Romances

Amores Urbanos: capítulo 6

By 27 de julho de 2011 No Comments

Há dois tipos de mulheres, o leitor mais astuto e experiente já deve saber disso. Há as que te levam do ponto onde está para frente e as que, do contrário, te mandam de volta para o começo ou até, quando o caso é grave, para bem longe desse pseudo zero absoluto. O tempo que passei ao lado de Ana me mostrou que ela definitivamente não me mandaria de volta para a terra de onde saí. Estava a certa altura de nosso relacionamento convencido de que havia chegado nesse nirvana poético – e inatingível para a maioria dos poetas – chamado felicidade. Se alguma época, pedaço de tempo ou circunstância cheguei relativamente próximo desse sentimento mágico a que todo ser humano em sã consciência está em busca, foram nos braços pálidos, porém reconfortantes, daquela linda morena de olhos azuis. Nossas noites eram quase todas elas acompanhadas de poesia, beijos e abraços aos montes e um sorriso meio envergonhado por parte dela. Nesse ponto, a propósito do fato, Ana nunca deixou de ser uma menina tímida e encantadora, do primeiro ao último fio dos belos e brilhantes cabelos pretos. Tinha uma áurea feminina que os tempos contemporâneos trataram de empurrar para debaixo do tapete. Era doce, sem ser ingênua. Era sensual, sem apelar para a vulgaridade. Tinha traços de inteligência, perspicácia e determinação, sem querer uma independência pasteurizada, voltada apenas para uma provação feminista com pouco sentido. Ana nunca sofreu dessa necessidade que algumas mulheres de hoje sentem em provar algo para todo mundo. Pelo contrário, Ana sempre quis provar da vida, nada mais nada menos que isso.

Queria viajar, conhecer lugares distantes, fazer coisas que contribuíssem para o progresso do seu país. Não queria, tinha quase que um horror escatológico, para o lugar comum, a vida vazia e rabugenta que a maioria de nós, pobres mortais, levamos. Se tivesse que ser assim, dizia aos quatro ventos e sem medo de ser repreendida, era melhor não viver. Era como ter uma doença terminal e vegetar sobre um rio de possibilidades a sua frente. O mundo, pensava, está tão cheio de coisas magníficas para construir que parece ser algo contraproducente viver à margem disso tudo.

Quando a conheci, confesso ao leitor e mesmo à leitora que ainda me vê com bons olhos, tive um pouco de vergonha quando ouvia esse e muitos outros devaneios. Minha vida até então era um mar de ignorâncias e picardias juvenis. Era um inculto, um ogro pouco instruído para lidar com mulheres daquele tipo. Se Ana fosse uma matéria de faculdade, só poderia ser cursada depois de cumpridos toda a sorte de pré-requisitos. E eu, como não os tinha, me sentia o pior dos vagabundos, esses seres que pouco sabem da vida e nada mais querem aprender sobre ela.

O fato, sórdico ou não, é que eu sempre quis amar alguém. Nessa época e mesmo hoje. Acho que é mentiroso alguém que se acha auto-suficiente, pela contínua interdependência que existe entre nós. Mesmo aqueles que não conseguem desenvolver algum tipo de relacionamento sólido têm a plena convicção e intenção de alcançar algo pleno em alguma época da vida. Alguns amam apenas uma mulher, outros tantos amam várias mulheres. Eu, aos quatorze anos, só queria amar alguém. Hoje, com a distância, confesso que não sei ao certo se Ana foi minha grande paixão na vida. De certo que naquela época, tinha plena certeza disso. Independente do que seja o mais correto, o que importa é apenas o que vivemos. E tivemos nossos momentos. A maior parte deles muitos bons. Poucos, muito poucos, um percentual ridículo sobre o total, de maus momentos. Ana sabia exatamente o que se passava em minha cabeça. Sabia quando eu estava preocupado com alguma coisa. Tinha a exata noção de quando eu estava bem e, de outro lado, quando eu estava mal. Se de fato existe esse tipo lunático de percepção determinística sobre almas gêmeas, não tenho dúvidas de atestar que ela, somente ela, seria a minha.

Ana e eu nos encontrávamos quase todas as noites. Tivemos um pouco de sorte nesse sentido, digo logo ao leitor. Nossos pais eram seres liberais, defensores extremados de uma filosofia de vida bastante simples: quanto mais você prender seu filho, mais merda ele vai fazer na vida. O inverso não é necessariamente verdadeiro, mas há muito mais adultos problemáticos que vieram de lares repressores do que propriamente o contrário. E desse contexto, tínhamos a liberdade de ficar até duas ou três horas da madrugada conversando sobre os fatos da vida. Éramos, recorde o leitor, vizinhos de muro e quando o sono apertava era questão de apenas pulá-lo. Ana me tornou uma pessoa melhor do que eu provavelmente seria sem ela. Lia para mim poesias, crônicas, romances e contos dos mais diversos autores. Dos clássicos brasileiros, como Machado, Aluísio, Alencar, Azevedo e tantos outros aos internacionais, como o mal-amado Sartre, Hobbes, Platão e milhares de outros.

No início ouvia tudo aquilo com arredio. Como um cavalo que está sendo treinado para um circuito cheio de obstáculos. Depois, porém, me acostumei com a voz doce e aveludada. Acabei, por fim, apreciando as lições noturnas e até hoje sinto falta de uma pessoa que me tenha como um aprendiz rebelde, mas ajustável.

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