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Sobre a miséria do ensino de economia

By 27 de março de 2012 novembro 26th, 2012 No Comments

O ensino de economia sempre me foi algo miseravelmente sombrio. Ou bem os professores tentavam me catequizar para alguma das inúmeras “escolas de pensamento” reinantes no universo econômico, ou bem eu mesmo me enganava sobre a validade de algumas hipóteses heroicas dos modelos mais mainstream. Entre um mundo e outro, me vi durante anos em uma escolha nada confortável: ser ou não ser economista, eis a questão!

Ao leitor não iniciado nessa prostituição chamada ensino de ciência econômica, permita-me que faça uma breve introdução ao tema. No primeiro semestre do curso você, estudante oriundo de um ensino médio antiquado, é apresentado a esse fascinante mundo econômico ou por alguma Introdução à Economia, ou como eu por duas cadeiras indissociáveis: Introdução à macroeconomia e Introdução à microeconomia. No primeiro estão as questões agregadas – produção, inflação, juros etc – já no segundo as questões mais fundamentais, como a escolha de consumidores e empresários.

O problema, leitor amigo, é que para todo tema econômico há pelo menos duas opiniões divergentes. Para a inflação, por exemplo, um dos temas mais caros da economia brasileira nas últimas décadas, há uma variedade esquizofrênica de explicações. Se a inflação de hoje é meramente o resultado da inflação de ontem, o que explica esta? Por que são altos os juros no Brasil? O que causa o crescimento econômico? Por que alguns países são ricos e outros são tão pobres? Perguntas para as quais existem uma variedade anacrônica de respostas.

O trato de tais questões a nível de graduação exige do professor da disciplina algo mais do que o conhecimento. É preciso, acima de tudo, que a didática esteja assim afiada. Ensinar temas delicados como os exemplificados acima – e que estão todos os dias nas linhas tortas dos jornais – exige do profissional de economia algo mais do que fluência no jargão econômico. É preciso também, e isso é delicado, alguma espécie de honestidade intelectual. Isto porque, mesmo inconscientemente, os professores de economia acabam escolhendo um lado e promovendo a catequização de filas e filas de alunos inexperientes.

É nítido, porém, que o ensino de economia tem se tornado assim mais mainstream na maior parte das escolas. Isto significa, leitor não iniciado, que o ensino percorre o que os economistas fazem de melhor: uma sucessão de modelos. A complexidade das relações econômicas é assim reduzida a algumas equações, que prontamente são apresentadas em gráficos bastante simples. O que era uma economia real passa a ser um modelo econômico simplificado, com alguns aspectos primordiais da realidade.

Construir modelos econômicos talvez seja a forma mais didática e honesta de lidar com os problemas da realidade. Lembro-me de um curso optativo na área de política monetária na qual derivávamos um sem número de equações, gráficos e recomendações de política. Três ou quatro aulas de pura matemática e estatística, alguns breves comentários mais econômicos e pronto, lá estava a recompensa pelo esforço: havíamos criado uma economia artificial na qual um aumento calibrado dos juros exercia miraculoso impacto no nível de preços, não antes passando por alguns trimestres de defasagem temporal. Sentíamos todos muito felizes em estar aprendendo de fato como se faz política econômica quando lá viam os comentários complementares do professor, descendo a lenha nas hipóteses mais heroicas e, na maior parte dos casos, acabando com todo o esforço empreendido.

Para que fique claro, leitor amigo, o professor desdizia tudo aquilo que acabara de ensinar. Para profissões mais exatas, como as engenharias ou mesmo a matemática, tal empreendimento é mesmo uma aberração esquizofrênica. No caso da economia, porém, faz todo o sentido. Isto porque na maioria das disciplinas o expediente utilizado é exatamente o oposto: o professor primeiro critica o modelo, depois o apresenta. É como se dissesse: “veja, estudante tapado, tudo o que eu vou ensinar aqui não se aplica, mas eu vou ensinar porque vocês precisam saber”. A desmotivação para aprender as tais coisas erradas é compreensível e daí que a cooptação de mentes e corações para o outro lado não tarda a acontecer.

