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economia do crime Archives - Análise Macro

Policiais mortos vs. mortes por policiais no Rio de Janeiro

By | Clube AM

No mês de dezembro, iremos lançar uma nova versão do Clube do Código, que se chamará Clube AM. O projeto de compartilhamento de códigos da Análise Macro vai avançar para uma versão 2.0, que incluirá a existência de um grupo fechado no Whatsapp, de modo a reunir os membros do Novo Clube, compartilhando com eles todos os códigos dos nossos posts feitos aqui no Blog, exercícios de análise de dados de maior fôlego, bem como tirar dúvidas sobre todos os nossos projetos, exercícios e nossos Cursos e Formações.

Para ilustrar o que vamos compartilhar lá nesse novo ambiente, estou publicando nesse espaço alguns dos nossos exercícios de análise de dados. Esses exercícios fazem parte do repositório atual do Clube do Código, que deixará de existir. Além de todos os exercícios existentes no Clube do Código, vamos adicionar novos exercícios e códigos toda semana, mantendo os membros atualizados sobre o que há de mais avançado em análise de dados, econometria, machine learning, forecasting e R.

Hoje, dando sequência a análise da base de dados do Instituto de Segurança Pública (ISP) que comecei no post anterior, fiquei curioso para ver a relação entre duas séries: a de homicídios por intervenção policial e a de policiais militares mortos em serviço.

Como de praxe, o script começa com os pacotes que vamos utilizar.


library(readr)
library(forecast)
library(ggplot2)
library(scales)
library(vars)
library(aod)

A partir disso, nós importamos e tratamos os dados disponíveis no site do ISP.


data = read_csv2('DOMensalEstadoDesde1991.csv')

data = ts(data, start=c(1991,01), freq=12)
hip = window(data[,6], start=c(1998,01))
pmms = window(data[,50], start=c(2003,01))

subdata = ts.intersect(hip, pmms)

Um gráfico das séries que vamos utilizar é colocado abaixo.

Há uma leve correlação positiva entre as séries. De forma a investigar uma relação de causalidade no sentido de Granger, apliquei o procedimento proposto por Toda e Yamamoto (1995) às mesmas. Os resultados encontrados sugerem que existe uma causalidade no sentido de policiais militares mortos em serviços para homicídios por intervenção policial, considerando o nível de 5% de significância. Em outras palavras, policiais mortos em serviços tem precedência temporal sobre o número de homicídios por intervenção policial.

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Toda H.Y.; Yamamoto T. (1995). Statistical inference in vector autoregressions with possibly integrated processes. Journal of Econometrics, 66, 225–250. 

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Violência no Rio: a economia importa?

By | Clube AM

A violência no Rio tem sido tema de alguns posts por aqui, graças à excelente base de dados do Instituto de Segurança Pública (ISP). Uma pergunta imediata é quais seriam os fatores relevantes para explicar os diversos aspectos da criminalidade no Rio de Janeiro. Pensando nisso, resolvi escrever a Edição 69 do Clube do Código sobre isso.

Becker (1968) define a decisão de cometer um crime como um processo racional, onde o potencial criminoso calcularia custos e benefícios para então decidir se vai em frente ou não. A partir desse trabalho seminal, uma extensa literatura teórica e empírica tem sido desenvolvida, relacionando diversos fatores econômicos que impactam nos custos e benefícios da decisão de cometer um crime.

Os gráficos acima relacionam o total de roubos e os homicídios dolosos no Rio de Janeiro à taxa de desemprego medida pela PNAD Contínua. O desemprego funciona como uma proxy para a situação econômica do país. Como é possível ver, há uma diferença importante na correlação entre os dois tipos de crimes. Enquanto os homicídios são apenas levemente correlacionados com o desemprego, há uma correlação mais forte entre esta e o total de roubos.

Dependent variable:
total_roubos hom_doloso
(1) (2)
desemprego 1,483.346*** 5.870**
(85.198) (2.339)
dummy -10,303.840***
(2,027.971)
Constant 437.673 333.273***
(853.107) (23.519)
Observations 92 92
R2 0.777 0.065
Adjusted R2 0.772 0.055
Residual Std. Error 1,995.093 (df = 89) 55.383 (df = 90)
F Statistic 154.826*** (df = 2; 89) 6.295** (df = 1; 90)
Note: *p<0.1; **p<0.05; ***p<0.01

A tabela acima traz, por seu turno, os resultados das regressões do total de roubos e dos homicídios dolosos contra a taxa de desemprego. De modo a prevenir regressões espúrias, nós testamos as especificações usando o teste CADF, de onde conseguimos rejeitar a hipótese nula de ausência de cointegração. Os modelos, contudo, são bastante distintos em termos de ajuste. Enquanto o desemprego (e mais uma dummy) explicam parte importante da variação do total de roubos, ele explica muito pouco da variação dos homicídios dolosos. Esses resultados, a propósito, estão em linha com Levitt (1997), que mostrou que a taxa de desemprego afeta os crimes contra a propriedade, mas não os crimes violentos.

