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crescimento do pib Archives - Análise Macro

Qual a relação entre o saldo do CAGED e o crescimento do PIB?

By | Macroeconometria

Na Edição 58 do Clube do Código, verificamos a relação entre o saldo do CAGED e o crescimento do PIB por meio de duas metodologias. Na primeira, verificamos as funções impulso-resposta extraídas de um modelo BVAR com *prior* de Minnesota. Na segunda, estimamos um Vetor de Correção de Erros (VEC), de forma a obter também funções de impulso-resposta, além da decomposição de variância. Por fim, estimamos um teste de Wald de forma a verificar precedência temporal entre as séries.

Os resultados encontrados sugerem, de forma bastante forte, que existe causalidade no sentido do saldo do CAGED para o crescimento do PIB. Para a decomposição de variância, passados 12 períodos, o saldo do CAGED explica mais de 95% da variância no crescimento do PIB.

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(*) Todos os códigos estarão disponíveis daqui a pouco no repositório privado do Clube do Código.

(**) Essa e outras análises, você aprende em nosso Curso de Séries Temporais usando o R.

Empregos Formais vs. Crescimento do PIB

By | Comentário de Conjuntura

No último relatório de inflação, o Banco Central divulgou um boxe titulado Evolução da produtividade e do rendimento do trabalho. Nele, há a construção de uma medida de produtividade da mão de obra, obtida pela razão entre valor adicionado e população ocupada. Observa-se que houve uma queda de 9,5% nessa métrica ao longo do período entre 2012 e 2018.

A queda da produtividade está associada a um crescimento maior da população ocupada em relação ao valor adicionado, por definição. Como mostra um gráfico do boxe, o aumento da população ocupada foi concentrado em atividades informais. Isso me levou a pensar qual seria a relação entre o crescimento econômico e a geração de empregos formais no mercado de trabalho.

Por óbvio, pode pensar o leitor, a relação deve ser positiva, não é mesmo? Maior crescimento econômico vai estar associado a maior contratação formal de trabalhadores. O problema aqui, entretanto, é mostrar essa obviedade com os dados disponíveis. Algo que temos feito através de nossos Cursos Aplicados de R. O gráfico abaixo mostra essa relação.

De fato, há uma forte correlação entre empregos formais crescimento do PIB. Mas, pergunta o leitor, como diabos cheguei nesse gráfico bonitinho aí de cima? Pois é, vamos lá...

O primeiro problema é encontrar os dados. Para empregos formais temos a base de dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CAGED) do Ministério do Trabalho. O que para nossa sorte conta com uma série disponível no IPEADATA que pode ser acessado via o pacote ecoseries, como abaixo.


library(ecoseries)

caged = ts(series_ipeadata('272844966',
periodicity = 'M')$serie_272844966$valor,
start=c(1999,05), freq=12)

 

Já o PIB pode ser baixado a partir do site do SIDRA/IBGE, que também conta com um pacote no R, o sidraR. O código abaixo pega a série.


library(sidrar)

tabela = get_sidra(api='/t/1620/n1/all/v/all/p/all/c11255/90707/d/v583%202')
pib = ts(tabela$Valor, start=c(1996,01), freq=4)

 

Como tenho dito aqui e nos meus Cursos Aplicados de R, cerca de 80% do trabalho de quem lida com dados passa pela coleta e pelo tratamento dos mesmos. Não faz muito sentido, por exemplo, relacionar a série de saldo líquido entre empregados e desempregados do CAGED que obtivemos acima com o número índice do PIB. Abaixo mostro o saldo líquido do CAGED.

A série tem uma clara sazonalidade, não é mesmo? Precisaremos tratar isso. Abaixo, o número índice do PIB...

Precisaremos obter a taxa de crescimento anualizada do PIB a partir desse índice para verificar alguma relação com os empregos formais do CAGED. Abaixo, fazemos esses tratamentos.


