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Resenhas de Conjuntura Econômica

Slides da 2ª aula do Curso de Análise de Conjuntura usando o R

By | Cursos da Análise Macro, Resenhas de Conjuntura Econômica

Amanhã, 15/07, os alunos do Curso de Análise de Conjuntura usando o R terão acesso à videoaula Fundamentos Macroeconômicos para Análise de ConjunturaOs slides, material escrito e lista de exercício já estão disponíveis na área restrita do curso. Ademais, todos os alunos têm acesso aos códigos que geraram o material em um repositório do  GitHub. Montar um curso inovador a preço de custo foi a forma que nós encontramos para melhorar a educação econômica no país. Ainda não se inscreveu? Não perca tempo! Ainda estamos recebendo inscrições. Clique aqui e saiba mais. Ou você vai continuar querendo entender o que Marx e Keynes disseram? 🙂

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A despeito de manifestações, governo continua culpando as estrelas

By | Resenhas de Conjuntura Econômica

Após um dia intenso de manifestações por todo o país, o governo decidiu, em uma atitude corajosa, admito, se pronunciar. O fez através dos ministros Miguel Rosseto [Secretaria-Geral da Presidência] e José Eduardo Cardozo [Ministério da Justiça]. A parte econômica da declaração desses dois ministros, em particular do ministro Miguel Rosseto, é a continuação dos argumentos da presidente Dilma Rousseff. A posição oficial do governo é continuar culpando a crise internacional e a seca por todos os problemas que estamos vivendo. Qualquer economista sério sabe, entretanto, que não é um argumento verdadeiro. Desde a quebra do banco norte-americano Lehman Brothers, em setembro de 2008, o governo brasileiro resolveu dissolver o tripé macroeconômico (câmbio flutuante, superávit primário e metas para inflação) sob o argumento de que a política econômica deveria ser anticíclica. Fez assim uso intensivo do orçamento público, do Banco Central e dos bancos públicos para tentar amenizar os efeitos da crise que ocorria, primeiramente, nos Estados Unidos e, posteriormente, na Europa. Deu certo?

Sou da opinião que não deu certo. Alguns economistas argumentam que o crescimento de 7,6% em 2010 é um sinal de que as políticas anticíclicas tiveram retumbante sucesso em enfrentar os efeitos da crise. O problema, argumento, é que esse crescimento é superior a qualquer medida de crescimento potencial da economia brasileira. Logo, se você cresce acima de seu potencial, isso deve ser encarado mais como excesso de estímulos do que propriamente acerto das medidas utilizadas. E esse excesso é justamente o que causaria os desequilíbrios posteriores na economia brasileira.

Como consequência direta dos incentivos de política econômica, ao final de 2010, o desemprego rodava próximo a 5,5%, abaixo de qualquer medida de desemprego natural. Nesse nível, os salários cresciam acima da produtividade da economia, o que fez com que a inflação se mantivesse pressionada. Notadamente a inflação de serviços, grupo intensivo em mão de obra.

Mesmo a despeito da pressão vinda do mercado de trabalho, recorrentemente reconhecida nas atas do Comitê de Política Monetária, o Banco Central resolveu baixar juros a partir de agosto de 2011. Tal procedimento levou a taxa de juros real [taxa nominal descontada da expectativa de inflação] para menos de 2% em 2012, o que se constituiu em forte expansionismo monetário. Ou seja, leitor, se hoje a inflação acumulada em 12 meses medida pelo IPCA roda próxima a 8%, a culpa é de quem deveria controlá-la, do Banco Central. Não se pode, desse modo, culpar problemas climáticos, choques de preços administrados ou qualquer outro componente pela trajetória ascendente dos preços, ainda que estes tenham sua contribuição. Inflação é um aumento generalizado, persistente e assincrônico de preços, logo está associado a uma causa única: à condução da política econômica.

Observe, nesse contexto, que mesmo com pleno emprego no mercado de trabalho, o governo insistiu na política econômica expansionista. Ao lado da política monetária conduzida pelo Banco Central, a política fiscal [o orçamento público] e parafiscal [bancos públicos] foram sempre orientadas de forma a tentar incentivar consumo e investimento. Deu certo para o consumo, que era de 58,9% do PIB em 2008 e passou para 63,2% em 2014; não deu certo para o investimento, que caiu de 19,1% em 2008 para 17,2% em 2014.

