A mudança de preços no Python se calcula decompondo o IPCA por item: em vez de olhar só o índice cheio, você mede quanto cada categoria — alimentação, saúde, eletrônicos — encareceu ou barateou desde o ano 2000. Com dados públicos do IBGE e poucas linhas de código, dá para reconstruir a história de preços da economia brasileira e descobrir um padrão que a média esconde.
Neste tutorial você vê o método completo: coletar o IPCA por item na API do IBGE, encadear as variações mensais em índices de preços e calcular duas medidas — a inflação acumulada (a alta nominal) e a inflação relativa (a alta descontada a média). O resultado é o dado real que só a AM mostra: os serviços encareceram bem acima da média, enquanto a tecnologia ficou drasticamente mais barata.

O gráfico já entrega o achado: alimentação fora do domicílio acumulou cerca de +600% e serviços de saúde +579%, enquanto TV/som/informática e aparelho telefônico caíram de preço em reais. O tutorial mostra exatamente como chegar a esse gráfico.
Quer reproduzir este gráfico?
O script completo em Python (coleta o IPCA por item no IBGE, encadeia os índices e gera os dois gráficos, prontos para rodar) vai para os assinantes do Boletim AM. Assine, é gratuito, e receba o código no e-mail.
Por que o índice cheio esconde a história
O IPCA é o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo, calculado todo mês pelo IBGE. Ele resume a inflação num único número, a partir de uma cesta de consumo em que cada item pesa conforme sua importância no orçamento das famílias.
Esse número é uma média. E toda média achata a dispersão: dois itens podem ter comportamentos opostos e ainda assim compor um índice "comportado". Para enxergar o que a média esconde, é preciso abrir o IPCA item a item.
É o que este exercício faz. Para cada categoria, calculamos duas medidas complementares, que respondem a perguntas diferentes sobre o mesmo dado.
Inflação acumulada: a alta nominal
A inflação acumulada mede quanto o preço de um item subiu, em reais, desde uma data-base. Ela responde: "quanto mais caro está este produto hoje em comparação com 2000?". Um acúmulo de +600% quer dizer que o preço multiplicou por sete no período.
Inflação relativa: a alta descontada a média
A inflação relativa mede a mesma alta, mas depois de descontar a inflação geral. Ela responde: "este item ficou mais caro ou mais barato em relação à média da economia?". É o conceito de preço relativo: quanto o item custa em unidades do "cesto médio".
A distinção é o coração da análise. Um produto pode subir de preço em reais e, mesmo assim, ficar mais barato na prática, porque tudo o mais subiu mais rápido. Eletrônicos são o caso clássico.
Como foi feito, passo a passo
O caminho tem quatro etapas, todas em Python. Nenhuma exige dado pago: o IPCA por item está disponível de graça na API do IBGE.
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Um detalhe da coleta merece nota. Como a cesta do IPCA é revisada a cada nova Pesquisa de Orçamentos Familiares, os itens ficam espalhados por quatro tabelas do SIDRA, cada uma cobrindo um intervalo. Para montar a série desde 2000, é preciso baixar as quatro e emendá-las — um ponto onde muita análise se perde e entrega uma série incompleta.
Os resultados
Com os índices prontos, os dois gráficos contam lados diferentes da mesma história. O primeiro, já mostrado acima, é a alta nominal. O segundo desconta a inflação geral e revela o preço relativo de cada item.
| Item do IPCA | Inflação acumulada (%) | Relativa ao IPCA (%) |
|---|---|---|
| Alimentação fora do domicílio | +600,5 | +46,5 |
| Serviços de saúde | +578,6 | +42,0 |
| Alimentação no domicílio | +514,9 | +28,6 |
| Educação | +457,1 | +16,6 |
| Combustíveis (veículos) | +454,5 | +16,0 |
| Habitação | +413,5 | +7,4 |
| Vestuário | +320,7 | −12,0 |
| Móveis e utensílios | +278,8 | −20,8 |
| Eletrodomésticos e equipamentos | +166,2 | −44,3 |
| Automóvel novo | +82,0 | −61,9 |
| TV, som e informática | −41,2 | −87,7 |
| Aparelho telefônico | −51,9 | −89,9 |
Mudança de preços por item do IPCA desde jan/2000, no mês mais recente. Fonte: IBGE/SIDRA.

As ferramentas por trás


pandas trata e encadeia os índices; o plotnine (a gramática de gráficos do ggplot2 em Python) desenha as séries.O que o resultado revela
- Serviços puxam a inflação de longo prazo. Alimentação fora do domicílio e saúde encareceram acima da média porque são intensivos em mão de obra, onde o ganho de produtividade é mais lento.
- Tecnologia deflaciona. Aparelho telefônico e informática caíram de preço em reais e despencaram em termos relativos (cerca de −90%), reflexo de produtividade e globalização na produção de eletrônicos.
- A média engana. O IPCA cheio suaviza tudo isso: só a decomposição por item mostra que o custo de vida "sentido" depende de quanto cada família gasta em serviço versus em bens duráveis.
Considerações finais
Este exercício mostra o que o Python entrega a quem analisa a economia brasileira: com dados públicos e poucas linhas, você reconstrói um quarto de século de história de preços que, de outra forma, ficaria restrito a relatórios especializados.
O Python é a ferramenta certa para isso porque reúne, num só ambiente, a coleta na API do IBGE, o tratamento dos índices e a visualização, com pacotes pensados para o dado brasileiro. O mesmo caminho — coletar, tratar, calcular, visualizar — se repete em quase todo problema de análise econômica. O que muda é a aplicação:
- Economista: decompor a inflação por grupo, nível de renda ou região para entender a dinâmica de preços por trás do índice cheio.
- Analista de investimentos: ligar preços relativos a teses setoriais, identificando onde o poder de repasse de preços protege margens.
- Gestor e profissional de finanças: construir índices de custo próprios, aderentes à cesta real da empresa ou do cliente, em vez de usar só o IPCA cheio.
- Pesquisador e jornalista de dados: transformar a base do IBGE em gráficos e histórias verificáveis, com método reproduzível.
Aprender Python aplicado à macroeconomia é o que abre a porta para todas essas frentes.
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