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Inflação

Inflação está próxima ao piso do regime de metas

By | Inflação

O Brasil opera desde 1999 o regime de metas para inflação - conhecido no mundo como Inflation Target -, donde o objetivo explícito do Banco Central é conduzir a política monetária de modo a manter a inflação próxima a uma meta previamente estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional. Nesse regime, há uma meta explícita e bandas de tolerânciaque servem para acomodar choques diversos que ocorrem sobre a inflação ao longo do tempo. De modo a ilustrar a operação do regime de metas no Brasil, podemos construir um gráfico com a inflação, os núcleos de inflação, a meta e as bandas de tolerância.

O gráfico acima mostra todas essas variáveis e o último dado disponível para a inflação cheia, que fechou em 2,89% no acumulado em 12 meses até setembro. O piso da meta é de 2,75%, considerando 1,5 pontos percentuais de tolerância para mais ou menos em torno da meta de 4,25% para esse ano. Como se pode ver no gráfico, a inflação cheia flerta nesse momento com o piso do regime de metas.

O caminho para uma taxa básica nominal de juros de 4,5% no final do ano está aberto. Na verdade, não é mais nem um caminho: é uma avenida!

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(*) O código para o gráfico estará disponível logo mais no Clube do Código.

Analisando a deflação de setembro com o R

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Ontem, o IBGE divulgou a inflação medida pelo IPCA em setembro. O resultado surpreendeu, com uma deflação de 0,04% em um mês onde tipicamente a inflação é positiva, dada a sazonalidade da mesma. De modo a investigar esse comportamento atípico, podemos plotar em um gráfico a inflação para os meses de setembro de vários anos. Usando o R, o script começa carregando alguns pacotes.


# Pacotes
library(tsutils)
library(ggplot2)
library(scales)
library(sidrar)

A partir do pacote sidrar, nós obtemos o número-índice do IPCA e depois a variação mensal do índice, que é a inflação.


## Criar Inflação mensal
ipca_indice = get_sidra(api='/t/1737/n1/all/v/2266/p/all/d/v2266%2013')
ipca_indice = ts(ipca_indice$Valor, start=c(1979,12), freq=12)
ipca_mensal = round((ipca_indice/stats::lag(ipca_indice,-1)-1)*100,2)

De posse da inflação, nós pegamos agora uma subamostra desde 1995.


## Criar amostras
ipca_mensal_subamostra = window(ipca_mensal, start=c(1995,01))

Agora, usando a função seas do pacote tsutils, nós agrupamos a inflação por meses e pegamos apenas os meses de setembro de cada ano.


# Criando e guardando gráfico de sazonalidade
seas <- seasplot(ipca_mensal_subamostra, trend=F, outplot = 3)
setembro <- as.numeric(seas$season[,9])
time <- seq(as.Date('1995-09-01'), as.Date('2019-09-01'), by='1 year')
df <- data.frame(time=time, setembro=setembro)

E por fim, geramos um gráfico com apenas os meses de setembro com o código abaixo.


# Gráfico
ggplot(df, aes(x=time, y=setembro))+
geom_bar(stat='identity', fill='darkblue', colour='darkblue')+
geom_text(aes(label=setembro), size=3,
fontface='bold',
position = position_dodge(width = 2),
hjust=0.5, vjust=ifelse(setembro>0,-0.7,1),
shape=21, colour=ifelse(setembro>0,"black", 'red'))+
theme(axis.text.x=element_text(angle=45, hjust=1))+
scale_x_date(labels = date_format("%b/%Y"),
breaks = time)+
labs(x='',y='% a.m.',
title='Inflação medida pelo IPCA em setembro',
caption='Fonte: analisemacro.com.br')

E o gráfico...

Como podemos ver, desde 1995, essa foi a segunda deflação que tivemos no mês de setembro. Tipicamente, a inflação se acelera no segundo semestre, de modo que os meses de setembro são marcados por variações positivas. A seguir, coloco um gráfico que deixa claro a sazonalidade da inflação.


# ggseasonplot
ipca_mensal_subamostra_2 = window(ipca_mensal, start=c(2007,01))
ggsubseriesplot(ipca_mensal_subamostra_2)+
labs(x='', y='% a.m.',
title='Sazonalidade da inflação medida pelo IPCA',
caption='Fonte: analisemacro.com.br')

Em outras palavras, parece que o hiato do produto negativo está tendo impacto sobre o cenário inflacionário, diante de uma política monetária muito bem conduzida pelo Banco Central nos últimos anos.

