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Inflação alta se consolida no país

By | Inflação

difusaoVejo muitos economistas se esforçando para mostrar que a inflação atual é causada basicamente por serviços e alimentos. Um deles, inclusive, usou tempos atrás até o termo "inflação do bem" para sublinhar o processo. O aumento do consumo de serviços estaria intimamente ligado ao aumento da renda da população, algo que ninguém em sã consciência poderia condenar. Já o aumento de preço dos alimentos seria provocado por problemas climáticos. Em outros termos, leitor, o atual aumento de juros por parte do Banco Central seria inócuo e tudo o que deveríamos fazer é nos acostumar com a "inflação do bem". Estaria, assim, o raciocínio de alguns de meus colegas de profissão correto?

Infelizmente, não. O gráfico acima é uma primeira pista. Como sabe o leitor regular desse espaço, inflação é um aumento generalizado, persistente e assincrônico de preços. O gráfico elucida, por suposto, a primeira parte da definição. Ele mostra o quão difundido ou generalizado está o processo inflacionário. Tomando uma amostra mensal de agosto de 1999 a dezembro de 2014 [isto é, 185 observações], podemos verificar que a difusão média da inflação é de 62,19%. Em outros termos, em média, 62,19% dos bens e serviços acompanhados pelo IBGE através do índice de preços ao consumidor amplo (IPCA) tem variação de preço positiva. O gráfico acima ilustra, por suposto, que no ano passado, apenas em dois momentos [agosto e novembro] a difusão do IPCA ficou abaixo da média histórica do mês. Em todos os outros, ela esteve acima da média.

Uma segunda pista é observar o comportamento dos núcleos de inflação. O núcleo de inflação é construído de forma a retirar do índice cheio [com todos os bens e serviços avaliados] variações anormais, concentrando-se assim na tendência de longo prazo. Desse modo, se retirarmos variações provocadas, por exemplo, por problemas climáticos, estaremos nos concentrando na inflação que deve prevalecer na maior parte do tempo. O gráfico abaixo faz isso, ao comparar a média de 5 núcleos de inflação construídos pelo Banco Central brasileiro com o índice cheio da inflação, representado pelo IPCA.

nucleo

Pois é. Até aqui não foi utilizada nenhuma ferramenta estatística ou matemática avançada, nem muito menos econometria ou modelos teóricos neoclássicos com premissas simplificadoras. Apenas dois gráficos e conceitos simples. Já é possível, entretanto, desconfiar do argumento de que a inflação atual seja causada apenas por maior consumo de serviços e problemas climáticos. Certo?

A resposta para essa última pergunta tem sido positiva para não economistas. Amigos interessados em economia e clientes que conhecem o mercado geralmente se dão por satisfeitos quando apresento a definição do que seja inflação bem como esses dois conceitos simples relacionados à difusão e ao núcleo do processo inflacionário. Economistas [e estudantes de economia], por seu turno, precisam de algo mais para se convencer.

Com esse objetivo em mente, eu proponho que comecemos a desagregar a inflação. Percorreremos assim o mesmo caminho que esses economistas tem feito para ilustrar a ideia de que a inflação é um problema restrito aos serviços e aos alimentos. Um passo nessa direção é dividir a inflação em atacado e varejo, isto é, a que afeta empresários e consumidores. O gráfico abaixo é um [primeiro] esforço nessa direção.

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Ele apresenta a trajetória de dois índices: o IPA-DI e o IPCA. O primeiro é o índice de preços no atacado que representa 60% dos índices gerais de preço (IGPs) da FGV, enquanto o segundo é basicamente composto por bens e serviços vendidos diretamente ao consumidor, o nosso bom e velho IPCA. Observe o leitor que eles tendem a caminhar juntos ao longo do tempo, com o IPA-DI antecipando o que acontece com o IPCA - o que é comprovado com o uso de testes de causalidade. Na ponta, isto é, no ano passado, observe ainda que a linha preta [IPCA] se desgarrou da linha vermelha pontilhada [IPA-DI], abrindo o que nós economistas chamamos, sem criatividade alguma, de "boca de jacaré". Seria uma evidência de quê?

Se você pensou serviços, está no caminho. Afinal, à medida que você percorre a cadeia de produção de um produto, estará adicionando cada vez mais serviços. Nos primeiros nós dessa cadeia, há muito mais máquinas e equipamentos do que propriamente pessoas - pense em uma indústria moderna de automóveis - enquanto na ponta, há mais indivíduos. Podemos simplificar o argumento, com pequena perda de generalidade, dizendo que no atacado há indústrias intensivas em capital, enquanto no varejo há indústrias intensivas em mão de obra. Desse modo, a tal "boca de jacaré" estaria abrindo porque os serviços ainda continuam elevados, pressionando assim os preços no varejo.

Os serviços são o grande vilão da inflação no Brasil?

