Crônicas Urbanas

Carta de amor

By 25 de janeiro de 2011 março 11th, 2011 No Comments

Já faz algum tempo que não nos vemos. Há caminhos na vida que devem ser trilhados solitariamente. Você e eu sabemos bem disso. Tivemos nossas recaídas, aqui e ali, mas no geral viramos completos estranhos um para o outro. Confesso que para mim não foi fácil. Sei que para você também não foi. Caso contrário, não teria me ligado naquela noite.

Faz alguns anos que não nos falamos, ao menos. Não sei precisar quantos, mas foram muitos deles. Ao ouvir sua voz, porém, o frio na barriga foi idêntico aquele que tive na primeira vez que nos encontramos. Lembra como foi? Você, um monte de crianças por perto e eu. Uma festinha, na casa do seu tio. Eu, completamente entediado e aborrecido em ver tantas crianças juntas. Você, por outro lado, exalando o corpo suado dos que estão embebidos por puro extâse.

Confesso uma vez mais que diante do tédio daquela situação o vestido preto que cobria seu corpo foi a única coisa que me chamou a atenção. E cada vez que ele tentava subir, eu dava uma forcinha, de longe, com o pensamento, para que ele conseguisse. É a natureza humana, não fique brava. Mas o que de fato me tirou do tédio foi ter com teus olhos o contato mais íntimo que tive na vida.

Olhos cor de mel, com o perdão do clichê, de um  castanho caramelado, puro e ingênuo. Há todos os tipos de homem, minha musa, mas não me considere o tipo que gosta das atrevidas. No fundo, nenhum homem gosta de ser menos atrevido do que uma mulher. Novamente: vai contra a natureza de nossa espécie. Não fique confortável, é claro: se pudesse, gostaria de ter todos os tipos de mulheres. Mas para que fosse uma mulher diferente ou simplesmente aquela que me prendesse por algum tempo, teria de ser do seu tipo. Teria de ser você.

E assim que para os que acreditam no destino - eu, não incluído - lá estávamos nós, após alguns olhares desconcertados, conversando. A sua caridosa tia, com uma percepção para essas coisas de tirar o chapéu, nos apresentou. Você, um pouco tímida demais. Eu, um pouco atrevido de menos. Conversamos, continuamos trocando olhares, você sorriu algumas vezes, eu tentei prosseguir no bom momento, nos afastamos. Eram quase 40 minutos do segundo tempo: o parabéns estava à nossa espera.

Em uma última tentativa, porém, dessas que se faz só para tirar o nó da garganta, te chamei para dar uma volta na praia. Você refugou, lembrou de um compromisso logo cedo, eu tentei um pouco mais, até que você cedeu. E lá fomos, curtir uma noite de lua cheia, no céu mais lindo desse mundo. Estrelado que estava, mais parecia dia, de tão iluminado que ficava seu sorriso.

Não sou tão nobre como te mostrei naquela noite, confesso de novo. No geral, sou apenas mais um homem tentando ganhar uma garota. Há tantos por ai, não? Mas naquela noite em específico, você me fez ser um homem que poucas vezes fui: completamente fiel ao sentimento que estava passando pelo meu corpo. Um misto de tensão sexual e uma honorável sensação de inteligência. Este, aliás, o afrodisíaco mais mortal que uma mulher deste século pode apresentar.

Nos beijamos, afinal era inevitável. Depois de uma caminhada com aquela lua e aquele monte de estrelas como testemunhas, você achou que tudo estava acabado. Mas eis que paramos em um restaurante bastante aconchegante, com poltronas acolchoadas e uma bela carta de vinhos. O merlot hermano que pedi, porém, não era dos melhores, mas tudo bem, nem eu, nem você conhecíamos tanto assim de vinho naquela época. Tomamos uma garrafa, acompanhada de um fettuccine com molho branco, este sim, divino.

Meros coadjuvantes, porém, para os seus sorrisos. Tão belos, sinceros e, ao mesmo tempo, com um sabor de quero mais. Você queria, é claro que queria. Você sabia, eu sabia, até o pobre do garçom, que nos aturou até tarde da noite, sabia disso. Mas, como em poucas vezes, acabei sendo cavalheiro, coisa que hoje você sabe que não sou tanto assim, e te deixei na porta de casa.

Não antes de, claro, darmos o primeiro beijo. Você, um selinho, sem graça, daqueles que se dá em um amigo distante. Eu, um beijo mais farto, com a sustância dos imigrantes da bota. De fato você gostou, pois até quis repetir. Repetimos, duas, três, quatro vezes. Até que ignorei meu líbido e te dei boa noite. Nos olhamos mais algumas vezes, antes de você bater o portão. Foi ali que reconheci: estava completamente apaixonado por você.

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