## Dessazonalizar Caged
cagedsa = final(seas(caged))

## Criar variação anual
anual = (((pib+lag(pib,-1)+lag(pib,-2)+lag(pib,-3))/4)/
((lag(pib,-4)+lag(pib,-5)+lag(pib,-6)+lag(pib,-7))/4)-1)*100

Tudo pronto? Não! Observe que a série do CAGED é mensal e a do PIB é trimestral. Ou seja, vamos ter que trimestralizar os dados do CAGED de modo a compatibilizar com o agora crescimento do PIB...


## Trimestralizar Caged
dates = seq(as.Date('1999-07-01'), as.Date('2018-09-01'),
by='1 month')
caged = window(cagedsa, start=c(1999,07), end=c(2018,09))
caged = data.frame(dates=dates, caged=caged)
caged = xts(caged$caged, order.by = caged$dates)
caged = apply.quarterly(caged, FUN=mean)
caged = caged[-1]

Também precisamos compatibilizar as datas das duas séries para que possamos, enfim, gerar aquele gráfico lá em cima, afinal elas precisam estar no mesmo intervalo de tempo, não é mesmo? Somente após isso, podemos gerar o gráfico e começar a explorar melhor a relação entre empregos formais crescimento do PIB através de alguma modelagem que vemos nos nossos Cursos Aplicados de R.

Dá trabalho, dá, mas só sabendo fazer todas essas etapas é que você poderá se considerar um profissional sério... 🙂

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Observação: os demais códigos estarão disponíveis no Clube do Código na próxima semana. Ainda não é assinante do Clube? Veja como assinar aqui.

Comentário de Conjuntura: Câmbio, Juros, Desemprego e o PIB do 1º Trimestre

By | Comentário de Conjuntura

A semana é marcada pela divulgação do PIB no primeiro trimestre - será conhecido na quarta-feira. Conforme antecipado pelas pesquisas de alta frequência, o número não deve animar economistas e analistas de mercado, confirmando o arrefecimento da recuperação da economia brasileira. Somado ao comportamento recente da taxa de câmbio, o número do PIB do primeiro trimestre deve ensejar maiores revisões para o crescimento em 2018, refletindo um aumento do pessimismo. A boa notícia da semana deve vir da taxa de desemprego, que deve voltar a cair em abril - a taxa será divulgada amanhã. Nessa edição do comentário de conjuntura, destacamos o efeito da desvalorização cambial sobre a trajetória dos juros.

 

A ata da 214ª reunião do Comitê de Política Monetária (COPOM), divulgada na semana passada, justificou a interrupção no processo de flexibilização da política monetária devido à mudança no cenário externo. Segundo o documento, "o cenário externo tornou-se mais desafiador e apresentou volatilidade. A evolução dos riscos, em grande parte associados à normalização das taxas de juros em algumas economias avançadas, produziu ajustes nos mercados financeiros internacionais. Como resultado, houve redução do apetite ao risco em relação à economias emergentes". A redução do apetite ao risco produziu uma desvalorização da taxa de câmbio R$/US$, conforme pode ser visto abaixo.

Ainda que o Banco Central tenha conseguido conter na ponta a desvalorização, graças à volta do programa de swaps cambiais, esse movimento indica o fim do "interregno benigno" que caracterizou a economia internacional nos últimos anos. Nesse contexto, as fragilidades da economia brasileira, associadas em grande parte à situação fiscal, incentivam uma migração de investimentos para economias avançadas - EUA, sobretudo - o que tende a produzir maior volatilidade no mercado de câmbio.

No que concerne especificamente à política monetária, uma desvalorização da taxa de câmbio implica em um repasse para a inflação, mitigando assim o risco de não cumprimento da meta esse ano. Essa foi, a propósito, a principal justificativa do Comitê para não reduzir o juro básico em 25 pontos-base, como havia se comprometido na reunião de março.

Pelos modelos do Banco Central, contudo, o repasse hoje é muito baixo - algo como 0,2 a 0,3 p.p. para uma desvalorização de 10% - devido, sobretudo, a abertura do hiato do produto. Com efeito, supondo juro constante em 6,5% e câmbio constante em 3,60 R$/US$, a inflação fecha 2018 em 4%. Ainda, portanto, abaixo da meta.