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Inflação no Brasil vs. Inflação nos Estados Unidos: você sabe a diferença?

By | Inflação

O leitor mais frequente desse espaço já deve ter notado que um dos meus temas favoritos em economia é inflação e política monetária. De fato, tanto minha monografia quanto a dissertação foram em política monetária, envolvendo exercícios econométricos na área. Isso dito, confesso que ainda me espanta (certamente, a essa altura, não deveria) que alguns economistas brasileiros advoguem pelo surrado um pouquinho mais de inflação por um pouquinho mais de crescimento. Sabemos, há mais de cinquenta anos, desde o trabalho seminal de Friedman, que não existe uma troca permanente e estável entre inflação e crescimento (ou menos desemprego).

O entendimento disso, a propósito, é o que difere a política econômica e, com efeito, a inflação entre os países. Economias onde a política monetária tem como único objetivo a estabilidade do poder de compra da moeda são economias com inflação mais baixa. Já países onde os Bancos Centrais ainda insistem em explorar aquele trade-off de curto prazo entre inflação e crescimento, são países onde a inflação será mais elevada.

Para ilustrar, vamos comparar a inflação norte-americana com a inflação brasileira. Nos Estados Unidos, desde a passagem de Paul Volcker pelo Federal Reserve, o Banco Central deles, vale o princípio de Taylor, isto é, na ocorrência de um desvio da inflação em relação à meta, os juros aumentam mais do que proporcionalmente. Isso garante que a inflação não persiga uma trajetória explosiva. Já no Brasil, como sabe o leitor doméstico, nem sempre é assim, não é mesmo?

O resultado esperado dessa postura é que a inflação norte-americana será mais baixa do que a brasileira. Para ver se é isso mesmo, vamos tomar os índices de inflação dos dois países. O código de R (saiba mais sobre R aqui ) abaixo coleta os dados a partir da base de dados quantmod para o CPI norte-americano e do IPEADATA para o IPCA brasileiro.


library(quantmod)
library(ecoseries)

getSymbols('CPIAUCSL', src = "FRED")

cpi.eua = window(ts(CPIAUCSL, start=c(1947,01), freq=12),
start=c(1994,07))

ipca = window(ts(series_ipeadata('36482', 
periodicity = 'M')$serie_36482$valor,
start=c(1979,12), freq=12), start=c(1994,07))

Tomamos o CPI norte-americano e o IPCA brasileiro desde julho de 1994, quando a economia brasileira passou a conviver com um processo inflacionário estacionário. Os gráficos abaixo ilustram os dois índices.

Ao comparar os índices, observe que não há muita diferença entre eles. Ambos apresentam uma tendência positiva ao longo do tempo, evidenciando que os preços tendem a subir ao longo do tempo. A grande questão aqui é saber em qual velocidade os preços sobem. É basicamente isso que vai garantir o tal poder de compra de uma moeda ao longo do tempo. Economias onde a inflação, a velocidade em que os preços sobem, é muita alta, serão economias onde o poder de compra da moeda não se manterá ao longo do tempo, fazendo com que suas populações busquem alternativas para manter esse poder de compra.

Assim, apesar dos índices de inflação dos dois países apresentarem um comportamento, digamos, bastante similar, a velocidade em que crescem será bastante diferente. Para que você veja, o código abaixo traz a inflação acumulada nos dois países, medida pelos respectivos índices, entre julho de 1994 e junho de 2018.


(tail(cpi.eua,1)/head(cpi.eua,1)-1)*100
(tail(ipca,1)/head(ipca,1)-1)*100

O resultado não deixa de ser surpreendente. Enquanto nos Estados Unidos, a inflação acumulada nesse período foi de 69,04%, no Brasil ela foi de incríveis 450,74%. Se, alternativamente, tomarmos o período a partir de julho de 1999, quando passou a vigorar no Brasil o regime de metas para inflação, o resultado fica inflação de 50,48% nos EUA e de 229,17% no Brasil. Para todos as janelas que se tomar, a propósito, o resultado vai ser o mesmo: uma goleada de inflação por aqui.

