Inflação

O "centro" da meta e a pobreza do debate sobre inflação

By 3 de maio de 2014 No Comments

Uma matéria sobre inflação me chamou atenção nesse final de semana. Publicada no Valor, fazia referência ao termo "centro da meta de inflação". Machado de Assis costumava dizer, quando questionado sobre o ato de escrever, que palavra puxa palavra, uma ideia traz outra, e assim se faz um livro, um governo, ou uma revolução. Lembro-me do bruxo do Cosme Velho toda vez que ouço alguma declaração dos membros da atual equipe econômica. O "centro", quando referido à meta para inflação, é uma dessas palavras que puxam outras e constroem uma ilusão. Engana muita gente, é verdade, menos talvez aqueles que acompanham os índices e expectativas de inflação todos os dias.

A estória que a palavra "centro" puxa é a que a meta para inflação tem sido regiamente cumprida no país nos últimos dez anos. Nesse período a inflação média foi de 5,53%, com desvio padrão de 1,25 p.p. Como a meta foi a maior parte do tempo de 4,5%, com 2% de tolerância - para mais ou menos - diz-se que ela tem sido cumprida durante todo o tempo. Mas se é assim, pergunta o incauto leitor, por que a credibilidade do governo e do banco central em particular anda tão capenga? Pois é...

Existem várias formas de se medir a credibilidade de um banco central. Todas elas, entretanto, usam a ideia simples de que a credibilidade é maior ou menor se as expectativas desviam menos ou mais da meta. Atualmente, as expectativas estão acima da meta até 2018. Em outras palavras, os agentes não acreditam que ela será alcançada durante todo esse tempo. Isso diz um bocado de coisa sobre como anda a credibilidade da autoridade monetária e o termo "centro da meta" tem muito a ver com isso.

Ora, se existe um centro e um limite superior, o banco central pode a todo o tempo perseguir uma inflação de 6,5%, que ainda assim terá cumprido a meta. O centro de 4,5% é apenas para bancos centrais ortodoxos demais, que querem alcançar uma inflação com o custo de gerar desemprego. Não é isso?

Bom, já sabemos que esse tipo de raciocínio tem efeito direto sobre as expectativas de inflação. Afinal, se o banco central não entrega a meta hoje, os agentes não têm confiança nenhuma de que no futuro isso será feito. Logo esperam uma inflação mais elevada. Mas não é apenas isso.

O limite superior de 2% é na verdade um intervalo de tolerância. Novamente, citando Machado, as palavras têm significado e, portanto, devem ser utilizadas de forma correta para não gerar confusão. Uma inflação de 6,15%, por exemplo, não está na meta, que é 4,5%, mas no intervalo de tolerância. Tolera-se essa inflação porque ela pode ser efeito, por exemplo, de um clima mais seco, que afeta alguns preços da economia. Como o choque é passageiro, não faz muito sentido aumentar juros para contê-lo, logo tolera-se uma inflação momentaneamente acima da meta. É a existência desse intervalo que dá ao regime de metas para inflação flexibilidade, para não gerar custos desnecessários em termos de emprego.

O problema é confundir esse intervalo de tolerância como parte da meta de inflação. Para inflação efetiva sempre no limite superior, o que acontece quando ocorrem choques na economia? Em outras palavras, se a inflação em 12 meses está sempre acima de 6%, o que acontece quando há um problema climático, por exemplo? Nesse caso, corre-se o risco maior de superar o limite superior de 6,5% toda vez que algo inesperado acontece na economia.

A estória que o termo "centro da meta" conta, nesse contexto, é o de uma inflação efetiva persistentemente no limite superior tolerado, de expectativas distantes da meta de 4,5% e de riscos crescentes de superar esse limite a qualquer momento. O centro, quando referido à meta para inflação, é uma dessas formas de tentar dizer que continua fazendo uma coisa, quando já se deixou de fazê-la há algum tempo. É justamente o efeito que tem sobre a existência do regime no Brasil. Hoje ele simplesmente deixou de existir.

A meta existe, afinal, para ancorar as expectativas de inflação dos agentes. Uma vez que os agentes acreditam nos 4,5%, esperam que nos próximos anos a inflação efetiva seja precisamente esse número. Se os agentes não acreditam na meta, esperam que a inflação seja maior do que esse valor. Como esse último cenário é o que ocorre hoje, a meta não mais ancora ou baliza as expectativas e, portanto, não consegue servir de guia para a inflação. Ademais, sendo o regime configurado como uma meta e um intervalo superior em que se tolera, temporariamente, a inflação, perseguir repetidamente o número máximo do intervalo o liquida, na prática.

O "centro da meta" é, no final das contas, uma alegoria para desconstruir o regime de política monetária. Só revela a pobreza do debate sobre inflação no país. Ao invés de discutirmos a redução da meta, que comparada a outros países, é elevada, voltamos a discutir coisas básicas. Como ex-aluno de duas escolas heterodoxas eu sou sempre favorável ao debate, mas acho que ele só avança quando conseguimos estabelecer princípios. Acredito que seja prudente nesse momento parar de dar ouvido a economistas que claramente não entendem o processo inflacionário e dão receitas equivocadas para o problema. Isso só atrapalha a redução da inflação para níveis civilizados. Se, afinal, tivéssemos levado esses economistas a sério, ainda estaríamos lutando contra uma inflação de 90% ao mês.

Em assim sendo, para voltar a ter credibilidade o banco central terá que remover o "centro" do debate e voltar a utilizar o termo meta para a inflação. É saudável para o regime manter intervalos de tolerância, mas dado o desgaste atual, mesmo esse intervalo terá de ser reduzido: para 1%, por exemplo. O firme compromisso com a meta pode ser perseguido, mais facilmente, com a independência do banco em relação ao Palácio do Planalto. O uso político dos juros foi, em última instância, o que causou essa perda de credibilidade da autoridade monetária. Nada mais lógico, portanto, que eliminar essa possibilidade para recuperar a confiança dos agentes. Além é claro de se inspirar em Machado e utilizar palavras que puxem outras estórias: mais benéficas para o país.

(*) A matéria do Valor aqui.

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