O exercício completo estará disponível na sexta-feira, na Edição 69 do Clube do Código.

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Balassiano, L.; Costa, C. M.; Gomes, F. A. R. (2012) Os Fatores econômicos importam? Uma análise da criminalidade no estado do Rio Grande do Sul. FUCAPE Working Papers nº 35.

BECKER, G. Crime and Punishment: An Economic Approach, Journal of Political Economy, 76, 169-217, 1968.

Bruce E. Hansen, 1995. "Rethinking the Univariate Approach to Unit Root Testing: Using Covariates to Increase Power," Boston College Working Papers in Economics 300., Boston College Department of Economics.

LEVITT, S. Using Electoral Cycles in Police Hiring to Estimate the Effect of Police on Crime, American Economic Review, V. 87, No.3, pp. 270-290, 1997.

O mensalão e a economia do crime: uma breve nota.

By | Indicação de Leitura Econômica

No dia da proclamação dos 124 anos da jovem e imatura república brasileira, tomei ciência dos 12 mandados de prisão que foram expedidos pelo Supremo Tribunal Federal, visando cumprir o "trânsito em julgado" da ação penal 470. Ou mensalão, para dar logo nome aos bois. Destaca-se o mandado expedido para José Dirceu, ex-ministro da Casa Civil do governo Lula (2003-2010). Ou seja, leitor, ao que indica o Brasil está punindo "doa a quem doer", certo? Devagar com o andar. Inspirado nos trabalhos desenvolvidos a partir do artigo de Gary Becker (1968), "Crime and punishment: an economic approach", uma extensa literatura tem se desenvolvido sobre o tema da "economia do crime". A pergunta básica: o que leva uma pessoa a cometer um crime, do ponto de vista estritamente econômico?

Sob pena de cansar o leitor, ressalto que Becker irá trabalhar com o ferramental neoclássico, isto é, partirá de um indivíduo representativo que busca maximizar uma função de utilidade esperada. Nesse aspecto, comparará custos e benefícios, de forma intertemporal, visando, racionalmente, optar ou não por cometer um crime. Em outros termos, se os benefícios excedem os custos, o indivíduo maximizará seus ganhos se  cometer algum ato ilícito. Nos custos, vale dizer, entra, por exemplo, a probabilidade de ser punido. Se essa for baixa, vale a pena cometer um crime. Retirado o purismo teórico, esse último ponto, bastante intuitivo, é que gostaria de chamar atenção nessa breve nota.

Ora, leitor, sociedades são criadas para tornar a vida dos indivíduos mais simples. Entretanto, nada garante que sob o contrato social, os indivíduos se comportem de maneira adequada todo o tempo. É por existir a possibilidade de que os indivíduos possam cometer atos que sejam contrários ao que a maioria identifica como equivocado, é que existem leis. E existindo essas, existe punição para o caso delas não serem cumpridas. Você, afinal, pode não concordar que ao dirigir depois de beber possa ir parar na cadeia. Mas existindo uma lei, tanto faz você, em particular, concordar ou não com isso. Se agir contrário a lei, existe a possibilidade de você ser punido por isso. Possibilidade, ressalta-se, não certeza.

Nesse sentido, nas conversas que tenho com o pessoal do direito e pelo pouco que leio sobre o assunto, não acredito que o Brasil precise de mais leis - posso estar muito enganado sobre isso, é claro. A questão central é justamente a forma como o país aplica essas leis. Em meio a toda sorte de idas e vindas do código processual - não apenas do criminal, mas de todos os outros, vale dizer - a probabilidade da punição, para os que possuem bons advogados, cai muito. Ilustra-se o fato, no caso do mensalão, que durou mais de sete anos até o "trânsito em julgado" - destaque aqui para os embargos infringentes.

A probabilidade de ser punido, para lembrar o modelo de Becker, passa a ser fundamental para que o indivíduo cometa ou não um crime. É justamente esse ponto que devemos melhorar se quisermos que o nosso país seja um país que pune os bandidos. Se quisermos deixar o rótulo de "país da impunidade", devemos nos focar em aumentar a probabilidade de punir os que cometem crimes. E isso passa necessariamente por uma ampla reforma do sistema judiciário, pela celeridade do processo, pela própria reforma dos códigos processuais. Com um sistema judiciário inchado, pouco produtivo e assolado por juízes e profissionais extremamente corporativistas, não é difícil entender o porquê a probabilidade de ser punido é baixa em nosso país. E sendo assim, os benefícios advindos da ação criminosa parecem compensar os custos envolvidos. Tão simples quanto isso, leitor.

ps: para os que defendem Genoinos, Delúbios e Dirceus, o aniversário da República deve ser mesmo um dia triste... 🙁

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