Isso, como eu disse no início desse post, não é por acaso. Nos Estados Unidos, o Banco Central é independente, não há ingerência política sobre o presidente do FED e seus diretores. E a despeito deles terem um duplo mandato, isto é, baixa inflação e baixo desemprego, não existe uma "meta de desemprego", o que seria algo estranho considerando a teoria econômica, mas sim uma meta implícita de inflação de 2% ao ano. Já no Brasil, as instituições monetárias ainda são muito frágeis. O próprio regime de metas está baseado em um decreto, que pode ser revogado a qualquer momento. O presidente e os diretores do Banco Central não têm autonomia formal para seguir o princípio de Taylor. E, pasmem, quando se quer reduzir a meta para 3,75%, um valor alto considerando países civilizados, há uma gritaria grande entre economistas mal treinados que assessoram candidatos à presidência! Essa diferença institucional, por suposto, vai gerar aqueles resultados de inflação acumulada.

Não seria extraordinário se essa lição fosse aprendida pelo nosso país?

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ps: Hoje, 31 de julho, Milton Friedman faria 106 anos se vivo fosse. O post é uma homenagem a ele... 🙂 

 

As três grandes desinflações do Plano Real

By | Inflação

A inflação medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) terminou 2017 em 2,95%, a segunda menor desde a implantação do Plano Real, em 1994. Ela encerra também um dos três grandes processos de desinflação desde o advento do plano. A primeira ocorreu entre 1994 e 1998, quando a inflação saiu de inacreditáveis 916,46% no acumulado em doze meses até dezembro de 1994 e terminou em dezembro de 1998 em 1,65%. A segunda ocorreu entre 2002 e 2006, quando a inflação saiu de 12,53% para 3,14%. Nesse último, a inflação foi a 10,67% em 2015, retornando a patamares civilizados em dezembro último. O código e o gráfico abaixo ilustram esses três períodos.


library(ggplot2)
library(scales)
library(BETS)
library(TStools)

infanual = BETS.get(13522, from='1994-12-01')

seas = seasplot(infanual, trend=F, outplot = 3)

dezembro = as.numeric(seas$season[,12])

dezembro = dezembro[-length(dezembro)]

time = seq(as.Date('1995-01-01'), as.Date('2017-01-01'), by='1 year')

df1 = data.frame(time=time, dezembro=dezembro)

# Gráfico
ggplot(df1, aes(time, dezembro))+
 annotate("rect", fill = "orange", alpha = 0.2, 
 xmin = as.Date('1994-06-01'), 
 xmax = as.Date('1998-06-01'),
 ymin = -Inf, ymax = Inf)+
 annotate("rect", fill = "red", alpha = 0.2, 
 xmin = as.Date('2001-06-01'), 
 xmax = as.Date('2006-06-01'),
 ymin = -Inf, ymax = Inf)+
 annotate("rect", fill = "blue", alpha = 0.2, 
 xmin = as.Date('2014-06-01'), 
 xmax = as.Date('2017-06-01'),
 ymin = -Inf, ymax = Inf)+
 geom_bar(stat='identity', fill='darkblue', width = 200)+
 geom_text(aes(label=round(dezembro,2)), colour='red', 
 vjust=ifelse(dezembro \&gt;= 0, -0.4, 1),
 size=3)+
 xlab('')+ylab('% a.a.')+
 labs(title='Inflação anual medida pelo IPCA',
 caption='Fonte: analisemacro.com.br com dados do IBGE.')+
 scale_x_date(breaks = date_breaks("1 years"),
 labels = date_format("%Y"))+
 theme(axis.text.x=element_text(angle=45, hjust=1))

Tomare que não precisemos de um quarto grande processo desinflacionário, não é mesmo, leitor? 🙂

Inflação de custos vs. Inflação de demanda: onde foi que a heterodoxia se perdeu?

By | Inflação

Inflação se combate com política monetária. Ponto pacífico na literatura e na prática dos bancos centrais, mundo a fora. Infelizmente, no Brasil, há um grupo de economistas alternativos, descolados demais para utilizar os modelos caretas aceitos no mundo todo, que pregam outra explicação para o processo inflacionário. Eles acreditam que a inflação brasileira seria eminentemente e na maior parte do tempo de custos, provocada, por exemplo, por preços administrados, por uma safra menor de alimentos, ou, os mais ousados, pela economia excessivamente oligopolizada. Se é esse o quadro, dizem esses economistas, a inflação não deve ser combatida com juros, um instrumento que atua basicamente sobre a demanda - e que deveria ser utilizada apenas para conter inflação de demanda. Qual é o equívoco com esse argumento, leitor?