O aumento do consumo, possibilitado via crescimento dos salários e aumento do crédito, gerou maior endividamento das famílias. Já o maior intervencionismo do governo na economia gerou maior imprevisibilidade e causou a redução do investimento. Ou seja, quando as pessoas consomem mais e as empresas investem menos, não é difícil notar que a inflação irá aumentar. Ademais, o aumento do consumo reduziu a poupança em tal montante, que mesmo com a queda do investimento houve pressão sobre a conta corrente, gerando assim o aumento do déficit. A política anticíclica irresponsável, que o governo fez questão de defender uma vez mais nesse domingo, produziu, desse modo, mais inflação e mais déficit em conta corrente, arruinando as contas públicas e a credibilidade do Banco Central.

Todos os incentivos de política econômica não foram suficientes para despertar o tal espírito animal dos empresários, como queria o governo. Isto porque, a economia vive com pleno emprego e tem restrições para gerar crescimento via aumento de investimento ou produtividade - os outros dois fatores que geram crescimento. Logo, o melhor a fazer nessa situação [está no manual!] era tentar retirar tais obstáculos, via reformas tributária, trabalhista, do judiciário, do ambiente de negócios, do marco regulatório para a infraestrutura, etc. Era preciso tornar o ambiente de negócios mais previsível e não cheio de incertezas vindas das intervenções sem pé nem cabeça. Era necessário levantar e aprovar medidas que afetassem o lado da oferta de bens e serviços e não da demanda.

O governo errou ao incentivar a demanda simplesmente porque seus economistas não conseguiram perceber o pleno emprego no mercado de trabalho - ou não entendem a implicação disso para a macroeconomia. O diagnóstico de que faltava demanda é fruto de uma interpretação keynesiana e desenvolvimentista rasteira, que ademais não incorpora as contribuições dos últimos 50 anos na teoria econômica. Nesse aspecto, me parece que nem o governo, nem os economistas que o assessoraram, reconhecem esse erro de diagnóstico. E esse é o principal problema entre o discurso do governo e a realidade, cada vez mais captada pelas pessoas, sejam elas eleitores ou não de Dilma Rousseff - afinal, a inflação, por exemplo, afeta a todos. O governo continua culpando as estrelas, enquanto as pessoas apontam seus dedos para o governo, por todos os problemas que vivemos.

Update: Ademais, e esse ponto é crucial, por que o governo não debateu seriamente com a sociedade todas as dificuldades da economia brasileira na campanha eleitoral? Por que não mostrou a necessidade de um ajuste fiscal? Por que não mostrou a necessidade de elevar as tarifas de energia elétrica? Por que não mostrou a necessidade de subida dos juros? Por que não mostrou os riscos de um duplo racionamento de água e energia? Por que preferiu mentir e acusar a oposição de querer fazer as coisas que hoje faz? Todas essas perguntas, hoje com respostas um pouco mais claras para os não economistas, gera insatisfação e conflito. Esses desequilíbrios, causados pela política macro [e pelas intervenções na microeconomia, que não ataquei aqui], é que estão levando as pessoas para a rua. Tenham elas votado na oposição ou na própria presidente. Negar isso, nesse momento, não faz parte da solução: só aumenta o problema.

Update 2: Não é de hoje que o governo culpa as estrelas, veja aqui.

Update 3: Roberto Ellery dá sua contribuição para o problema aqui.

A estagflação heterodoxa

By | Resenhas de Conjuntura Econômica

estagflacaoNão foi por acaso, leitor, que chegamos ao 7x0, mostrado no boletim Focus divulgado hoje: 7,15% de inflação e 0% de crescimento. Nos últimos anos, uma vez mais, fizemos experimentação. Usando teoria velha e com um monte de evidências empíricas contrárias, insistimos em política econômica expansionista. Usamos a política fiscal, os bancos públicos e a política monetária para incentivar os componentes da demanda agregada. Como, entretanto, a economia brasileira está sujeita a inúmeros constrangimentos no lado da oferta agregada, a manutenção de oferta e demanda crescendo a taxas diferentes gerou mais inflação e mais déficit em conta corrente. E, claro, quando os componentes da demanda, consumo principalmente, cansaram, dado a redução da taxa de crescimento dos salários e, principalmente, o maior endividamento das famílias, o crescimento insustentável da economia deixou de ser vistoso. Esse quadro, aliás, perpassou os últimos cinco anos. Logo, não é novidade alguma. E também não é por outro motivo que o atual ministro da fazenda é Joaquim Levy, um economista que é contrário a tudo o que foi feito nos últimos anos. Ao invés, portanto, de críticas ao atual ajuste fiscal, alguns economistas deveriam explicar por que, uma vez mais, o que eles dizem estava errado: um pouquinho mais de inflação não gerou mais crescimento... 🙁

