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Tempos estranhos

By | Crônicas Econômicas

A sala era mesmo imponente, com objetos de arte circundando todo o espaço. Quadros, vasos chineses, conjunto de chá inglês. A mesa, no centro, harmonizava-se com toda a mobília: de madeira maciça de algumas árvores da Amazônia. O aroma da madeira, inclusive, inundava toda a sala. Completavam o ambiente, luzes indiretas, vindas das paredes. Talvez para não cansar a vista dos tomadores de decisão que por ali passavam duas ou três vezes por semana. Decisões estas que, infelizmente, terão de ser adiadas por um bom tempo...

O carnaval, a essa altura, já tomava conta do Rio de Janeiro. Executivos convertidos em foliões de primeira, segunda ou muitas viagens desciam dos prédios na Rio Branco. Todos se dirigiam para algum barzinho por ali mesmo ou algum bloco pré-carnavalesco na zona sul da cidade. O que se via de uma das duas janelas da sala imponente eram chapéus e mais chapéus típicos de carnaval. Prontamente fornecidos por vendedores que competiam aos berros por seus clientes. Era mais simples assim?

A sala e depois o ir e vir de gente na Rio Branco me entreteram por alguns minutos, enquanto todos os convidados para aquela reunião de emergência se acomodavam à mesa. Conversas paralelas eram entoadas, enquanto não se dava início ao que viria a seguir. Olhares sérios e preocupados só falavam do racionamento, de energia elétrica e água, o duplo choque sobre todos os negócios comandados por aqueles homens e mulheres.

O prólogo veio a calhar, afinal, tudo retrocedeu nas últimas semanas. Foi minha deixa para começar a falar, após uma rápida apresentação. A plateia era composta por investidores de risco, empreendedores, aceleradoras e consultores de tecnologia. Antes que começasse a passar os slides, uma pergunta: há esperança? Antes ou depois da apresentação, respondi. Risos e gargalhadas ecoaram pela sala. Dados os espinhos da economia brasileira, melhor começar assim, leitor.

Um pouco de História para começar a apresentação. Conto como foram os últimos anos. Sendo mais específico, os últimos 20 anos, desde que reconquistamos o privilégio de ter uma moeda. A construção da estabilidade macroeconômica dá mesmo um pouco de paz de espírito a todos os que pensam em sair do Brasil...

Enquanto, aliás, falava do choque cambial de 2002 e da posterior convergência da inflação à meta, olhares esperançosos se colocaram à minha frente. Ali, por suposto, estavam pessoas que dependiam de alguma estabilidade do câmbio para gerar um fluxo de caixa minimamente atrativo para os próximos anos. Ainda que estabilidade e câmbio sejam como água e óleo. Para onde vai o câmbio é, por suposto, uma das perguntas que mais tem sido feita nos últimos tempos.

Só perde para o crescimento. Ele que chegou a ser de 4% entre 2003 e 2010. Hoje, bom, hoje com sorte é de -1% em 2015. Com sorte e sem racionamento, de água e energia. Com isso, bom, há alguns cenários para estudar...

A inflação, que esteve na meta antes da crise, hoje flerta acima de 7%, por conta dos preços administrados, congelados nos últimos anos. Hoje libertos, por força de um déficit primário de 0,6% do PIB. Sem dinheiro para subsidiar energia elétrica, transporte e combustíveis, o jeito é deixar que se ajustem. E devem se ajustar acima de 10%, no conjunto dos 23 preços administrados. A energia elétrica, em particular, acima de 50%.

Voltando ao câmbio, por enquanto, ele ainda termina abaixo de 3 R$/US$ em 2015, mas é difícil prever se isso prevalecerá. Afinal, nas últimas semanas houve rápida deterioração. Os modelos, a propósito, indicam um câmbio médio em contínua deterioração ao longo dos próximos meses, o que impulsiona a necessidade de hedge cambial. E aqui a pergunta mais ouvida: é necessário? Diante do quadro e das perspectivas, sim, infelizmente.

O quadro fiscal, o BNDES, as pedaladas, Levy. Ah, Levy... O cavalheiro da esperança de 10 em cada 10 investidores, hoje, bom, hoje está mais para uma andorinha sozinha não faz... Pois é, estão todos reticentes quanto à capacidade do ministro Levy em conseguir alcançar o superávit primário de 1,2%, saindo de um déficit de 0,6% do PIB. Possível? Cada vez mais difícil, diante de um Congresso hostil e de um governo pouco disposto a cortar gastos. Há, claro, a Lava-Jato como cereja no bolo da paralisia política...

O ir e vir das garçonetes, trocando a água dos participantes, anunciava o que já era previsto. Todos ficam um pouco reticentes com a apresentação de 2015, após o ar esperançoso dos últimos 20 anos. É como aquela parte do filme em que um personagem querido do público falece, alguma tragédia ocorre, um pedaço do roteiro se perde. De fato, os últimos quatro anos...

E os próximos, perguntam os mais ansiosos. Sempre fui um otimista com o Brasil. Já diz o ditado velho e surrado norte-americano que os EUA farão a escolha certa, após tentarem todas as erradas. Talvez se aplique a nós. Afinal, tentamos um monte de coisas sem pé nem cabeça para debelar a inflação, até seguirmos um plano que respeitasse os incentivos econômicos. Coisas [sem pé nem cabeça] essas, diga-se, que voltamos a tentar nos últimos quatro anos, como congelamento de preços. Coisas essas que pareciam sepultadas no cemitério das ideias estapafúrdias. Ademais, tentamos [nós? ou eles?] um monte de incentivos de demanda para gerar crescimento. Será a vez das reformas estruturais para destravar a oferta? Será que, enfim, reformaremos o ambiente de negócios brasileiro?

Voltar ao tripé, permitir as reformas estruturais, dar autonomia às agências reguladoras, melhorar, enfim, o ambiente de negócios brasileiro. Render-se ao capitalismo. Regras claras para o tomador de risco, para o empreendedor, para quem se aventura todos os dias a construir um negócio no Brasil. É isso que irá acontecer?

É o que tem de acontecer, ressalta-se. Mas, para a infelicidade geral da nação, é pouco provável que ocorrerá no horizonte de curto prazo. As consequências da Lava-Jato para a inoperância do governo e do Congresso são imprevisíveis nesse momento. Para 2015/2016, o melhor a fazer é tomar uma postura defensiva: adiar investimentos, se proteger de riscos desnecessários. Nos últimos meses, diga-se, economistas e analistas têm recomendando que se aplique em fundos pós-fixados, atrelados à inflação, que se priorize projetos em outros países, que se aposte em fundos cambiais, etc, etc. Todas, ressalta-se, apostas contra o país.

A sala imponente, a mobília antiga, a luz indireta, a tarde que já virou noite, os olhares reticentes... São tempos estranhos, leitor, não culpe, portanto, o mensageiro. O melhor, nesse momento, é tentar decifrar a mensagem, cobrar reformas, para que as coisas comecem a mudar a partir do próximo ano...

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