Não por outro motivo, a política monetária deve se manter em uma zona expansionista, como ilustra a trajetória do juro real ex-ante acima. O PIB do primeiro trimestre e a ainda elevada taxa de desemprego, variáveis a serem divulgadas essa semana, devem confirmar uma economia ainda muito frágil, justificando a posição da política monetária. Apenas um evento extraordinário, como um aumento mais forte dos juros internacionais ou a possibilidade de vitória de um presidente não comprometido com as reformas, pode retirar a política monetária dessa posição nos próximos meses. Com as informações disponíveis hoje, não acreditamos que esse cenário tenha probabilidade relevante.

 

Gráficos interativos no R: relacionando a incerteza econômica ao PIB

By | PIB

Ontem divulguei aqui o índice de incerteza criado pelo pessoal do IBRE/FGV. Hoje, entre uma cerveja e outra nesse calor do Rio de Janeiro, resolvi brincar um pouco com o índice, relacionando o mesmo a outras variáveis. A ideia é criar exercícios com essa série para o Clube do Código. Uma das brincadeiras foi usar o pacote plotly, de modo que seja possível criar gráficos interativos, como esse daí ao lado, que relaciona o índice de incerteza ao crescimento do PIB. Passe o cursor sobre o gráfico para visualizar.

As séries utilizadas foram o crescimento acumulado em 12 meses do PIB mensal também criado pelo pessoal do IBRE/FGV (já tô merecendo uma graninha pela divulgação, hein...) e o índice de incerteza sublinhado acima. De posse dessas séries (disponíveis aqui), você pode começar a brincadeira com o código abaixo.

 

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### Incerteza vs. PIB ###

## Carregar pacotes
library(ggplot2)
library(plotly)

## Importar dados
data = read.csv2('data.csv', header=T, sep=';', dec=',',
 colClasses = c('POSIXct', rep('numeric', 2)))

### Gráfico de Correlação 

ggplot(data, aes(x=incerteza, y=pib))+
 geom_point(shape=1, colour='darkblue', size=2)+
 geom_smooth(method=lm)+
 xlab('Índice de Incerteza Econômica')+
 ylab('Crescimento do PIB')+
 labs(title='Incerteza econômica vs. Crescimento do PIB')+
 theme(plot.title = element_text(hjust = 0.5, face='bold',
 size=15))

### Jogando para o plotly
g = ggplotly()
plotly_POST(g, filename = 'incerteza', sharing = 'public')

Uma vez feito isso, você terá seu gráfico do ggplot2 transformado em um gráfico interativo a partir da função ggplotly. Uma outra opção é criar o gráfico diretamente com a função plot_ly. Além disso, claro, você deverá criar uma conta na plataforma https://plot.ly/ e setar suas credenciais antes de começar os trabalhos. Um tutorial básico está disponível aqui.

Por enquanto, é isso. Vamos ver o que sai dessa brincadeira... 🙂

O preço da Nova Matriz

By | Indicadores, PIB

Os dados do PIB, divulgados ontem pelo IBGE, confirmam o que quase todo mundo já sabe: o Brasil continua sua trajetória negativa de crescimento. E não é de hoje. Após atingir um pico no quarto trimestre de 2010, a taxa de crescimento do PIB tem se reduzido de forma bastante consistente. Após um breve ensaio de recuperação em 2013, o crescimento "embicou" para baixo, chegando a -1,2% no segundo trimestre de 2015, sempre no acumulado em um ano. O gráfico abaixo resume o comportamento do crescimento brasileiro, desde 1999.

pibnovamatriz

O gráfico não deixa muitas dúvidas sobre a situação do crescimento brasileiro. O que estamos vendo hoje não é obra dos últimos trimestres, mas consequência de uma série de medidas equivocadas tomadas nos últimos anos, bem como de um diagnóstico errado sobre a desaceleração da economia brasileira. Está claro, leitor, que a economia brasileira deixou de crescer por que já não era mais possível absorver mão de obra a partir de meados de 2010, dada a baixa taxa de desemprego. Com efeito, ou o investimento e a produtividade aumentavam, ou a taxa de crescimento do PIB passaria a se reduzir.

