recordo, e isso é até meio irônico de se dizer, foi a minha vida sendo passada em revista. Todos os acontecimentos que de uma forma ou de outra me levaram até aquele momento. Pensei na infância. Não em toda ela, porque para isso haveria de ter muito mais álcool e porrada envolvida.

Uma época em especial me veio à cabeça. O momento em que pela primeira vez desde então haveria de ter um genuíno contato com o sexo oposto. Contato não tão casual, como se tornaria rotineiro ao longo da minha vida, mas possivelmente a nascente de todo aquele comportamento. A primavera de 1993, sem forçar muito a memória, foi a melhor estação que já passei. Hoje, precisamente aqui na época em que escrevo estas páginas, olhando com olhos distantes e já sem compromissos com quem quer que seja, diria que todo homem deve se recordar de algum tipo de felicidade cósmica, onde todos os pequenos mundos de seu universo encontram-se em harmonia. O meu certamente existiu e fora naquele longínquo ano.

Lembrei específica e tenazmente da melhor partida que fiz pelo time de futebol do colégio. Valia o campeonato estadual de escolas particulares. A pressão era grande, mas a expectativa em alcançar o troféu e ter meu nome marcado em um pequeno pedaço da História – ao menos a da minha escola – me trazia uma imensa motivação. Não posso aqui dizer meias verdades: o time era fraco do goleiro ao centroavante. Chegamos à final regados que fomos por um misto de sorte e algum suspiro de inspiração. O grupo era unido e, como dizem os críticos da bola, era bastante “eficiente”. Afinal, se o que vale é bola na rede, para que jogar bonito?

Marquei três gols, sendo um classificado pelo professor de educação física como “antológico”. Na época não sabia ao certo se isso era bom ou ruim, mas os beijos e abraços não poderiam ser outra coisa que não fosse bom. Vencemos e eu fui coroado como o melhor jogador do campeonato. Nada mal para um até então tímido e franzino morador da Tijuca.

O jogo da final, os gols, o professor, os jogadores, tudo enfim não fazem parte, diretamente, da cena que lembrei naquele meio-fio. Servem apenas de ante-sala para que o leitor compreenda a motivação da ninfeta Fernanda. Ela foi meu primeiro amor urbano, por assim dizer. Graças ao feito então conquistado, pude tirar proveito de um tipo de assédio que qualquer homem reza para ter: o de mulheres querendo algo sexual de você. Acho até hoje incrível o fascínio que um simples jogo de futebol pode exercer seja sobre um homem ou sobre uma mulher.

De todas as minhas “fãs”, por assim dizer, a única que marcou minha lembrança foi por suposto Fernanda. Cabelos castanhos cacheados, pele branquinha, seios desenvolvidos, tipo mingonzinha e um sorriso um tanto quanto diabólico. No dia seguinte ao que ficou titulado como “jogo da década”, já que todos os jogadores ali se despediam da escola, Fernanda me convidou para sair. O fez de forma bastante heterodoxa para uma menina de quatorze anos. Esperou sorrateiramente que eu fosse ao banheiro e que me encontrasse sozinho por lá. Adentrou o recinto e escreveu no espelho a seguinte frase: “Você quer sair comigo?”. Completava a audácia dois quadrinhos com as seguintes opções de possível resposta: “Sim” e “Talvez”.

A auto-confiança daquela morena de olhos castanhos claros a impedia de colocar um “não” como opção. E, claro, para retaliar qualquer possibilidade de toco, ficou ali aguardando que eu pintasse a opção que escolheria. Tomou antes, é claro, o cuidado de trancar a porta do banheiro para que não fossemos interrompidos por um peralta desavisado. Simplesmente diabólica a pequena morena.

 

- Anda! Escolhe e te dou um presente aqui mesmo – me ordenou.

 

Os tempos, leitor, eram outros e antes de chegar aquele meio-fio eu tinha sido um menino que não sabia muitas coisas da vida. É certo que para a idade eu era muito pouco desenvolvido para as coisas do coração. Até aqueles anos e antes de ser abruptamente cortejado por Fernanda, meu único pensamento na vida era jogar futebol. Não pensava em outra coisa que não fosse uma partida de futebol. Na quadra da escola, na rua de casa, no campinho perto da escola, na praça, qualquer lugar era perfeito para o contato com a redonda. E eu era muito bom naquilo. Não é arrogância, saiba o leitor disso. Afinal, você me encontrou jogado que fui na sarjeta. Estou humilhado o suficiente para não ser arrogante contigo. A verdade é que eu jogava muito bem. Nas peladas perto de casa ou no colégio, era o primeiro a ser escolhido, fosse quem fosse o “tirador de time”. Era da seleção da sala. Depois cheguei à seleção da escola. Vesti a camisa do Botafogo durante cinco anos e tive o prazer de vestir por algumas vezes a amarelinha nas categorias de base. Não qualquer camisa, mas a 10, que me caía muito bem por sinal. A braçadeira de capitão nunca quis. Essa eu sempre terceirizei para algum zagueiro brutamonte que impusesse respeito ao time adversário. Batia falta, pênalti e escanteio. “Assombrosamente bem”, era o que dizia um velho senhor aposentado que morava perto de mim.

