O dilema de viés e variância em modelos preditivos

Modelos muito simples ou muito complexos podem gerar previsões com alto viés ou alta variância. A grande tarefa de quem trabalha com modelos preditivos é explorar uma especificação de modelo de modo a minimizar o erro de previsão, mas sem cair nestes dois extremos, o que pode ser desafiador. Neste artigo apresentamos estes conceitos e mostramos como analisar ajustes e previsões de modelos de modo a compreender o trade-off entre viés e variância.

O dilema de viés e variância explica um resultado que contraria a intuição: o modelo que melhor reproduz os dados históricos costuma ser o que pior prevê o futuro. Neste tutorial, estimamos dois modelos deliberadamente opostos para o emprego formal brasileiro e medimos o erro de cada um dentro e fora da amostra.

O resultado é direto. Na amostra de treino, a suavização exponencial erra uma fração do que erra o modelo de tendência linear, uma vantagem de mais de uma ordem de grandeza. Nos 12 meses seguintes, que nenhum modelo viu, a ordem se inverte: o modelo que vencia no treino passa a errar mais que o concorrente.

Barras do RMSE mostrando o dilema de viés e variância: o modelo com menor erro no treino tem o maior erro no teste
Raiz do erro quadrático médio dos dois modelos, em milhares de empregos. A ordem se inverte entre treino e teste. Fonte: CAGED/ME, via BCB/SGS.

A inversão não é acaso nem defeito de implementação. Ela decorre de um dilema estrutural entre duas fontes de erro, e quem o ignora escolhe modelo pelo desempenho no passado, que é justamente o critério que falha.

Código do exercício

O código com a decomposição do erro entre viés e variância, com os modelos comparados fora da amostra está disponível em:

Acessar o código →

De onde vem o erro de previsão

Todo modelo erra, e a pergunta relevante é de onde vem esse erro, porque cada fonte exige um remédio diferente. O erro quadrático médio de previsão se decompõe em três parcelas, e cada uma tem leitura concreta.

🎯

Viés
O erro sistemático de um modelo simples demais para a relação verdadeira. Mais dados não o corrigem.

📉

Variância
O quanto as estimativas mudariam em outra amostra. Modelos flexíveis acompanham o ruído e ficam instáveis.

🎲

Erro irredutível
A parcela aleatória do próprio fenômeno. Estabelece o piso do erro possível.

O viés mede o quanto o modelo erra sistematicamente por ser simples demais. Um modelo que só traça retas sobre um fenômeno curvo erra sempre para o mesmo lado em certas regiões, e ampliar a amostra não resolve.

A variância mede o quanto as estimativas mudariam se o modelo fosse reestimado em outra amostra do mesmo fenômeno. Um modelo flexível demais acompanha o ruído da amostra de treino, e por isso se comporta de forma instável fora dela.

O erro irredutível é a aleatoriedade do fenômeno, que nenhum modelo elimina.

Por que reduzir um aumenta o outro

As duas primeiras parcelas se movem em direções opostas conforme a complexidade aumenta. Modelos simples têm alto viés e baixa variância: erram sistematicamente, mas erram de forma parecida em qualquer amostra. Modelos complexos têm baixo viés e alta variância: reproduzem o passado com precisão, ruído incluído, e por isso variam bastante de uma amostra para outra.

Os nomes usuais dos dois extremos são sub-ajuste, quando o viés domina, e sobreajuste, quando a variância domina. Daí decorre a prática de separar os dados: o ajuste dentro da amostra não mede a qualidade preditiva, e a avaliação precisa usar observações que o modelo não viu.

Dois modelos nos extremos

Os dados são o estoque de empregos formais no setor de serviços, apurado pelo CAGED e disponibilizado pelo Banco Central. São observações mensais desde 1992, com tendência clara de longo prazo e oscilações de curto prazo, incluindo a quebra da pandemia. Os últimos 12 meses ficaram de fora da estimação, reservados para o teste.

O MQO com tendência linear ajusta uma única reta a trinta anos de dados. Tem dois parâmetros e nenhuma capacidade de acompanhar oscilações, o que o coloca no extremo do sub-ajuste.

A suavização exponencial atribui pesos decrescentes às observações passadas, com peso maior nas mais recentes. Ela acompanha de perto cada movimento da série, o que a coloca no extremo do sobreajuste.

Série do estoque de empregos formais em serviços com o ajuste do MQO e da suavização exponencial
Dentro da amostra, a suavização exponencial se confunde com a série observada, enquanto a reta do MQO passa longe em quase todo o período. Fonte: CAGED/ME, via BCB/SGS.

Por esse gráfico, a escolha pareceria óbvia. O modelo laranja reproduz a série quase perfeitamente; o azul erra por milhões de empregos durante décadas.

O teste nos dados que o modelo não viu

O critério de decisão é outro: o desempenho nos dados reservados. Os dois modelos preveem os 12 meses guardados, e a comparação com o observado inverte o veredito.

Previsões do MQO e da suavização exponencial nos 12 meses de teste, comparadas ao observado
Nos 12 meses de teste, a suavização exponencial projeta uma linha praticamente horizontal, enquanto o MQO acompanha a direção do movimento. Fonte: CAGED/ME, via BCB/SGS.