Sobre economistas traídos e os próximos passos de Levy

By | Resenhas de Conjuntura Econômica

Recebi com conforto, confesso logo de início, a tão comentada entrevista do professor Belluzzo ao jornal Estado de SP. Afinal, após os dissabores da campanha eleitoral ordinária - e por que não, mequetrefe - que tivemos no ano passado, é mesmo de acalmar a alma ver economistas como o professor e tantos outros, como o também professor João Sicsú, se sentindo indignados. O motivo, pode perguntar o leitor menos atento. Respondo, claro: Joaquim Levy. Sim, a representação atual de todos os medos e críticas da heterodoxia brasileira.

A entrevista do professor Belluzzo foi um primor. Exagero até que foi a expressão simbólica de todos os economistas que hoje se sentem traídos pela presidente. Afinal, após as inúmeras batalhas que esses economistas foram obrigados a ter com seus oponentes - o grupo de, surpresa, Joaquim Levy -, nada mais justo que esperassem ansiosos pelo louros da vitória nas urnas - ou, em miúdos, um ministério da fazenda para chamarem de seu. Com, claro, uma política econômica no segundo mandato que mantivesse os pilares da do primeiro. Arrisco: uma "nova matriz econômica 2.0"?

Pois é, não foi o caminho que a presidente escolheu seguir. Levy, afinal, é uma tentativa descarada - e sem vergonha? - de se manter no poder por tempo ilimitado. Manter o projeto de poder do PT, como disse outro dia o economista Eduardo Giannetti. Ou, como escreveu romanticamente o professor Sicsú, "o início do segundo governo Dilma indica que o pragmatismo de governabilidade venceu os sonhos e a história do PT". Para tanto, leitor amigo, "vale, vale tudo", como cantava magistralmente o gênio Tim Maia. Vale até trair os economistas-companheiros?

Ao que parece, sim. E contra isso, um monte de críticas, afinal, agora, os economistas-companheiros foram para a oposição. Um caso curioso, diga-se, em que os economistas que ajudaram a eleger o governo se opõem à política econômica que está sendo gestada. Coisas do Brasil...

Belluzzo, por exemplo, critica o ajuste fiscal. Diz, inclusive, que "a situação fiscal não é o desastre que apontam". Em miúdos, o déficit nominal próximo a 6% do PIB é coisa boba, leitor, diz o professor. Claro que não explica por que é necessário fazer o tal ajuste, em meio às desonerações e subsídios que foram dados nos últimos anos. Sempre sob influência sua e dos economistas ligados a sua linha de pensamento. Filho feio, leitor, é sempre um orfão...

A necessidade do ajuste existe e contra isso, Belluzzo e demais podem espernear, mas em algum momento haverão de concordar. O problema que se impõe ao governo é que o ajuste precisaria ser feito mais pelo lado do gasto - sim, com 39 ministérios, milhares de cargos comissionados e projetos que andam a passos de cágado, você não acha que se deve cortar? - e menos pelo lado da receita. Sabíamos todos que algum aumento de impostos era de se esperar, mas torcemos para que Levy consiga "cortar na carne". A tarefa é hérculea, claro, em um governo acostumado a distribuir benesses para alguns privilegiados...

Levy conseguirá? A parte "simples" ele fez: conseguiu estruturar pouco mais de R$ 40 bilhões no primeiro mês de gestão, com aumento de impostos e maior rigidez na concessão de benefícios sociais. A parte difícil do problema será convencer os outros 38 ministros a pisarem no freio - além, é claro, da própria presidente.

Enquanto esperamos pelos próximos passos de Levy, o melhor a fazer é assistir [com vista privilegiada, por que não?] ao ataque de nervos dos economistas-companheiros... 🙂

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