Correlação não implica em Causalidade

O que o coeficiente de correlação mede e o que ele deixa em aberto: causa direta, causa comum ou coincidência. O paradoxo de Simpson aparece em 342 pinguins, onde a correlação entre as medidas do bico muda de sinal conforme o recorte.

Teste de hipóteses é o método que decide se uma diferença observada entre dois grupos é real ou é o tipo de variação que apareceria de qualquer jeito, só porque os dados são uma amostra. Neste tutorial, mostramos o que é teste de hipóteses e como construí-lo no R com o pacote infer, montando a distribuição nula por simulação em vez de fórmula.

O exemplo é um experimento real: gerentes de banco avaliaram currículos idênticos que diferiam apenas pelo nome no cabeçalho, sugerindo um candidato homem ou uma candidata mulher.

Histograma da distribuição nula com a diferença observada marcada na cauda direita e a região do p-valor destacada
Mil embaralhamentos dos mesmos dados sob a hipótese de que o nome não influencia a decisão. Fonte: Rosen e Jerdee (1974), via pacote moderndive.

As mil simulações se concentram em torno de zero, como esperado num mundo onde o nome não importa. A linha vertical marca a diferença que os dados de fato produziram, e quase nenhuma simulação chega tão longe quanto ela. É essa fração que se chama p-valor.

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O raciocínio por trás do teste

O teste de hipóteses responde por caminho indireto. Em vez de tentar provar que existe um efeito, ele supõe que não existe, calcula o que aconteceria nesse mundo e verifica se o resultado observado seria surpreendente ali. Se for surpreendente demais, a suposição cai.

Todo teste, qualquer que seja a fórmula, é montado a partir dos mesmos elementos:

⚖️

As hipóteses
A nula afirma que não há efeito; a alternativa é a afirmação concorrente que se investiga.

📊

A estatística de teste
O número calculado na amostra: aqui, a diferença entre as duas proporções.

🎲

A distribuição nula
Os valores que a estatística assumiria se a nula fosse verdadeira, por variação amostral.

📉

O p-valor
A fração dessa distribuição tão extrema quanto o valor observado.

A hipótese nula é sempre a que afirma ausência de efeito, diferença ou associação. No experimento deste tutorial, ela diz que homens e mulheres são promovidos na mesma taxa; a alternativa diz que a taxa dos homens é maior. Como a alternativa aponta um sentido específico, o teste é unicaudal; se apenas afirmasse que existe alguma diferença, seria bicaudal.

O teste trabalha em dois níveis: o parâmetro é a quantidade desconhecida na população, e a estatística é o que se calcula na amostra para estimá-lo.

Parâmetro populacional Notação Estimativa amostral
Proporção da população p Proporção da amostra
Média populacional μ Média amostral
Diferença de proporções p₁ − p₂ Diferença entre as proporções amostrais

O experimento

Os dados vêm de um experimento conduzido por Rosen e Jerdee em 1974. Gerentes de banco receberam currículos idênticos e decidiram sobre promoção; a única diferença entre os documentos era o nome, que sugeria um candidato homem ou uma candidata mulher. São 48 currículos, metade com cada nome.

Barras empilhadas comparando a proporção de promoções entre currículos com nome masculino e feminino
Decisão sobre 48 currículos que diferiam apenas pelo nome no cabeçalho. Fonte: Rosen e Jerdee (1974), via pacote moderndive.

A diferença aparece com clareza no gráfico. A pergunta é se uma diferença desse tamanho poderia surgir por acaso, com uma amostra tão pequena.

Construindo a distribuição nula por simulação

Aqui está a parte mais elegante do método. Em vez de recorrer a uma fórmula, a distribuição nula pode ser construída diretamente a partir dos dados: se o nome no currículo não influencia a decisão, então trocar os nomes entre os currículos não deveria mudar nada.

É exatamente isso que a simulação faz. Embaralha os rótulos de gênero entre as 48 observações, recalcula a diferença entre as proporções, e repete mil vezes. O resultado é a distribuição de diferenças que o acaso produziria num mundo sem efeito, que é a definição de distribuição nula.

Qualquer teste percorre o mesmo caminho, e comparar médias, proporções ou variâncias muda apenas a medida calculada em cada repetição.

O percurso de um teste: os dados levam à hipótese nula, que gera amostras simuladas, cada uma vira uma medida, e as medidas formam a distribuição
O percurso de qualquer teste: as amostras simuladas sob a hipótese nula viram medidas, e as medidas formam a distribuição de referência.

Esse encadeamento implementa o princípio "há apenas um teste", formulado por Allen Downey: testes com nomes diferentes compartilham a mesma estrutura, mudando apenas a estatística calculada.