Minha compulsão pelo futebol me trouxe Fernanda. Mas não me ensinou como lidar com a situação. Fiquei ali, de frente para ela, naquele banheiro fedendo a urina, meio que zonzo por tamanha audácia na iniciativa. Enfrentava zagueiros carrancudos com a alegria de quem toma um sorvete com o pai em uma tarde de domingo, mas não conseguia balbuciar um simples “sim” diante daquela morena mignon cheia de si.

 

- Vou encarar o silêncio como um sim! – pegou o baton e marcou o quadrinho respectivo – me pega às 20h, na minha casa, amanhã. O endereço vai estar na sua mesa quando voltar para a sala – destrancou a porta e saiu, como se acabara de fazer a coisa mais natural do mundo.

 

O sorriso só veio uns dez minutos depois, quando recuperei o fôlego e pude demonstrar alguma reação pelo estranho pedido. Como nada pude dizer, acabei não ganhando o tal do presente que ela prometera de inicio. “Provavelmente um beijo”, pensei naquele momento. E tido o pensamento, somente depois disso, me veio o sorriso. Imaginei o beijo, tolo que era, é mole! Senão estivesse tão bêbado, tão cheio de sangue escorrendo pelo nariz e quase em transe inconsciente, eu provavelmente estaria rindo de mim mesmo ali caído naquele meio-fio, quando a lembrança me veio à mente.

O futebol, ao contrário de Fernanda e tantas outras meninas e mulheres que conheci vida a fora, foi meu grande amor. Não um amor urbano, mas uma paixão perene, do tipo que fica mesmo depois de dizer adeus. Enquanto todos os outros garotos da minha idade estavam brincando de pêra, uva, maça e salada-mista, eu estava lá, em algum lugar, jogando bola. Chutes solitários na redonda, praticando minha maior paixão. Adorava o jogo, venerava compulsivamente tudo o que dizia respeito a futebol. Curtia as infinitas horas de treino, as concentrações, as dicas do “professor”, a tensão e, com certa timidez respeitosa, até Fernanda por os pés em minha vida, ouvia atônito os gritos opacos que vinham da arquibancada. Meu nome, Mário, gritado sonoramente por cada vez mais vozes, conforme ia evoluindo no esporte.

É certo, hoje tenho mais ciência disso, que só dei conta do efeito que meus dribles e arrancadas provocavam nas arquibancadas quando aquela diaba entrou em minha vida. Até Fernanda aparecer naquele banheiro fétido, os gritos femininos que vinham da arquibancada me eram todos estranhos e, até certo ponto, ignorados. A soma de todos eles, não posso negar, provocava certa excitação em meu corpo, que me deixava ainda mais temível em campo. Virava um bicho indomável e quase impossível de ser parado. Vorazmente determinado a driblar qualquer um que viesse a meu encontro e querendo como recompensa que os gritos fossem cada vez mais ensurdecedores. Mas até então pouco distinguia o gritos. Para mim não havia diferença entre os gritos femininos e os masculinos.

Não se iluda o leitor: apesar de tímido, o assédio me era desejado. Os gritos, quanto mais altos fossem, mais me estimulavam a prosseguir jogando bem. O fazia pelo futebol, mas também de forma intencional: que todos reconhecessem meu talento. Toda pessoa que tem sua arte ou seu dom, como preferir, demonstrada em público precisa de certa aprovação para prosseguir. Comigo nunca foi diferente. Quando o silêncio tomava conta das cadeiras, sabia que ou meu time ou eu mesmo não jogávamos bem. Era para mim o melhor indicador de quão perto estávamos da vitória. Quando os gritos e berros se tornavam quase que enlouquecedores, era quase que abduzido do meu corpo e tomado por uma espécie de espírito redentor. O cansaço, a dor e mesmo a intimidação adversária não eram adversários a altura da minha vontade de agradar a todos que ali estavam. Mas até aquela época, essa imensa massa de apoiadores – ou críticos, dependendo de quão bem ou meu time ou eu estávamos jogando – era para mim inequivocamente assexuada. Eram apenas vozes, destilando uma hora o elixir de minha glória ou o centeio de minha desgraça. Nenhuma menina em especial me saltava os olhos. E não reparava se a torcida era predominantemente masculina ou feminina. Isso, claro, tudo antes daquela pobre diaba entrar em minha vida.

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