A inflação por faixa de renda representa a variação de preços enfrentada por cada estrato da população, calculada a partir da estrutura de gastos daquele grupo. Ou seja, ela aplica aos mesmos preços coletados pelo IBGE os pesos de consumo de quem ganha pouco e de quem ganha muito.
O IPCA divulgado no noticiário usa um único conjunto de pesos, obtido da média de todas as famílias pesquisadas. Ele responde quanto os preços subiram no país, e não quanto subiram para um grupo específico de renda.
A diferença entre as duas medidas não é pequena. No dado mais recente da nossa amostra, julho de 2026, a faixa de renda alta acumulava 5,09% em 12 meses e a faixa de renda muito baixa, 3,97%: uma distância de 1,12 ponto percentual entre os dois extremos.
Esse número já contraria a intuição mais comum sobre o tema, e é dela que parte o exercício. A inflação da faixa mais pobre é sempre a maior?
Para responder, vamos coletar os seis índices calculados pelo Ipea, montar a variação acumulada em 12 meses e comparar as faixas entre si.

Duas coisas chamam atenção nesse gráfico.
Primeiro, a linha da renda muito baixa (navy) fica bem acima das demais no choque de alimentos de 2008: em julho daquele ano, ela acumulava 9,84% em 12 meses, contra 5,91% da renda alta. O mesmo padrão reaparece em 2015 e 2016.
Segundo, em outros trechos a ordem se inverte e a linha da renda alta (vermelho) ocupa o topo. Foi o que aconteceu entre 2017 e 2018, e de novo a partir de 2023. Ou seja, a ordem entre as faixas não é fixa, e o período escolhido muda a resposta.
Código do exercício
Quer obter o notebook completo deste exercício, com a coleta das seis séries do Ipea, o acumulado em 12 meses e a decomposição por grupos do IPCA? O acesso é imediato:
Por que a inflação não é a mesma para todos
O IPCA é calculado sobre uma cesta de bens e serviços em que cada item entra com um peso. Esse peso vem da Pesquisa de Orçamentos Familiares do IBGE e representa a fatia do orçamento que as famílias destinam àquele item.
Esses pesos descrevem o gasto médio do conjunto das famílias pesquisadas. Uma família que gasta 30% da renda com alimentação e outra que gasta 8% são atingidas de formas diferentes pela mesma alta no preço do arroz, e o índice cheio combina as duas com a mesma estrutura de consumo.
Para medir a inflação de um grupo específico, recalculamos o mesmo índice com os pesos daquele estrato. Os preços continuam sendo os coletados pelo IBGE, e o que muda é a estrutura de gastos aplicada sobre eles.
É o que faz o Indicador Ipea de Inflação por Faixa de Renda, publicado desde 2017 com base na metodologia de Lameiras, Sacchet e Souza-Júnior. Ele divide a população em seis faixas de renda domiciliar.
| Faixa de renda | Renda domiciliar (R$ de jan./2023) | Código no Ipeadata |
|---|---|---|
| Renda muito baixa | Menor que R$ 2.015,18 | DIMAC12_INF1 |
| Renda baixa | Entre R$ 2.015,18 e R$ 3.022,76 | DIMAC12_INF2 |
| Renda média-baixa | Entre R$ 3.022,76 e R$ 5.037,94 | DIMAC12_INF3 |
| Renda média | Entre R$ 5.037,94 e R$ 10.075,88 | DIMAC12_INF4 |
| Renda média-alta | Entre R$ 10.075,88 e R$ 20.151,75 | DIMAC12_INF5 |
| Renda alta | Maior que R$ 20.151,76 | DIMAC12_INF6 |
As seis séries partem da mesma coleta de preços. O que muda entre elas é apenas o peso de cada item, e é essa diferença que produz seis inflações distintas.
Como o exercício foi construído
As seis séries estão no Ipeadata, o banco de séries do Ipea. Ele publica uma API aberta, em que cada série é endereçada por uma URL e responde em JSON, sem cadastro nem chave de acesso.
