Banco Central aguarda previdência para liberar o chope

By | Comentário de Conjuntura

Há uma piada conhecida na profissão de que o banqueiro central é o cara chato que tira o chope no melhor da festa. Isto porque, é justamente quando a economia dá sinais de que está acima do seu potencial de crescimento é que a autoridade monetária deve reduzir os incentivos, ou seja, aumentando os juros. Na conjuntura brasileira atual, contudo, o Banco Central está atuando em sentido contrário: está demorando a soltar mais alguns barris de chope. Abaixo, explico o porquê.

A ata do COPOM divulgada hoje pela manhã repete o comunicado da semana passada ao dizer que mantidos os juros básicos em 6,5% a inflação para 2019 e 2020 fica abaixo da meta - 3,6% e 3,7%, respectivamente. Ao verificar o cenário do Focus, que leva a Selic para 5,75% no final desse ano e a eleva para 6,5% em 2020, a inflação permanece abaixo da meta - 3,6% e 3,9%. Em outras palavras, a julgar pelas projeções condicionais do modelo do Banco Central, a essa altura já deveríamos ter mais alguns barris de chope na economia.

Além das projeções condicionais, há outros fatores que contribuem para que o Banco Central solte os juros. A autoridade monetária reforçou na ata que houve uma interrupção na recuperação da economia, que o cenário externo está menos adverso e que os núcleos de inflação estão comportados, como indica o gráfico desse post. Em outras palavras, o tal balanço de riscos evoluiu favoravelmente, o que dá suporte para uma inflação esperada abaixo da meta tanto esse quanto no próximo ano.

E por que a cautela, então?

O Banco Central reforçou na ata a sua preocupação com a reforma da previdência. Sem ela, prêmios de risco e taxa de câmbio vão para cima, pressionando a taxa de inflação.

E isso é difícil de colocar no modelo, como sabe quem é do ramo.

Eu entendo a posição do Comitê. De fato, é difícil saber o que vai acontecer com prêmios de risco e câmbio em uma situação de não aprovação da previdência. Por óbvio que isso contaminaria de forma frontal a trajetória da inflação esperada.

Isso dito, é difícil nesse momento não taxar o Banco Central de conservador, dada a abertura do hiato do produto.

Em outras palavras, estamos diante de um modelo de inflation target do tipo rígido em que o banqueiro central parece olhar apenas para o desvio da (expectativa de) inflação em relação à meta.

Para terminar, aqui vai minha opinião pessoal: acho que o Banco Central é apenas mais um agente paralisado em relação à reforma. Não acho que reduzir a Selic em mais um ponto percentual vá fazer alguma coisa pelo hiato. A incerteza hoje é tanta que o investidor não está olhando para o juro, mas sim para o fiscal e esse, meu bem, depende da reforma da previdência. Na analogia do chope, a chance de mais alguns barris de chope não terem nenhum efeito sobre o ânimo da festa é grande!

Crescimento esperado segue em queda livre

By | Política Monetária

Amanhã, o Banco Central divulga a ata da última reunião do COPOM. O que se sabe até aqui, porém, é que o crescimento esperado para 2019 segue em queda livre. Na última leitura do boletim Focus, divulgada hoje pela manhã, a mediana das instituições consultadas espera agora crescimento de 0,87%. Além disso, houve redução pela primeira vez na inflação esperada para 2020: antes em 4%, agora caiu para 3,95%. Isto é, levemente abaixo da meta estipulada pelo CMN para o próximo ano. O gráfico abaixo, por suposto, sintetiza a expectativa para as quatro variáveis macroeconômicas mais relevantes da economia.

Vai se consolidando um cenário de baixo crescimento e inflação abaixo da meta, o que levará o Banco Central a puxar a taxa básica de juros para baixo. A depender, obviamente, dos desdobramentos da reforma da previdência.

Uma apresentação RMarkdown automática do boletim Focus está disponível aqui.

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Inflação e hiato do produto geram revisão para a taxa Selic

By | Comentário de Conjuntura

O Banco Central divulgou na última quarta-feira a sua decisão sobre a taxa básica de juros. Os membros do Comitê de Política Monetária optaram, nesse momento, por manter a taxa Selic inalterada em 6,5% ao ano. No comunicado, o COPOM subiu um pouco o tom em relação à abertura do hiato do produto e ao cenário benigno da inflação esperada para 2019 e 2020. Por outro lado, também ressaltou que os riscos de não aprovação da reforma da previdência permanecem preponderantes nesse momento.

No comunicado divulgado em maio,  no cenário com juros e câmbio extraídos da pesquisa Focus, a inflação esperada para 2019 e 2020 ficava em 4,1% e 3,8%, respectivamente. Agora, a inflação esperada fica em 3,6% e 3,9%, respectivamente. Já no cenário de juros constantes e câmbio a 3,95 R$/US$, a inflação ficava em maio em 4,3% esse ano e em 4% no próximo ano. Agora, com câmbio a 3,80 R$/US$, a inflação fica em 3,6% e 3,7%.

Houve, ademais, uma revisão importante no Focus, com redução na expectativa da taxa básica para o final do ano. Ao invés de 6,5%, espera-se agora 5,75%. O quadro abaixo resume a expectativa dos agentes para as quatro variáveis macroeconômicas mais importantes.

À exceção do câmbio esperado, que pega a média das instituições, as demais variáveis referem-se à mediana. Destaque para a queda monotônica do crescimento esperado para esse ano, que agora está abaixo de 1% - como, aliás, escrevi aqui. A inflação esperada também cedeu na ponta, após o repique verificado em abril. A tabela abaixo, a propósito, resume a inflação observada e os núcleos construídos pela autoridade monetária.

