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Sobre apagões e palavras ao vento

By | Crônicas Econômicas

Está tudo sob controle, garante o secretário-executivo do ministério de minas e energia, Márcio Zimmermann. O apagão de ontem, fruto de um problema de transmissão entre o norte e o sudeste, é apenas uma pedra no caminho. "Estamos sob forte pressão", diz o secretário, em referência à escassez de chuvas. A oposição, claro, esfrega as mãos: é hora de contabilizar mortos e feridos, de olho nas eleições de outubro. Mas tudo parece equilibrado, é o que se depreende da leitura da mensagem da presidente ao Congresso: "Mesmo num cenário internacional de grandes incertezas e desafios, o nosso País mantém a estabilidade, crescimento, emprego, renda e redução das desigualdades". Entre apagões e promessas, como está o Brasil, leitor?

A mensagem da presidente mostra um Brasil em plena trajetória de crescimento sustentável. Os programas Minha Casa Minha Vida, Minha Casa Melhor, Ciência Sem Fronteiras, Pronatec e Mais Médicos se somam às novas universidades, milhares de creches, escolas integrais, postos de saúde etc. Um país que cresce, mantém a inflação estável e é referência em solvência externa (sic).

O simples ir e vir pelo Brasil, entretanto, parece desmentir a mensagem de nossa comandante-em-chefe. À começar pelo transporte: a mobilidade urbana nunca foi tão caótica, é o que mostra detalhado estudo publicado pelo IPEA sobre o assunto no ano passado. A frota de veículos particulares dobrou entre 2003 e 2013: a malha de transporte público, pelo contrário, continua em semi-estagnação.  Não à toa, as manifestações de junho/julho começaram por aí: a população parece não aguentar mais ver o tempo de deslocamento subir, em meio a regiões metropolitanas sem o mínimo de infraestrutura de transporte público.

Ontem mais um dado contrafactual, para desmentir a presidente. Apagão em várias regiões do país. Culpa de quem? São Pedro, claro! O verão mais seco das últimas oito décadas, diz o operador do sistema. Mas basta ilustrar o processo para entendermos que o santo não é o maior culpado. Menos chuvas, reservatórios abaixo da capacidade, necessidade de despacho de usinas termelétricas fora do eixo principal de consumo (Sudeste) e pronto: onde dá problema, leitor? Sim: na transmissão entre norte e sudeste. Justamente no elo da cadeia (geração, transmissão e distribuição) menos aberta ao setor privado: controlada pela Eletrobras, assolada pelo loteamento político e pelo mal planejamento financeiro.

Mas está tudo sob controle, não nos preocupemos. Para mostrar isso, Dilma vai a Davos falar aos empresários mais influentes do mundo. Fala em comprometimento com a responsabilidade, prega maior intercâmbio com o mercado, diz que as contas públicas brasileiras são melhores do que a média internacional.  Os dados, entretanto, revelam que o superávit primário gira em torno de 1% (ao contrário do 1,9% divulgado pelo governo) e que a dívida líquida já não é mais capaz de sinalizar a solvência do setor público: os empréstimos ao BNDES e as reservas internacionais embutem custos não desprezíveis. Dilma dá emprego aos macroeconomistas, leitor, por que estou reclamando, então?

Tudo sob controle, não se preocupe. O delicado sistema elétrico brasileiro, um misto entre usinas hidrelétricas e termelétricas, depende de planejamento estatal. O despacho das usinas é baseado no custo de operação do sistema, variável relevante para explicar o preço de equilíbrio entre "poupar" a água dos reservatórios ou utilizá-la no presente. Dada a escassez de chuvas, os reservatórios encontram-se em nível crítico, fazendo com que o preço de equilíbrio esteja no seu máximo regulado: o que reflete o acionamento de opções mais caras de energia.

E quem dera que os problemas parassem por aí. A fixação do governo em "jogar a poeira" para debaixo do tapete exige mais. O custo do acionamento dessas térmicas não é desprezível (estima-se que seja de R$ 18 bilhões esse ano). Para não ser repassado às tarifas, o governo vem subsidiando junto às distribuidoras esse custo, evitando pressão inflacionária. Desse modo, a escolha de Dilma esse ano será: repassar o custo para as tarifas ou produzir um resultado primário menor. Em outros termos, desmentir a redução de 20% na conta de energia ou desmentir o que disse em Davos: o que a presidente escolherá?

Hayek, em seu famosíssimo O Caminho da Servidão explicou o porquê dos piores chegarem ao poder:  "Há três razões principais para que um grupo numeroso, forte e de ideias bastante homogêneas não tenda a ser constituído pelos melhores e sim pelos piores elementos de qualquer sociedade (...) tal indivíduo conseguirá o apoio dos dóceis e dos simplórios, que não têm fortes convicções próprias mas estão prontos a aceitar um sistema de valores previamente elaborado, contando que este lhes seja apregoado com bastante estrépito e insistência. Serão, assim, aqueles cujas ideias vagas e imperfeitas se deixam influenciar com facilidade, cujas paixões e emoções não é difícil despertar, que engrossarão as fileiras do partido totalitário". Tudo sob controle, portanto.

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