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Por que estamos demorando tanto para sair da recessão?

By | PIB

Aos poucos e muita lentamente os dados começam a mostrar uma saída da pior recessão da nossa História. O Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), divulgado ontem, é um dos indicadores coincidentes que vão nessa direção. Ao incorporar as revisões feitas pelo IBGE nas pesquisa de Comércio e Serviços, o índice mostrou avanço de 1,31% na passagem de janeiro para fevereiro. Na comparação dos três meses terminados em fevereiro com os três meses imediatamente anteriores, houve avanço de 0,76%. A tabela abaixo resume as métricas de crescimento do índice.

Variação do IBC-Br (%)
Mensal Trimestral Interanual 12 meses
Dez/16 -0,09 -0,33 -2,33 -4,55
Jan/17 0,62 0,13 0,51 -3,88
Fev/17 1,31 0,76 -0,73 -3,56
Os dados positivos na margem se somam a uma tendência de melhora nas métricas de crescimento ao longo dos últimos meses, como pode ser visto nos gráficos abaixo.

É difícil mover um transatlântico...

 

Lentamente, vamos aos poucos saindo da recessão. Por que a demora, pode perguntar algum leitor. Bom, a resposta é simples. O PIB é como um transatlântico, que uma vez levado para determinado lado, é difícil mudar a direção. Para ilustrar, mostro aqui um exercício feito no Clube do Código. Considere, para isso, como posto em Licha (2015), que o PIB efetivo possa ser decomposto em duas partes, a saber:

(1)   \begin{equation*}Y_{t} = Y^P_{t} + h_{t} \end{equation*}

Onde Y_{t} é o PIB em t, Y^P_{t} é a tendência de longo prazo do PIB, chamada de produto potencial e h_{t} é um componente cíclico, chamado de hiato do produto. O PIB Potencial, Y^P_{t}, a tendência do PIB Efetivo ao longo do tempo, reflete condições estruturais da economia, como a população em idade ativa, o estoque de capital, qualidade da educação, qualidade das instituições, etc. O hiato do produto, h_{t}, o componente cíclico, por sua vez, reflete questões conjunturais, como incentivos de política econômica, condições climáticas, choques externos, incertezas políticas, etc.

Em outros termos, no curto prazo o PIB Efetivo pode crescer mais ou menos do que o PIB Potencial, aquela tendência. No longo prazo, entretanto, o crescimento da economia está limitado pela disponibilidade de fatores e pela forma como esses fatores são combinados.

Isto é, supondo que a estrutura da economia possa ser representada por uma função do tipo Cobb-Douglas, com retornos constantes de escala, temos que:

(2)   \begin{equation*}Y_{t} = A_{t} K_{t}^{\alpha_{t}} L_{t}^{1-\alpha_{t}}\end{equation*}

Onde K_{t} e L_{t} são, respectivamente, a quantidade de capital e trabalho, A_{t} mede a eficiência tecnológica ou a produtividade total dos fatores e \alpha_{t}, por fim, mede a participação do capital na renda nacional.

Nesse contexto, Y_{t}, a soma de bens e serviços finais produzidos em determinado período de tempo, será dado pela combinação entre uma determinada quantidade de estoque de capital com outra de trabalho, moderada pela tecnologia disponível. Em última instância, portanto, Y_{t} estará limitado pela disponibilidade de fatores de produção e pela forma como esses fatores são combinados (a produtividade total dos fatores). Os economistas gostam de chamar essa limitação de produto potencial, ou simplesmente Y^P_{t}.

No curto prazo, a diferença entre Y_{t} e Y^P_{t} será assim dada pelo hiato do produto, h_{t}. O hiato do produto representa assim o que os economistas gostam de chamar de ciclo econômico ou, em outros termos, o ajuste entre o PIB efetivo e o seu potencial. A dinâmica desse ciclo é determinada em grande medida pela rigidez de preços. Fossem os preços totalmente flexíveis, o ajuste seria imediato, implicando que h_{t} seria zero. Nesses termos, para entendermos o tempo desse ajuste, podemos verificar o grau de persistência de um determinado choque sobre o PIB por meio do hiato do produto. Para tanto, como exposto em Licha (2015), vamos considerar que possamos modelar o hiato como um processo autoregressivo de ordem 1, como abaixo:

(3)   \begin{equation*}h_{t} = \alpha h_{t-1} + \epsilon_{t}\end{equation*}

Onde \alpha é um parâmetro entre 0 e 1 e \epsilon_{t} é supostamente um ruído branco. Fazendo uma iteração de (3), temos que:

    \[ h_{t} = \alpha (\alpha h_{t-2} + \epsilon_{t-1}) + \epsilon_{t} \]