 

IPCA vs. Núcleos de Inflação (%)
Mensal Mai/19 Mensal Mai/18 Anual Mai/19 Anual Mai/18
IPCA 0,13 0,40 4,66 2,85
Médias Aparadas com Suaviz. 0,29 0,22 4,08 3,20
Médias Aparadas sem Suaviz. 0,22 0,18 3,29 2,42
Exclusão 0 -0,05 -0,01 2,99 2,55
Exclusão 1 0,16 0,25 3,94 2,69
Dupla Ponderação 0,18 0,21 3,76 2,94
Exclusão 2 0,18 0,11 2,96 1,92
Exclusão 3 0,22 0,18 2,88 2,25

A despeito do repique no índice cheio, que permanece acima da meta de 4,25%, os núcleos permanecem bem comportados. O gráfico abaixo ilustra.


A tendência, por suposto, é que os choques recentes sobre o índice cheio se dissipem, de modo que a inflação convirja para valores próximos à meta até o final do ano. É o que indica o comportamento dos núcleos de inflação, que buscam justamente limpar o índice cheio de choques de curto prazo.

Por outro lado, as pesquisas de alta frequência têm indicado que abril também não foi um mês bom, de modo que o segundo trimestre também pode ter um resultado abaixo do esperado. É basicamente o que levou o COPOM a subir o tom em relação ao nível de atividade. O gráfico abaixo ilustra o comportamento da indústria e do comércio ampliado.

A soma de hiato do produto mais negativo do que o esperado a essa altura do ano com inflação subjacente comportada é basicamente o que está levando o mercado a reduzir a expectativa de juros para o final do ano. 

O problema é que o Banco Central tem de levar em consideração o que acontece no Congresso em relação à reforma da previdência. Se o relatório conseguir ser aprovado no plenário antes do recesso de julho, o caminho fica de fato aberto para uma redução já na próxima reunião, mantidos, obviamente, o cenário benigno para a inflação, para o ambiente externo e a fraqueza do nível de atividade.

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(*) Como de praxe, os códigos desse comentário estarão disponíveis no repositório do Clube do Código.

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Qual o tamanho ideal do BNDES?

By | Comentário de Conjuntura

O pedido de demissão de Joaquim Levy do BNDES suscitou uma nova onda de discussões em torno do tamanho ideal do banco no mercado de crédito brasileiro. De forma a dar números à discussão, atualizo abaixo como andas a participação do banco no estoque total de crédito.


library(BETS)
library(ggplot2)
library(forecast)
library(png)
library(grid)
library(gridExtra)

total = BETSget(20539, from='2007-03-01')
bndes_pj = BETSget(20604)
bndes_pf = BETSget(20616)
bndes = bndes_pf+bndes_pj

img = readPNG('logo.png')
g = rasterGrob(img, interpolate=TRUE)

autoplot(bndes/total*100)+
geom_line(size=.8)+
scale_x_discrete(limits=2007:2019)+
labs(x='', y='%',
title='Participação do BNDES no Crédito Total',
caption='Fonte: analisemacro.com.br com dados do BCB')+
theme(panel.background = element_rect(fill='#acc8d4',
colour='#acc8d4'),
plot.background = element_rect(fill='#8abbd0'),
axis.line = element_line(colour='black',
linetype = 'dashed'),
axis.line.x.bottom = element_line(colour='black'),
panel.grid.major = element_blank(),
panel.grid.minor = element_blank(),
legend.position = 'bottom',
legend.background = element_rect((fill='#acc8d4')),
legend.key = element_rect(fill='#acc8d4',
colour='#acc8d4'),
plot.margin=margin(5,5,15,5))+
annotation_custom(g,
xmin=2007.3,
xmax=2009.3,
ymin=18, ymax=22)

E abaixo o gráfico...

Como se pode ver pelo gráfico, a participação do banco no estoque de crédito total tem caído nos últimos anos. Os desembolsos da instituição, por suposto, vêm diminuindo consideravelmente.

É saudável que isso ocorra, diga-se. Um banco de fomento como o BNDES não deve financiar grandes empresas que possuem acesso ao mercado privado e mesmo ao mercado externo. O foco do BNDES deve ser atuar onde claramente o retorno social é maior do que o retorno privado.

Destacaria o financiamento de projetos de inovação realizados em pequenas empresas, o microcrédito e investimentos em saneamento básico. Além disso, dada a expertise acumulada pelo corpo técnico do banco, poderia ser uma peça-chave para destravar o processo de privatização.

O redimensionamento do banco, contudo, não é uma tarefa simples. Dado o gigantismo alcançado pela instituição, sua redução tem impactos consideráveis sobre o próprio mercado de crédito e, com efeito, sobre a economia brasileira. Além disso, há um lobby estabelecido, seja dentro ou fora do banco, que não quer que o jeito de obter crédito mude no país.

Tudo isso dito, é difícil saber ao certo qual o tamanho ideal do BNDES no mercado de crédito. Não existe um número mágico para isso. Certamente, contudo, ele é bem menor do que o atual. E é saudável que continue caindo...

Palestra: Como entender o que dizem os dados com o R?

By | Eventos

No último sábado, 15/06, o professor Vítor Wilher ministrou a palestra "R vs. Data Science: como entender o que dizem os dados com o R?" para cerca de 100 estudantes de tecnologia da informação da Faculdade Newton Paiva, em Belo Horizonte. O objetivo da apresentação foi mostrar como é possível integrar as etapas de coleta, tratamento, análise e apresentação de dados através de uma linguagem de programação como o R. Para ter acesso aos slides da apresentação, clique aqui. Ainda não conhece o R? Veja nosso novíssimo curso de Introdução ao R para Análise de Dados.

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