Sensibilidade da política monetária no Brasil: Curva IS em Python

Quanto a atividade econômica responde aos juros no Brasil? Estimamos uma Curva IS por GMM em Python, com o hiato do produto do BCB e da IFI, testes de instrumentos e resíduos, e a sensibilidade da política monetária em janelas móveis.
Sensibilidade da política monetária: hiato de juros e hiato do produto do Banco Central no Brasil, por trimestre

A sensibilidade da política monetária mede quanto a atividade econômica responde a um ponto percentual de juro real acima do juro neutro. Neste exercício, estimamos essa sensibilidade para o Brasil com uma Curva IS em Python, por GMM, usando o hiato do produto do Banco Central e o da Instituição Fiscal Independente (IFI).

Quando o Copom sobe a Selic, espera que o crédito fique mais caro, que o consumo financiado e o investimento percam fôlego e que a demanda desacelere. A pergunta é de quanto é esse efeito e se ele mudou ao longo dos últimos vinte anos.

Sensibilidade da política monetária: hiato de juros e hiato do produto do Banco Central no Brasil, por trimestre
Hiato de juros (juro real ex ante menos juro neutro) e hiato do produto do Banco Central. Fontes: BCB (RPM, SGS e Focus).

Na figura acima, os períodos de juro real acima do neutro (2005, 2015-2016 e o aperto iniciado em 2021) são seguidos por perda de fôlego da atividade. Em 2020, o hiato despencou por causa da pandemia, um choque sem relação com os juros. A Curva IS separa esses efeitos e transforma o padrão visual em um coeficiente.

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O que é a sensibilidade da política monetária

A política monetária age por canais de transmissão, os caminhos pelos quais a Selic chega às decisões de famílias e empresas: o custo do crédito, o preço dos ativos, o câmbio e as expectativas. Todos terminam no mesmo lugar, a demanda agregada.

A sensibilidade é o tamanho dessa resposta. Uma política monetária potente fecha o hiato do produto com poucos pontos de aperto. Uma política pouco potente precisa de juros mais altos, por mais tempo, para obter o mesmo efeito. Discutimos esse tema também em Como está a potência da política monetária no Brasil?

Por que isso importa para o Banco Central? Se a economia responde menos aos juros, a mesma meta de inflação exige uma Selic mais alta, e o custo do aperto em atividade e emprego aumenta.

A Curva IS: a equação que mede o efeito dos juros

A Curva IS resume o lado da demanda da economia. Ela relaciona o hiato do produto com o juro real e com variáveis que deslocam a demanda. A versão que estimamos segue o modelo semiestrutural de pequeno porte do Banco Central:

ht = β0 + β1 ht−1 + β2 r̂t−1 + β3 rpt + β4 iet + δ Dtcovid + εt

Aqui h é o hiato do produto, a distância percentual entre o PIB observado e o PIB potencial, que é o nível de produção sustentável sem pressionar a inflação. O termo r̂ é o hiato de juros: o juro real ex ante menos o juro neutro.

O rp é o resultado primário do setor público, em % do PIB. O ie é um índice de incerteza. O Dcovid marca o segundo e o terceiro trimestres de 2020, e ε é o choque de demanda.

O coeficiente que procuramos é β2. A teoria prevê sinal negativo: juro real acima do neutro reduz o hiato no trimestre seguinte. O juro entra defasado porque a política monetária age com atraso, à medida que as novas condições de crédito chegam às decisões de gasto.

O termo β1 captura a persistência do ciclo: uma economia aquecida hoje tende a seguir aquecida amanhã. Por isso o efeito do juro se acumula, e o efeito de longo prazo é β2 / (1 − β1), maior que o de um trimestre.

A construção completa da equação, da síntese IS-LM ao modelo do Banco Central, está em Como construir uma Curva IS no Python.

Os dados: hiato, juro real, juro neutro, fiscal e incerteza

O modelo é trimestral e todas as séries vêm de fontes públicas, coletadas em Python com o pacote python-bcb e o pandas.

