Por que blogamos?

IMG_8829Indo para Vitória, rumo ao III Encontro Nacional dos Blogueiros de Economia, me veio a pergunta do título: por que indíviduos blogam? Por que gastar tempo e dinheiro (para alguns) nessa "arte" solitária que é escrever, sujeito a toda a sorte de críticas anônimas e mal encaradas? E ainda mais sobre um tema, que parafraseando o ex-presidente do Banco Central Gustavo Franco, todos creem entender. Foi a primeira vez que parei para pensar sobre o assunto, afinal escrever, enquanto a ação designada pelo verbo, sempre foi para mim algo meio que complementar a outro verbo vital: respirar.

Não encontrei resposta pronta, leitor, desculpe lhe desapontar na saída. A ideia de blogar sobre economia, pensei em primeiro lugar, foi justamente para aprender. Acredito que essa coisa chamada ciência econômica só se aprende de fato pela prática, pelo esforço diário em alinhar o raciocínio, encontrar cadeias de causalidade que façam algum sentido lógico. Não por outro motivo mais nobre do que o simples egoísmo em aprender.

Mas não apenas isso. Do tipo de economista que comecei a ser, lá no início, era do tipo "engajado", ainda citando Franco. O tipo de economista que não se satisfaz apenas com o ato de escrever, mas de discutir, panfletar, dissolver ideias e conceitos errados. Em muitos momentos, o simples ato de escrever não me era assim suficiente: era preciso mesmo disseminar o conhecimento, que eu no alto de minha arrogância pujante, supunha correto.

Isso, entretanto, passou. Demorou, mas passou. Foi preciso que o poste fosse eleito - é que às vezes a gente precisa de um "empurranzão" para entender certas coisas simples -, mas passou. E daí saiu o blogueiro engajado para algo muito menos empolgante: um economista seco, que só escreve sobre as agrúrias da macroeconomia nacional. Vá lá, até o encontro em Vitória eu não tinha 100% de certeza se havia sido uma boa escolha. Uma coisa foi certa: meus olhos pararam de ler muitos xingamentos...

Hoje é um pouco mais nítido para mim que blogar não é um sinônimo perfeito de escrever. Por algumas razões. A mais simples é que há dois tipos de prazer envolvidos no ato de escrever: o momento em si da escrita e o momento em que se é lido. O blog proporciona ao escritor a segunda sensação. Talvez hoje eu não seja mais o economista engajado de outrora - o que me alivia bastante a carga de estresse - mas provavelmente ainda tenho a crítica como valor caro. Não a crítica revoltada: mas o tipo de crítica que soa mais como desabafo, que se deixado no corpo viraria doença, mas quando passado ao blog alivia a mente. E é por ai que me justifiquei nos cinquenta minutos de voo entre o Rio e Vitória: blogo para não adoecer.

(Soa estranho? Muito, muito estranho, eu diria. Mas há tanta gente por ai que faz coisas para não adoecer: elas se engarrafam nessas coisas chamadas "academias de ginástica", em busca de não adoecer, leitor! Por que, então, eu não posso "não adoecer", blogando? Creio que sim, permita que eu fale com meus botões nesse momento, leitor amigo...)

Após o encontro, após verificar que há outros iguais a mim, percebi que o ato de blogar é sim uma forma de engajamento, quer eu queira, quer eu não queira. Não se trata apenas de escrever por escrever - isso faríamos todos em nossos diários amarelados - mas de escrever com algum intuito. E sim: nós queremos ser ouvidos, lidos, discutidos. Blogamos todos porque queremos fazer parte do debate, queremos ensejar opiniões, justificando acertos ou recriminando erros da mídia convencional.

Blogamos porque queremos discutir ideias, ainda que isso não seja assim tão simples como pode parecer a princípio. O ato de blogar, como emblematicamente mostra a Yoani Sánchez, é, por definição, um ato de liberdade. Expressar uma ideia e não ser formalmente recriminado por ela - ainda que o possa ser informalmente - faz parte das mais básicas necessidades humanas. Tão básica que hoje a internet, algo que foi criado com propósitos tão "estratégicos", tornou-se "social". Blogar - ou "vlogar", nos termos mais recentes - é, nesse sentido, a "democracia em última instância". Afinal, qualquer indivíduo com um pouco de senso e acesso à rede, pode se expressar - se será "ouvido" já são outros tostões.

E assim, leitor, consigo hoje lhe retalhar uma resposta que perpassa o protesto, seja ele ativo (do tipo engajado, como me referi acima)  ou passivo (do tipo "para não adoecer"), inclui o prazer puro e simples da escrita, alguns contos de réis de vontade de alinhar o raciocínio e, claro, a vontade (descarada ou encarcerada) de fazer parte do debate. Blogamos, no meu pobre entender, por uma média ponderada dessas razões. Os pesos aplicados dependem de cada blogueiro. Honestamente não sei quais são os meus...

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