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Comentário de Conjuntura

Gerando Previsões Combinadas para a Inflação a partir dos grupos do IPCA

By | Comentário de Conjuntura

A inflação cheia medida pelo IPCA em um período t qualquer nada mais é do que a soma da contribuição da inflação em cada um dos seus nove grupos, de acordo com os pesos dos mesmos no índice. Em outros termos,

(1)   \begin{align*} \pi_t = \sum_{i=1}^{9} \pi_{t,i}^{g} p_{t,i}^{g} \end{align*}

onde \pi_t é a inflação cheia, \pi_{t,i}^{g} é a inflação em t no grupo i e p_{t,i}^{g} é o peso em t do grupo i no índice cheio. De modo a ilustrar, podemos baixar com o pacote sidrar, as variações e os pesos desses nove grupos do IPCA, conforme o código abaixo.


## Pacotes
library(sidrar)
library(ggplot2)
library(forecast)
library(timetk)
library(zoo)
library(scales)
library(tidyverse)

## Baixar e tratar os dados
tab1 = get_sidra(api='/t/2938/n1/all/v/63,66/p/all/c315/7170,7445,7486,7558,7625,7660,7712,7766,7786/d/v63%202,v66%204')
tab2 = get_sidra(api='/t/1419/n1/all/v/63,66/p/all/c315/7170,7445,7486,7558,7625,7660,7712,7766,7786/d/v63%202,v66%204')
tab3 = get_sidra(api='/t/7060/n1/all/v/63,66/p/all/c315/7170,7445,7486,7558,7625,7660,7712,7766,7786/d/v63%202,v66%204')

series = c(7170, 7445, 7486, 7558, 7625, 7660,
7712, 7766, 7786)

names = c('Alimentos', 'Habitação', 'Art de Resid',
'Vestuário', 'Transporte', 'Saúde e cuid pessoais',
'Despesas Pessoas', 'Educação', 'Comunicação')

var1 <- matrix(NA, ncol=length(series),
nrow=nrow(tab1)/length(series)/2)

peso1 <- matrix(NA, ncol=length(series),
nrow=nrow(tab1)/length(series)/2)

var2 <- matrix(NA, ncol=length(series),
nrow=nrow(tab2)/length(series)/2)

peso2 <- matrix(NA, ncol=length(series),
nrow=nrow(tab2)/length(series)/2)

var3 <- matrix(NA, ncol=length(series),
nrow=nrow(tab3)/length(series)/2)

peso3 <- matrix(NA, ncol=length(series),
nrow=nrow(tab3)/length(series)/2)

for(i in 1:length(series)){

var1[,i] <- tab1Valor[tab1`Variável (Código)`==63&
tab1`Geral, grupo, subgrupo, item e subitem (Código)`==series[i]]  var2[,i] <- tab2Valor[tab2`Variável (Código)`==63& tab2`Geral, grupo, subgrupo, item e subitem (Código)`==series[i]]

var3[,i] <- tab3Valor[tab3`Variável (Código)`==63&
tab3`Geral, grupo, subgrupo, item e subitem (Código)`==series[i]]  peso1[,i] <- tab1Valor[tab1`Variável (Código)`==66& tab1`Geral, grupo, subgrupo, item e subitem (Código)`==series[i]]

peso2[,i] <- tab2Valor[tab2`Variável (Código)`==66&
tab2`Geral, grupo, subgrupo, item e subitem (Código)`==series[i]]  peso3[,i] <- tab3Valor[tab3`Variável (Código)`==66& tab3`Geral, grupo, subgrupo, item e subitem (Código)`==series[i]]
}

variacao = ts(rbind(var1, var2, var3), start=c(2006,07), freq=12)
peso = ts(rbind(peso1, peso2, peso3), start=c(2006,07), freq=12)

Assim, a inflação medida pelo IPCA nada mais será do que a variação vezes o respectivo peso do grupo. Com isso em mente, nós podemos gerar a previsão para cada grupo e depois recuperar a previsão da inflação cheia a partir dessas previsões individuais. O resultado é exposto no gráfico abaixo.

A previsão para a inflação em janeiro, por essa metodologia, é de 0,47%.

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(*) Para aprender a fazer esse tipo de projeção, veja nossos cursos de Previsão Macroeconométrica e Modelos Preditivos aplicados à Macroeconomia.

(**) Os códigos completos do exercício estão disponíveis no Clube AM.

Ancoragem de expectativas sob diferentes mandatos do Banco Central do Brasil

By | Comentário de Conjuntura

Em sua última decisão de juros, o Banco Central brasileiro elevou o tom, se comprometendo a fazer o que for preciso para ancorar as expectativas de inflação. O furo do Teto de Gastos gera uma percepção ruim sobre os agentes, o que tem impacto direto sobre prêmios de risco e, portanto, sobre expectativas. Por esse motivo, faz sentido o Banco Central amarrar as mãos com uma política monetária mais contracionista. Ao menos, por algum tempo.

