Mudança de preços no Python: a inflação item a item do IPCA

Este artigo explora a dinâmica de preços da economia brasileira para além do índice cheio do IPCA. Utilizando a linguagem Python e dados oficiais do IBGE, ensinamos como calcular e visualizar a Inflação Acumulada e a Inflação Relativa de itens específicos desde o ano 2000. A análise revela a discrepância entre bens que se tornaram relativamente mais baratos, como tecnologia, e serviços que encareceram acima da média, como educação e saúde.
Gráfico de linhas intitulado "Mudanças de Preços Relativas ao IPCA", mostrando o desempenho de itens específicos em comparação à inflação geral (linha base zero). Linhas acima de zero indicam itens que ficaram relativamente mais caros, com destaque para "Educação" e "Serviços de saúde". Linhas abaixo de zero indicam itens que ficaram relativamente mais baratos que a média da economia, com destaque para "TV, som e informática", "Eletrodomésticos" e "Automóvel novo", que apresentam tendências decrescentes acentuadas.

A mudança de preços no Python se calcula decompondo o IPCA por item: em vez de olhar só o índice cheio, você mede quanto cada categoria — alimentação, saúde, eletrônicos — encareceu ou barateou desde o ano 2000. Com dados públicos do IBGE e poucas linhas de código, dá para reconstruir a história de preços da economia brasileira e descobrir um padrão que a média esconde.

Neste tutorial você vê o método completo: coletar o IPCA por item na API do IBGE, encadear as variações mensais em índices de preços e calcular duas medidas — a inflação acumulada (a alta nominal) e a inflação relativa (a alta descontada a média). O resultado é o dado real que só a AM mostra: os serviços encareceram bem acima da média, enquanto a tecnologia ficou drasticamente mais barata.

Mudança de preços no Python: gráfico da inflação acumulada por item do IPCA desde 2000, com alimentação fora do domicílio e serviços de saúde no topo e eletrônicos abaixo de zero
Inflação acumulada por item do IPCA desde 2000. Fonte: IBGE/SIDRA.

O gráfico já entrega o achado: alimentação fora do domicílio acumulou cerca de +600% e serviços de saúde +579%, enquanto TV/som/informática e aparelho telefônico caíram de preço em reais. O tutorial mostra exatamente como chegar a esse gráfico.

Quer reproduzir este gráfico?

O script completo em Python (coleta o IPCA por item no IBGE, encadeia os índices e gera os dois gráficos, prontos para rodar) vai para os assinantes do Boletim AM. Assine, é gratuito, e receba o código no e-mail.

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Por que o índice cheio esconde a história

O IPCA é o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo, calculado todo mês pelo IBGE. Ele resume a inflação num único número, a partir de uma cesta de consumo em que cada item pesa conforme sua importância no orçamento das famílias.

Esse número é uma média. E toda média achata a dispersão: dois itens podem ter comportamentos opostos e ainda assim compor um índice "comportado". Para enxergar o que a média esconde, é preciso abrir o IPCA item a item.

É o que este exercício faz. Para cada categoria, calculamos duas medidas complementares, que respondem a perguntas diferentes sobre o mesmo dado.

Inflação acumulada: a alta nominal

A inflação acumulada mede quanto o preço de um item subiu, em reais, desde uma data-base. Ela responde: "quanto mais caro está este produto hoje em comparação com 2000?". Um acúmulo de +600% quer dizer que o preço multiplicou por sete no período.

Inflação relativa: a alta descontada a média

A inflação relativa mede a mesma alta, mas depois de descontar a inflação geral. Ela responde: "este item ficou mais caro ou mais barato em relação à média da economia?". É o conceito de preço relativo: quanto o item custa em unidades do "cesto médio".

A distinção é o coração da análise. Um produto pode subir de preço em reais e, mesmo assim, ficar mais barato na prática, porque tudo o mais subiu mais rápido. Eletrônicos são o caso clássico.

Como foi feito, passo a passo

O caminho tem quatro etapas, todas em Python. Nenhuma exige dado pago: o IPCA por item está disponível de graça na API do IBGE.

📥

1. Coletar
Baixar a variação mensal de cada item do IPCA na API do SIDRA (IBGE), unindo quatro tabelas que cobrem 2000 até hoje.

