Inflação: anatomia de um crime.

Não é qualquer aumento de preços que pode ser considerado inflação, leitor, esclareçamos logo de início. Inflação é um aumento generalizado de preços. Se eu quisesse ser muito rigoroso diria que inflação é uma alta geral, continuada, diferenciada e assincrônica de preços; onde assincrônica significa que não ocorre, ou não se processa, em sincronia com algum evento ou processo, ou segundo uma taxa constante em relação a determinada referência. Desse modo, uma coisa é termos um aumento passageiro nos preços de alimentos, outra [completamente distinta] é termos inflação.  Nesse post e em um próximo procurarei elucidar o fenômeno inflacionário de modo que o leitor não iniciado consiga perceber o que de fato está acontecendo nessa seara no Brasil atual.

Dos tipos de inflação: a abordagem heterodoxa.

É muito comum, quando se fala em inflação, discorrer sobre uma espécie de tipologia, para diferenciar suas causas. Nessa abordagem, descantam-se cinco tipos: inflação de custos, inflação de demanda, inflação inercial, inflação reprimida e hiperinflação. A primeira seria causada por algum choque em um preço importante da economia [como o petróleo, por exemplo], que acaba se disseminando [difundindo-se] pela maioria dos setores, por se tratar de um insumo básico para a maior parte das cadeias produtivas. A inflação de demanda ocorreria quando a procura por bens e serviços é superior à capacidade dessa mesma economia em ofertar tais bens e serviços, logo há um aumento generalizado de preços.

A inflação inercial ocorre quando a indexação se generaliza. Em outros termos, quando uma parte considerável dos preços de uma economia encontram-se, de alguma forma, atrelados à índices de correção automática. Em assim sendo, uma parte da inflação atual é explicada pela inflação passada, em um processo de retroalimentação. A inflação reprimida é provocada pelo congelamento de preços por parte de algum governo. Dado que o preço das coisas emite informação sobre oferta e demanda, quando há o congelamento do mesmo, ele deixa de sinalizar escassez, afetando o abastecimento dos bens e serviços, provocando em algum grau uma inflação reprimida, que logo se torna corretiva quando o governo recua no congelamento inicial de preços.

O último tipo de inflação é aquele denominado como hiperinflação, quando os índices de preços passam a apresentar taxas inesperadas e surpreendentes. Em outros termos, não há qualquer tipo de previsão possível sobre a trajetória futura do nível geral de preços. Na Alemanha pós 1ª guerra, por exemplo, os salários eram pagos duas vezes por dia, para que as pessoas pudessem "acompanhar" o aumento generalizado de preços.

Inflação: a abordagem monetarista.

Essa tipologia que apresentei anteriormente é um tanto quanto solta demais, para dizer o mínimo. Isto porque, se você apresenta cinco causas para a inflação é provável que existam outras mil causas. E desse ponto de vista, cada processo inflacionário deveria ser analisado de forma única, criando-se um grupo de estudos para o mesmo. A moderna teoria macroeconômica, entretanto, tem um corpo sólido de explicação para o que se entende como inflação.

Em primeiro lugar, devemos ter em mente que estamos tratando de uma economia de mercado regida pelo mecanismo de preço, onde existe um único bem que serve de numerário de todos os outros bens. Em outros termos, todos os bens e serviços da economia expressam seu preço de modo relativo ao preço desse bem que serve de numerário. Assim, se o quilo do tomate custa R$ 6, é porque eu preciso de seis notas de R$ 1 para cada quilo de tomate. Naturalmente, dois quilos de tomate deveriam me custar o dobro em termos do numerário em questão.

Observe, nesse contexto, leitor, que a inflação enquanto uma alta geral, continuada, diferenciada e assincrônica de preços só pode existir porque a moeda existe. E note que aqui eu não defini o que é moeda: sigo a definição dada por Hicks "money is what money does". Em outros termos, qualquer coisa pode ser moeda, desde que possa cumprir as seguintes funções: servir de meio de troca, unidade de conta [referenciar contratos] e ser reserva de valor [conservar o valor das coisas no tempo]. Não faz sentido, portanto, definir inflação em uma economia que não tenha um numerário para qual todos os demais bens e serviços são convertidos.

Esse ponto é importante para definir a causa básica da inflação: ela só persiste quando a quantidade de moeda [e crédito] que é emitida pelos governos [e concedido pelos bancos] é superior às necessidades das transações mercantis e financeiras do país.  Significa dizer que o fenômeno inflacionário não sobrevive no vácuo, sem estímulo monetário. Isto, claro, em termos dilatados do tempo. A tal inflação em contínuo aumento. 

Nesse aspecto, a visão monetarista de inflação, que acabou tornando-se hegemônica entre os economistas, vê a inflação como um sintoma de que algo dentro do organismo econômico não vai bem. Em outros termos e retomando, dado que o preço é um índice de escassez [ele sinaliza a oferta e a demanda de um determinado bem ou serviço], se está ocorrendo inflação é porque [em termos básicos]: i) há escassez de oferta; ii) há elevação de demanda. A primeira pode ser causada por um choque exógeno ao organismo econômico, tal como um problema climático que afete a safra de determinado bem agrícola, gerando uma menor oferta daquele produto, fazendo com que o preço do mesmo aumente. O segundo, geralmente, está ligado ao aumento do dinheiro em circulação [um aumento do crédito, por exemplo].

A inflação tratada em termos contemporâneos

Em termos mais gerais, podemos representar a inflação pela seguinte equação:

Onde,

 

 

 

O que significa dizer que contemporaneamente nós economistas consideramos que a inflação é um sintoma de que existe algum tipo de desequilíbrio na economia. Este pode vir do descompasso entre a Oferta Agregada e a Demanda Agregada de bens e serviços [medido pelo output gap da equação acima], pode ser causado por um problema externo [medido pela variação do foreign producer price index  mais a exchange rate], pode ter relação com as expectativas dos próprios agentes econômicos [expectation operation], pode ser relacionado à inflação de períodos anteriores [dado que a inflação é um índice encadeado que gera uma série temporal, logo possui um componente auto-regressivo] ou pode ter a ver com choques de oferta [como o aumento de um insumo importante para a maior parte das cadeias produtivas].

Observe, leitor, que essa forma de tratar a inflação é uma "conciliação" entre a abordagem heterodoxa [de tipologias] e a visão monetarista. Em outros termos, no curto prazo a inflação [enquanto sintoma de desquilíbrio] pode ser causada por um problema externo, por um componente inercial, pela elevação das expectativas, por um choque de oferta ou por qualquer outra coisa que o macroeconomista quiser considerar naquela equação. No longo prazo, porém, a inflação só se sustenta se for alimentada pela emissão indiscriminada de moeda. Ou seja, o processo inflacionário está inteiramente ligado aos fundamentos da economia, ao seu equilíbrio interno e externo, ceteris paribus, choques exógenos.

Na segunda parte dessa "[mini]série", analisarei mais detidamente o que vem a ser esse tal equilíbrio [interno e externo], além de ilustrar com dados a atual conjuntura brasileira nessa seara - tão em voga ultimamente, dada a flexibilização do regime de metas de inflação.

 

NOTA: A equação desse post foi retirada de Bogdnaski et al, 2000, Implementing Inflation Targeting in Brazil, texto para discussão 01 do Banco Central do Brasil.

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