Ensino de Economia

A imparcialidade impossível em economia

By 6 de abril de 2013 No Comments

A economia é uma ciência marcada por divergências teóricas fundamentais. Existem, basicamente, três paradigmas metodológicos sob os quais a disciplina avança: o dialético, o histórico-dedutivo e o lógico-dedutivo. O primeiro é abraçado pelos marxistas e tem sido tratado como análise alternativa desde já algum tempo. O segundo é tomado por uma série de escolas de pensamento, mas encontra em Keynes um repouso tranquilo. O último, o método lógico-dedutivo, é utilizado pelo projeto de pesquisa neoclássico, a contrapartida teórica a ideia de que existiria apenas um jeito de pensar a economia: colocando o adjetivo política em seguida.

É nesse contexto, leitor, que a imparcialidade em economia é no mínimo difícil. Para quem quer alcançar um grau de pesquisador e mesmo de analista dos fatos e gerador de previsões, é preciso escolher um lado. Por mais que seja difícil, por mais que não seja agradável agarrar-se a um jeito de pensar a disciplina. Os que não o fazem correm o risco de não terem a solidez e o impacto necessário que qualquer opinião econômica deva ter. São apenas "leitores bem informados", já pedindo desculpas às exceções de praxe.

Uma coisa, entretanto, que percebo é que geralmente as pessoas que não optam por um paradigma, por um método, é porque não se sentem ainda confortáveis para fazê-lo. No fundo, elas já são pós-keynesianas, novo-keynesianas, marxistas, austríacas etc mas ainda não admitem. O discurso, o jeito de opinar, a base do raciocínio, está todo lá: solidificado na teoria e no método. Elas apenas ou não sabem disso, ou não querem se comprometer com isso.

Se, por exemplo, você defende que a política econômica - isto é, os instrumentos fiscais e monetários à disposição do governo - deve ser utilizada de modo anticíclica, sem maiores preocupações com a comunicação ou com a credibilidade da mesma, para elevar o nível de emprego, é provável que você acredite que discricionalidade seja melhor do que regras. E no caso específico da política monetária, você está raciocinando com base na ideia de que a moeda não é neutra nem no curto, nem no longo prazo: ela é um ativo que interfere nas decisões dos agentes econômicos. Você provavelmente acha que o mundo é guiado pela incerteza e que nesse mundo a política econômica é um importante instrumento para manter as coisas funcionando. Não tenha dúvidas, se você pensar assim: você é keynesiano!

De outra forma, você pode achar que uma política econômica discricionária - que não seja guiada por regras claras - gera ainda mais incerteza sobre o ambiente de negócios. Afinal, os agentes ao planejarem o futuro, olham para as decisões do governo. Eles podem não conhecer o modelo econômico mais mainstream - como provavelmente muitos economistas também não conhecem - mas sabem que se o governo anuncia um pacote a toda semana, o empresário fica receoso em qual será a "próxima surpresa". Nesse caso específico, meu amigo, desculpa: mas você é novo-keynesiano!

As outras posições são ainda mais nítidas. Austríacos, por exemplo, têm um jeito próprio de organizar o pensamento, de olhar o mundo e fazer suas previsões. Para uma parte deles, por exemplo, os estados, através de seus bancos centrais, são os maiores causadores de instabilidade, ao reduzir ou elevar a quantidade de oferta de moeda em momentos inoportunos. Já marxistas são céticos quanto ao futuro das economias de mercado. Acreditam que a lógica do capital fictício acabará por levar a uma geração de "riqueza" sem lastro físico. Nesse paradigma, não há geração de valor, apenas de ilusão. O resultado é óbvio: crises.

Há muitas outras escolas de pensamento. E sua organização peculiar, seu jeito de interpretar o mundo, são também nítidos e observáveis dentro de um debate - mesmo que o próprio debatedor não as perceba. A imparcialidade nesse jogo é praticamente impossível. Ela é para poucos: apenas para aqueles que já estudaram praticamente tudo, mas que acreditam que a pluralidade de pensamento seja a melhor forma de analisar o mundo. Podem fazer pesquisa uma hora utilizando o PDE, outra hora usando DSGE. Mas esses são tão raros que não vale a a pena tê-los como referência. O resto de nós, pobres mortais, temos mesmo que escolher um lado: e tentar entender o mundo a partir desse paradigma.

 

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