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Inflação

Inflação no Brasil vs. Inflação nos Estados Unidos: você sabe a diferença?

By | Inflação

O leitor mais frequente desse espaço já deve ter notado que um dos meus temas favoritos em economia é inflação e política monetária. De fato, tanto minha monografia quanto a dissertação foram em política monetária, envolvendo exercícios econométricos na área. Isso dito, confesso que ainda me espanta (certamente, a essa altura, não deveria) que alguns economistas brasileiros advoguem pelo surrado um pouquinho mais de inflação por um pouquinho mais de crescimento. Sabemos, há mais de cinquenta anos, desde o trabalho seminal de Friedman, que não existe uma troca permanente e estável entre inflação e crescimento (ou menos desemprego).

O entendimento disso, a propósito, é o que difere a política econômica e, com efeito, a inflação entre os países. Economias onde a política monetária tem como único objetivo a estabilidade do poder de compra da moeda são economias com inflação mais baixa. Já países onde os Bancos Centrais ainda insistem em explorar aquele trade-off de curto prazo entre inflação e crescimento, são países onde a inflação será mais elevada.

Para ilustrar, vamos comparar a inflação norte-americana com a inflação brasileira. Nos Estados Unidos, desde a passagem de Paul Volcker pelo Federal Reserve, o Banco Central deles, vale o princípio de Taylor, isto é, na ocorrência de um desvio da inflação em relação à meta, os juros aumentam mais do que proporcionalmente. Isso garante que a inflação não persiga uma trajetória explosiva. Já no Brasil, como sabe o leitor doméstico, nem sempre é assim, não é mesmo?

O resultado esperado dessa postura é que a inflação norte-americana será mais baixa do que a brasileira. Para ver se é isso mesmo, vamos tomar os índices de inflação dos dois países. O código de R (saiba mais sobre R aqui ) abaixo coleta os dados a partir da base de dados quantmod para o CPI norte-americano e do IPEADATA para o IPCA brasileiro.


library(quantmod)
library(ecoseries)

getSymbols('CPIAUCSL', src = "FRED")

cpi.eua = window(ts(CPIAUCSL, start=c(1947,01), freq=12),
start=c(1994,07))

ipca = window(ts(series_ipeadata('36482', 
periodicity = 'M')$serie_36482$valor,
start=c(1979,12), freq=12), start=c(1994,07))

Tomamos o CPI norte-americano e o IPCA brasileiro desde julho de 1994, quando a economia brasileira passou a conviver com um processo inflacionário estacionário. Os gráficos abaixo ilustram os dois índices.

Ao comparar os índices, observe que não há muita diferença entre eles. Ambos apresentam uma tendência positiva ao longo do tempo, evidenciando que os preços tendem a subir ao longo do tempo. A grande questão aqui é saber em qual velocidade os preços sobem. É basicamente isso que vai garantir o tal poder de compra de uma moeda ao longo do tempo. Economias onde a inflação, a velocidade em que os preços sobem, é muita alta, serão economias onde o poder de compra da moeda não se manterá ao longo do tempo, fazendo com que suas populações busquem alternativas para manter esse poder de compra.

Assim, apesar dos índices de inflação dos dois países apresentarem um comportamento, digamos, bastante similar, a velocidade em que crescem será bastante diferente. Para que você veja, o código abaixo traz a inflação acumulada nos dois países, medida pelos respectivos índices, entre julho de 1994 e junho de 2018.


(tail(cpi.eua,1)/head(cpi.eua,1)-1)*100
(tail(ipca,1)/head(ipca,1)-1)*100

O resultado não deixa de ser surpreendente. Enquanto nos Estados Unidos, a inflação acumulada nesse período foi de 69,04%, no Brasil ela foi de incríveis 450,74%. Se, alternativamente, tomarmos o período a partir de julho de 1999, quando passou a vigorar no Brasil o regime de metas para inflação, o resultado fica inflação de 50,48% nos EUA e de 229,17% no Brasil. Para todos as janelas que se tomar, a propósito, o resultado vai ser o mesmo: uma goleada de inflação por aqui.