Para explicar o equívoco com esse tipo de argumento, vamos considerar um modelo de quatro equações como abaixo:

(1)   \begin{align*} \text{Curva IS}& \quad h_{t} = \beta_{0} - \beta_{1}(i_{t} - E_{t}\pi_{t+1} - r^*) + \beta_{2}\Psi_{t-1} + \varepsilon_{t}^{d}  \end{align*}

 

(2)   \begin{align*} \text{Curva de Phillips}& \quad \pi_{t} = \alpha_{0} + \alpha_{1}\pi_{t-1} + \alpha_{2}E_{t}\pi_{t+1} + \alpha_{3}h_{t-1} + \alpha_{4}\Delta\epsilon_{t} + \varepsilon_{t}^{s}  \end{align*}

(3)   \begin{align*} \text{PTJ}& \quad \Delta\epsilon_{t} = \phi_{0} - \phi_{1}(i_{t} - i_{t}^*) + \phi_{2}x_{t} + \varepsilon_{t}^{e}   \end{align*}

(4)   \begin{align*} \text{Regra de Taylor}& \quad  i_{t} = \omega_{0} + \omega_{1}i_{t-1} + \omega_{2}(E_{t}\pi_{t+1} - \pi^*) + \omega_{3}h_{t} + \omega_{4}\Delta\epsilon_{t} + \varepsilon_{t}^{bcb}  \end{align*}

Para um detalhamento desse modelo, consulte aqui. A Curva IS representa o lado da demanda, a Curva de Phillips representa o lado da oferta, a PTJ representa o contato com o setor externo e a Regra de Taylor diz como o Banco Central calibra os juros. A equação 2, por suposto, representa como a inflação se comporta ao longo do tempo, sendo afetada pelo componente regressivo, pelas expectativas de inflação dos agentes, pelo hiato do produto (que representa a ociosidade da economia), pela variação da taxa de câmbio e por \varepsilon_{t}^{s}, que representa choques de oferta, sendo supostamente um ruído branco. A ideia, por suposto, é que tudo o que não for explicado pelos fatores anteriores, entra em \varepsilon_{t}^{s}. Assim, uma quebra de safra, um aumento muito forte da energia elétrica, ou qualquer outro fator que os economistas alternativos chama de inflação de custos está em \varepsilon_{t}^{s}, isto é, entra como um choque de oferta.

 

Uma vez que ocorra um choque de oferta, o Banco Central não deve necessariamente reagir aos efeitos primários do mesmo, isto é, aos aumentos no preço de energia, de alimentos, etc. O que o Banco Central deve fazer, contudo, é circunscrever esse choque, evitando que haja efeitos secundários, isto é, efeitos sobre outros preços. Afinal, como qualquer pessoa sabe, energia elétrica é um insumo utilizado em todas as cadeias produtivas, logo se o preço dela aumenta, é razoável supor que haverá aumento em outros preços da economia. Alimentos, idem, assim como diversos outros bens e serviços, que são utilizados em várias cadeias produtivas.

Isso dito, não faz o menor sentido argumentar que o Banco Central não deve reagir a um choque de oferta ou à inflação de custos dos economistas alternativos. Se não o fizer, os efeitos secundários se proliferarão, bem como, o pior, as expectativas de inflação serão contaminadas, tornando mais custoso desinflacionar a economia.

Esse ponto, aliás, deveria ser muito claro depois do que ocorreu na economia brasileira. Afinal, acabamos de passar por um processo de forte aumento da inflação resultado de diversos expedientes recomendados por economistas alternativos. O governo Dilma Rousseff abdicou de controlar a inflação por meio da taxa de juros, fazendo uso do controle de preços. Não deu certo, como todos sabiam que não daria. Teve de voltar atrás, provocando um aumento de preços administrados assim que a eleição de 2014 terminou. Paralelo a esse controle artificial da inflação, as expectativas se desancoraram, fazendo aumentar a inércia inflacionária, tornando mais custosa a desinflação. Não à toa, foi só quando mudou o comando do Banco Central que a inflação começou a ceder.

Está tudo muito documentado em jornais, revistas, livros, blogs, etc. Confesso, diante de tudo isso, que acho simplesmente inexplicável que alguns economistas brasileiros continuem achando que não se deve utilizar política monetária para controlar a inflação. Diante disso, é esperar pelo próximo choque heterodoxo e pela subida da inflação e pelo stop and go no crescimento... Triste, não?

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