(4)   \begin{equation*} h_{t} = \epsilon_{t} + \alpha \epsilon_{t-1} + \alpha^{2} \epsilon_{t-2} + \alpha^{3} \epsilon_{t-3} + ... \end{equation*}

Nesses termos, a dinâmica do produto será determinada pelo parâmetro \alpha, na medida em que ele explica o grau de persistência de um determinado choque. Em outras palavras, se os choques afetam o PIB somente em um período, não há persistência, de modo que \alpha é igual a zero. O hiato do produto é assim um ruído branco, ou h_{t} = \epsilon_{t}. Considerando que Y^P_{t} possa ser representado por uma tendência determinística e linear, o PIB fica reescrito como

(5)   \begin{equation*} Y_{t} = \mu + \beta T + \epsilon_{t} \end{equation*}

Se esse for o caso, o processo é descrito como tendência-estacionário. Por outro lado, se \alpha \neq 0, há persistência dos choques, de modo que seus efeitos duram mais do que um período. Considere o caso extremo, em que \alpha = 1. Nesse caso, substituindo em (4), temos que:

(6)   \begin{equation*} h_{t} = \sum_{k=0}^{\infty} \epsilon_{t-k} \end{equation*}

Ou seja, os choques são totalmente incorporados ao produto. Adicione agora Y^P_{t}, considerando este uma tendência determinística e linear, como em (5). Nesse caso, temos que:

(7)   \begin{equation*} Y_{t} = \mu + \beta T + \sum_{k=0}^{\infty} \epsilon_{t-k} \end{equation*}

Nesse caso, além dos choques não se dissiparem, a tendência ainda se torna estocástica. Por fim, vamos substituir Y_{t-1} = \mu + \beta (T-1) + \epsilon_{t-1} + \epsilon_{t-2}... de (7), de modo que obtemos:

(8)   \begin{equation*} Y_{t} = \beta + Y_{t-1} + \epsilon_{t} \end{equation*}

Ou seja, temos um processo autoregressivo de ordem (1), com raiz unitária e drift. No exercício do Clube do Código, ademais, verificamos a partir de um teste de raiz unitária se, de fato, é esse o caso.

Em assim sendo, leitor, uma vez que o PIB tenha sido atingido por um choque capaz de reduzir o investimento em 25%, a reversão desse processo será, naturalmente, demorado. Certo? 🙂

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Licha, A. L. Teoria da Política Monetária - Uma Abordagem de Nível Intermediário. Editora Alta Books, 2015.

Uma recessão nunca antes vista na História desse país

By | PIB

Os dados divulgados ontem pelo IBGE sobre o Produto Interno Bruto no quarto trimestre de 2016 (2016T4) não deixam de ser assustadores. Por qualquer métrica que se vê, a recessão da economia brasileira é de proporções inéditas. A perda de produto chega a 7,2% em dois anos. O investimento, por seu turno, caiu 22,9% nesse período e 25,9% em três anos. Significa dizer que entre 2014-2016 perdemos um quarto da Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF)! Se compararmos esses números à série disponível pelo IBGE, que retroage à decada de 40 do século passado, é a pior recessão da nossa História.  A tabela ao lado resume a variação marginal (contra o trimestre imediatamente anterior), trimestral (contra o mesmo trimestre do ano anterior), anual (acumulada em quatro trimestres) e de dois anos (variação acumulada em dois anos). Nesse post, fazemos um balanço dos números. Membros do Clube do Código, como sempre, receberão apresentação completa com a análise feita no R. Se você ainda não é membro, corre lá!

Variação dos Componentes do PIB (%)
Margem Trimestral Anual 2 anos
Agro 1,0 -5,0 -6,6 -3,2
Ind -0,7 -2,4 -3,8 -9,9
Serv -0,8 -2,4 -2,7 -5,3
PIB -0,9 -2,5 -3,6 -7,2
Consumo -0,6 -2,9 -4,2 -8,0
Governo 0,1 -0,1 -0,6 -1,6
FBCF -1,6 -5,4 -10,2 -22,7
Exportação -1,8 -7,6 1,9 8,3
Importação 3,2 -1,1 -10,3 -22,9

Como se pode observar pela tabela, na margem o PIB caiu quase 1% no quarto trimestre, a FBCF caiu 1,6% e a Indústria 0,7%. Nessa métrica, os únicos que se salvaram foram a Agropecuária, com avanço de 1%, o Consumo do Governo, com 0,1% e as Importações com 3,2%. Abaixo um gráfico que detalha o avanço na margem dos componentes do PIB pelo lado da oferta e da demanda ao longo do tempo.

Na comparação interanual, por seu turno, não há salvação. O PIB caiu 2,5% se comparado ao último trimestre de 2015, o Consumo das Famílias caiu 2,9% e os Serviços, que representaram pouco mais de 63% do PIB no quarto trimestre de 2016, cairam 2,4%. Abaixo os gráficos dos componentes do PIB nessa métrica.

Já no acumulado em quatro trimestres, o PIB encolheu 3,6% no ano passado. A FBCF, por sua vez, caiu mais de 10% e até mesmo a Agropecuária, que vinha sendo uma espécie de ilha em meio à turbulência, também experimentou forte queda de 6,6%. Abaixo os gráficos dessa métrica.

Herança Estatística negativa para 2017 e um longo caminho para a recuperação

Diante de dados tão ruins, é de se perguntar o que será de 2017. Pela análise do quadro geral, não se pode dizer que o pior já passou. A despeito de alguns indicadores antecedentes apontarem algum alívio no primeiro trimestre desse ano, ainda é muito cedo para dizer alguma coisa sobre 2017T1. Ademais, se calcularmos a herança estatística de 2016, isto é, o quanto a economia vai crescer se ao longo do ano o crescimento entre os trimestres for nulo, ela fica em -1,1%. Olhando por outra ótica, se crescermos 0,5% em cada um dos trimestres, na comparação com o trimestre imediatamente anterior, o crescimento em 2017 será de 0,2%.

O problema, entretanto, é bem mais expressivo do que apenas a herança estatística negativa para esse ano. Em termos de nível, voltamos ao patamar de 2010, como pode ser visto no gráfico abaixo. Significa dizer que a economia brasileira encontra-se hoje no mesmo nível que estava em 2010. Recuperar essa perda de produto requererá anos a fio de muito trabalho, fazendo as coisas certas, deixando de lado ideias equivocadas de política econômica e intervenção microeconômica.

Contas Econômicas Integradas

Pela ótica das Contas Econômicas Integradas, em termos anuais, o PIB atingiu R$ 6,2 trilhões em 2016. O PNB, por seu turno, aquele que desconta a Renda Líquida Enviada ao Exterior, ficou em R$ 6,1 trilhões, pouco inferior à Renda Nacional Disponível - aquela que desconta transferências correntes. Da Renda Nacional Disponível, que feitos os descontos representou 98,05% do PIB, 84,19 p.p. foram destinados ao Consumo e apenas 13,86 p.p. à Poupança. Como a Formação Bruta de Capital foi de 15,45% do PIB, tivemos que fazer uso de poupança externa no montante de 1,59% do PIB. Se há algo de positivo nas Contas Nacionais, aliás, é que esse número vem caindo: ele foi de 4,54% em 2014T4. O gráfico abaixo mostra a evolução da Poupança Bruta e da Formação Bruta de Capital ao longo do tempo.

E abaixo temos o uso de poupança externa...

Conclusões

A recessão atual é assustadora, com perda de renda em termos per capita e perda de capacidade produtiva, pela queda recorde da Formação Bruta de Capital Fixo e pelo imenso estoque de desempregados. Demoraremos muitos anos para apenas recuperar tudo o que foi perdido ao longo dessa recessão. Será necessário uma espécie de "Nova Década de 90", com amplo conjunto de reformas estruturais e recuperação da credibilidade macroeconômica. E, o pior, assim como lá, não faltarão os críticos de sempre, com seu discurso caduco contra abertura do mercado e privatização de empresas estatais, por exemplo.

Se há, portanto, uma lição que podemos tirar dessa recessão é avisar aos quatro cantos o quanto o choque heterodoxo representado pela "Nova Matriz Econômica" foi pernicioso. Nesse espaço, a propósito, tenho denunciado desde o início de 2011 o quanto ideias heterodoxas são prejudiciais ao crescimento econômico e ao controle da inflação. O que nos resta, diante do tamanho do estrago, é conscientizar as gerações mais jovens sobre os perigos de colocar em prática uma agenda de intervenção estatal na microeconomia e discricionalidade na macroeconomia. Os dados, afinal, não deixam dúvidas... 🙁

Palestra "O tamanho do problema: notas sobre a tragédia econômica que vivemos".