Uma questão imediata que surge no debate é se, de fato, as expectativas de inflação estão fugindo do controle da autoridade monetária. Isto é, se para horizontes além de 12 meses, os agentes esperam uma inflação acima da meta.

Existem diversas formas de verificar isso na prática. Nesse Comentário de Conjuntura, resolvi atualizar um exercício publicado há dois anos no âmbito do Clube AM, elaborado pelo Renato Lerípio, com base em uma metodologia proposta pelo FMI.

A ideia do exercício é verificar o impacto de variações na expectativa de inflação para o ano corrente sobre as expectativas para outros horizontes. Em uma situação de ancoragem de expectativas, os agentes não corrigiriam a expectativa para prazos mais longos com base em movimentos de curto prazo. Isto é, eles se guiariam apenas pela meta de inflação.

Para verificar isso empiricamente, podemos estimar uma equação como abaixo.

(1)   \begin{equation*} \Delta \pi_t^{e,h} = \alpha + \beta^h \Delta \pi_t^{e,1} + \epsilon_t \end{equation*}

A relação entre curto e outros prazos para as expectativas é capturada pelo coeficiente \beta^h. Em termos econométricos, fazemos uma rolling regression e guardamos o coeficiente a cada estimação. Para essa atualização do exercício do Lerípio, verifiquei diferentes janelas para a regressão e optei por 48 meses. O gráfico abaixo ilustra o resultado da evolução do coeficiente ao longo do tempo, sublinhando diferentes mandatos do Banco Central.

O gráfico tem diversos pontos interessantes. Chama atenção a estabilidade do coeficiente durante o período de Ilan Goldfajn à frente da autoridade monetária. Ademais, a despeito de um pico no final de 2019, não houve no período Campos Neto uma desancoragem contundente das expectativas de inflação. De fato, desde o final do período Tombini, o coeficiente tem se mantido razoavelmente controlado.

Seguindo a ideia do exercício original do FMI, expectativas para horizontes mais curtos estão mais sujeitas aos ruídos da conjuntura do que horizontes mais longos. O gráfico acima ilustra que expectativas para t+2 e t+3 são, de fato, razoavelmente constantes.

Quebrar essa constância, diga-se, implica em quebrar a própria ideia de meta de inflação, já que é difícil fazer previsão da inflação para prazos maiores do que 12 meses.

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(*) O exercício completo, com códigos em R, está disponível no Clube AM para os membros.

A verdade é que o Banco Central está perdendo a batalha das expectativas

By | Comentário de Conjuntura

O Banco Central aumentou o tom no comunicado da decisão de taxa de juros de ontem. Sentindo a pressão da piora do cenário externo e as sucessivas "surpresas" nas leituras mensais da inflação, o Banco Central decidiu ir para o whatever it takes. Em tom mais hawkish do que as últimas decisões, o Banco Central se comprometeu em avançar sobre o terreno contracionista da política monetária. O objetivo é claro: ancorar as expectativas e, portanto, desinflacionar a economia ao longo dos próximos dois anos. Está correto o Comitê de Política Monetária?

Não me parece que exista outra forma de lidar com o problema, dado o furo no Teto de Gastos. A desancoragem fiscal gera um juro de equilíbrio mais alto, como venho comentando nesse espaço e implica, portanto, em juros nominais e reais mais elevados. Nesse aspecto, o que o Banco Central está fazendo é simples adequar o juro à nova realidade do país.

Ademais, as sucessivas "surpresas" nas leituras mensais da inflação medida pelo IPCA estão contaminando as expectativas dos agentes para 2022. A meta de inflação para o ano que vem é de 3,5% e o mercado já espera inflação acima de 5%. O Banco Central está, portanto, perdendo a batalha das expectativas e se quiser reconquistar terreno terá que insistir mesmo nessa estratégia.

Nesse momento, diga-se, já não importa muito a inflação desse ano em dois dígitos. O problema real para o Banco Central é a desancoragem das expectativas para horizontes mais longos. Se o Banco Central perder isso de forma definitiva, o processo inflacionário se consolida em patamar elevado, comprometendo de vez o regime de metas para inflação. O jogo, portanto, é tentar reverter esse quadro.

A consequência natural disso é, claro, um PIB mais comprometido no próximo ano. Não há espaço, nesse momento, para apostas mais robustas de crescimento da economia em 2022, dado o aumento do risco fiscal e o aumento de juros patrocinado pelo Banco Central. A economia seguirá sofrendo.