Baixamos uma faixa por vez, identificada pelo código dela no Ipeadata, e nomeamos a coluna de valor com o nome do estrato. Assim o quadro final já sai com as seis colunas identificadas. Detalhamos esse tipo de consulta em O que são APIs e como utilizá-las no Python?.
O dado vem em variação mensal, e a comparação entre faixas num único mês é dominada pelo ruído daquele mês. Um reajuste escolar em janeiro, por exemplo, desloca uma faixa sem dizer nada sobre a tendência.
A medida usual para acompanhar inflação é o acumulado em 12 meses, que suaviza a sazonalidade e revela o movimento de fundo. O comportamento sazonal do índice tem interesse próprio, e o tratamos em Como analisar a Sazonalidade do IPCA no Python?.
A composição do acumulado
Cada variação mensal incide sobre o nível de preços deixado pelo mês anterior. Uma alta de 1% seguida de outra de 1% resulta em 2,01%, e não em 2%, porque a segunda alta se aplica a preços que já subiram.
Por isso somamos ou multiplicamos?
Multiplicamos. Cada variação percentual vira um fator, os doze fatores do período são multiplicados entre si, e o resultado volta para a escala percentual:
π12 = [ (1 + π1/100) × (1 + π2/100) × … × (1 + π12/100) − 1 ] × 100
No pandas, esse cálculo é uma janela móvel de doze períodos com o produto aplicado dentro dela. A janela anda um mês por vez, de modo que cada data da série recebe o acumulado dos doze meses que a antecedem.
As ferramentas
O exercício usa três bibliotecas do Python, cada uma responsável por uma etapa.
O requests faz as consultas às APIs do Ipeadata e do SGS do Banco Central, de onde vêm os grupos do IPCA. O pandas organiza as seis séries num único quadro e calcula a janela móvel de 12 meses.
O plotnine produz os gráficos, montando cada figura como um encadeamento de camadas. Para quem vem da planilha, detalhamos essa lógica em A gramática dos gráficos.
Refazer a análise quando sai o dado do mês seguinte custa uma nova execução do mesmo código. Numa planilha montada à mão, a mesma atualização exige refazer o download, colar os valores na coluna certa e conferir se a fórmula alcançou a linha nova.
A ordem entre as faixas se inverte
No acumulado das duas décadas da amostra, a faixa de renda muito baixa registra 217,3% de inflação contra 193,5% da renda alta. Ela também esteve à frente em 143 dos 230 meses da série, ou 62% do tempo.
A intuição de que a inflação pesa mais sobre quem ganha menos, portanto, se confirma quando olhamos o período inteiro.
Mas esses números descrevem o conjunto, e a distância entre as duas pontas muda de sinal ao longo do tempo. Nos 87 meses restantes, foi a renda alta que enfrentou a maior inflação.

Cada bloco de cor é um período em que uma das pontas perdeu mais poder de compra que a outra, e vários deles se estendem por vinte meses ou mais. A inversão não é um episódio isolado: ela se repete ao longo de toda a série.
Os extremos dão a dimensão da diferença. Em junho de 2008, a renda muito baixa acumulava 3,97 pontos percentuais a mais que a renda alta; em dezembro de 2023, a situação se inverteu, e a renda alta ficou 2,95 pontos à frente.

No dado mais recente da amostra, as seis barras sobem da esquerda para a direita: a renda muito baixa aparece com a menor inflação, 3,97%, e a renda alta com a maior, 5,09%. As quatro faixas intermediárias ficam agrupadas entre 4,25% e 4,40%.
É o retrato de um mês, não uma regra. Rodando o código em outra data, a figura muda, porque ela reflete o período da consulta.
A composição da inflação explica a alternância
Como todas as faixas partem dos mesmos preços e diferem apenas nos pesos, a alternância vem da composição da inflação, ou seja, de quais grupos de despesa estão subindo em cada período.
Quando a pressão vem de alimentos, a faixa pobre sofre mais, porque alimentação ocupa parcela maior do orçamento dela. Quando vem de serviços (educação, saúde, despesas pessoais), a faixa alta sofre mais, porque é ela que gasta proporcionalmente mais com esses itens.
