A inflação por faixa de renda mede quanto cada estrato da população perde de poder de compra, aplicando aos mesmos preços coletados pelo IBGE os pesos de gasto de cada grupo. Este tutorial mostra como coletar os seis índices calculados pelo Ipea, montar a variação acumulada em 12 meses e comparar as faixas entre si usando Python.
O IPCA cheio responde bem à pergunta "quanto os preços subiram no país", e mal à pergunta "quanto os preços subiram para mim". A diferença está na cesta: quem compromete um terço da renda com comida enfrenta uma inflação diferente de quem gasta essa fração com serviços.

A linha da renda muito baixa passa longos períodos acima de todas as outras, e outros períodos abaixo. A ordem entre as faixas não é fixa: ela se inverte, e o recorte de tempo escolhido determina a resposta.
Código do exercício
O código com a coleta das seis séries do Ipea, o acumulado em 12 meses e a decomposição por grupos do IPCA está disponível em:
Por que a inflação não é a mesma para todos
O IPCA é calculado sobre uma cesta de bens e serviços em que cada item entra com um peso. Esse peso vem da Pesquisa de Orçamentos Familiares do IBGE e representa a fatia do orçamento que as famílias destinam àquele item.
Como os pesos são uma média de todas as famílias pesquisadas, eles descrevem um consumidor que não existe. Uma família que gasta 30% da renda com alimentação e outra que gasta 8% são atingidas de formas diferentes pela mesma alta no preço do arroz, e o índice cheio não distingue as duas.
A saída é recalcular o mesmo índice com pesos diferentes. É o que faz o Indicador Ipea de Inflação por Faixa de Renda, publicado desde 2017 com base na metodologia de Lameiras, Sacchet e Souza-Júnior. Ele mantém os preços coletados pelo IBGE e troca a estrutura de gastos pela de cada estrato de renda domiciliar.
| Faixa de renda | Renda domiciliar (R$ de jan./2023) | Código no Ipeadata |
|---|---|---|
| Renda muito baixa | Menor que R$ 2.015,18 | DIMAC_INF1 |
| Renda baixa | Entre R$ 2.015,18 e R$ 3.022,76 | DIMAC_INF2 |
| Renda média-baixa | Entre R$ 3.022,76 e R$ 5.037,94 | DIMAC_INF3 |
| Renda média | Entre R$ 5.037,94 e R$ 10.075,88 | DIMAC_INF4 |
| Renda média-alta | Entre R$ 10.075,88 e R$ 20.151,75 | DIMAC_INF5 |
| Renda alta | Maior que R$ 20.151,76 | DIMAC_INF6 |
As seis séries partem da mesma coleta de preços. O que muda entre elas é apenas o peso de cada item, e é essa diferença que produz seis inflações distintas.
Como o exercício foi construído
A coleta usa o pacote ipeadatapy, que consulta a API do Ipeadata sem exigir que se monte a requisição na mão. Cada faixa é baixada pelo seu código e a coluna de valor é renomeada para o nome do estrato, de modo que o quadro final já saia com as colunas identificadas.
O dado vem em variação mensal, e a comparação entre faixas num único mês é dominada pelo ruído daquele mês. A medida usual para acompanhar inflação é o acumulado em 12 meses, que remove a sazonalidade e revela a tendência.
A composição do acumulado
Acumular inflação não é somar as variações mensais. Uma alta de 1% seguida de outra de 1% não resulta em 2%, porque a segunda incide sobre um nível de preços já elevado pela primeira. A composição correta multiplica os fatores de cada mês:
π12 = [ (1 + π1/100) × (1 + π2/100) × … × (1 + π12/100) − 1 ] × 100
No pandas, isso é uma janela móvel de doze períodos com o produto aplicado dentro dela. As variações percentuais viram fatores, a janela multiplica os doze, e o resultado volta para a escala de pontos percentuais.
As ferramentas
O exercício usa três bibliotecas. O ipeadatapy faz a coleta no Ipeadata; o pandas organiza as séries e calcula a janela móvel; o plotnine produz os gráficos, montando cada figura como um encadeamento de camadas. A quarta etapa, a decomposição por grupos, consulta o SGS do Banco Central via requests.
A ordem entre as faixas se inverte
Somando as duas décadas da amostra, a faixa mais pobre acumula mais inflação que a mais rica, e foi a mais pressionada em pouco mais da metade dos meses da série. Nesse sentido amplo, a intuição se confirma.
A média, porém, esconde a alternância. A distância entre as duas pontas troca de sinal com frequência, e os períodos em que a renda alta sofre mais duram anos, não meses.

Os blocos de cada cor se estendem por vinte meses ou mais, e os extremos passam de três pontos percentuais em ambas as direções. A inversão se repete ao longo de toda a série, em intervalos que duram anos.

O gráfico de barras é o retrato do mês corrente, e serve para localizar cada faixa no momento da consulta. Rodando o código de novo em outra data, a figura muda: é para isso que ela existe.
O que decide qual faixa sofre mais
Como todas as faixas partem dos mesmos preços e diferem apenas nos pesos, o que decide qual grupo sofre mais é a composição da inflação: quais grupos de despesa estão subindo.
Quando a pressão vem de alimentos, a faixa pobre sofre mais, porque alimentação ocupa parcela maior do orçamento dela. Quando vem de serviços (educação, saúde, despesas pessoais), a faixa alta sofre mais, porque é ela que gasta proporcionalmente mais com esses itens. A verificação está nos grupos do IPCA do mesmo período.

Cruzar os dois gráficos fecha o raciocínio. Quando os grupos de serviços aparecem no topo da lista, a faixa de renda alta tende a liderar a inflação acumulada; quando alimentação e transporte estão no topo, a liderança passa para a faixa mais pobre.
É essa correspondência que explica a alternância histórica. Nos choques de alimentos e energia de 2008 e de 2015, a faixa pobre sofreu mais. Em períodos de inflação concentrada em serviços, a ordem se inverte. Refazer o exercício com o dado atualizado responde em qual dos dois regimes a economia está no momento da consulta.
Veja o exercício rodando em vídeo
A aula abaixo percorre as mesmas etapas deste guia, com o código rodando na tela.
Considerações finais
O exercício percorre o caminho completo: a coleta das seis séries do Ipeadata, a composição correta do acumulado em 12 meses, a comparação entre as faixas e a decomposição por grupos que explica o resultado.
A conclusão vai além do código. A inflação não é a mesma para todos, porque a cesta de consumo muda com a renda; a faixa mais pobre não é sempre a mais penalizada, porque a ordem se inverte; e o que decide é a composição da inflação em cada período. Ler a inflação por grupo e por faixa em conjunto responde a uma pergunta que o número agregado não alcança.
- Economistas: análises de poder de compra e de política social ganham precisão ao usar a inflação da faixa relevante, e não a média geral.
- Analistas de conjuntura: a decomposição por grupo antecipa qual estrato será mais afetado pelo choque de preços em curso.
- Profissionais de RH e negociação sindical: reajustes indexados ao IPCA cheio podem repor mais ou menos que a perda efetiva da categoria, conforme a faixa de renda predominante.
- Pesquisadores e estudantes: o exercício é um caso limpo de como a escolha do índice condiciona a conclusão de um trabalho empírico.
Em todas elas o procedimento é o mesmo: escolher o índice cuja cesta corresponde ao grupo que se quer medir, e verificar se a conclusão muda quando o índice muda.
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