As medidas equivocadas da Nova Matriz, bem como a interferência incessante do governo na microeconomia [como, por exemplo, no ocaso do setor elétrico], geraram falta de previsibilidade, o que prejudicou de forma direta tanto o investimento quanto a produtividade. Sem poder contar com mão de obra, investimento e produtividade, não é surpresa alguma, portanto, que o crescimento se apresente hoje de forma tão desastrosa. A tabela abaixo resume as principais métricas.

PIB e Componentes (%)
Margem Trimestral Anual
PIB -1,85 -2,58 -1,23
FBCF -8,09 -11,93 -7,88
CF -2,07 -2,71 -0,56
CG 0,67 -1,07 -0,28
X 3,35 7,53 0,97
M -8,83 -11,69 -4,71
IND -4,29 -5,17 -2,93
SERV -0,73 -1,39 -0,46
AGRO -2,68 1,82 1,57

Na margem, contra o primeiro trimestre de 2015, o PIB caiu 1,9%. Contra o segundo trimestre de 2014, houve queda de 2,6%. E no acumulado em quatro trimestres, queda de 1,2%. Mesmo a agropecuária, que ainda mantém um resultado acumulado de 1,6%, teve queda nesse segundo trimestre, de -2,7%. As exportações e o gastos do governo (CG) foram os únicos componentes que apresentaram resultado positivo na margem [contra o trimestre imediadamente anterior].

grafico1

Os gráficos dos componentes da demanda e da oferta mostram que a recessão encontra-se disseminada. O Consumo das Famílias, que era tido por alguns economistas, como o "líder" (sic) do crescimento brasileiro, registra dois trimestres de crescimento negativo na margem. A Formação Bruta de Capital Fixo apresenta taxas negativas de crescimento na margem há oito trimestres. As exportações, por suposto, diante da forte desvalorização do câmbio, concentram todas as esperanças de alguma recuperação, ainda que o atual cenário externo não possa alimentar maiores ambições.

grafico2

No campo externo, por suposto, vem a única "boa" notícia do resultado divulgado pelo IBGE. Ainda que, como ser visto pelo gráfico acima, o hiato entre poupança e investimento esteja elevado, na casa de 4,47% do PIB, há algum sinal de melhora na margem. No quarto trimestre de 2014, o uso de poupança externa estava em 4,77%. Enquanto o investimento caiu 0,64 p.p. no acumulado em quatro trimestres, a poupança caiu 0,38 p.p., o que explica essa pequena melhora no uso de poupança externa. Por outra ótica, como a poupança externa é o déficit em conta corrente com sinal trocado, é possível atribuir essa pequena melhora ao avanço das exportações vis a vis as importações, dada a desvalorização do dólar. O gráfico abaixo ilustra esse processo.

grafico3

Há sinal de luz no fim do túnel, leitor? Acho difícil que algo se resolva no campo doméstico, dado o elevado endividamento das famílias e a queda do salário real. Remover as distorções macro e microeconômicas dos últimos anos demorará mais tempo do que inicialmente imaginado. O governo Dilma Rousseff, autor desses equívocos, não parece ter força política para inaugurar um novo ciclo de crescimento, baseado em investimento e produtividade. Nesse contexto, a saída da crise só poderá ser feita quando atingirmos o "fundo do poço" no aumento do desemprego. Atingido esse nível, haverá capacidade ociosa para voltar a crescer, o que, claro, deve ser combinado com alguma estabilidade política. Paralelo a isso, há a esperança vinda das exportações, mas que deve ser vista com cautela, diante dos riscos contidos no cenário externo.

Em assim sendo, ainda demoraremos um bom tempo para sairmos dessa "trajetória de queda" que nos encontramos desde o início de 2011.

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