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Crônica: Cebolas, pimentões e a raiva de Clotilde.

By | Crônicas Econômicas

Clotilde abre a porta da sala com violência. Está esbaforida. Entre gente, muita gente, cebolas, pimentões e tomates, lá está ela a carregar o carrinho de feira. Estou sentado na sala, tomando um café preto, levemente amorenado com um pingo de leite integral, lendo o Valor. Clotilde chega reclamando dos preços: está tudo caro, Seu Vítor. Eu me desapego da parte em que o mercado projeta Selic em 10,50% ano que vem e me volto para os dissabores de Clotilde. Ela, como se não se desse conta de ter interrompido minha leitura matinal, continua seu purgatório: a batata baroa, essa que o Sr. gosta, está pelos olhos da cara. Pois é, Clotilde, eu tenho que lhe dar razão sobre isso.

Clotilde narra, então, sua saga pela feira da semana, enquanto descarrega as compras. Pouca coisa para o dinheiro que lhe dei. Ela diz que há algum tempo seria o suficiente não apenas para encher o carrinho, mas para lhe dar calo nas mãos. Hoje, entretanto, o carrinho fica apenas meio cheio, posto que o dinheiro já não dá para muita coisa. É tudo 6, 7, 8 reais o quilo: esse dinheiro que o Sr. me dá para a semana já não dá pra mais nada. E Clotilde continua suas reclamações, enquanto reabasteço o café com uns pingos de leite. O Valor, leitor, foi deixado para trás.

Clotilde não sabe, mas em se tratando de economia, meio que por atração cósmica é a moeda e suas várias bifurcações o meu tema favorito. Devo ser um desses economistas esquizofrênicos, um dos últimos a defender as virtudes da moeda: mas penso que Clotilde está certa quando diz que o poder de compra da moeda ao longo do tempo é uma dessas instituições que nós, economistas ou não, devemos ter em mente quando estamos pensando em desenvolvimento. Estabilidade, afinal, começa quando a moeda, o sangue que corre pela economia, está plenamente confortável em suas funções. Sem isso, leitor, viveríamos como vivemos ao longo da década de 80 e início da de 90: vivendo um dia de cada vez, sem poder planejar o futuro. 

A inflação, esse pecado capital, assola, afinal, as funções da moeda. Parafraseando Gustavo Franco, primeiro, debilitando sua capacidade de servir como reserva de valor, segundo, prejudicando sua utilidade como unidade de conta, por último, e à medida que se dissemina a indexação, reduzindo sua capacidade de servir como meio de troca. A reserva de valor é a primeira a ir para o ralo, porque como bem observa Clotilde, passado o curso de 30 dias, o dinheiro da feira já não compra mais o que comprava antes: ele traz menos legumes e frutas. O poder de compra da moeda desaparece, aos poucos. A unidade de conta é o segundo porque, dado que a moeda não garante o mesmo poder de compra ao longo do tempo, as pessoas preferem negociar seus contratos em outro indexador, o que faz com que a economia experimente o crescimento de índices que indexam a maior parte dos contratos. Nesse processo, a moeda só é mantida como meio de troca por curso forçado, dado que o Estado a mantém por lei: de fato, o que se vê é o uso de outras moedas e de outros índices, para indexar seus contratos diários.

Não é necessário ir muito longe para ver esse processo, triste, de perda da confiança na moeda. Basta ir visitar a Argentina. Por lá aceitam-se reais, guaranis, euros e dólares. O peso foi substituído por índices que reajustam os contratos ao longo do tempo e só é mantido como meio de troca pelo populismo irresponsável da Sra. Cristina, que finge prosperar, enquanto o povo vê seu poder de compra evaporar. A realidade triste que vive nosso vizinho toma conta da feira semanal que Clotilde adorava fazer: chegava cantando todas as vezes que ia catar legumes, hortaliças e frutas. Todas frescas, Seu Vítor! Entre as cantaroladas de Clotilde, seu planejamento para o almoço e minha boa rotina de ler o jornal do dia. O governo do PT, ao que parece de forma premeditada, resolveu acabar com a tranquilidade das minhas manhãs: resolveu seguir o processo de destruição do real.

A inflação corrente é, no Brasil de hoje, elevada para os padrões internacionais. Nos últimos três anos ela ronda o limite superior da meta, que é de 6,5%. As expectativas das pessoas, nesse aspecto, é que se a inflação é alta hoje e o governo não toma medidas concretas para reduzi-la, a inflação será alta no futuro. Até 2018, por suposto, o que se espera é inflação por volta de 6%: corroendo a renda das pessoas, destruindo a confiança em contratos indexados nessa moeda, provocando uma corrida rumo ao reajuste salarial. A espiral inflacionária, representada pela figura arsênica do cachorro que tenta morder o próprio rabo, ocorre quando as pessoas vendo sua renda sendo exaurida pela inflação, reajustam os preços (empresários) ou pedem maior aumento salarial (trabalhadores), o que retroalimenta a inflação. A expectativa sobre os preços futuros, nesse sentido, se mantida por tempo suficientemente elevado, retroalimenta a inflação, causando inflação em aceleração por um bom tempo.

É esse processo de destruição da moeda que Clotilde nota ao ir a feira, ao invés de cantar: reclamar. Até quando, leitor, Clotilde terá de reclamar ao invés de sorver o suco das frutas que traz? Fique triste por Clotilde, por mim e pelo real, nossa moeda. Ela se desfaz, em um processo cumulativo, que a debilita mais, a cada dia que passa. Tristes dias na república: tristes dias para o nosso país.

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