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Os tolos da direita

By | Crônicas Econômicas

O título é provocativo, eu sei. Tentei não sê-lo, juro. Mas é que ando contrariado com alguns do lado de cá - os de lá, já é sabido. O fato concreto é que nunca gostei de "papa-hóstia", ou seja, desde meus poucos anos ficava perguntando "por quê" toda vez que o padre da igreja perto de casa falava que se a gente cometesse pecado iria para o inferno. Amém, afinal, nunca foi mesmo comigo. E justamente por isso detesto fã clube, mesmo que seja das bandas de rock que curto: nunca gostei. Detesto aglomerações em torno de um "ídolo", seja à direita, à esquerda ou ao centro. Por isso, não gosto de "olavetes", "loboletes" e mais recentemente "constantinetes". Não suporto o "ctrl c", "ctrl v" das redes sociais em relação a esses e outros "ídolos". Os tolos da direita, realmente, parecem que precisam ler mais.

Sim, você não se enganou: sou liberal. Não é que eu ache, é meio óbvio que a economia de mercado, a democracia e o estado de direito são as únicas coisas que podem nos tirar da barbárie, do estado de natureza, da guerra de todos contra todos. Mas entre entender que esses são pré-requisitos e não condições suficientes, vão se muitos neurônios. A questão interessante é que é muito, muito fácil mesmo, defender radicalismos do conforto da sala de estar, do quarto com ar condicionado, ao invés de ter passado uma vida batalhando para conseguir oportunidades. Ops, eu sei que você batalhou, estudou, trabalhou e trabalha todos os dias. E lhe dou os parabéns por isso. A questão é que se a vida fosse uma corrida de 100 metros, você já largou nos 50, enquanto alguns...

Não é que você seja culpado por isso. Não é que você não tenha se esforçado para chegar antes de quem largou ao seu lado. O problema, o grande problema é que você teve uma descarada vantagem em relação aos que largaram 50 metros antes de você. Esses coitados não tiveram direito a leite ninho, pera, maça raspada, bananinha com farinha láctea... Esses tiveram que suar muito para chegar próximo ao que você é hoje.

Esses caras, os que largaram 50 metros antes de você, são muito poucos entre nós. Sim, eu também tive a vantagem dos 50 metros. Se há meritocracia nisso, eu tive acesso às melhores universidades que minha distância pôde me proporcionar. Pude desfrutar das circunstâncias para ser recompensado por meu esforço. Não nego: gosto de olhar para trás e ver que superei muitos dos caras que largaram comigo lá nos 50 metros. Mas e os que estavam atrás?

Você pode achar que eles merecem ser espancados em praça pública, ser presos por trancas de bicicleta. Ora, você tem todo o direito: afinal, você defende a propriedade privada, basilar para uma economia de mercado. Eu também defendo, meu amigo, acho, inclusive, que sem ela nada disso - ipads, iphones, facebooks, twitters... - fosse possível. Estou com você nessa! E nunca vou defender bandido - afinal, bandido bom é bandido morto, não é mesmo? - mas não consigo me esquecer que larguei 50 metros depois. E mesmo que eu seja melhor do que os caras que largaram junto comigo, eu não vou ficar por aí cuspindo para cima, esquecendo dos caras que largaram 50 metros antes. Você pode achar que eles podem estudar, podem trabalhar, podem sonhar em ter um carro, uma casa... Ops, mas esses caras, os que largaram 50 metros antes, geralmente estão lhe servindo, não é mesmo?

Ou você acha que é normal não ter tido negros em sua sala no colégio, na faculdade ou na pós-graduação? Aliás, você já contou quantos negros são seus amigos? Quantos moram em favelas - sim, porque me recuso a chamar aquilo de comunidade - ou em lugares onde o metrô não chega? Você já parou para pensar quantos dos seus amigos trabalham desde os 14, 15 ou 16 anos? Não para comprar aquele tênis da moda ou juntar dinheiro para um show em São Paulo, mas para bancar a família?

Mas tudo bem, talvez esse tipo de inquisição moral não lhe traga às cordas, afinal é um argumento frouxo, carece de base teórica. Vamos lá, então, chamar o intelectual que existe em você. Afinal, você fez arquitetura, direito, administração, engenharia, não é mesmo? Ou, melhor, você é um daqueles caras que frequentou o campus das "humanas" e adora uma conversa cabeça, regada ao "beckzinho", que deveria ser legal, não é mesmo? Afinal, nesse quesito, direita e esquerda estão unidas...

Tudo bem, vamos lá. Se o resultado que uma pessoa alcança ao longo da vida é fruto de seu esforço e das circunstâncias a que está submetida (educação dos pais, local onde nasceu, acesso à educação básica, leitura em casa...), qual é o mérito que você diz ter por passar em uma faculdade estatal? Sim, estatal, paga com dinheiro do contribuinte. Você vai falar mesmo para mim que tem direito a acessar essa universidade estatal só porque paga impostos? Em uma sociedade onde a maior parcela dos tributos é arrecadada via consumo, você acha mesmo que o cara que largou 50 metros antes de você também não paga impostos? Proporcionalmente em relação a renda, ele paga mais que você, sabia? E o pior: você acha mesmo que educação superior é um bem público?

Acho que você deveria estudar mais e parar com esse discurso radical, achando que tem todo o mérito do mundo para pedir menos estado interferindo na sua vida. Você deveria pedir um estado mais eficiente, como eu peço, deveria pedir um estado que cumpra a constituição - que os caras que largaram 50 metros antes de você também aprovaram, lembra? - e não ficar ai pedindo tudo privado. O mecanismo de preço é uma invenção maravilhosa, mas pára de acreditar em Olavos, Lobões e Constantinos! Esses caras são regados de uma ideologia frouxa, que nada tem a acrescentar ao debate. Eles forçam a amizade quando pedem para você ficar cercado em um ideal, quando você deveria estar preocupado em chegar mais cedo em casa - seja de trem, metrô ou de carro, que você comprou em 36x! Pare com essa besteira de adolescente de ficar lutando contra - ou a favor - do sistema: e vote consciente nas próximas eleições. Seja pragmático, cético, leia, discuta. Não acredite em tudo o que você ouvir ou ver no youtube. Deixe de ser um tolo de direita, rapaz! Abs

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