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(*) Os códigos dos Comentários de Conjuntura estão disponíveis no Clube AM.

Inflação: cada país é infeliz à sua maneira

By | Comentário de Conjuntura

A inflação em aceleração é um fenômeno global. Como já comentei aqui nesse espaço algumas vezes, o aumento de preços de commodities e a restrição de oferta nas cadeias globais de produção têm gerado um movimento sincronizado de aumento de preços mundo a fora.

Para ilustrar, pegamos os dados de inflação do FMI, usando o pacote de R imfr. Pegamos os dados da inflação mensal de 13 países do G20 desde 2011 em frequência mensal e depois acumulamos em 12 meses.

Como é possível perceber pelo gráfico, há uma aceleração da inflação a partir do final de 2020 em praticamente todos os países da amostra.

Então, conclui o leitor, se a inflação é um problema global, o Brasil não precisaria se preocupar. Certo?

Como nos ensinou o monstro Tolstoi, porém, cada família infeliz é infeliz à sua maneira. E nesse caso, o Brasil tem diversos motivos que lhe diferenciam dos demais países da amostra.

Em particular, como tenho chamado atenção nesse espaço, o Brasil tem experimentado um aumento da persistência inflacionária. E isso tem ocorrido porque os diversos choques que tem afetado a economia brasileira estão contaminando todos os demais preços.

Os núcleos de inflação mostram claramente que os choques que afetaram a economia se disseminaram por todos os demais preços. Além disso, o índice de difusão, aquele que mede o percentual de subitens que sofre aumento ao longo dos meses, também tem aumentado.

A inflação tem aumentado no mundo todo. Mas no Brasil, a evidência mostra que a situação é um pouco diferente. E pior. Não por outro motivo, o Banco Central brasileiro tem promovido um aperto monetário de grandes proporções e deve mantê-lo nas próximas reuniões.

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(*) Os códigos dos Comentários de Conjuntura estão disponíveis no Clube AM.

Pandemia agravou desemprego de longo prazo no Brasil

By | Comentário de Conjuntura

O desemprego de longo prazo é uma medida internacionalmente conhecida e pode ser definida pelo tempo de procura por emprego superior a dois anos. Ela é um indicador importante não apenas por sinalizar o nível e o tempo de ociosidade da economia, mas também por refletir a perda de produtividade dentro do ciclo econômico. Em particular, quanto mais tempo a pessoa fica desempregada, maior a perda de capital humano, mais difícil é conseguir um novo posto de trabalho (Ball e Mankiw, 2002).

Isso dito, se olharmos para os dados recentes divulgados pela PNAD Contínua - em seu recorte trimestral -, observamos um aumento do desemprego de longo prazo no Brasil. Isto é, o percentual de pessoas que está há mais de dois anos procurando emprego tem tido maior participação sobre o desemprego total.

A amostra do gráfico vai do primeiro trimestre de 2012 ao segundo trimestre de 2021. O desemprego de longo prazo ocupa hoje um pouco mais de 1/4 do desemprego total e, o mais preocupante, tem aumentado no período da pandemia.

Nesse contexto, uma retomada demorada da economia pode agravar um fenômeno conhecido na literatura de economia do trabalho chamado de histerese. Isto é, a dificuldade de um objeto, no caso a taxa de desemprego, em voltar ao seu estado original após sofrer um determinado choque. Ou, em outras palavras, a dificuldade do desemprego ceder após uma alta pronunciada como a que temos observado nos últimos anos.

Essa dificuldade estaria relacionada justamente à perda de capital humano associada ao desemprego por longo período.

Um ponto importante relacionado à histerese que pode ter sido agravada pela pandemia é a substituição de uma quantidade não desprezível de postos de trabalhos pela incorporação abrupta de novas tecnologias. Por óbvio, essa hipótese ainda precisa ser melhor acompanhada pela evidência disponível, mas se coloca em um momento importante da agenda política nacional, quando o Congresso discute ampliação de programas de transferência de renda.

Em outras palavras, mesmo que a economia voltasse a crescer forte no próximo ano - algo que vai se tornando cada vez menos provável - uma quantidade grande de pessoas não irá encontrar postos de trabalho. Pelo simples fato desses postos terem sido extintos.

Se essa hipótese se mostrar válida, é peremptório que a sociedade brasileira consiga, de forma séria, reduzir parte do orçamento fiscal que vai para os mais ricos e transferir esses recursos para quem mais precisa.

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(*) Os códigos dos Comentários de Conjuntura estão disponíveis no Clube AM.

(**) Ver Ball, Laurence, and N. Gregory Mankiw. 2002. "The NAIRU in Theory and Practice ." Journal of Economic Perspectives16 (4): 115-136.

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