Mudança de preços: a inflação item a item do IPCA

Este artigo explora a dinâmica de preços da economia brasileira para além do índice cheio do IPCA. Utilizando a linguagem Python e dados oficiais do IBGE, ensinamos como calcular e visualizar a Inflação Acumulada e a Inflação Relativa de itens específicos desde o ano 2000. A análise revela a discrepância entre bens que se tornaram relativamente mais baratos, como tecnologia, e serviços que encareceram acima da média, como educação e saúde.
Gráfico de linhas intitulado "Mudanças de Preços Relativas ao IPCA", mostrando o desempenho de itens específicos em comparação à inflação geral (linha base zero). Linhas acima de zero indicam itens que ficaram relativamente mais caros, com destaque para "Educação" e "Serviços de saúde". Linhas abaixo de zero indicam itens que ficaram relativamente mais baratos que a média da economia, com destaque para "TV, som e informática", "Eletrodomésticos" e "Automóvel novo", que apresentam tendências decrescentes acentuadas.

O IPCA divulgado todo mês resume a inflação do país em um número só. Por trás dele, cada item da cesta de consumo tem uma trajetória própria: alguns encareceram muito acima da média desde 2000, e outros ficaram mais baratos em reais.

A mudança de preços mede exatamente essa trajetória item a item. Ou seja, ela acompanha quanto cada categoria de consumo variou de preço ao longo do tempo, em vez de tratar a cesta como um bloco único.

No nosso exemplo, alimentação fora do domicílio acumulou 600,5% de alta desde janeiro de 2000, enquanto o aparelho telefônico ficou 51,9% mais barato em reais. São dois itens do mesmo índice, no mesmo período.

Neste tutorial, vamos coletar o IPCA por item na API do IBGE, encadear as variações mensais em índices de preços e calcular duas medidas: a inflação acumulada, que é a alta nominal, e a inflação relativa, que desconta a média da economia.

Mudança de preços no Python: gráfico da inflação acumulada por item do IPCA desde 2000, com alimentação fora do domicílio e serviços de saúde no topo e eletrônicos abaixo de zero
Inflação acumulada por item do IPCA desde 2000. Fonte: IBGE/SIDRA.

Duas coisas chamam atenção na figura acima.

Primeiro, as linhas do topo são todas de serviços e alimentação: alimentação fora do domicílio acumula 600,5% e serviços de saúde, 578,6%. Um preço que acumula 600% multiplicou por sete no período.

Segundo, duas linhas terminam abaixo de onde começaram. TV, som e informática caíram 41,2%, e o aparelho telefônico, 51,9%. Ou seja, esses itens custam hoje menos reais do que custavam em 2000, sem nenhum ajuste de inflação.

💡 Quer obter o código completo deste exercício?

O notebook pronto para rodar (coleta o IPCA por item na API do IBGE, encadeia os índices e gera os dois gráficos) tem acesso imediato na página abaixo.

Obter o notebook completo →

Veja a aula completa em vídeo

Nesta aula, percorremos as mesmas quatro etapas com o código rodando na tela, da coleta das tabelas do SIDRA até os dois gráficos.

A coleta do IPCA por item no SIDRA, o encadeamento dos índices e o cálculo da inflação acumulada e relativa.

Por que decompor o IPCA por item

O IPCA é o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo, calculado todo mês pelo IBGE. Ele resume a inflação num único número, a partir de uma cesta de consumo em que cada item pesa conforme a importância dele no orçamento das famílias.

Esse número é uma média ponderada, e uma média representa o conjunto, não cada uma das partes. A alimentação fora do domicílio, com 600,5%, e o aparelho telefônico, com 51,9% negativos, convivem dentro do mesmo índice, porque o peso de cada um dilui o movimento do outro.

Para acompanhar a trajetória de uma categoria específica, precisamos abrir o índice item a item. É o que fazemos aqui, calculando para cada categoria duas medidas que respondem a perguntas diferentes sobre o mesmo dado.

Inflação acumulada: a alta nominal

A inflação acumulada mede quanto o preço de um item subiu, em reais, desde uma data-base. Ela responde a uma pergunta direta: quanto mais caro está este produto hoje do que em 2000?

