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Facebook e a alta de preços dos alimentos

By | Artigos de Economia

O que essas duas coisas, aparentemente tão díspares, têm em comum? Será que o Mark Zuckerberg está por trás do aumento de preços de alimentos ao redor do mundo? Não, leitor, não é bem isso. A questão que envolve tanto o aumento de preços de commodities (alimentos, inclusive) e o Facebook é o que os meus amigos marxistas chamam de exacerbação do capital fictício e a incrível redução do tempo de rotação do capital. Ficou complicado né? A questão, porém, é mais simples do que parece...

Imagine que você tem um dinheiro extra guardado. Dinheiro é uma forma de capital. E o que todo capital quer, antes de tudo? Sim, ele quer se valorizar ao longo do tempo. Afinal, você não é daqueles que acreditam que guardando dinheiro embaixo do colchão... Não, você não é desse tipo. Mas afinal como se faz isso? Como se valoriza o capital (ganha-se um trocado)? Ora, aplicando o capital em alguma coisa que renda um algo a mais. Você pode abrir uma empresa, contratar funcionários, produzir um bem ou prover um serviço. No final do mês o que você poderá ter é um lucro, um capital a mais do que você tinha quando pensou em começar. Mas é só isso?

Não, claro que não. Você pode não ter uma veia empreendedora e quer emprestar o seu capital a alguém que o tenha. O que você faz? Pega seu dinheirinho - o seu capital - e aplica na bolsa de valores. Na sua visão o que você está fazendo é emprestar o seu dinheiro a outra empresa, que promete devolver com um plus, um capitalzinho a mais do que aquele seu inicial. Bonito, não?

Pois é, mas não é apenas isso. Você pode ter capital, não ter veia empreendedora e nem querer emprestar a quem tenha, porque afinal isso tudo junto demora muito. E, acredite, mesmo assim você vai conseguir ganhar mais dinheiro! Você pode fazer o simples: emprestar ao governo. Você acessa o Tesouro Direto e compra título público. Se for atrelado à Selic, pronto: você recebe 11,75% ao ano, sem esforço. O governo irá gastar com... Bom, isso é um pouco mais difícil de responder. Mas eles gastam e o dinheiro acaba voltando para o sistema econômico (ao menos uma boa parte).

E se você for um simples capitalista-comedor-de-criancinha, você pode pegar o seu capital e ficar de um lado para o outro com ele, na expectativa de que o mesmo renda (se valorize) sem gerar nenhum tipo de bem ou prestação de serviço. Valorizar por valorizar. E agora extrapole isso: imagine que existem muitos outros iguais a você. E, agora assim, imagine que uma parte expressiva dessa montanha de capital (dinheiro) está rodando por ai, atrás de uma rápida valorização. Cada vez mais rápida, porque afinal quem tem fome tem...

Pronto, imaginou? Pois é: ai que entram o Facebook e a alta de preços dos alimentos. No Facebook existem investidores ávidos por retorno. Eles esperam que no futuro, a empresa de Mark Zuckerberg gere uma receita fabulosa. E é nessa expectativa que eles entregam dinheiro para o ex-aluno de Harvard. Isso, leitor, é um exemplo de capital fictício: apropriação sobre um valor que ainda não foi produzido.  E os alimentos?

A questão dos alimentos é bastante parecida. Como existe uma montanha de dinheiro por aí, sempre haverá uma corrida para certos tipos de ativos. As commodities hoje são um exemplo extremamente complexo de mercado futuro. Vende-se ouro, soja, açúcar, café etc. E não apenas isso: vende-se proteção. Eu, produtor de soja do centro-oeste brasileiro, corro o risco de ver a minha safra ir para o vinagre, dada a falta (ou excesso) de chuvas. O que eu faço? Vendo minha próxima safra no mercado futuro. E, pronto: o que era algo real, palatável, virou um produto financeiro.

Há muito mais complexidade nisso. É possível agrupar diferentes tipos de riscos em um único produto (que desembocará nos derivativos). E além disso, é possível transformar esses produtos em outros títulos financeiros, a serem distribuídos por todo o sistema financeiro (a securitização). Mas o fato básico é que a existência de uma montanha de capital girando ao redor do mundo está (e continuará estando) em busca de valorização. E tais capitais migram de um lado para o outro, na busca de seu objetivo primário.

É por isso que de tempos em tempos há um aumento radical dos preços de commodities (e alimentos). Não é porque os chineses e indianos estão comendo mais. De tempos em tempos, empreendimentos que ainda não deram um centavo de lucro recebem milhares de dólares. E é por isso que de uma forma ou de outra, a empresa de Mark está ligada a alta de preços dos alimentos. Curtiu?

 

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