A divisão básica da profissão [e do ensino] é assim entre mocinhos e bandidos. Ou entre heterodoxos e ortodoxos. Para estes, a economia é o que Friedman deixa claro em artigo sobre metodologia econômica: não são as hipóteses que importam, mas a capacidade de previsão dos modelos. Assim, a construção da pesquisa econômica deve se dar mesmo pela elaboração de modelos e, principalmente, pela sua capacidade de adequação ao que acontece no mundo real. Caso não se aplique, o modelo é logo rejeitado e há o incentivo para a construção de outros. Uma destruição criativa própria do mundo econômico.

Para os heterodoxos, a construção de modelos econômicos é uma abstração nefasta. Como não se pode transformar a complexidade das relações econômicas em um modelo anacrônico, o melhor mesmo é não utilizar tal expediente. E assim, buscam outras explicações, tais como o entendimento da natureza humana e suas complexas replicações em uma economia movida pelo mercado.

O estudante iniciante fica assim no meio do tiroteio, sempre uma vitima inocente dessa miséria de didatismo e ruídos incessantes no ensino da economia. Uma presa para a cooptação e treinamento em alguma escola de pensamento específica. E lá pelo terceiro ou quarto período cada uma dessas vítimas – ao menos aquelas que resolveram seguir o caminho da profissão – já escolheu a sua tribo. Já aprendeu, vale dizer, o aperto de mão secreto do marxismo, estruturalismo, pós-keynesianismo etc. E, agora, já não falam mais com as demais vítimas a não ser com suas bíblias a postas. Alguma versão mal cheirosa de O Capital ou da Teoria Geral são os prediletos, mas há também outros compêndios mais esquecidos, como os de Minsky, Kalecki, GalbraithHa-Joon Chang etc. É cult ser heterodoxo, ler outros autores que não os do mainstream, parecer mais intelectual do que os outros – pobres vítimas cooptadas pelo mercado financeiro e pela falácia e ilusão dos modelos econômicos!

A estória, porém, foi apenas parcialmente contada, dado que do outro lado do balcão também há radicalismos pueris. Os modelos econômicos, como dito, partem de pressupostos simplificados e cadeias de dedução são formadas. Dado o teorema de incompletude de Gödel, a lógica formal não deve ser estendida para uma longa série de proposições. Além disso, não se deve nunca confundir incerteza com risco, dado que aquela não é manipulável via distribuições de probabilidade. O apego demasiado a alguns modelos é tão [ou mais] crítico quanto a leitura semanal de algum compêndio de dois ou três séculos.

A miséria do ensino de economia é assim posta. Como os professores já escolheram um lado, acabam que cooptam a maior parte dos alunos para seu quinhão. E assim, alguns períodos depois, a grande maioria já está intrincada em alguma escola de pensamento, tendo contatos diários com os manifestos, debates e apertos de mão secretos. Os poucos que não se envolvem com alguma escola específica ficam tentando entender porque afinal o céu é azul. E, claro, o que diabo está fazendo numa faculdade repleta de contradições e abismos intelectuais.

Para esses últimos, o caminho é árduo e povoado das mais diversas incertezas. Tentar não ser ortodoxo ou heterodoxo puro é, em economia, algo como não ter uma identidade. Além disso, vale o registro, se você está em uma escola identificada com o cânone, apresentar qualquer outra ideia diferente do estabelecido lhe taxa logo uma identidade: heterodoxa ou ortodoxa. Se você consegue entender a inconsistência temporal de Kydland and Prescott pronto: ortodoxo! Se desmascara a funcionalidade do ciclo real de negócios, pronto: heterodoxo! E, claro, se você faz as duas coisas em um curto espaço de tempo, pronto: você é maluco. Para a maior parte dos estudantes de economia, há uma convenção muito bem estabelecida: ou você reza pela cartilha da ortodoxia, ou reza pela da heterodoxia. Não há como ser indiferente entre um e outro, ou aplicar diferentes soluções para diferentes problemas.

E assim, leitor amigo, é sedimentada a miséria da profissão. O estrago é feito logo nos primeiros períodos, quando ao invés de fazer as novas mentes pensarem sobre a complexidade do que estão estudando, os professores de economia catequizam seus alunos. Em ambos os lados do discurso. Tanto a ortodoxia quanto a heterodoxia aplicam tal expediente. E assim se perpetua o ciclo vicioso da profissão de economista. Simplesmente lamentável.

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