Hiato do produto
Estimativa central do Relatório de Política Monetária do BCB e estimativa da IFI.
Juro real ex ante
Selic descontada da inflação esperada para 12 meses no Focus, pela equação de Fisher.
Juro neutro
Juro real implícito nas projeções Focus de Selic e IPCA para três anos à frente.
Fiscal e incerteza
Resultado primário em 12 meses (SGS) e dispersão das projeções do Focus.

O juro real ex ante é o juro nominal descontado da inflação esperada, e não da passada. É ele que pesa na decisão de quem toma crédito hoje, porque a dívida será paga com os preços de amanhã.

O juro neutro é a taxa real que não estimula nem freia a economia. Ele não é observado; aproximamos pelo juro real esperado em um horizonte em que o ciclo já se dissipou. Detalhamos alternativas de cálculo em Estimando o juro neutro para o Brasil.

A incerteza segue a ideia do componente de expectativas do IIE-Br da FGV: quanto mais os analistas discordam nas projeções de inflação e câmbio, menos seguro está o mercado sobre o futuro. As projeções vêm da pesquisa Focus, cuja coleta mostramos em Como coletar dados do Boletim Focus com o Python.

Duas medidas de hiato, duas leituras do ciclo

O hiato do produto também é estimado, e cada instituição tem a sua medida. Usamos duas para ver quanto a conclusão depende dessa escolha.

Hiato do produto do Brasil estimado pelo Banco Central e pela IFI, em porcentagem do PIB potencial
Hiato do produto, % do PIB potencial. Fontes: BCB e IFI.

Na figura acima, as duas medidas concordam nos grandes ciclos, como a recessão de 2015-2016 e a pandemia, mas divergem no nível em vários trimestres. Como o hiato é a variável explicada, essa divergência passa direto para os coeficientes. A estimação do hiato em si é o tema de Medindo o Hiato do Produto do Brasil usando Python.

Por que estimar por GMM

Os mínimos quadrados ordinários supõem que as variáveis explicativas não estão correlacionadas com o choque. Na Curva IS, essa hipótese falha por dois motivos.

O primeiro é a simultaneidade: o Banco Central reage ao hiato ao fixar os juros, e a arrecadação sobe quando a economia cresce. O segundo é o choque persistente: se o choque de demanda dura mais de um trimestre, o hiato defasado carrega parte dele.

O Método dos Momentos Generalizado (GMM) contorna isso com variáveis instrumentais, variáveis que ajudam a prever o regressor mas já estavam dadas antes do choque. Usamos defasagens mais longas de cada variável, estimadas com o pacote linearmodels. O método é apresentado em Método dos Momentos Generalizado.

Com seis instrumentos para quatro regressores endógenos, o modelo é sobreidentificado, o que permite testar os instrumentos. Os erros-padrão são robustos a heterocedasticidade e autocorrelação (HAC), porque choques trimestrais de atividade costumam persistir.

Resultados: o coeficiente na amostra completa

A tabela resume o β2 nas duas estimações, com intervalo de confiança de 95% e o efeito de longo prazo.

Modelo β2 IC 95% β1 (persistência) Longo prazo
Hiato BCB (89 trimestres) −0,033 −0,108 a 0,042 0,92 −0,41
Hiato IFI (88 trimestres) −0,017 −0,140 a 0,106 0,72 −0,06

Curva IS estimada por GMM com covariância HAC, do fim de 2004 ao trimestre mais recente. Fontes: BCB e IFI.

No nosso exemplo, o β2 tem o sinal esperado nas duas medidas, mas o intervalo de confiança cruza o zero. Ou seja, na amostra completa os dados não permitem afirmar com segurança o tamanho do efeito do juro sobre o hiato.

Por que um efeito que a teoria prevê some na amostra longa? A amostra mistura duas décadas de regimes diferentes, choques de oferta e a pandemia. Um coeficiente único supõe que a economia respondeu aos juros da mesma forma em todo o período, e essa é a hipótese que testamos a seguir.

Diagnóstico: instrumentos e resíduos

No nosso exemplo, o teste J de Hansen, que verifica se os instrumentos são compatíveis com a hipótese de não correlação com o choque, não rejeita a validade dos instrumentos nas duas versões. A estatística F do primeiro estágio fica acima de 10 para todos os regressores, a regra usual contra instrumentos fracos.

