All Posts By

Vitor Wilher

Por que a Reforma da Previdência é prioritária?

By | Política Fiscal

Hoje eu atualizei o script Monitor Fiscal, que faz parte do kit de apresentações do curso de Análise de Conjuntura usando o R e que também está disponível no Clube do Código. Por se tratar de dados fiscais, o Monitor é o maior script do kit de apresentações, dando ao aluno do curso uma excelente noção de como coletar e tratar dados reais da economia brasileira.

A apresentação está dividia em três grandes partes. Na primeira, são coletados os dados da Secretaria do Tesouro Nacional (STN), que produz o resultado primário do governo central. Isto é, traz as receitas e despesas do Tesouro Nacional, da Previdência Social e do Banco Central.  Já nesse bloco de dados, a propósito, é possível verificar a situação precária das contas públicas, como ilustra o resultado primário em valores reais abaixo.

O resultado primário é obtido pelo confronto entre despesas e receitas líquidas das transferências para estados e municípios. O que podemos ver no gráfico acima, destacado na área vermelha clara, é que houve nos últimos anos, desde 2011, um grande declínio dessa métrica, sendo parcialmente revertido na margem. No último dado disponível, o resultado primário encontra-se negativo em R$ 122,2 bilhões. Recentemente, a propósito, o governo divulgou no PLDO 2020 estimativa de déficit primário até 2022.

O déficit primário de R$ 122,2 bilhões, a propósito, é obtido pelo confronto entre despesas primárias de R$ 1.381 bilhões contra receitas de R$ 1.254 bilhões. O gráfico acima mostra que a boca de jacaré se abriu no final de 2014 e não fechou mais, gerando o déficit primário ilustrado no primeiro gráfico. Nós podemos melhorar nosso entendimento desse problema desagregando receitas e despesas. O gráfico abaixo ilustra as principais classes de receitas.

Os valores estão deflacionados a preços de fevereiro de 2019 e acumulados em 12 meses, como é ensinado em nosso curso de Análise de Conjuntura usando o R. Observe que há uma queda na ponta em todas as classes de receita. A seguir, colocamos as despesas desagregadas.

Os valores também estão deflacionados a preços de fevereiro de 2019 e acumulados em 12 meses. Feita essa suavização, salta aos olhos a tendência positiva e ininterrupta de crescimento dos gastos com previdência. Na ponta, esses gastos já somam R$ 600,8 bilhões, representando 43,5% da despesa total do governo central.

Importante dizer, diga-se, que os gastos com previdência acima representam apenas os gastos com o INSS. Não estão incluídos os gastos com o regime próprio, isto é, com os servidores civis e militares. Infelizmente, não há transparência sobre esses gastos e, portanto, não há disponível uma série histórica mensal onde possamos fazer uma análise similar.

Como se vê, entretanto, os gastos com previdência são de longe o principal problema do governo central porque são gastos inflexíveis e que crescem de forma ininterrupta ao longo do tempo. Caso nada seja feito, portanto, eles consumirão cada vez mais recursos do orçamento público, deixando menos dinheiro para outras áreas como saúde, educação e segurança.

Isso e muito mais você aprende em nosso curso de Análise de Conjuntura usando o R.

Como está o hiato do produto no Brasil?

By | PIB

Ao longo da semana, tenho discutido aqui no Blog da Análise Macro sobre o tema da frustrante recuperação da economia. De modo a iluminar ainda mais o assunto, apresento aqui o conceito-chave de hiato do produto, como aprendemos em nossos cursos de Teoria Macroeconômica e Análise de Conjuntura usando o R. Vou aqui tecer alguns parágrafos sobre ele, bem como mostrar os dados.

No gráfico acima, temos o PIB efetivo em nível com ajuste sazonal acompanhado de sua tendência,  chamada pelos economistas de PIB potencial. A diferença entre aquele e este tem o nome de hiato do produto, que nada mais é do que um indicador de ociosidade da economia.

A boca de jacaré, na ponta, portanto, nos diz que o PIB efetivo está caminhando abaixo do PIB potencial, de modo que o hiato do produto nesse momento é negativo. Isto é, haveria muita ociosidade na economia. O gráfico abaixo, por suposto, confirma esse ponto, ao ilustrar o hiato do produto em si.

Mas como assim ociosidade? Lembre-se que o PIB é a soma de bens e serviços finais produzidos na economia em um determinado período de tempo. Para produzir esses bens e serviços precisamos, por suposto, de fatores de produção como capital e trabalho. Assim, se eu digo que há ociosidade na economia, quero dizer que há trabalhadores desempregados e capital não utilizado.

Tudo bem? Agora volte ao primeiro gráfico. Observe que não apenas o PIB efetivo caiu no período como também caiu o PIB Potencial! A crise que vivemos é tão, mas tão grave, que nós reduzimos o nosso potencial de crescimento.

Essa é uma outra forma de dizer que se queremos aumentar o potencial de crescimento da economia, precisamos torná-la mais produtiva, melhorando o ambiente de negócios, aprovando a agenda de reformas microeconômicas e garantindo a solidez fiscal com a reforma da previdência.