Isso, como eu disse no início desse post, não é por acaso. Nos Estados Unidos, o Banco Central é independente, não há ingerência política sobre o presidente do FED e seus diretores. E a despeito deles terem um duplo mandato, isto é, baixa inflação e baixo desemprego, não existe uma "meta de desemprego", o que seria algo estranho considerando a teoria econômica, mas sim uma meta implícita de inflação de 2% ao ano. Já no Brasil, as instituições monetárias ainda são muito frágeis. O próprio regime de metas está baseado em um decreto, que pode ser revogado a qualquer momento. O presidente e os diretores do Banco Central não têm autonomia formal para seguir o princípio de Taylor. E, pasmem, quando se quer reduzir a meta para 3,75%, um valor alto considerando países civilizados, há uma gritaria grande entre economistas mal treinados que assessoram candidatos à presidência! Essa diferença institucional, por suposto, vai gerar aqueles resultados de inflação acumulada.

Não seria extraordinário se essa lição fosse aprendida pelo nosso país?

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ps: Hoje, 31 de julho, Milton Friedman faria 106 anos se vivo fosse. O post é uma homenagem a ele... 🙂 

 

As três grandes desinflações do Plano Real

By | Inflação

A inflação medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) terminou 2017 em 2,95%, a segunda menor desde a implantação do Plano Real, em 1994. Ela encerra também um dos três grandes processos de desinflação desde o advento do plano. A primeira ocorreu entre 1994 e 1998, quando a inflação saiu de inacreditáveis 916,46% no acumulado em doze meses até dezembro de 1994 e terminou em dezembro de 1998 em 1,65%. A segunda ocorreu entre 2002 e 2006, quando a inflação saiu de 12,53% para 3,14%. Nesse último, a inflação foi a 10,67% em 2015, retornando a patamares civilizados em dezembro último. O código e o gráfico abaixo ilustram esses três períodos.


library(ggplot2)
library(scales)
library(BETS)
library(TStools)

infanual = BETS.get(13522, from='1994-12-01')

seas = seasplot(infanual, trend=F, outplot = 3)

dezembro = as.numeric(seas$season[,12])

dezembro = dezembro[-length(dezembro)]

time = seq(as.Date('1995-01-01'), as.Date('2017-01-01'), by='1 year')

df1 = data.frame(time=time, dezembro=dezembro)

# Gráfico
ggplot(df1, aes(time, dezembro))+
 annotate("rect", fill = "orange", alpha = 0.2, 
 xmin = as.Date('1994-06-01'), 
 xmax = as.Date('1998-06-01'),
 ymin = -Inf, ymax = Inf)+
 annotate("rect", fill = "red", alpha = 0.2, 
 xmin = as.Date('2001-06-01'), 
 xmax = as.Date('2006-06-01'),
 ymin = -Inf, ymax = Inf)+
 annotate("rect", fill = "blue", alpha = 0.2, 
 xmin = as.Date('2014-06-01'), 
 xmax = as.Date('2017-06-01'),
 ymin = -Inf, ymax = Inf)+
 geom_bar(stat='identity', fill='darkblue', width = 200)+
 geom_text(aes(label=round(dezembro,2)), colour='red', 
 vjust=ifelse(dezembro \>= 0, -0.4, 1),
 size=3)+
 xlab('')+ylab('% a.a.')+
 labs(title='Inflação anual medida pelo IPCA',
 caption='Fonte: analisemacro.com.br com dados do IBGE.')+
 scale_x_date(breaks = date_breaks("1 years"),
 labels = date_format("%Y"))+
 theme(axis.text.x=element_text(angle=45, hjust=1))

Tomare que não precisemos de um quarto grande processo desinflacionário, não é mesmo, leitor? 🙂

Inflação de custos vs. Inflação de demanda: onde foi que a heterodoxia se perdeu?

By | Inflação

Inflação se combate com política monetária. Ponto pacífico na literatura e na prática dos bancos centrais, mundo a fora. Infelizmente, no Brasil, há um grupo de economistas alternativos, descolados demais para utilizar os modelos caretas aceitos no mundo todo, que pregam outra explicação para o processo inflacionário. Eles acreditam que a inflação brasileira seria eminentemente e na maior parte do tempo de custos, provocada, por exemplo, por preços administrados, por uma safra menor de alimentos, ou, os mais ousados, pela economia excessivamente oligopolizada. Se é esse o quadro, dizem esses economistas, a inflação não deve ser combatida com juros, um instrumento que atua basicamente sobre a demanda - e que deveria ser utilizada apenas para conter inflação de demanda. Qual é o equívoco com esse argumento, leitor?

