Economia Internacional

A redução dos estímulos pelo FED e a economia brasileira em 2014

By 19 de dezembro de 2013 No Comments

O Federal Reserve (FED), o Banco Central norte-americano, decidiu há algumas horas reduzir os estímulos que vinha dando à economia, em US$ 10 bilhões, a partir do próximo mês. Continuará injetando, portanto, US$ 75 bilhões mensalmente, seja em compras de títulos atrelados à hipotecas (MBS, na sigla em inglês), seja em compras de títulos públicos (os treasures). A intenção do banco, perpassada pelo curto comunicado pós-reunião e pela fala do seu chairman, Ben Bernanke, é de gradualismo na retirada do arsenal anticíclico que colocou na economia nos últimos anos. Até o desemprego chegar a menos de 6,5% (hoje em 7%) e a inflação não aumentar até 2%  (hoje em 1,2%), a intenção do FED é manter a taxa básica de juros no atual intervalo entre 0% e 0,25%. Ou seja, leitor, o início do tapering (a normalização das condições monetárias naquele país) será suave e a notícia foi bem recebida pelo mercado, dado que acalmou a incerteza que prevalecia até então. A seguir comento um pouco sobre o processo de afrouxamento monetário e sobre o impacto do tapering na economia brasileira ano que vem.

O objetivo da política monetária ao reduzir a taxa básica de juros é, por arbitragem, reduzir as taxas de maior prazo de maturação, influenciando assim aumento de consumo e investimento - esse é o que nós economistas chamamos de Estrutura a Termo da Taxa de Juros (ETTJ), um dos canais de transmissão da política monetária. Com o uso do Quantitative Easing (QE), ou simplesmente afrouxamento monetário, isso ocorre meio que na "veia" da economia. Por dois motivos. Um, porque ao comprar diretamente títulos públicos de mais longo prazo (por exemplo, um T-Bond) na carteira de bancos, fundos e pessoas físicas, o FED está injetando recursos diretamente na economia - aqui é preciso qualificar o argumento, dado que esses recursos podem ficar na carteira dos bancos, não sendo repassados para consumidores ou empreendedores, o que gera "empoçamento de liquidez".

A outra forma é porque ao pressionar a demanda por títulos públicos nos mercados secundários, o FED está elevando o PV desses títulos (valor presente), o que, analogamente, equivale a reduzir a taxa de desconto, ou a taxa de juros desses títulos. Reduzir juros, em tese, tem o efeito de incentivar consumo e investimento, por que torna essas opções mais atraentes.

Mas não para por ai. Dentro da "ração" mensal de compra de títulos, não há apenas títulos públicos. O FED se comprometeu ainda em comprar MBS (Mortgage-Backed Securities), que são colaterais de hipotecas, isto é, títulos privados. Ou seja, mais uma tentativa de elevar a renda disponível, elevando consumo e investimento. Tudo isso para atingir aquele target de 6,5% de desemprego.

Há, claro, limite para isso. Tudo bem que os EUA tem a moeda de reserva do mundo, isto é, aquela que atende à função de "reserva de valor" do resto do mundo - por isso os investidores vão para lá, independente de discussões tolas a cerca de credibilidade, que não vem ao caso aqui. Aliás, sobre isso, se os EUA quase decretaram "shutdown" da dívida por inépcia política, o que é que credibilidade tem a ver com isso? Enfim. O problema é que você está, com todas essas operações, aumentando estrondosamente o balanço do FED. No lado do ativo, você está colocando títulos públicos e privados, que tem liquidez complicada de ser auferida. No lado do passivo, por ter de emitir dólares para a compra desses títulos, você está aumentando enormemente a base monetária (reservas bancárias mais papel moeda em poder do público) - não à toa o dólar se desvalorizou com a adoção dessas medidas.

Se a teoria econômica ainda faz algum sentido, você tem dois problemas com isso. O primeiro é que em algum momento você vai gerar inflação nos EUA. Em segundo lugar, o FED pode enfrentar problemas de liquidez, dado o inchaço do balanço, o que pode gerar perda dessa função de "reserva de valor" do mundo. Não à toa, a China tem se movimento para ser esse player. Os dois cenários são muito difíceis de se realizar, dado que no primeiro, inflação, se a gente considera a TQM generalizada pelo Keynes, você precisa ocupar capacidade, isto é, a economia dos EUA precisa crescer para que em algum ponto tenhamos inflação. Ou, ainda, precisamos reduzir o hiato do produto. Difícil dizer quando. Já em relação à moeda de reserva, não vejo a China como competidora nesse sentido, ao menos por enquanto.

Esses impasses em torno do balanço do FED são complexos porque, afinal, você não tem teoria econômica para lidar com os efeitos dessas medidas de quantitative easing: os efeitos dessas medidas, feitas por tempo prolongado, são pouco conhecidos - talvez seja interessante estudar o Japão, primeiro país a adotar esse tipo de medida. Outro ponto importante é o impasse político que domina a agenda norte-americana, em torno do crescimento de alas radicais, como o Tea Party - ano que vem é época de "eleições de meio de mandato", onde serão renovados postos na Câmara e no Senado.

Nesse sentido, a opção do FED, me parece, foi balancear custos e benefícios, ponderando de um lado a incerteza do horizonte político e a nada certa recuperação da economia e de outro, as consequências imprevisíveis da continuação do processo de quantitative easing. A opção mais correta pareceu ser o do gradualismo, acalmando o mercado, para iniciar 2014 com alguma previsibilidade sobre o que ocorrer. Nesse sentido, o FED parece ter dado um tiro certeiro - a aguardar o movimento das bolsas e dos mercados futuros nesses dias - após os erros de comunicação cometidos nos últimos meses.

E o Brasil, pergunta o leitor. Bom, como escrevi na Carta de Dezembro do GECE, a expectativa há algumas semanas era de que o tapering viria apenas no segundo semestre do ano que vem, dadas as dificuldades do cenário político, a lenta recuperação da economia e os problemas de extração de sinal do FED. O gradualismo, nesse sentido, é bom para o Brasil, observo. A previsão do GECE era de Selic em 11% no ano que vem, já contando com o início dilatado do processo de fim dos estímulos. Se o mercado reagir bem a essa novidade nas próximas semanas e o câmbio não sofrer muito, torna-se factível o cenário onde a Selic para de subir antes dos 11% - 10,25% ou 10,50%.

Em outros termos, o tapering organizado, sem estressar os mercados, parece ser tudo o que o Banco Central sonhou nas últimas semanas. Ademais, logo após o anúncio do FED, o Banco Central anunciou a continuação dos leilões de swap, visando tranquilizar ainda mais o mercado de câmbio. Afinal, tudo o que menos quer o BC é mais pressão sobre os preços domésticos. Vamos aguardar os desdobramentos amanhã no mercado de câmbio, mas a priori, o tapering parece ter vindo para facilitar a condução da política monetária e os desdobramentos da economia brasileira em 2014.

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