No nosso exemplo, a educação acumula 457,1% desde janeiro de 2000. Ou seja, o que custava R$ 100 naquele mês custa cerca de R$ 557 no dado mais recente.

Inflação relativa: a alta descontada a média

A inflação relativa mede a mesma alta depois de descontar a inflação geral. Ela responde se o item ficou mais caro ou mais barato em relação ao conjunto da economia, e é o que os economistas chamam de preço relativo.

A mesma educação, que subiu 457,1% em reais, aparece com apenas 16,6% na medida relativa. Ela encareceu acima da média, mas por uma margem bem menor do que o número nominal sugere, porque o IPCA cheio também subiu muito no período.

As duas medidas podem apontar em direções opostas para o mesmo item. Um produto sobe de preço em reais e fica mais barato na prática quando todo o resto sobe mais rápido que ele.

Os eletrodomésticos são o caso mais nítido: acumulam 166,2% de alta em reais e, ao mesmo tempo, 44,3% de queda na medida relativa. A geladeira custa mais reais hoje do que em 2000, mas consome uma fatia bem menor de um orçamento que acompanhou a inflação geral.

Como foi feito, passo a passo

O caminho tem quatro etapas, todas em Python. O IPCA por item está disponível de graça na API do IBGE, de modo que nenhuma delas depende de dado pago ou de cadastro.

📥

1. Coletar
Baixar a variação mensal de cada item do IPCA na API do SIDRA (IBGE), unindo quatro tabelas que cobrem 2000 até hoje.

🔗

2. Encadear
Transformar as variações mensais em um índice de preços, compondo os fatores mês a mês, com base 100 em janeiro de 2000.

3. Calcular
Derivar a inflação acumulada e a relativa, dividindo o índice de cada item pelo índice do IPCA geral.

📊

4. Visualizar
Plotar as duas séries por item e comparar a trajetória de cada categoria com a do índice cheio.

A etapa de coleta tem uma dificuldade específica. O IBGE revisa a cesta do IPCA a cada nova Pesquisa de Orçamentos Familiares, e cada revisão abre uma tabela nova no SIDRA. Os itens ficam então distribuídos por quatro tabelas, cada uma cobrindo um intervalo de anos.

Para montar a série desde 2000, precisamos baixar as quatro e emendá-las na ordem certa. Quem consulta apenas a tabela mais recente obtém uma série que começa na última revisão, e não em 2000.

A consulta em si é feita por API, o mesmo mecanismo que usamos para acessar quase toda base pública brasileira. Explicamos o funcionamento desse tipo de requisição em O que são APIs e como utilizá-las no Python?.

Os resultados

Com os índices prontos, a tabela reúne as duas medidas lado a lado, ordenadas pela inflação acumulada. Ler as duas colunas na mesma linha mostra quanto o item subiu em reais e quanto ele subiu em relação ao resto da economia.

Item do IPCA Inflação acumulada (%) Relativa ao IPCA (%)
Alimentação fora do domicílio +600,5 +46,5
Serviços de saúde +578,6 +42,0
Alimentação no domicílio +514,9 +28,6
Educação +457,1 +16,6
Combustíveis (veículos) +454,5 +16,0
Habitação +413,5 +7,4
Vestuário +320,7 −12,0
Móveis e utensílios +278,8 −20,8
Eletrodomésticos e equipamentos +166,2 −44,3
Automóvel novo +82,0 −61,9
TV, som e informática −41,2 −87,7
Aparelho telefônico −51,9 −89,9

Mudança de preços por item do IPCA desde jan/2000, no mês mais recente. Fonte: IBGE/SIDRA.

O automóvel novo ilustra bem a diferença entre as duas colunas. Ele acumula 82,0% de alta em reais, e mesmo assim aparece com 61,9% negativos na medida relativa. Ou seja, ficou quase dois terços mais barato em relação ao conjunto da economia, apesar de ter quase dobrado de preço.

A tabela também separa dois blocos com nitidez. Acima do zero na coluna relativa estão alimentação, saúde, educação, combustíveis e habitação, todos serviços ou itens de consumo corrente. Abaixo dele estão vestuário, móveis, eletrodomésticos, automóvel e eletrônicos, todos bens.