Para explicar o equívoco com esse tipo de argumento, vamos considerar um modelo de quatro equações como abaixo:

(1)   \begin{align*} \text{Curva IS}& \quad h_{t} = \beta_{0} - \beta_{1}(i_{t} - E_{t}\pi_{t+1} - r^*) + \beta_{2}\Psi_{t-1} + \varepsilon_{t}^{d}  \end{align*}

 

(2)   \begin{align*} \text{Curva de Phillips}& \quad \pi_{t} = \alpha_{0} + \alpha_{1}\pi_{t-1} + \alpha_{2}E_{t}\pi_{t+1} + \alpha_{3}h_{t-1} + \alpha_{4}\Delta\epsilon_{t} + \varepsilon_{t}^{s}  \end{align*}

(3)   \begin{align*} \text{PTJ}& \quad \Delta\epsilon_{t} = \phi_{0} - \phi_{1}(i_{t} - i_{t}^*) + \phi_{2}x_{t} + \varepsilon_{t}^{e}   \end{align*}

(4)   \begin{align*} \text{Regra de Taylor}& \quad  i_{t} = \omega_{0} + \omega_{1}i_{t-1} + \omega_{2}(E_{t}\pi_{t+1} - \pi^*) + \omega_{3}h_{t} + \omega_{4}\Delta\epsilon_{t} + \varepsilon_{t}^{bcb}  \end{align*}

Para um detalhamento desse modelo, consulte aqui. A Curva IS representa o lado da demanda, a Curva de Phillips representa o lado da oferta, a PTJ representa o contato com o setor externo e a Regra de Taylor diz como o Banco Central calibra os juros. A equação 2, por suposto, representa como a inflação se comporta ao longo do tempo, sendo afetada pelo componente regressivo, pelas expectativas de inflação dos agentes, pelo hiato do produto (que representa a ociosidade da economia), pela variação da taxa de câmbio e por \varepsilon_{t}^{s}, que representa choques de oferta, sendo supostamente um ruído branco. A ideia, por suposto, é que tudo o que não for explicado pelos fatores anteriores, entra em \varepsilon_{t}^{s}. Assim, uma quebra de safra, um aumento muito forte da energia elétrica, ou qualquer outro fator que os economistas alternativos chama de inflação de custos está em \varepsilon_{t}^{s}, isto é, entra como um choque de oferta.

 

Uma vez que ocorra um choque de oferta, o Banco Central não deve necessariamente reagir aos efeitos primários do mesmo, isto é, aos aumentos no preço de energia, de alimentos, etc. O que o Banco Central deve fazer, contudo, é circunscrever esse choque, evitando que haja efeitos secundários, isto é, efeitos sobre outros preços. Afinal, como qualquer pessoa sabe, energia elétrica é um insumo utilizado em todas as cadeias produtivas, logo se o preço dela aumenta, é razoável supor que haverá aumento em outros preços da economia. Alimentos, idem, assim como diversos outros bens e serviços, que são utilizados em várias cadeias produtivas.

Isso dito, não faz o menor sentido argumentar que o Banco Central não deve reagir a um choque de oferta ou à inflação de custos dos economistas alternativos. Se não o fizer, os efeitos secundários se proliferarão, bem como, o pior, as expectativas de inflação serão contaminadas, tornando mais custoso desinflacionar a economia.

Esse ponto, aliás, deveria ser muito claro depois do que ocorreu na economia brasileira. Afinal, acabamos de passar por um processo de forte aumento da inflação resultado de diversos expedientes recomendados por economistas alternativos. O governo Dilma Rousseff abdicou de controlar a inflação por meio da taxa de juros, fazendo uso do controle de preços. Não deu certo, como todos sabiam que não daria. Teve de voltar atrás, provocando um aumento de preços administrados assim que a eleição de 2014 terminou. Paralelo a esse controle artificial da inflação, as expectativas se desancoraram, fazendo aumentar a inércia inflacionária, tornando mais custosa a desinflação. Não à toa, foi só quando mudou o comando do Banco Central que a inflação começou a ceder.

Está tudo muito documentado em jornais, revistas, livros, blogs, etc. Confesso, diante de tudo isso, que acho simplesmente inexplicável que alguns economistas brasileiros continuem achando que não se deve utilizar política monetária para controlar a inflação. Diante disso, é esperar pelo próximo choque heterodoxo e pela subida da inflação e pelo stop and go no crescimento... Triste, não?

Explicando a deflação de junho e a desinflação da economia brasileira

By | Inflação, Política Monetária
O IPCA de junho, divulgado no início desse mês, mostrou avanço de -0,23%. A número negativo, em mais de 10 anos - os três últimos, diga-se, também foram em junho, em 2003, 2005 e 2006 - suscitou um grande debate entre os economistas. Para alguns desses, esse seria o sinal inequívoco dos erros na condução da política monetária. Para outros, apenas a soma de alguns efeitos pontuais. Nesse post, divulgamos o relatório Explicando a deflação de junho, enviada para os membros do Clube do Código. Nele, abrimos o índice, de modo a visualizar os fatores que causaram essa deflação, bem como explicamos a desinflação em curso no país. Os membros do Clube, como de hábito, têm acesso a todos os códigos que geraram o relatório.

No acumulado em 12 meses, o índice fechou em 3%. Esse valor é -0.6 p.p. em relação ao de maio e de -5.84 p.p. em relação a junho do ano passado. Ademais, a difusão da inflação foi calculada em 47.18% , ante 55.23% no mesmo mês do ano anterior. É o menor valor para essa série, disponibilizada pelo Banco Central. A tabela 1 traz um resumo do comportamento do índice e dos núcleos de inflação.

IPCA vs. Núcleos de Inflação (%)
Mensal Jun/17 Mensal Jun/16 Anual Jun/17 Anual Jun/16
IPCA -0,23 0,35 3,00 8,84
Médias Aparadas com Suaviz. 0,28 0,59 4,42 8,56
Médias Aparadas sem Suaviz. 0,22 0,31 3,68 7,14
Exclusão Monit. e Adm. 0,22 0,29 3,92 6,83
Exclusão 2 0,08 0,39 4,18 7,70
Dupla Ponderação 0,24 0,49 4,32 8,43

A média da variação mensal dos cinco núcleos de inflação construídos pelo Banco Central evoluiu -0.21 p.p. na comparação interanual. Em junho de 2016, ela foi de 0.41%, enquanto em 2017 foi de 0.21%. No acumulado em 12 meses, por outro lado, a média saiu de 7.73% para 4%, mostrando que, de fato, há um processo consistente de desaceleração do processo inflacionário, mas que também o índice cheio está contaminado por choques positivos de oferta. Em particular, como se pode ver na análise desagregada abaixo, o grupo alimentos saiu de uma inflação de 12.81% em junho de 2016, no acumulado em 12 meses, para 1.12% esse ano. Esse choque de oferta positivo explica, em grande medida, a distância entre a média dos núcleos e o índice cheio, corroborando um processo consolidado de desinflação da economia brasileira. Isso, diga-se, permite uma flexibilização um pouco mais intensa do que o anteriormente previsto da política monetária nos próximos meses. Mesmo diante do caos político que vive o país.

O gráfico acima mostra o comportamento da inflação desde janeiro de 2006, quando a meta passou a ser de 4,5% e o intervalo de tolerância de dois pontos percentuais, para mais ou para menos. A área hachurada, por seu turno, destaca o arrefecimento da inflação no período recente. Desde agosto do ano passado, por suposto, o processo de desinflação tem sido intensificado. Cabe, nesse ponto, a ressalva de que a inflação brasileira não apenas tem sido persistente e crescente, como também difundida nos últimos anos. O comportamento do índice de difusão abaixo deixa isso bastante claro. Na margem, ademais, a difusão também tem caído, o que mostra um processo de desinflação consolidado.

Destacado o quadro geral da inflação no país, vamos nesse relatório destrinchar um pouco melhor o dado mensal. Como veremos a seguir, quatro pontos são chaves para explicar a inflação negativa de junho, a saber: (i) a sazonalidade favorável; (ii) mudança da bandeira tarifária da energia elétrica de vermelha para verde; (iii) queda no preço da gasolina; (iv) continuação do choque de alimentos;

A sazonalidade da inflação

Antes de tudo, é preciso explicar que o mês de junho é tradicionalmente favorável para a inflação medida pelo IPCA. O gráfico abaixo ilustra.

O gráfico acima computa o comportamento da inflação nos doze meses do ano. Observa-se que a inflação apresenta uma tendência de queda ao longo da primeira parte do ano, elevando-se na segunda parte. As linhas vermelhas, por suposto, apresentam a média da inflação em cada um dos meses. Destaca-se, assim, que a própria sazonalidade da série já explica um valor mais baixo em junho.

Análise desagregada do IPCA

O histograma abaixo traz a distribuição da variação mensal dos 373 subitens da inflação de junho. É um detalhamento da difusão, que mostra um avanço positivo em 47.18% dos subitens no mês.

Comportamento dos Grupos do IPCA

Vamos, agora, abrir o IPCA em camadas de forma a entender a inflação negativa em junho. Primeiro, vamos verificar como a desaceleração da inflação se deu entre os nove grupos do índice. A tabela 2 traz a variação mensal e acumulada em 12 meses dos grupos em junho desse ano e no ano passado.

Grupos do IPCA (%)
Mensal Jun/17 Mensal Jun/16 Anual Jun/17 Anual Jun/16
IPCA -0,23 0,35 3,00 8,84
Alimentação -0,50 0,71 1,12 12,81
Habitação -0,77 0,63 2,63 7,38
Artigos de Residência -0,07 0,26 -0,73 6,05
Vestuário 0,21 0,32 2,24 5,44
Transportes -0,52 -0,53 1,86 6,36
Comunicação 0,09 0,04 1,94 3,06
Saúde e Cuidados Pessoais 0,46 0,83 7,44 11,79
Despesas pessoais 0,33 0,35 5,30 8,12
Educação 0,08 0,11 8,00 9,14

Por essa abertura, observamos que quatro grupos apresentaram variação negativa no mês. A tabela 3, abaixo, ilustra por sua vez a contribuição dos nove grupos para o dado mensal.

Contribuição dos 9 grupos para o IPCA (p.p.)
Jun/17
IPCA Mensal -0,23
Alimentação -0,13
Habitação -0,12
Artigos de Residência 0
Vestuário 0,01
Transportes -0,09
Saúde e Cuidados Pessoais 0,05
Despesas pessoais 0,04
Educação 0
Comunicação 0

Em termos de contribuição, a deflação de junho está concentrada em três grupos: alimentos, habitação e transportes. Como introduzimos acima, existem motivos pontuais para que isso tenha ocorrido. O gráfico abaixo, por suposto, destaca a contribuição desses grupos para a deflação de junho.

Subgrupos

É possível, a propósito, detalhar o que foi visto anteriormente pelo corte dos subgrupos. A tabela a seguir resume essas contribuições.

Contribuição dos 19 subgrupos para o IPCA (p.p.)
Jun/17
IPCA Mensal -0,23
11.Alimentação no domicílio -0,16
12.Alimentação fora do domicílio 0,03
21.Encargos e manutenção 0,07
22.Combustíveis e energia -0,19
31.Móveis e utensílios 0
32.Aparelhos eletroeletrônicos 0
33.Consertos e manutenção 0
41.Roupas 0,01
42.Calçados e acessórios 0
43.Joias e bijuterias 0
44.Tecidos e armarinho 0
51.Transportes -0,09
61.Produtos farmacêuticos e óticos 0,01
62.Serviços de saúde 0,05
63.Cuidados pessoais 0
71.Serviços pessoais 0,04
72.Recreação, fumo e fotografia 0
81.Cursos, leitura e papelaria 0
91.Comunicação 0

