Viés de sobrevivência e censura na amostra

Uma carteira montada com as ações que hoje compõem o índice teria rendido muito bem. O problema está em quem entrou na conta: as empresas que quebraram no caminho não aparecem. O exercício mede quanto retorno se cria ao remover quem não sobreviveu, e faz o paralelo com a censura na taxa de desocupação.
Duas curvas de carteira de peso igual em índice base cem, uma com todos os papéis e outra apenas com os sobreviventes, separando-se ao longo do tempo

Uma carteira montada com as ações que hoje compõem o índice teria rendido muito bem nos últimos anos. Os preços são reais e o cálculo está correto. O problema está em quem entrou na conta. Neste artigo mostramos quanto retorno se cria ao remover, sem querer, quem não sobreviveu.

A lista de hoje só contém empresas que chegaram até hoje. As que quebraram ou saíram da bolsa no caminho não aparecem em lugar nenhum do cálculo.

Esse é o viés de sobrevivência: a amostra disponível é formada pelos casos que sobreviveram a um processo de eliminação, e por isso não representa a população que existia no início.

Duas curvas de carteira de peso igual em índice base cem, uma com todos os papéis e outra apenas com os sobreviventes, separando-se ao longo do tempo
A mesma carteira, com e sem os papéis que não sobreviveram. Fonte: Yahoo Finance.

As duas curvas partem do mesmo ponto e se separam ao longo do tempo. A de cima usa apenas os sobreviventes; a de baixo carrega também as perdas.

Quem testa uma estratégia usando a lista de hoje observa a curva de cima e acredita que ela representa o que teria acontecido. A curva de baixo é a que um investidor daquele período teria obtido, porque ele não sabia quais empresas sobreviveriam.

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Por que a média observada não é a média que interessa

O viés de sobrevivência é um caso particular de seleção da amostra. A média que se calcula é a média condicionada à sobrevivência, e não a da população inteira.

E[X | S = 1] ≠ E[X]

Aqui X é a variável de interesse, E indica o valor esperado, e S = 1 marca as unidades que sobreviveram até o momento da observação.

A desigualdade aparece sempre que a sobrevivência depende do próprio valor que se quer medir. Empresas com retorno muito ruim têm mais chance de sair da bolsa, e é justamente esse retorno ruim que some do cálculo.

O tamanho do erro

O viés pode ser escrito em função de duas quantidades: a fração eliminada e a diferença entre quem ficou e quem saiu.

E[X | S=1] − E[X] = π0 ( E[X | S=1] − E[X | S=0] )

O π0 é a proporção de unidades eliminadas. Quanto maior a parcela que desapareceu, e quanto pior o desempenho dela, maior a distância entre o que se mede e o que se queria medir.

A fórmula tem uma consequência prática: o viés cresce nos períodos de maior mortalidade de empresas, que são justamente as crises. Nessas janelas, testar estratégia com a lista de hoje infla mais o retorno medido.

Curva crescente do retorno médio recalculado conforme os piores papéis são removidos da amostra, com linha tracejada marcando a média verdadeira
Retorno médio após remover progressivamente os piores casos. Fonte: Yahoo Finance.

A curva sobe de forma contínua, e a distância até a linha tracejada é o viés acumulado. Remover uma fração pequena da amostra já desloca a média, porque os casos removidos estão concentrados na cauda ruim.

A censura no mercado de trabalho

O mesmo problema aparece em estatísticas oficiais, com outro nome. A censura é o caso em que a unidade continua na amostra mas o valor não é observado por inteiro.

A taxa de desocupação divide quem procura emprego pelo total da força de trabalho. Quem parou de procurar sai do numerador e do denominador ao mesmo tempo, um estado que a literatura chama de desalento.

Duas séries de taxa de desocupação ao longo do tempo, a oficial e uma com base ampliada, seguindo o mesmo ciclo em níveis distintos
Taxa oficial e a mesma conta sobre uma base ampliada. Fonte: IBGE, PNAD Contínua (SIDRA 6318).

