Estimando a NAIRU Implícita no Python: hiato e desemprego

Este artigo apresenta um exercício prático de macroeconomia aplicada utilizando Python para investigar a relação entre o nível de atividade econômica e o mercado de trabalho no Brasil. O estudo detalha o processo de coleta automatizada do Hiato do Produto do Banco Central e a construção de uma série histórica longa de desemprego (unificando PME e PNAD Contínua). Através de técnicas de ajuste sazonal (X-13ARIMA-SEATS) e modelagem econométrica, estima-se a NAIRU (Taxa de Desemprego Não Aceleradora da Inflação) implícita da economia brasileira em 9,46%, confirmando a forte correlação negativa prevista pela Lei de Okun.
Gráfico de dispersão mostrando a relação negativa entre hiato do produto (eixo y) e taxa de desocupação (eixo x).

A NAIRU implícita do Brasil está em torno de 9,4%: é a taxa de desemprego que coincide com um hiato do produto nulo, ou seja, a economia operando no seu potencial. Neste tutorial você vê como chegar a esse número no Python, relacionando o hiato do produto do Banco Central com a taxa de desemprego do IBGE.

A NAIRU (Non-Accelerating Inflation Rate of Unemployment) é a taxa de desemprego de equilíbrio, compatível com inflação estável. Abaixo dela a economia aquece e a inflação tende a subir; acima dela sobra ociosidade. Estimá-la é caro em teoria e simples na prática quando se tem os dados certos e uma linguagem que junta coleta, tratamento e modelagem num só lugar.

Gráfico de dispersão da NAIRU implícita no Python: hiato do produto contra taxa de desemprego, com reta cruzando o zero em 9,44%
Cada ponto é um trimestre desde 2003. A reta cruza o hiato zero perto de 9,4% de desemprego, a NAIRU implícita. Fontes: BCB e IBGE.

A inclinação negativa é clara: quanto maior o desemprego, mais negativo o hiato. O ponto onde a reta cruza o zero é a NAIRU. O tutorial a seguir mostra cada etapa para reproduzir esse gráfico.

Quer reproduzir este gráfico?

O script completo em Python (coleta o hiato do BCB, retropola PME e PNAD, dessazonaliza no X-13ARIMA-SEATS e estima a NAIRU) vai para os assinantes do Boletim AM. Assine, é gratuito, e receba o código pronto para rodar no e-mail.

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O que é a NAIRU e por que estimá-la pelo hiato

A NAIRU é a taxa de desemprego que não pressiona a inflação nem para cima nem para baixo. Quando o desemprego cai muito abaixo dela, faltam trabalhadores, os salários sobem e a inflação acelera. É um parâmetro central para o Banco Central calibrar os juros.

O caminho clássico para estimá-la parte da Curva de Phillips, que liga desemprego e inflação. Aqui usamos uma rota alternativa: relacionamos o desemprego ao hiato do produto, a distância percentual entre o PIB efetivo e o PIB potencial. Quando o hiato é zero, a economia está no equilíbrio, e o desemprego correspondente é a NAIRU implícita.

A vantagem é prática. O hiato do produto já é publicado pelo Banco Central e já vem sem efeito sazonal, o que dá uma referência de ciclo pronta para usar. O trabalho fica em preparar bem o lado do desemprego e casar as duas séries.

Como o exercício foi feito, etapa por etapa

O método é um pipeline de dados com quatro etapas. Cada uma resolve um problema concreto antes de a regressão entrar em cena.

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1. Coletar o hiato
Lê a série do hiato do produto direto da planilha do Relatório de Inflação do BCB.

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2. Unir o desemprego
Junta PME e PNAD Contínua por retropolação numa série longa desde 2002.

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3. Dessazonalizar
Remove a sazonalidade do desemprego com o X-13ARIMA-SEATS.

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4. Estimar
Regride o hiato no desemprego e extrai a NAIRU impondo hiato zero.

1. O hiato do produto vem pronto do Banco Central

O hiato do produto mede o quanto o PIB efetivo está acima ou abaixo do potencial. Negativo indica ociosidade; positivo indica superaquecimento. O Banco Central publica sua estimativa no Relatório de Inflação, numa planilha do Excel. Em vez de baixar à mão, o código lê a planilha direto da URL e fica com a coluna do cenário de referência.

Série do hiato do produto no Brasil de 2003 a 2026, estimado pelo Banco Central, com o choque de -6% na pandemia de 2020
Hiato do produto no Brasil, 2003 a 2026. Fonte: BCB.

A série resume o ciclo brasileiro recente: a crise de 2009, o boom de 2013-2014, a recessão de 2015-2016, o mergulho da pandemia e a volta ao território positivo desde 2022, ainda acima de zero em 2026.