Itens

Contribuição dos 52 itens para o IPCA (p.p.)
Jun/17
IPCA Mensal -0,23
1101.Cereais, leguminosas e oleaginosas 0,05
1102.Farinhas, féculas e massas -0,01
1103.Tubérculos, raízes e legumes -0,08
1104.Açúcares e derivados 0
1105.Hortaliças e verduras 0
1106.Frutas -0,06
1107.Carnes -0,03
1108.Pescados -0,01
1109.Carnes e peixes industrializados 0
1110.Aves e ovos -0,01
1111.Leites e derivados -0,02
1112.Panificados 0,01
1113.Óleos e gorduras 0
1114.Bebidas e infusões 0,01
1115.Enlatados e conservas 0
1116.Sal e condimentos 0,01
1201.Alimentação fora do domicílio 0,03
2101.Aluguel e taxas 0,06
2103.Reparos 0
2104.Artigos de limpeza 0
2201.Combustíveis (domésticos) 0,01
2202.Energia elétrica residencial -0,20
3101.Mobiliário 0
3102.Utensílios e enfeites 0
3103.Cama, mesa e banho 0
3201.Eletrodomésticos e equipamentos 0
3202.TV, som e informática 0
3301.Consertos e manutenção 0
4101.Roupa masculina 0,01
4102.Roupa feminina 0
4103.Roupa infantil 0
4201.Calçados e acessórios 0
4301.Joias e bijuterias 0
4401.Tecidos e armarinho 0
5101.Transporte público 0,02
5102.Veículo próprio 0,03
5104.Combustíveis (veículos) -0,14
6101.Produtos farmacêuticos 0,01
6102.Produtos óticos 0
6201.Serviços médicos e dentários 0,01
6202.Serviços laboratoriais e hospitalares 0
6203.Plano de saúde 0,04
6301.Higiene pessoal 0
7101.Serviços pessoais 0,04
7201.Recreação 0
7202.Fumo 0
7203.Fotografia e filmagem 0
8101.Cursos regulares 0
8102.Leitura 0
8103.Papelaria 0
8104.Cursos diversos 0
9101.Comunicação 0

A análise desagregada da inflação medida pelo IPCA ilustra que prossegue o choque positivo da alimentação no domicílio, que em junho contribuiu com -0,16 pontos percentuais. Isso se soma a outros dois fatores pontuais. A mudança de bandeira vermelha para verde retirou 0,2 pontos percentuais da inflação, enquanto a redução do preço da gasolina e e do diesel nas refinariais retirou 0,14 pontos percentuais. Esses três processos explicam, com a permissão da sazonalidade, a inflação negativa no mês.

Comportamento das Categorias do IPCA

Uma outra leitura interessante sobre a inflação é aquela feita através das categorias. A tabela 6 ilustra.

Categorias do IPCA (%)
Mensal Jun/17 Mensal Jun/16 Anual Jun/17 Anual Jun/16
IPCA -0,23 0,35 3,00 8,84
Comercializáveis -0,24 0,56 1,77 9,42
Não Comercializáveis 0,14 0,24 3,88 7,71
Preços Monitorados -0,83 0,24 3,30 9,94
Preços Livres -0,04 0,39 2,92 8,50
Bens não-duráveis -0,81 0,68 0,47 13,90
Bens semi-duráveis 0,11 0,25 2,42 5,52
Bens duráveis 0,11 -0,13 -1,20 2,66
Serviços 0,43 0,33 5,72 7,02

Um último ponto a ressaltar, nessa análise desagregada, é a dificuldade de reduzir a inflação de serviços. Como evidenciado na tabela acima, em junho do ano passado ela era de 7,02%, enquanto nesse ano ela cedeu para 5,72%, um número ainda bastante elevado. O gráfico abaixo ilustra mais detidamente a desinflação nessa categoria.

Conclusão

Na comparação interanual, a inflação acumulada em 12 meses cedeu 5,84 pontos percentuais, situando-se no limite inferior de tolerância do regime de metas. Isso foi possível graças a uma combinação de dois fatores principais. Por um lado, a nova equipe econômica conseguiu reancorar as expectativas de inflação, o que fez reduzir a inércia. Esse fator garantiu a convergência da inflação, dado o efeito da política monetária sobre o hiato do produto. Por outro lado, o choque de alimentos, em curso desde o segundo semestre de 2016, aprofundou esse processo de desinflação, levando o índice cheio abaixo da meta, algo que não ocorria desde 2007.