A segunda série é um exercício aritmético, e não uma medida alternativa de desemprego. Ela existe para mostrar o tamanho do grupo que a definição deixa de fora.

As duas acompanham os mesmos movimentos de ciclo, o que torna a taxa oficial útil para acompanhar a conjuntura. O que muda entre elas é o nível.

Essa diferença de nível é a parcela de pessoas que a definição exclui. Quem compara países ou períodos com critérios diferentes de participação na força de trabalho compara níveis que não são equivalentes.

Os limites do que o exercício mostra

📋

As listas foram escolhidas
O exercício não reconstrói o índice com as entradas e saídas reais de cada ano. Os grupos mostram o mecanismo e a ordem de grandeza.
📉

O viés medido é um piso
Empresas que saíram de vez da bolsa deixam de ter série disponível, então nem entram na conta. O viés verdadeiro é maior.
✅

A taxa oficial não está errada
Ela mede o que se propõe, com critério explícito e estável. O problema é lê-la como toda a demanda por trabalho não atendida.

A base ampliada usada no exercício também é ilustrativa: a proporção adotada não corresponde a nenhuma medida oficial. O IBGE publica indicadores próprios de subutilização, com critérios definidos, e são eles que devem ser usados quando o objetivo for medir.

O roteiro para detectar o viés

Passo O que verificar
1 A amostra foi formada por quem sobreviveu a algum processo de eliminação?
2 A eliminação depende da variável que se quer medir? Se sim, há viés.
3 Qual a fração eliminada e qual o desempenho dela? Os dois dimensionam o erro.
4 É possível reconstruir a lista original a partir de registros históricos?
5 Se não for, reporte a medida como um limite, e diga em que direção ela erra.

O quinto passo salva a análise quando o dado completo não existe. Dizer que o retorno medido é um teto, e que o verdadeiro fica abaixo dele, comunica o resultado sem afirmar mais do que os dados sustentam.

Considerações finais

O viés de sobrevivência é barato de detectar e caro de ignorar. A pergunta que o revela cabe numa frase: quem saiu da amostra antes de eu começar a medir?

Em Python, a verificação é direta: basta comparar a mesma métrica com e sem os casos eliminados, e a diferença entre as duas é o tamanho do problema.

  • Analista de dados: percebe que a satisfação média subiu porque os clientes insatisfeitos cancelaram e saíram da base de respondentes.
  • Economista: lê indicadores de mercado de trabalho sabendo o que cada definição inclui no denominador.
  • Gestor de risco: testa modelo de crédito sabendo que a base só tem quem teve o pedido aprovado, e não quem foi recusado.
  • Trader: desconfia de backtest cujo universo veio da composição atual do índice, e reporta o retorno como um teto.
  • Atuária: trata apólices canceladas no meio do período como observação censurada, e não como dado ausente.

Em todos os casos, o que muda a conclusão é o que ficou de fora da tabela, e não o dado que está nela.

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Referências

BROWN, S. J.; GOETZMANN, W.; IBBOTSON, R. G.; ROSS, S. A. Survivorship Bias in Performance Studies. The Review of Financial Studies, v. 5, n. 4, p. 553-580, 1992.

ELTON, E. J.; GRUBER, M. J.; BLAKE, C. R. Survivor Bias and Mutual Fund Performance. The Review of Financial Studies, v. 9, n. 4, p. 1097-1120, 1996.

HECKMAN, J. J. Sample Selection Bias as a Specification Error. Econometrica, v. 47, n. 1, p. 153-161, 1979.

WALD, A. A Method of Estimating Plane Vulnerability Based on Damage of Survivors. Alexandria: Center for Naval Analyses, 1943.

WOOLDRIDGE, J. M. Econometric Analysis of Cross Section and Panel Data. 2. ed. Cambridge: MIT Press, 2010.

Leia também: Regressão à média: por que o melhor de um ano tende a piorar no seguinte

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