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projeção do câmbio Archives - Análise Macro

Focus é um bom preditor da trajetória econômica?

By | Economia, Indicadores

As expectativas dos agentes de mercado do sistema Focus/BCB são amplamente conhecidas e acompanhadas semanalmente, fornecendo um importante resumo estatístico do que se espera para o futuro da economia brasileira. Obviamente prever o futuro não é uma tarefa fácil ou trivial, de forma que essas projeções de mercado inerentemente carregam consigo um grau de incerteza, o que se costuma chamar como “termo de erro” no economês.

Dessa forma, especialmente para uma economia exótica como a brasileira, a incerteza associada às projeções macroeconômicas ganha uma especial importância. Uma forma interessante e prática de começar a entender o assunto pode ser uma simples comparação entre o que se projetava para uma variável macroeconômica versus o que foi de fato observado para a mesma ao longo do tempo.

O gráfico abaixo procura fazer isso, a linha vermelha representa a taxa de crescimento do PIB divulgado pelo IBGE trimestralmente e as linhas azuis são as expectativas diárias dos agentes de mercado para a trajetória futura dessa mesma variável, reportadas no sistema Focus/BCB:

Percebe-se que os economistas e colegas de profissão são, em geral, bastante otimistas em relação ao desempenho da economia, mas costumam ser frequentemente contrariados pelos dados fora de seus modelos. É importante frisar que as projeções costumam ser feitas com base em cenários para economia, de forma que a incerteza constante do dia a dia do brasileiro – sejam turbulências fiscais, políticas ou mesmo externas – dificulta uma previsão perfeita (perfect foresight), como observado no gráfico.

Para algumas das demais variáveis que compõem o Top 5 Focus, ranking das instituições com base em um índice de acerto, podemos observar comportamento semelhante.  A exceção é o caso da inflação, onde os desvios do projetado vs. observado medido pelo IPCA são bem menos evidentes.

Neste caso podemos dizer que as expectativas de inflação são racionais? Para essa discussão recomendo este post recente do economista Felipe Camargo, que aborda bem esta questão.

As trajetórias esperadas para variáveis referentes a taxa de câmbio e juros quando comparadas com os valores observados são igualmente interessantes:

 

Por fim, deixo a conclusão do questionamento levantado neste texto para o leitor, com a esperança de que as visualizações tenham sido informativas, apesar de não serem tão prazerosas à vista de quem está envolvido no processo de previsão dessas variáveis.

 

 

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Como melhorar a previsão da taxa de câmbio?

By | Dados Macroeconômicos, Macroeconometria, Setor Externo

Em dezembro do ano passado, publiquei artigo onde me perguntava para onde ia o dólar. Pergunta das mais difíceis em economia, haja visto que o câmbio se parece muito com um passeio aleatório, onde a observação de hoje é igual a de ontem mais algum ruído. Mais fácil, desse modo, é prever a tendência do câmbio do que seu valor em determinado ponto do tempo. Aquela altura, com o conjunto de informações disponível, o mercado e eu projetamos um câmbio no fim desse ano próximo a 2,80 R$/US$, o que indicava uma tendência de desvalorização. Dado tudo o que ocorreu até aqui, o câmbio encontra-se acima de 4 R$/US$ e a tendência de desvalorização não parece ainda ter cedido. Por que, questiono, erramos tanto?

No artigo em questão, ressaltei que prever câmbio era algo extremamente complicado [para não dizer, insano], dado que o conjunto de choques a que a variável está sujeita parece ser excessivamente grande. Naquela época, chamei atenção para alguns fatores, que listo abaixo:

Não se sabe, por exemplo, por quanto tempo ainda o preço das commodities – e do petróleo, em particular – continuará caindo, com graves repercussões sobre os países emergentes. Os juros norte-americanos irão subir, mas não se tem indicação de quando isso de fato irá ocorrer. Além disso, no campo doméstico, como será feito o ajuste fiscal? Quais impostos serão elevados? Cide e CPMF voltam? E diante do quadro político desafiador, azeitado pela Operação Lava-Jato, será factível aprovar esse pacote fiscal no Congresso?

A pergunta que encerra o parágrafo, inconvenientemente difícil de ser posta nos modelos, parece ter tido um sonoro não como resposta, o que agravou nossa situação fiscal, tendo consequências diretas sobre a trajetória da taxa de câmbio.  Nesse aspecto, como podemos melhorar nossas previsões sobre essa variável? Ou, melhor, será que isso é possível?

Aproveitei que abri um script hoje com o pacote gtrend e pesquisei a palavra-chave "dólar". O gráfico é posto abaixo.

grafico01

gtrends parece captar essa desvalorização recente. O passo seguinte é comparar a pesquisa no gtrends com a taxa de câmbio. Esta, eu obtive do Banco Central com a função getSeries, elaborada pelo Alexandre Rademaker. Feito isto, precisamos mensalizar o dado do gtrends para que seja possível comparar com a taxa de câmbio, além é claro, de adequar a amostra das duas séries - os dados do gtrends só estão disponíveis a partir de janeiro de 2004. A correlação entre as duas séries pode, então, ser vista no gráfico abaixo.

grafico02

Qual a relação entre as séries? Um teste de causalidade de granger foi feito, não antes de verificar raiz unitária. O câmbio não passou no teste, enquanto o gtrends passou. Feito isto, verificou-se que tanto o câmbio exerce influência sobre o gtrends quanto este exerce influência naquele, dado todos os critérios de informação. Eu vou, entretanto, poupar o leitor desses passos, até por que isso já foi feito nesse espaço. Vamos passar para um BVAR, onde queremos ver as funções de impulso-resposta entre o gtrends e o câmbio. Com o teste de granger, estávamos apenas interessados em ver se estávamos autorizados a estimar um VAR. Com o BVAR, estamos querendo usar as séries em nível, informando, claro, a presença de raiz unitária. Antes, os correlogramas do câmbio e do gtrends são postos abaixo. Ah, sim, foi utilizado o pacote BMR.

grafico03

grafico04

Com base nessas informações, estimei um BVAR com p=1. A função do BMR utilizada foi a BVARW, que você pode aprender mais, além de todo o pacote BMR, aqui.  Estimado o modelo, chegamos, enfim, às funções impulso-resposta, postas abaixo.

grafico05

As funções impulso-resposta parecem mostrar que um choque nas pesquisas do google trends possui efeito sobre o câmbio. Dado o gráfico in natura do gtrends, que mostra um aumento das pesquisas no período recente, será que se o utilizarmos para prever o câmbio isso poderá melhorar a previsão? No momento atual, não custa tentar, não é mesmo? Quem sabe, outro dia... Enquanto isso, fique à vontade, leitor... 🙂

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