A suavização exponencial ajustada projeta um nível quase constante, porque o componente que ela extraiu da série é o valor recente, e não a inclinação. O MQO, apesar de ignorar todas as oscilações históricas, capturou a única informação que se manteve válida no período seguinte: a série continua subindo.

Amostra Modelo RMSE (mil empregos)
Treino MQO (sub-ajuste) 1.039,5
Treino ETS (sobreajuste) 72,2
Teste MQO (sub-ajuste) 485,4
Teste ETS (sobreajuste) 869,7

Raiz do erro quadrático médio por modelo e amostra. Fonte: CAGED/ME, via BCB/SGS.

A métrica é a raiz do erro quadrático médio: a raiz da média dos erros ao quadrado. Elevar ao quadrado impede que erros positivos e negativos se cancelem e penaliza mais os erros grandes; a raiz devolve o resultado à unidade original, aqui o número de empregos.

Variando a complexidade de forma gradual

Os dois modelos são pontos nos extremos do trade-off. Para observar o comportamento intermediário, o exercício ajusta polinômios de tendência de grau 1, uma reta, até grau 15, uma curva capaz de contorcer-se bastante, medindo o erro em cada amostra.

Erro de treino e de teste conforme o grau do polinômio de tendência, em escala logarítmica
RMSE por grau do polinômio, em escala logarítmica. O erro de treino cai de forma monótona; o de teste dispara a partir do grau 10. Fonte: CAGED/ME, via BCB/SGS.

O erro de treino cai de forma monótona conforme o modelo ganha flexibilidade, porque um modelo mais flexível sempre reproduz melhor o passado. O erro de teste segue outro caminho: oscila e, a partir do grau 10, dispara, chegando a superar em quinze vezes o erro do modelo mais simples.

A instabilidade dos graus altos tem duas origens. Uma é a variância do dilema, com o modelo perseguindo ruído da amostra de treino. A outra é o comportamento dos polinômios de grau elevado fora do intervalo em que foram estimados, onde crescem ou despencam com rapidez. As duas empurram o erro de previsão na mesma direção.

As ferramentas por trás

Logo do Python
Python — a linguagem do exercício, com quatro pacotes: o python-bcb coleta a série; o statsmodels estima os modelos e calcula o RMSE; o pandas organiza os dados; o plotnine desenha os gráficos.
Logo do Banco Central do Brasil
CAGED, via Banco Central — o estoque de empregos formais em serviços, série 28772 do SGS, pública e sem cadastro.

O que o exercício revela

  • Ajuste histórico não é critério de escolha. A vantagem de catorze vezes do ETS no treino virou desvantagem de quase duas vezes no teste.
  • O sobreajuste tem uma assinatura reconhecível. Erro muito baixo no treino e muito alto no teste é o padrão que denuncia o modelo que decorou a amostra.
  • Complexidade não é qualidade. O polinômio de grau mais alto reproduz o passado muito melhor que a reta e prevê o futuro pior que ela.
  • A separação treino e teste é o instrumento. Sem guardar dados fora da estimação, nenhuma das conclusões acima seria observável.

Veja o exercício rodando em vídeo

A aula abaixo percorre as mesmas etapas deste guia, com o código rodando na tela.

A decomposição do erro, com os modelos comparados fora da amostra.

Considerações finais

O exercício mostrou o dilema em números. Dentro da amostra, o modelo flexível acompanha a série quase perfeitamente e o modelo rígido passa longe. Fora da amostra, a ordem se altera, e um critério de escolha baseado no ajuste histórico levaria ao modelo errado.

O raciocínio se aplica a qualquer modelo preditivo, de uma regressão simples a uma rede neural, e dele derivam práticas como validação cruzada, regularização e separação de amostras:

  • Cientistas de dados: o dilema é o que justifica validação cruzada e regularização, e reconhecer a assinatura do sobreajuste é rotina de qualquer pipeline preditivo.
  • Economistas: modelos macroeconométricos com muitos parâmetros ajustam bem o histórico e falham na previsão, e a avaliação fora da amostra é o que distingue os dois casos.
  • Profissionais de mercado financeiro: estratégias calibradas em dados passados sofrem exatamente desse problema, e o backtest que ignora a separação de amostras produz retorno ilusório.
  • Pesquisadores e estudantes: a decomposição do erro é a base teórica que conecta estatística clássica e aprendizado de máquina.

Em todas elas a decisão é a mesma: escolher a complexidade pelo erro fora da amostra, não pelo ajuste aos dados já observados.

Você viu o dilema; aprenda a escolher o modelo certo

Da avaliação fora da amostra à modelagem e previsão de séries econômicas, com Python aplicado a dados reais desde a primeira aula. Quem quer acesso a todas as formações tem o AM Black, a assinatura anual.

Conheça a formação →Ver o AM Black →

Leia também:

 

Compartilhe esse artigo

Facebook
Twitter
LinkedIn
WhatsApp
Telegram
Email
Print
Análise Macro © 2011 / 2026

comercial@analisemacro.com.br – Rua Visconde de Pirajá, 414, Sala 718
Ipanema, Rio de Janeiro – RJ – CEP: 22410-002

como podemos ajudar?

Preencha os seus dados abaixo e fale conosco no WhatsApp