A última posição em que a coluna relativa ainda é positiva é a habitação, com 7,4%. A primeira negativa é o vestuário, com 12,0% abaixo da média.

Gráfico da inflação relativa ao IPCA por item desde 2000: serviços acima da média e tecnologia muito abaixo, calculado no Python
Inflação relativa ao IPCA por item desde 2000. Fonte: IBGE/SIDRA.

No gráfico da inflação relativa, a linha do zero marca o desempenho do IPCA cheio. Uma série acima dela subiu mais que a média da economia no período; uma série abaixo subiu menos, ou caiu.

O aparelho telefônico termina o período com 89,9% negativos. Medido em unidades da cesta média, ele custa hoje cerca de um décimo do que custava em 2000.

As ferramentas por trás

Logo do Python
Python — a linguagem que reúne coleta, cálculo e gráfico num só fluxo.
Logo do IBGE
IBGE / SIDRA — a fonte pública e gratuita do IPCA por item, acessada por API.
🐼
pandas + plotnine — o pandas trata e encadeia os índices; o plotnine desenha as séries com a gramática de gráficos do ggplot2 em Python.

O que o resultado revela

  • Os serviços encareceram acima da média. Alimentação fora do domicílio e saúde são atividades intensivas em mão de obra, em que o ganho de produtividade tende a ser mais lento que na indústria. O custo do trabalho pesa mais no preço final, e o preço acompanha os salários.
  • Os bens de tecnologia ficaram mais baratos. O aparelho telefônico e a informática caíram de preço em reais e recuaram perto de 90% em termos relativos. O ganho de produtividade na produção de eletrônicos e a integração das cadeias globais reduziram o custo de fabricação ao longo do período.
  • O custo de vida depende da cesta de cada família. Como os itens se moveram em direções opostas, a inflação sentida tende a variar conforme o peso de serviços e de bens duráveis no orçamento de cada domicílio, ainda que o IPCA cheio seja o mesmo para todos. Medimos essa diferença por estrato de renda em Analisando a inflação por faixa de renda no Python.

Considerações finais

Com dados públicos do IBGE e algumas dezenas de linhas de código, reconstruímos um quarto de século de história de preços da economia brasileira, item a item.

O Python reúne as quatro etapas num só ambiente: a coleta na API do IBGE, o encadeamento dos índices, o cálculo das duas medidas e a visualização. Refazer a análise quando sai o IPCA do mês seguinte custa uma nova execução do mesmo código.

Esse caminho de coletar, tratar, calcular e visualizar se repete em boa parte dos problemas de análise econômica. O que muda de um caso para outro é a aplicação:

  • Economista: decompor a inflação por grupo, nível de renda ou região para entender a dinâmica de preços por trás do índice cheio.
  • Analista de investimentos: ligar preços relativos a teses setoriais, identificando onde o poder de repasse de preços protege margens.
  • Gestor e profissional de finanças: construir índices de custo próprios, aderentes à cesta real da empresa ou do cliente, em vez de usar só o IPCA cheio.
  • Pesquisador e jornalista de dados: transformar a base do IBGE em gráficos e histórias verificáveis, com método reproduzível.

O procedimento não muda de uma profissão para outra: escolhemos a série adequada à pergunta, tratamos o dado com um método explícito e verificamos se a conclusão se sustenta quando trocamos o recorte ou o período.

Aprenda a construir a análise completa

O AM Black é a assinatura anual com acesso a todas as formações da Análise Macro: coleta, tratamento e modelagem dos principais indicadores do Brasil no Python, pelo mesmo caminho percorrido aqui.

Conheça o AM Black →

Leia também:

Compartilhe esse artigo

Facebook
Twitter
LinkedIn
WhatsApp
Telegram
Email
Print
Análise Macro © 2011 / 2026

comercial@analisemacro.com.br – Rua Visconde de Pirajá, 414, Sala 718
Ipanema, Rio de Janeiro – RJ – CEP: 22410-002

como podemos ajudar?

Preencha os seus dados abaixo e fale conosco no WhatsApp