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Saída do euro é ruim para a Grécia e para a União Europeia

By | Setor Externo

A Grécia entra novamente no radar dos investidores e abala os mercados. O impasse político grego tem gerado intensa volatilidade nas bolsas, mercados de câmbio e de juros. A Espanha fez emissão recente de títulos e acabou pagando spread mais elevado. O problema, leitor, não é muito a Grécia. Sem querer menosprezar o país, mas a Grécia pouco importa para os investidores. A questão central é o risco de contágio: se a Grécia sair do euro, a pergunta que fica é quem será o próximo. Desse modo, só gostaria de dizer duas coisas: i) não existe saída organizada, vai gerar muito stress; ii) não dá para comparar a Grécia com a Argentina, como já vi gente [boa, inclusive] fazendo, porque o efeito sistêmico será muito maior no caso grego. Em outras palavras, a saída do euro é ruim tanto para a Grécia quanto para os demais países da União Europeia.

Aprendendo com os erros alheios

By | Resenhas de Conjuntura Econômica

A crise 2008/2009 pôs em cheque aquilo que os macroeconomistas haviam batizado como a “nova síntese” ou “novo consenso macroeconômico”. Neste, e como bem expõe o professor John Taylor[1], a política monetária seria neutra em relação às variáveis reais no longo prazo, quando afetaria apenas variáveis nominais. Desse modo, o uso indiscriminado da política monetária no curto prazo pode produzir incentivos errados para os agentes econômicos.

O estouro da bolha imobiliária americana e sua propagação para o resto do mundo fez com que vozes apressadas decretassem o fim do consenso. Para os dissidentes, a raiz da crise está na desregulamentação dos anos 80 e da implementação de uma agenda neoliberal de desenvolvimento. Assim sendo, a política econômica deve continuar a ter um caráter eminentemente discricionário, combatendo movimentos abruptos de retração econômica.

Isso, claro, ignora todo o debate sobre regra e discrição na condução da política monetária feito nos anos 70 e 80. Além disso, em nenhum momento o Novo Consenso prega o fim da regulação do sistema financeiro. Se o objetivo síntese é a estabilidade de preços, nada mais permissivo do que um Banco Central que não controla o multiplicador bancário.

Nesse contexto, é falsa a idéia de que os modelos estruturais das últimas duas décadas se descuidaram dos detalhes. Pelo contrário: o que eles disseram foi justamente o que de fato ocorreu. Uma política monetária frouxa [leia-se, era Greenspan] pode sim causar crescimento no curto prazo. Mas logo vem o preço: a geração de bolhas em diversos mercados de ativos. Foi assim, em menor grau, com a crise das empresas ponto.com e mais recentemente com o setor imobiliário.

O mantra da desregulamentação como “origem de todos os males” deve ser melhor compreendida. Afinal, foi através dela que o capitalismo mundial conseguiu se conformar após a estagflação da década de 70. Entretanto, se os avanços na Teoria da Política Monetária tivessem sido observados, era fato que certas bolhas teriam sido evitadas – há é certo algo muito errado quando pessoas sem renda comprovada têm acesso a hipotecas.

Ao contrário da crítica, o Novo Consenso não descuidou das prescrições de Keynes ou de Minsky, por exemplo. Como bem salienta Taylor em outro artigo, no curto prazo o produto é determinado pela demanda, mas no longo prazo os determinantes da oferta é que devem ser observados.

A própria “exuberância irracional”, que deu origem às finanças comportamentais, tem um pedaço de Minsky e também de Keynes. Se os preços dos imóveis estão subindo, a “tendência”, pensam os agentes [demandantes e ofertantes de crédito], é que eles continuem subindo. Diria Minsky que é na estabilidade que se encontra a semente da próxima crise. E estourada a bolha [por um aumento de juros], o efeito-manada de Keynes é plenamente observado.

Tudo isso não deixou de ser válido com o Novo Consenso. Apesar dos recentes lançamentos editoriais chamando atenção para uma certa “economia das crises”, a teoria econômica é muito mais evolutiva do que pensam alguns economistas. Toda a Teoria da Política Monetária feita nos últimos sessenta anos [desde, portanto, o artigo seminal de John Tinbergen] buscou seguramente que a política econômica não chegasse ao que estamos vivenciando hoje.

Svensson, um dos arquitetos do modelo de metas de inflação, faz uma retrospectiva interessante no artigo “What have economists learned about monetary policy over the past 50 years”. Seu ponto de partida é a crítica de Friedman à discricionariedade da política monetária no seminal “The Role of monetary policy”. Sua conclusão é que o modelo de IT é funcional porque se conhece melhor os mecanismos de transmissão da política monetária [notadamente o canal de expectativas].

É nesse sentido, especificamente, que contrariando o novo consenso, tanto os Estados Unidos quanto a Europa erraram. Se o Banco Central é o coordenador das expectativas do mercado, uma política de juros baixos leva [necessariamente] a posturas do tipo Ponzi e Especulativas [bem ao gosto minskiano]. Era a correta condução da política monetária o antídoto para evitar a excessiva alavancagem – independente de uma suposta agenda neoliberal. Esperamos que o Brasil não cometa os mesmos equívocos.


[1] “A core of practical macroeconomics”, American Economic Review, 1997 e “Teaching modern macroeconomics at the principles level”, American Economic Review, 2000.

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