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2. Encadear
Transformar as variações mensais em um índice de preços, compondo os fatores mês a mês, com base 100 em janeiro de 2000.

3. Calcular
Derivar a inflação acumulada e a relativa, dividindo o índice de cada item pelo índice do IPCA geral.

📊

4. Visualizar
Plotar as duas séries por item e ler a história que a média do IPCA não conta.

Um detalhe da coleta merece nota. Como a cesta do IPCA é revisada a cada nova Pesquisa de Orçamentos Familiares, os itens ficam espalhados por quatro tabelas do SIDRA, cada uma cobrindo um intervalo. Para montar a série desde 2000, é preciso baixar as quatro e emendá-las — um ponto onde muita análise se perde e entrega uma série incompleta.

Os resultados

Com os índices prontos, os dois gráficos contam lados diferentes da mesma história. O primeiro, já mostrado acima, é a alta nominal. O segundo desconta a inflação geral e revela o preço relativo de cada item.

Item do IPCA Inflação acumulada (%) Relativa ao IPCA (%)
Alimentação fora do domicílio +600,5 +46,5
Serviços de saúde +578,6 +42,0
Alimentação no domicílio +514,9 +28,6
Educação +457,1 +16,6
Combustíveis (veículos) +454,5 +16,0
Habitação +413,5 +7,4
Vestuário +320,7 −12,0
Móveis e utensílios +278,8 −20,8
Eletrodomésticos e equipamentos +166,2 −44,3
Automóvel novo +82,0 −61,9
TV, som e informática −41,2 −87,7
Aparelho telefônico −51,9 −89,9

Mudança de preços por item do IPCA desde jan/2000, no mês mais recente. Fonte: IBGE/SIDRA.

Gráfico da inflação relativa ao IPCA por item desde 2000: serviços acima da média e tecnologia muito abaixo, calculado no Python
Inflação relativa ao IPCA por item desde 2000. Fonte: IBGE/SIDRA.

As ferramentas por trás

Logo do Python
Python — a linguagem que reúne coleta, cálculo e gráfico num só fluxo.
Logo do IBGE
IBGE / SIDRA — a fonte pública e gratuita do IPCA por item, acessada por API.
🐼
pandas + plotnine — o pandas trata e encadeia os índices; o plotnine (a gramática de gráficos do ggplot2 em Python) desenha as séries.

O que o resultado revela

  • Serviços puxam a inflação de longo prazo. Alimentação fora do domicílio e saúde encareceram acima da média porque são intensivos em mão de obra, onde o ganho de produtividade é mais lento.
  • Tecnologia deflaciona. Aparelho telefônico e informática caíram de preço em reais e despencaram em termos relativos (cerca de −90%), reflexo de produtividade e globalização na produção de eletrônicos.
  • A média engana. O IPCA cheio suaviza tudo isso: só a decomposição por item mostra que o custo de vida "sentido" depende de quanto cada família gasta em serviço versus em bens duráveis.

Considerações finais

Este exercício mostra o que o Python entrega a quem analisa a economia brasileira: com dados públicos e poucas linhas, você reconstrói um quarto de século de história de preços que, de outra forma, ficaria restrito a relatórios especializados.

O Python é a ferramenta certa para isso porque reúne, num só ambiente, a coleta na API do IBGE, o tratamento dos índices e a visualização, com pacotes pensados para o dado brasileiro. O mesmo caminho — coletar, tratar, calcular, visualizar — se repete em quase todo problema de análise econômica. O que muda é a aplicação:

  • Economista: decompor a inflação por grupo, nível de renda ou região para entender a dinâmica de preços por trás do índice cheio.
  • Analista de investimentos: ligar preços relativos a teses setoriais, identificando onde o poder de repasse de preços protege margens.
  • Gestor e profissional de finanças: construir índices de custo próprios, aderentes à cesta real da empresa ou do cliente, em vez de usar só o IPCA cheio.
  • Pesquisador e jornalista de dados: transformar a base do IBGE em gráficos e histórias verificáveis, com método reproduzível.

Aprender Python aplicado à macroeconomia é o que abre a porta para todas essas frentes.

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