Ah, sim, as séries utilizadas para a produção dos gráficos são do IPEA!

_______________________

Isso e muito mais nos nossos cursos de Teoria Macroeconômica e Análise de Conjuntura usando o R.

O drift perdido: recuperação da economia é frustrante

By | Comentário de Conjuntura

Ontem, eu publiquei aqui no Blog da Análise Macro os resultados do IBC-Br em fevereiro, divulgados pelo Banco Central. Aproveitei o tema para construir o comentário de conjuntura dessa semana, uma vez que tenho visto uma grande preocupação no mercado e na imprensa especializada com a fraca recuperação da economia brasileira nesse início de 2019. Para começar a ilustrar o problema, abaixo coloco o número índice do PIB com ajuste sazonal.

O PIB (Produto Interno Bruto) é a soma de todos os bens e serviços finais produzidos por uma economia em um determinado período, como aprendemos em nossos cursos de Teoria Macroeconômica e Análise de Conjuntura usando o R. O normal de uma série como essa é crescer ao longo do tempo - observe que ela possui uma tendência positiva. Em nosso curso de Séries Temporais usando o R, a propósito, aprendemos que uma série como essa é classificada como um passeio aleatório com drift. Às vezes, entretanto, pode acontecer algum problema no caminho, como a Crise de 2008, ilustrada na parte alaranjada no gráfico.

Não é normal, porém, o que está acontecendo na área azul do gráfico. O vale criado pela "Grande Recessão" de 2014-2016 está dificil de ser deixado para trás. Repare o leitor que ainda não conseguimos sequer alcançar o mesmo nível da série de 2014! É basicamente por isso, inclusive, que ainda temos um estoque de desempregados tão elevado no país.

E por que ainda estamos longe desse nível? Porque ainda não conseguimos formar consenso na sociedade brasileira em torno da agenda de reformas, cujos adversários são poderosos caçadores de renda que impedem o país de dar um salto de desenvolvimento. Para esses, quanto mais burocracia, melhor. Impondo dificuldades, vendem-se facilidades.

A necessidade de reformas é bem anterior a 2014, diga-se. Se você tirar a taxa de crescimento do PIB em nível, verá que ela declina desde o final de 2010. Abaixo, nós tomamos a taxa de crescimento acumulada em quatro trimestres a partir do número índice do PIB sem ajuste sazonal - como aprendemos no nosso curso de Análise de Conjuntura usando o R.

Em meados de 2010, por suposto, a economia brasileira chegou ao pleno emprego do fator trabalho, o que exigia acionar outras duas alavancas para continuar a crescer (investimento e produtividade). O problema dessas alavancas é que elas reagem mal a intervencionismo macro e micro, marcas de Dilma Rousseff na economia.

A mudança de governo em 2016 sinalizou uma retomada dessa agenda de reformas, o que fez interromper a queda do crescimento, como pode ser visto na área alaranjada do gráfico. Na ponta, porém, o crescimento parece ter se acomodado em torno de 1%, refletindo a dificuldade na aprovação dessa agenda que temos visto todos os dias no Congresso.

De fato, como pode ser visto no gráfico acima, construído a partir do boletim Focus do Banco Central, a expectativa média de crescimento para 2019 mudou de patamar nos últimos 12 meses. Em particular, desde fevereiro, dada a sinalização de que a reforma da previdência pode não ser aprovada, o crescimento tem decaído de forma contundente. No último dado disponível - 12/04 - a média encontra-se em 1,9%, estando entre um mínimo de 1,08% e um máximo de 3,13%.

Tudo isso dito, precisamos urgentemente aprovar a reforma da previdência, garantindo o ajuste nas contas públicas, bem como precisamos conseguir consenso em torno de uma ampla agenda de reformas microeconômicas, que melhore o ambiente de negócios, aumente a produtividade e incentive o investimento privado. Não há outra forma de fazer aquela série do PIB em nível voltar à sua rotina normal de crescimento, garantindo assim a retomada de renda e emprego.

____________________

Como de praxe, o código desse comentário está disponível no repositório do github do Clube do Código.

IBC-Br: Recuperação mais do que comprometida

By | PIB

O Banco Central acabou de divulgar os resultados do Índice de Nível de Atividade da instituição - o IBC-Br - referente ao mês de fevereiro. Nada animadores, diga-se. Pelo segundo mês seguido, a variação na margem veio negativa: 0,73% em relação a janeiro. Também na variação da média móvel trimestral - últimos três meses contra os três meses imediatamente anteriores - houve recuo de 0,21%. Uma indicação de que a recuperação da economia nesse ano está bastante comprometida.

Aprenda a analisar o IBC-Br e vários outros índices no Curso de Análise de Conjuntura usando o R 

Nas métricas mais suavizadas, por seu turno, ainda há crescimento positivo. A variação interanual, o IBC-Br cresceu 2,49% em fevereiro, enquanto no acumulado em 12 meses registra alta de 1,21%.