2. Duas pesquisas de emprego viram uma série só

A PNAD Contínua, a pesquisa de desemprego atual, começa apenas em 2012. É curto demais para capturar ciclos inteiros. Antes dela existia a PME, que vai de 2002 a 2016. As duas medem desemprego com metodologias diferentes, então não dá para simplesmente emendar uma na outra.

A saída é a retropolação: usa-se o período em que as duas coexistiram, de 2012 a 2016, para estimar uma relação estatística entre elas. Com essa relação, o código prevê qual teria sido a PNAD nos anos anteriores a 2012, criando uma série harmonizada desde 2002.

3. O ajuste sazonal alinha as duas séries

O hiato já vem dessazonalizado. Para comparar com ele, o desemprego também precisa estar, senão o padrão sazonal de um cria correlação falsa com o outro. O ajuste sazonal remove as flutuações que se repetem todo ano, como contratações de fim de ano, e revela a tendência de fundo.

A ferramenta é o X-13ARIMA-SEATS, o programa oficial do US Census Bureau e padrão para essa tarefa. Ele é um executável externo que o Python chama por baixo dos panos. No exercício, o passo de baixá-lo tem uma versão para o Google Colab (Linux) e outra para Windows, porque o binário muda conforme o sistema.

Série longa da taxa de desemprego do Brasil de 2002 a 2026, retropolada pela PME e dessazonalizada, com pico de 15% na pandemia e queda para 5,5%
Taxa de desemprego retropolada e dessazonalizada, 2002 a 2026. Fonte: IBGE (PME e PNAD Contínua).

A série longa mostra a queda dos anos 2000, a piora na recessão de 2015-2016, o pico de quase 15% na pandemia e o recuo desde 2022 até mínimas próximas de 5,5%.

4. A regressão entrega a NAIRU

Com hiato e desemprego na mesma frequência trimestral, o exercício estima uma regressão linear do hiato sobre o desemprego. A NAIRU implícita é a taxa de desemprego que zera o hiato: basta impor hiato igual a zero e isolar o desemprego na equação estimada.

Os resultados da regressão

A tabela traz os coeficientes estimados. O intercepto e o coeficiente do desemprego são o que definem a NAIRU.

Termo Coeficiente Erro padrão Estatística t p-valor
Intercepto (α) 4,7093 0,288 16,38 0,000
Desemprego (β) −0,4987 0,028 −17,54 0,000

Regressão do hiato do produto no desemprego. R² = 0,53; 272 observações trimestrais. Fontes: BCB e IBGE.

O coeficiente do desemprego é −0,50 e é estatisticamente significativo: cada ponto percentual a mais de desemprego está associado a um hiato cerca de 0,5 ponto menor. O R² de 0,53 indica que o desemprego explica mais da metade da variação do ciclo no período. Impondo hiato zero, a NAIRU implícita fica em 9,44%.

As ferramentas por trás

Logo do Python
Python — a linguagem que reúne coleta, tratamento, ajuste sazonal e regressão num só ambiente.
Logo do Banco Central do Brasil
Banco Central — fonte do hiato do produto, lido direto da planilha do Relatório de Inflação, e da PNAD via SGS.
Logo do IBGE
IBGE — origem das duas pesquisas de desemprego, a PME antiga e a PNAD Contínua atual.

O que a NAIRU de 9,4% revela

  • O mercado de trabalho tem rigidez estrutural. Desemprego muito abaixo de 9,4% tende a vir junto de hiato positivo, sinal de economia aquecida.
  • O desemprego atual está bem abaixo da NAIRU. Com a taxa recente perto de 5,5%, o resultado alimenta o debate sobre pleno emprego e pressão de inflação de serviços.
  • O ciclo do produto e o do emprego andam juntos. O desemprego sozinho explica mais da metade da variação do hiato no período.

Considerações finais

Este exercício estima a NAIRU implícita do Brasil em cerca de 9,4% com dados públicos e um punhado de linhas de Python. O valor sugere que o mercado de trabalho tem rigidezes que colocam o equilíbrio bem acima do desemprego observado hoje, um insumo direto para leitura de conjuntura e cenários.

O Python é a ferramenta certa para esse tipo de trabalho porque reúne, num só ambiente, a coleta automática de fontes oficiais, a harmonização de séries com metodologias diferentes, o ajuste sazonal e a modelagem. O mesmo caminho, coletar, tratar, modelar e visualizar, se repete em quase todo problema de macroeconomia aplicada. O que muda é a aplicação por área:

  • Economista de conjuntura: monitora o hiato e a folga do mercado de trabalho para antecipar pressões de inflação.
  • Analista de investimentos: lê o ciclo para calibrar apostas em juros e câmbio conforme a economia aquece ou esfria.
  • Gestor de risco: incorpora a distância entre desemprego e NAIRU em cenários de estresse macroeconômico.
  • Pesquisador e estudante: reproduz um parâmetro estrutural com dados abertos, sem depender de bases proprietárias.

Aprender a linguagem é o que abre a porta para todas essas frentes.

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