O dado mensal de junho, por seu turno, mostra uma combinação de eventos favoráveis, abraçados pela sazonalidade do período. A continuação do choque positivo no subgrupo alimentos no domicílio se somou à mudança na bandeira tarifária da energia elétrica e à queda nos preços dos combustíveis, como vimos. Tudo isso, por fim, em conjunto corrobora a expectativa de continuação do processo de flexibilização da política monetária, a despeito das dificuldades políticas em se aprovar a agenda de reformas.

Conheça o Clube do Código

E se você tivesse acesso a scripts de relatórios, apresentações e exercícios macroeconométricos que fazem uso do R? Após fazer um Curso de Introdução ao R ou mesmo no processo de aprendizado do R, muitas vezes, é difícil prosseguir pelo fato simples de não ter exemplos práticos de como usar a linguagem. E se isso existisse? Se houvesse um lugar onde você tivesse acesso a exemplos aplicados à realidade brasileira? E se houvesse atualizações semanais desses exemplos? Isso existe: é o Clube do Código! Ao lado o Monitor de Inflação destacado nesse post. 

A convergência da inflação foi para o R

By | Inflação

A inflação medida pelo IPCA chegou a 4,08% a.a. no acumulado em 12 meses terminados em abril. É o menor patamar desde 2007. Com efeito, parece consolidada a convergência da inflação para a meta. Para ilustrar essa convergência, produzimos o gráfico abaixo, com o auxílio do R, utilizando o pacote rbcb.

library(ggplot2)
library(rbcb)
library(scales)

ipca12m = get_series(13522, start_date='2015-12-01')

ipca12m = as.data.frame(ipca12m)
colnames(ipca12m) = c('date', 'ipca')
ipca12m$date = as.Date(ipca12m$date, format='%d/%m/%Y')

ggplot(ipca12m, aes(x=date, y=ipca))+
 annotate("rect", fill = "gray", alpha = 0.5, 
 xmin = as.Date('2016-08-01'), 
 xmax = as.Date('2017-04-01'),
 ymin = -Inf, ymax = Inf)+
 geom_line(size=.8)+
 geom_hline(aes(yintercept=4.5), colour='red', size=.8)+
 scale_y_discrete(limits=4:11)+
 scale_x_date(breaks = date_breaks("2 months"),
 labels = date_format("%m/%Y"))+
 theme_bw()+xlab('')+ylab('% a.a.')+
 labs(title='Inflação medida pelo IPCA',
 subtitle='acumulada em 12 meses',
 caption='Fonte: analisemacro.com.br com dados do IBGE.')+
 geom_point(size=12, shape=21, colour="#1a476f", fill="white")+
 geom_text(aes(label=ipca), size=3, 
 hjust=0.5, vjust=0.5, colour="darkblue")+
 annotate('text', x=as.Date('2016-04-01'), y=4.8, 
 label='Meta de Inflação: 4,5%',
 colour='red', size=4)

E o resultado...

 

A convergência se dá em um momento de provável queda da inércia e de expectativas ancoradas, principais determinantes da inflação, como mostra a tabela ao lado. Nela, rodamos a Curva de Phillips abaixo:

(1)   \begin{equation*} \pi_{t} = \beta_0 + \beta_1 \pi_{t-1} + \beta_2 E_t \pi_{t+1} + \beta_3 hiato_{t-1} + \varepsilon_t \end{equation*}

Onde \pi_t é a inflação medida pelo IPCA acumulada em 12 meses, E_t \pi_{t+1} é a expectativa para a inflação nos próximos 12 meses e hiato_{t-1} é o hiato do produto. Em outras palavras, a despeito do que se pode querer acreditar, o hiato do produto, a diferença entre o PIB efetivo e o PIB potencial, possui pouco impacto sobre a inflação brasileira, sendo a inércia medida pela primeira defasagem e as expectativas preponderantes para explicá-la.

Dependent variable:
inflação
lag(inflação, -1)0.935***
(0.025)
expectativa0.105**
(0.050)
lag(hiato, -1)0.034***
(0.013)
Constant-0.133
(0.171)
Observations119
R20.974
Adjusted R20.973
Residual Std. Error0.280 (df = 115)
F Statistic1,429.549*** (df = 3; 115)
Note:*p<0.1; **p<0.05; ***p<0.01

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