Diagrama da lógica do teste: dados observados e mundos simulados sob a hipótese nula passam pela mesma medida, e o valor-p é a cauda da distribuição
Os dados observados e os mundos simulados passam pela mesma medida. O valor-p é a área da cauda além do que observamos. Inspirado em Allen Downey, "There is Only One Test".

Um detalhe do código merece cuidado: a ordem dos grupos precisa ser idêntica no cálculo do valor observado e no da distribuição nula. Invertê-la troca o sinal da estatística e faz o teste unicaudal apontar para o lado errado, sem gerar erro algum.

O p-valor e a decisão

Com a distribuição nula construída, o p-valor é uma contagem: entre as mil simulações, quantas produziram uma diferença tão grande quanto a observada? No exercício, 2,5% delas. Como esse valor fica abaixo do nível de significância de 5% fixado antes do teste, a hipótese nula é rejeitada.

A conclusão: uma diferença desse tamanho seria rara demais para atribuir ao acaso, o que sustenta a afirmação de que o nome no currículo influenciou a decisão dos gerentes.

Os dois erros possíveis

A decisão de rejeitar ou não a nula pode errar de duas maneiras, e o teste controla apenas uma delas.

Matriz dois por dois com erro tipo I, erro tipo II e as duas decisões corretas de um teste de hipóteses
As quatro combinações possíveis entre a situação real e a decisão tomada. Fonte: elaboração própria.

O erro tipo I é rejeitar uma nula verdadeira: enxergar efeito onde não há. Sua taxa é exatamente o nível de significância fixado, e usar 5% significa aceitar errar assim em 5% das vezes em que não existe efeito.

O erro tipo II é não rejeitar uma nula falsa: deixar de detectar um efeito real. Sua taxa não é fixada pelo pesquisador, e depende do tamanho do efeito, da variabilidade e, sobretudo, do tamanho da amostra. O complemento dessa taxa é o poder do teste: a probabilidade de detectar um efeito que de fato existe.

Por que "não rejeitar" não é "aceitar"

A assimetria entre as duas conclusões fica evidente na simulação abaixo, que testa a mesma diferença real de 3 pontos percentuais em amostras de tamanhos crescentes:

Curva mostrando que a proporção de testes que detectam uma diferença real cresce de quase zero até 100% conforme a amostra aumenta
Proporção de testes que rejeitam a nula, com diferença fixa entre os grupos. Fonte: simulação com semente fixa (set.seed 1234).

Com grupos pequenos, quase nenhum teste detecta a diferença, embora ela exista por construção. Com grupos grandes, todos detectam. O efeito é o mesmo nos dois casos; o que muda é a capacidade de enxergá-lo.

Daí a formulação cuidadosa: não rejeitar a nula não é evidência de que ela seja verdadeira. Pode significar que o efeito não existe, ou que a amostra era pequena demais para revelá-lo. Um resultado não significativo com amostra pequena é, sobretudo, inconclusivo.

O que o resultado revela

  • A distribuição nula pode vir dos próprios dados. Embaralhar os rótulos mil vezes constrói a referência sem nenhuma fórmula, e torna visível o que o p-valor mede.
  • O p-valor é uma contagem, não um veredito. Ele mede a fração das simulações tão extremas quanto o observado, supondo que a nula seja verdadeira.
  • O teste controla um erro, não os dois. O nível de significância fixa a taxa de falso positivo; a taxa de falso negativo depende do tamanho da amostra.
  • Resultado não significativo com amostra pequena é inconclusivo. A mesma diferença real passa despercebida em grupos pequenos e é detectada em grupos grandes.

Considerações finais

Com um conjunto de dados público e o pacote infer, o exercício constrói um teste de hipóteses completo sem recorrer a tabelas ou fórmulas fechadas: a distribuição nula sai de mil embaralhamentos dos dados reais, e o p-valor é a fração delas que chega ao valor observado.

Essa construção por simulação torna concreto um raciocínio que costuma ser apresentado de forma abstrata. As aplicações mudam conforme a área:

  • Analistas de dados: todo teste A/B é um teste de hipóteses, e calcular o poder antes de rodar evita experimentos que não podem concluir nada.
  • Economistas: avaliação de políticas públicas depende de distinguir efeito real de variação amostral, com a mesma estrutura lógica.
  • Profissionais de mercado financeiro: comparar o desempenho de duas estratégias exige testar se a diferença sobrevive ao acaso.
  • Pesquisadores e estudantes: entender o que o p-valor mede evita as duas leituras erradas mais comuns, que o tomam por probabilidade da hipótese ou por medida de tamanho de efeito.

Aprender a linguagem é o que abre a porta para todas essas frentes.

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