Artigos de Economia

Diagnóstico equivocado

By 27 de junho de 2014 No Comments

Os dados do PIB do 1º trimestre não trouxeram boas perspectivas. Nos últimos nove meses a economia brasileira encontra-se virtualmente estagnada, com crescimento médio de apenas 0,1% na margem. O principal motivo parece ser o recuo forte nos investimentos, retidos diante da situação de desconfiança em relação ao futuro. Dado o “cansaço” dos componentes da demanda, torna-se mais do que urgente discutir os reais problemas da economia brasileira.

Os investimentos estão em terreno negativo desde o terceiro trimestre de 2013. Cresceram em média -1,8% na margem. O consumo das famílias, componente bastante impulsionado pela política econômica e tido como principal motor do crescimento recente, apresentou a primeira taxa negativa desde 2011. Isso indica que as famílias parecem sentir os efeitos da moderação no crédito e nos salários reais, bem como o maior comprometimento da renda com o crédito habitacional e a perda de poder de compra com o processo inflacionário.

As vendas no comércio ampliado recuaram de crescimento acumulado em 12 meses em torno de 8% no início de 2013 para a casa de 3% no primeiro semestre desse ano. Efeito direto do recuo no crescimento dos salários reais, da casa de 4% para 2%, e do crédito livre, de 12% para 6%, no mesmo período e mesma métrica de comparação. O comprometimento da renda acumulada em 12 meses com dívidas que incluem crédito habitacional saiu de 43,5% no início de 2013 para 45,7% em março desse ano. Além disso, as expectativas para a inflação nos próximos 12 meses seguem acima de 6%. Desse modo, se a demanda era até aqui o ponto de apoio do crescimento brasileiro, as perspectivas tornaram-se bastante reticentes.

No lado da oferta, os dados do PIB ratificaram o quadro geral negativo dos indicadores. Em particular, a produção de veículos, bastante afetada pelo problema argentino, apresentou crescimento médio de -11,7% nos primeiros meses de 2014. Com efeito, a produção industrial não mostra sinais de recuperação, acumulando queda de 0,9% até abril. Mesmo os serviços, que têm apresentado resultados nominais ainda expressivos na pesquisa mensal do IBGE, mostra crescimento tímido dentro do PIB, com variação de apenas 0,4% na margem.

Os indicadores de nível de atividade traduzem um enredo mais amplo, representado pelo “cansaço” da demanda e pelas já costumeiras restrições impostas à oferta agregada. Os incentivos de política econômica, feitos no contexto da crise financeira internacional, não se mostraram eficientes para gerar crescimento sustentável. Como já se esperava, aliás, pela leitura dos livros-textos de macroeconomia. Desse modo, tão logo o consumo encontrou seu limite, representado pelo maior endividamento das famílias, o crescimento liderado pela demanda cessou.

Mostra-se preocupante, nesse contexto, que o governo considere a redução do crescimento do crédito enquanto causa do menor crescimento da economia. O crescimento liderado pela demanda é limitado em parte pelo comportamento dos salários e, sobretudo, pelo endividamento das famílias. Pode ser importante para uma reação pontual a crises financeiras como a de 2008, mas sua continuação gera desequilíbrios graves no organismo econômico.

Dois deles são imediatos. A inflação efetiva encontra-se em 6,07% nos últimos 41 meses, enquanto o déficit em conta corrente médio foi de 3,34% nos últimos 13 trimestres. Isto ocorre porque, na maior parte desse período, a taxa média de crescimento dos componentes da demanda foi superior aos da oferta agregada, o que gera pressão sobre o nível geral de preços e faz reduzir a poupança dos agentes, dados os incentivos ao consumo.  Menor poupança doméstica faz aumentar a necessidade de uso da poupança externa, representado pelo déficit em conta corrente. Desse modo, como não ataca os problemas graves de competitividade da economia brasileira, os incentivos à demanda geram apenas crescimento temporário, logo interrompido pelo maior endividamento das famílias.

Em assim sendo, ainda que não seja politicamente apetitoso, é mais do que urgente colocar as reformas estruturais em discussão. A reforma do sistema político, a simplificação de impostos, a celeridade do sistema judiciário, o marco regulatório da infraestrutura, dentre tantas questões importantes, mas relegadas a segundo plano. Sem medidas que destravem os obstáculos ao crescimento da oferta, continuaremos colhendo “pibinhos” e levando as famílias a maior endividamento.

(*) Publicado em 25/06/2014.

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