Podemos verificar essa correspondência olhando os grupos do IPCA no mesmo período. A decomposição por grupo é útil para outros fins, e a exploramos em Como fazer previsões para a inflação desagregada medida pelo IPCA?.

No período da nossa amostra, os grupos de serviços ocupam o topo da lista: educação, saúde e despesas pessoais aparecem à frente, enquanto alimentação e transportes ficam na metade de baixo.
Como serviços pesam mais no orçamento das faixas altas, é a renda alta que lidera a inflação acumulada. É exatamente o que o gráfico de barras do mês mais recente mostrou.
Quando a ordem dos grupos é a oposta, o resultado também se inverte. Nos choques de alimentos e energia de 2008 e de 2015, alimentação liderava a lista, e a faixa mais pobre foi a mais penalizada.
Refazer o exercício com o dado atualizado responde em qual dos dois regimes a economia está no momento da consulta.
Onde isso é usado na prática
A escolha entre o IPCA cheio e o índice de uma faixa específica muda o resultado de quatro contas comuns na rotina de quem trabalha com dados econômicos.
Reajuste salarial e negociação sindical. Um acordo indexado ao IPCA cheio repõe a perda média da população. Quando a categoria se concentra numa faixa de renda específica, a perda efetiva dela pode ter sido maior ou menor, e a diferença aparece na comparação entre os dois índices.
Avaliação de política social. Programas de transferência de renda atendem famílias concentradas nas faixas mais baixas. Corrigir o benefício pelo índice geral pode descolá-lo da inflação que essas famílias enfrentam de fato.
Projeção de consumo por segmento. Quem projeta vendas para um público de renda definida ganha precisão ao usar a inflação daquele estrato, porque é ela que descreve o poder de compra do grupo.
Análise de poder de compra. Comparar salário nominal com o índice da faixa correspondente dá uma medida de ganho real mais próxima da experiência do grupo. O mesmo raciocínio de deflacionar valores por um índice adequado aparece em Como calcular Paridade do Poder de Compra para o Brasil usando o Python.
Veja o exercício rodando em vídeo
Nesta aula, percorremos as mesmas quatro etapas do exercício com o código rodando na tela, da coleta das séries à decomposição por grupos.
Considerações finais
A inflação varia entre os grupos de renda, porque a cesta de consumo muda conforme o orçamento da família. Os mesmos preços do IBGE, reponderados, produzem seis resultados diferentes.
A faixa mais pobre acumula mais inflação no conjunto das duas décadas, e esteve à frente em 62% dos meses. Mas ela não é sempre a mais penalizada: nos 87 meses restantes, quem enfrentou a maior alta foi a renda alta.
O que determina a ordem em cada período é a composição da inflação. Choque de alimentos penaliza mais quem ganha menos; inflação concentrada em serviços penaliza mais quem ganha mais.
Ler a inflação por grupo e por faixa em conjunto responde a uma pergunta de outra natureza que a do índice agregado: não quanto os preços subiram no país, mas para quem eles subiram mais.
- Economistas: análises de poder de compra e de política social ganham precisão ao usar a inflação da faixa relevante, e não a média geral.
- Analistas de conjuntura: a decomposição por grupo antecipa qual estrato será mais afetado pelo choque de preços em curso.
- Profissionais de RH e negociação sindical: reajustes indexados ao IPCA cheio podem repor mais ou menos que a perda efetiva da categoria, conforme a faixa de renda predominante.
- Pesquisadores e estudantes: o exercício é um caso limpo de como a escolha do índice condiciona a conclusão de um trabalho empírico.
O procedimento não muda de uma profissão para outra: escolhemos o índice cuja cesta corresponde ao grupo que se quer medir, e verificamos se a conclusão se sustenta quando trocamos o índice.
Aprenda a análise de conjuntura completa
Da coleta de séries do IBGE, do Ipea e do Banco Central à modelagem macroeconômica, com Python aplicado a dados reais desde a primeira aula. Quem quer acesso a todas as formações tem o AM Black, a assinatura anual.
Leia também: