Crescimento e inflação ao redor do mundo no período 2010-2012

Em entrevista à Folha de SP, publicada nesse domingo, a nossa querida presidenta fez a seguinte declaração, quando questionada sobre o baixo crescimento brasileiro:

"O mundo cresce pouco. Nós não somos uma ilha. Você não está com aquele vento a favor que estava, não. Nós estamos crescendo com vendaval na nossa cara".


Antes de mais nada, eu acho curioso o fato do crescimento mundial só ser lembrado quando é conveniente. No período 2003-2007, quando o mundo experimentava uma das melhores conjunturas desde o pós-guerra, a administração Lula fazia questão de lembrar os sucessos de sua política econômica, dando pouca ênfase ao cenário externo. Agora, como o crescimento brasileiro vem declinando, os "ventos externos" são usados a torto e a direita para justificar esse desempenho. Interessante, não?

Afora essa curiosidade, vamos aos dados: como foi o comportamento da inflação e do crescimento ao redor do mundo nos últimos três anos?

Para responder essa pergunta, consultei os dados do Banco Mundial. Em uma primeira comparação, Brasil versus mundo, as coisas já ficam um tanto quanto problemáticas. O crescimento médio do mundo de 2010 a 2012 foi de 3%, já o do Brasil foi de 3,7%. A inflação foi de 4,1% enquanto a do Brasil foi de 6,1%. Em outros termos, mesmo com todos os incentivos fiscais, monetários e creditícios, o crescimento brasileiro não foi lá essas coisas se comparado a média mundial, enquanto a inflação foi dois pontos percentuais superior. Se considerarmos as diversas partições que podem ser feitas da amostra, a comparação fica ainda mais crítica. Por exemplo, o Chile teve crescimento médio de 5,7% e inflação de 2,6%, enquanto a Colômbia 4,9% e 3%. A América Latina e o Caribe apresentaram crescimento médio de 4,1% e inflação de 4,4%. Países de renda média tiveram crescimento de 6,3% entre 2010 e 2012 e inflação de 5,2%.

O crescimento das diversas regiões do mundo pode ser conferido  no gráfico abaixo:

crescimentomundo

Significa dizer, leitor, que se a presidenta tivesse consultado os dados veria que sua frase não faz sentido. O crescimento brasileiro só é maior quando comparado a países desenvolvidos. Países de renda semelhante ou menor apresentaram, no período 2010-2012, crescimento acima do brasileiro. Ademais, a média do crescimento brasileiro nesses três anos supera a média mundial (que inclui países assolados pela crise, com números bastante negativos) por míseros sete décimos.

Quando analisamos o processo inflacionário nas diferentes regiões do mundo, a situação se inverte. Enquanto o mundo em desenvolvimento apresenta taxas de crescimento maiores do que a nossa, a inflação brasileira é comparável a desses países. Na comparação com países de renda média, a inflação brasileira é oito décimos superior. Nossa inflação média no período 2010-2012 (6,1%) está próxima a países menos desenvolvidos (6,6%). O gráfico abaixo resume a situação inflacionária entre as diversas regiões do mundo.

inflaçãomundo

Em assim sendo, apenas tomando crescimento e inflação, não se pode dizer, como disse a presidenta, que nossa situação é reflexo do que ocorre no mundo. A crise afetou bastante o crescimento dos países desenvolvidos. Já os países de renda média têm apresentado taxas de crescimento e inflação bem melhores do que a brasileira. Significa dizer que é preciso olhar para a conjuntura doméstica, visando entender porque estamos tendo um comportamento pior do que países de renda semelhante. Como venho escrevendo nesse espaço, o pífio crescimento brasileiro e a manutenção de taxas de inflação no limite superior da meta são explicados muito mais pela política econômica do que propriamente pela conjuntura internacional. Queira a querida presidenta, ou não.

Compartilhe esse artigo

Facebook
Twitter
LinkedIn
WhatsApp
Telegram
Email
Print

Comente o que achou desse artigo

Outros artigos relacionados

Como se comportou a Taxa de Participação no Brasil nos últimos anos? Uma Análise com a Linguagem R

O objetivo deste estudo é analisar a evolução da Taxa de Participação no Brasil, contrastando-a com a Taxa de Desocupação e decompondo suas variações para entender os vetores (populacionais e de força de trabalho) que influenciam o comportamento atual do mercado de trabalho. Para isso, utilizamos a linguagem R em todo o processo, desde a coleta e o tratamento das informações até a visualização dos resultados, empregando os principais pacotes disponíveis no ecossistema da linguagem.

Como se comportou a inflação de serviços no Brasil nos últimos anos?

Uma análise econométrica da inflação de serviços no Brasil comparando os cenários de 2014 e 2025. Utilizando uma Curva de Phillips própria e estimativas da NAIRU via filtro HP, investigamos se o atual desemprego nas mínimas históricas repete os riscos do passado. Entenda como as expectativas de inflação e o hiato do desemprego explicam o comportamento mais benigno dos preços atuais em relação à década anterior.

Como se comportou o endividamento e a inadimplência nos últimos anos? Uma análise utilizando a linguagem R

Neste exercício realizamos uma análise sobre a inadimplência dos brasileiros no período recente, utilizando a linguagem R para examinar dados públicos do Banco Central e do IBGE. Investigamos a evolução do endividamento, da inadimplência e das concessões de crédito, contextualizando-os com as dinâmicas da política monetária (Taxa Selic) e do mercado de trabalho (renda e desemprego).

Boletim AM

Receba diretamente em seu e-mail gratuitamente nossas promoções especiais e conteúdos exclusivos sobre Análise de Dados!

Boletim AM

Receba diretamente em seu e-mail gratuitamente nossas promoções especiais e conteúdos exclusivos sobre Análise de Dados!

como podemos ajudar?

Preencha os seus dados abaixo e fale conosco no WhatsApp

Boletim AM

Preencha o formulário abaixo para receber nossos boletins semanais diretamente em seu e-mail.