By | Eventos

Amanhã darei palestra para estudantes que acabaram de passar no vestibular para as principais instituições públicas e particulares do Rio e que estão vinculados à Ismart, uma instituição privada sem fins lucrativos que busca apoiar jovens com talento acima da média e frágil condição social.  Faz bastante tempo que eu não lido com jovens de 18 a 20 anos, mas estou bastante entusiasmado com a experiência. Darei uma versão reduzida da minha palestra padrão de conjuntura econômica, titulada esse ano como O tamanho do problema: notas sobre a tragédia econômica que vivemos. A ideia é basicamente mostrar como chegamos até aqui: os erros foram dos outros ou de nós mesmos? Espero boas vibrações! Haverá ainda uma edição paulista da palestra, no dia 12/03, lá no Insper. Para quem quiser discutir o tema, os slides da palestra carioca podem ser acessados aqui. Tudo feito usando a integração R com LaTeX, claro! 🙂

O Brasil se tornou insustentável

By | Artigos de Economia

tchaubrazilA frase do título me foi proferida na semana passada por um investidor estrangeiro. É difícil não concordar com a avaliação, diante dos indicadores macroeconômicos. A estagnação do nível de atividade ganha contornos dramáticos, a inflação corre solta, o desemprego aumenta. A bolsa reflete o pessimismo, os alocados em renda fixa demonstram mau humor, exigindo prêmio de risco cada vez maior. Do governo, então, nem se fala. Voltamos à decada de oitenta, onde o sentido de país ficou perdido, após o longo período da ditadura militar.

A eleição do ano passado, a propósito, não pode ser esquecida, se quisermos propor um futuro. A miopia do eleitor médio acabou impedindo o país de fazer uma escolha mais racional. O curto prazo, com a oposição no poder, provavelmente não seria fácil. Duvido que Armínio Fraga, o então ministro da fazenda, tivesse vida tranquila em 2015. Seria preciso fazer o ajuste das contas públicas, exauridas pelo projeto desenvolvimentista dos últimos anos. A inflação aumentaria, dada a correção dos preços administrados. O desemprego também aumentaria, dada a necessidade das empresas em adequar suas estruturas de custos.

Diante do cenário, pergunta o leitor, o que seria diferente com a oposição no poder? 

Em primeiro lugar, a eleição da oposição no ano passado seria uma punição ao governo pelas escolhas equivocadas dos últimos anos. A contabilidade criativa, as pedaladas fiscais, a redução forçada da energia elétrica em 2013, os vultuosos empréstimos ao BNDES, para criar empresas campeãs, a exigência de que a Petrobras participasse de todos os leilões do pré-sal e tantas outras bobagens. Todas elas baseadas em uma ideologia desenvolvimentista, remanescente entre economistas heterodoxos.

Em segundo lugar, com a oposição no poder, o ajuste poderia, de fato, apontar para um futuro. Por preferência revelada, a eleição da oposição refletiria escolhas mais racionais por parte da sociedade, indicando que o caminho deve ser uma política econômica guiada por regras reformas que tornem o ambiente de negócios mais amigável. Ainda que as negociações entre Executivo e Legislativo sejam sempre difíceis, minha visão particular é que a legitimidade das urnas poderia ser um facilitador para uma agenda positiva.

Ao, entretanto, reeleger o governo Dilma Rousseff, o eleitor médio foi enganado por sua miopia. O ajuste necessário da economia brasileira foi, de fato, tentado: não por outro motivo, o ortodoxo Joaquim Levy foi lá colocado, como ministro da fazenda. Não houvesse necessidade de ajuste, como pregado pela presidente na campanha eleitoral, por que Joaquim teria virado ministro?

O problema, leitor, de governos que tomam o mandato pela esquerda e governam pela direita é a incoerência. O estelionato eleitoral ficou tão cristalino para o eleitor médio, que já em janeiro o governo via sua aprovação cair de forma grotesca. A negação da realidade, na campanha eleitoral, pode ser considerada uma das fontes da crise política que passamos a viver. O governo eleito era ilegítimo, dada a incongruência de suas propostas com o que era necessário fazer no período imediatamente posterior à eleição. Logo, como pode propor uma agenda positiva ao Congresso?

E agora, então?

A tentativa de alguma racionalidade pelo governo esse ano foi bloqueada por um Congresso arredio, liderado pelo suspeitíssimo deputado Eduardo Cunha. O tempero funesto da Lava Jato, que operação por operação, destrói ilusões sobre a classe política, ajuda a tornar o ambiente ainda mais hostil para a proposição de uma agenda positiva. Ademais, o impeachment entra como a cereja no bolo da crise, tornando o cenário provável para 2016 e anos à frente cada vez mais pessimista.

O Brasil, esse país que passou mais de uma década propondo e executando reformas, hoje se vê numa encruzilhada. O projeto desenvolvimentista dos últimos anos, capitaneado pelo economistas heterodoxos brasileiros (dentre os quais, o atual ministro Nelson Barbosa), destruiu a credibilidade da política econômica e aumentou em muitos graus a instabilidade microeconômica. Investir, nessas condições, é mesmo insustentável. Não à toa, o investidor estrangeiro com quem conversei estava dizendo adeus para o Brasil.

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