O pessimismo captado pelo IBC-Br, a propósito, se soma à sétima redução semanal do crescimento previsto para 2019 captado no boletim Focus. No último dado disponível, espera-se crescimento de 1,95%.

O pessimismo está em grande parte associado à possibilidade de não aprovação da reforma da previdência ou à aprovação de uma reforma bem mais desidratada do que a versão entregue pelo governo ao Congresso.

Bolsonaro dilmou? Usando o R para explicar...

By | Comentário de Conjuntura

Após ficar internado por alguns dias devido a uma pneumonia, estou de volta à Análise Macro. Nesse meio-tempo, algumas coisas aconteceram na economia brasileira que poderiam ser tema do nosso Comentário de Conjuntura. Dentre elas, em particular, gostaria de tecer alguns breves parágrafos sobre a intervenção do presidente Bolsonaro na Petrobras, cancelando o aumento previsto no preço do óleo diesel. É, diga-se, o tipo de coisa que, infelizmente, nos faz lembrar do horroroso governo Dilma Rousseff.

Naqueles tristes tempos, lembre-se o leitor, a presidente da República utilizava o controle artificial de preços administrados como energia elétrica e gasolina para colocar o Índice de Preços cheio (o IPCA) dentro do limite-superior da meta, que era de 6,5%. A ideia era não utilizar a taxa básica de juros para controlar a inflação. O resultado, como qualquer economista sabia à época, era uma inflação represada, que cedo ou tarde deveria ser colocada na rua. Dilma, por óbvio, esperou passar a eleição de 2014 para liberar os aumentos - ver sobre aqui.

Isso dito, é inaceitável que o governo atual busque replicar esse tipo de política desastrosa que só fez mal para o mecanismo de preço no país. Não é dessa forma que o governo vai resolver o problema dos caminhoneiros. Mas apenas se tornará refém dos mesmos. Não por outro motivo, o mercado penalizou de forma pesada a Petrobras na Bolsa, com uma perda de mais de R$ 30 bilhões. O medo é que esse tipo de ingerência vire norma no governo.

Isso dito, podemos agora nos perguntar sobre o comportamento do preço do óleo diesel do tempo. Para isso, podemos pegar o subitem óleo diesel, dentro do IPCA no SIDRA-IBGE, e olharmos a sua evolução ao longo do tempo. É o tipo de coisa que ensino a fazer no nosso curso de Análise de Conjuntura usando o R, a propósito. O código abaixo implementa.


#################################################
########## Análise do preço do diesel ###########

## Pacotes

library(sidrar)
library(forecast)
library(ggplot2)
library(gridExtra)

## Coleta de dados

diesel1 = get_sidra(api='/t/2938/n1/all/v/63/p/all/c315/7659/d/v63%202')$Valor
diesel2 = get_sidra(api='/t/1419/n1/all/v/63/p/all/c315/7659/d/v63%202')$Valor
diesel = c(diesel1, diesel2)
dieselts = ts(diesel, start=c(2006,07), freq=12)

Uma vez coletados os dados, podemos gerar um gráfico simples como abaixo.

Observe que é uma série que tem uma variância não constante ao longo do tempo, com diversos aumentos pontuais registrados. Podemos agora tentar entender a mediana desses aumentos. Isto é, será que um aumento de 5,7%, como era o que estava previsto, é um aumento próxima à média ou distante dela? Esse tipo de análise, a propósito, é o que fazemos em nosso curso de Introdução à Estatística usando o R. Para isso, podemos plotar um histograma e um boxplot como abaixo.

Observe que a maior frequência de variações mensais está próxima de zero. A mediana, por suposto, é de 0,1%, conquanto o primeiro quartil termina em -0,14% e o terceiro quartil em 0,52%. Isso quer dizer que um aumento de 5,7% estaria no último quartil da distribuição, sendo considerado um outlier, que no boxplot acima está representado pelas bolinhas vermelhas.

Em palavras de gente, o presidente Bolsonaro não deveria se preocupar tanto com o aumento, uma vez que ele não é comum na distribuição. Assim como pode haver um aumento forte para cima em um dado momento, também pode haver uma queda de mesma proporção - observe que também há outliers negativos no boxplot. Você não verá ninguém reclamando de uma queda de 5,7% no preço do óleo diesel, verá? 

Tudo isso dito, e parafraseando o antigo ministro Antonio Palocci, o diabo com os preços é que eles flutuam! Intervir no preço A ou B só traz dor de cabeça, como muito bem nos ensinaram os anos Dilma Rousseff. Se, portanto, o presidente quer dar uma força para os caminhoneiros, há de haver caminhos melhores do que intervir na política de preços da Petrobras. Dilmar a essa altura não é bom para o presidente e muito menos para o país!

_________________________________

Como de praxe, o código integral desse comentário está disponível no repositório do github para os membros do Clube do Código.

Cadastre-se na newsletter
e receba nossas novidades em primeira mão!