Não fossem os tais serviços, estaria tudo bem? Talvez você não se convença com um inocente gráfico "atacado vs. varejo". Para melhorar as coisas, que tal retirarmos os tais serviços de uma vez do índice? Criarmos um núcleo [por exclusão]? Isso captaria o processo inflacionário sem os dissabores dos tais serviços, que segundo alguns dos meus colegas de profissão, constituem uma "inflação do bem". O gráfico abaixo ilustra essa exclusão.

exservicos

Não satisfeito com a retirada dos serviços, construí um novo índice excluindo também alimentos do IPCA. A linha tracejada laranja representa a exclusão dos dois "itens". Observe que, de fato, a inflação captada por esse "núcleo" é bem menor do que a captada pelo índice cheio - representado pela linha preta. Em outras palavras, se você não consome serviços ou não se alimenta ao longo do mês, a linha tracejada laranja representa a sua inflação!

Sim, leitor, é claro que isso é uma redução ao absurdo, mas é exatamente o que os proponentes desse raciocínio defendem. Como dito logo no início, não faz sentido defender esse tipo de coisa, dado que a inflação é um processo generalizado, persistente e assincrônico de preços. Como tal, devem necessariamente existir causas comuns para que ele se mantenha. De maneira geral, como já mostraram tantos e tantos economistas, a causa matre para a inflação encontra-se na política econômica, isto é, em um Estado que gasta muito [e mal] e/ou em um banco central que emite moeda demais - ou, analogamente, mantém juros baixos por tempo demais.

Ademais, esse tipo de recurso não é honesto porque só retira as identificadas maiores altas do processo inflacionário. Para que se constitua em trabalho um pouco mais sério, é preciso que se faça também o trabalho simétrico: que se retire as maiores baixas. É algo melhor do que simplesmente retirar apenas o que não interessa, não é mesmo?

Para terminar: os fundamentos...

O fato econômico que mantém os serviços pressionados e, portanto, a inflação pressionada é o baixo desemprego do fator trabalho na economia brasileira. E isso tem três explicações básicas. Uma é a demografia, isto é, o crescimento da população tem sido menor do que foi no passado. Outra é o fato que os mais jovens estão estudando mais. Por fim, não se pode esquecer das políticas econômicas expansionistas dos últimos anos (fiscal, monetária e parafiscal). Todas atuam no sentido de manter os salários crescendo acima da produtividade, o que naturalmente pressiona os preços. Em particular, os serviços, geralmente intensivos em mão de obra.

Perceba, portanto, que o fato dos serviços estarem com inflação acima de 8% há bastante tempo não significa que eles sejam o "vilão" da inflação. Dado que usam mais mão de obra do que outros itens, tendem a permanecer em patamar mais elevado. Observem, desse modo, que ainda que se retirem os serviços do cômputo, a causa da inflação permancerá pressionando todos os demais itens. Afinal, inflação é um aumento generalizado, persistente e assincrônico de preços, logo está necessariamente vinculada a uma causa comum: ao descolamento entre salários e produtividade.

O papel da política monetária, nesse contexto, é justamente atuar para que esse descolamento não cause maiores efeitos sobre a inflação. Acaso o Banco Central não consiga obter sucesso em sua empreitada, as expectativas dos agentes privados se perdem e o processo inflacionário se torna cada vez mais difícil de ser debelado. É precisamente isso que aconteceu no país nos últimos anos, não é mesmo?

Sublinhe-se que em uma economia com baixa disponibilidade de mão de obra, o crescimento da oferta de bens e serviços deve ser "liderado" basicamente por aumento de investimento e produtividade. Se a oferta de bens e serviços reage ao aumento de demanda causado por salários crescentes, é possível que os preços cresçam a taxas mais controladas. Para que isso ocorra, entretanto, é preciso que exista um ambiente de negócios propício. Não sem motivo, há economistas roucos de repetir a necessidade de reformas microeconômicas no país, bem como maior abertura comercial. Iniciativas que possibilitariam maiores investimentos - em infraestrutura, por exemplo - e incremento da produtividade, facilitando assim o trabalho do Banco Central.

Contrariando, nesse contexto, tudo o que os manuais de macroeconomia ensinam, a política econômica foi mantida expansionista - a monetária, inclusive, entre 2011 e 2013 - bem como não houve reformas estruturais para que a oferta de bens e serviços aumentasse. Não sem surpresa para alguns de meus colegas de profissão, a inflação acabou se instalando, mantendo-se sempre no limite superior da meta, como mostra o último gráfico. Nos últimos cinco anos, nos tornamos uma economia de baixo crescimento e inflação alta, justamente por não termos conseguido dar vazão às reformas estruturais. O governo se perdeu em uma política econômica ideológica, que com um diagnóstico equivocado, só poderia nos deixar o atual legado. Hora de voltar aos fundamentos, para sair desse atoleiro, não é mesmo?

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