Autocorrelação dos resíduos da Curva IS estimada por GMM, com bandas de 95%
Autocorrelação dos resíduos com bandas de 95%. Fontes: BCB e IFI.

Na figura acima, o modelo com o hiato da IFI tem resíduos sem autocorrelação relevante. Com o hiato do BCB, a primeira defasagem fica fora da banda, e o teste de Ljung-Box confirma autocorrelação de curto prazo. A covariância HAC protege os erros-padrão, mas a leitura do β2 desse modelo pede mais cautela.

A sensibilidade muda com o tempo

A estimação em janelas móveis reestima o modelo em subamostras de 56 trimestres (14 anos) que deslizam um trimestre por vez. Cada janela gera um β2 com seu intervalo de confiança. A técnica é explicada em Como criar janelas móveis de séries temporais usando o Python.

Coeficiente da Curva IS em janelas móveis de 56 trimestres, com intervalo de 95%, para os hiatos do BCB e da IFI
β2 por janela móvel, datado pelo último trimestre da janela. Fontes: BCB e IFI.

Na figura acima, as janelas que terminam entre 2018 e 2023 trazem β2 negativo, em torno de −0,1 a −0,2 com o hiato do BCB, e com o intervalo abaixo de zero na maior parte do período. Nessas janelas, um ponto de juro real acima do neutro reduz o hiato em cerca de 0,1 a 0,2 ponto no trimestre seguinte.

Nas janelas mais recentes, o coeficiente se aproxima de zero e o intervalo volta a cruzar o eixo. Elas trocam os anos 2000 e o início dos 2010 pela pandemia e pelo aperto de 2021-2022, um período em que o hiato fechou mesmo com o juro subindo, sustentado pela reabertura e pelo impulso fiscal.

A leitura mais segura é que a sensibilidade não é uma constante da economia brasileira. Ela depende do período e da medida de hiato, e o intervalo de confiança precisa acompanhar qualquer número que se cite.

Limites da estimação

  • O hiato é revisado. O BCB e a IFI reestimam o passado a cada edição, e os coeficientes mudam junto.
  • O juro neutro é uma aproximação. Filtros estatísticos e modelos estruturais dão trajetórias diferentes, e o hiato de juros herda essa incerteza.
  • A Selic corrente mede a postura atual. O juro de um ano negociado no mercado incorporaria também as decisões esperadas para os próximos meses.
  • Os instrumentos são defasagens. Funcionam se o choque de demanda não persistir por muitos trimestres, o que os testes de resíduos ajudam a avaliar.

Aplicações práticas

A sensibilidade da política monetária aparece em várias decisões fora da academia:

  • Calibrar o ciclo de juros: quem projeta a Selic precisa saber quantos pontos de aperto o hiato exige para fechar.
  • Projetar atividade: a Curva IS é a equação de demanda dos modelos semiestruturais que bancos e consultorias usam para prever o PIB.
  • Avaliar a interação fiscal-monetária: o coeficiente do primário mostra quanto a política fiscal empurra a demanda na direção oposta à dos juros.
  • Precificar juros futuros: uma economia menos sensível tende a exigir juros reais mais altos por mais tempo, e isso aparece na curva de juros.

Considerações finais

O exercício reúne em um único fluxo a coleta de dados públicos do Banco Central, da IFI e do Focus, a construção de variáveis não observadas, a estimação por GMM e o diagnóstico. É o tipo de análise que até pouco tempo ficava restrita aos departamentos de pesquisa.

O Python dá conta das quatro etapas com bibliotecas abertas, e o mesmo caminho se repete em quase todo problema de macroeconomia aplicada. O que muda é a aplicação:

  • Economistas de bancos e consultorias: estimar a Curva IS e a regra de juros para projetar a Selic e o PIB.
  • Analistas de renda fixa: ligar o hiato de juros à precificação da curva de juros.
  • Gestores e estrategistas: testar como a resposta da economia aos juros muda entre ciclos.
  • Pesquisadores e estudantes: reproduzir modelos de bancos centrais com dados recentes.

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