Crônicas Urbanas

Duas estórias de incompetência

By 19 de janeiro de 2011 março 11th, 2011 No Comments

Quando o assunto é trabalho, meu conceito sobre meritocracia não possui viés: ou o cidadão é competente ou ele não é. Se sim, o capitalismo esta ai para recompensá-lo, com tudo o que ele merece. Se não, o mesmo capitalismo manda uma mensagem direta: filho, vá arrumar outra coisa para fazer na vida, pois não é ai que você vai demonstrar seu maior talento. Simples, como dois mais dois são quatro.

Sério: ser incompentente em alguma coisa não é o fim do mundo. Muito pelo contrário: se você entender a mensagem, pode ser o início de uma grande virada na sua vida. Cabe, portanto, às empresas cumprirem essa difícil missão capitalista. Para ilustrar, gostaria de contar duas estórias sobre incompetência.

A primeira é ao mesmo tempo engraçada e pretensiosa. Imagine um ser humano que seja até gente boa, mas que no trabalho é um zero à esquerda. Imagine que o campo de trabalho é a área de tecnologia, onde o processo de aprendizado - o tal learning by doing - é uma variável crítica para o progresso da equipe e, portanto, da produtividade do trabalho. Em assim sendo, pense que o nosso ser-humano é um tanto inadequado para trabalhar com esse tipo de coisa.

Para que o leitor entenda melhor, quando o trabalho exige aprendizado contínuo há duas saídas. A primeira, mais difícil, é que você guarde na memória tudo o que já viveu e passe a resolver os próximos problemas com a experiência acumulada. Na segunda, quando a memória não ajuda, você escreve uma espécie de diário contendo todas as situações pelas quais já passou e os caminhos que seguiu. Esta última, além de ser muito boa para você, pode ser inclusive de grande valia para o resto da equipe - na medida, que claro, TODOS da sua equipe atualizam o diário.

Agora, claro, o leitor já entendeu qual das duas saídas o nosso personagem percorreu. Ele optou pela saída mais fácil, digna dos incompetentes: consultar SEMPRE o diário ou a memória dos outros. Com a cara mais lavada desse mundo, ele não sentia VERGONHA de consultar, dia após dia, a memória ou os escritos dos outros colegas.

O nosso amigo foi, claro, rechaçado por seus pares. Quase todos do escritório evitavam ceder os diários ou a memória para ele. E isso ia tornando o trabalho dele cada vez menos produtivo e, portanto, cada vez menos útil à empresa em questão. Com esse cenário, nosso personagem, um engenheiro, poderia tomar dois caminhos: ou tomava VERGONHA na cara e ia estudar o seu trabalho, ou caia fora e ia procurar se especializar em algum talento. Qual deles nosso amigo escolheu?

É aí que entra a outra personagem dessa estória: a empresa, representada pelo chefe igualmente incompetente.  Ocorre que nosso amigo engenheiro era uma espécie de "protegido" do chefe. E daí que quando a coisa apertava para o lado do nosso amigo, quem você acha que o chefe chamava? Sempre tinha um babaca que ganhava menos do que o nosso engenheiro e sabia muito mais do que ele para, prontamente, resolver o problema. Interessante, não? Mais interessante é que o nosso amigo continua trabalhando por lá, fazendo sabe-se lá o quê.

A segunda história é a outra face da moeda. Em outra empresa, em outro setor, completamente diferente da primeira. Uma engenheira é contratada, vinda de outro Estado da federação, bem recomendada e com alto salário. Passado o período de adaptação, são esperados resultados bastante vistosos de nossa amiga.

O início é bastante promissor, diga-se. Nossa amiga tem experiência na área, já fez a mesmíssima coisa em empregos anteriores e, está, portanto, muito bem qualificada para o trabalho. E, claro, está motivada, dada a mudança de ambiente e o plus salarial. Tudo poderia dar certo, não?

As primeiras semanas, entretanto, desfazem o "encanto" inicial. A nossa amiga é do tipo workaholic improdutiva. Chega cedo no escritório, tipo 8 da matina, e é invariavelmente a última a sair, tipo oito da noite. Passando doze horas no trabalho, é esperado que ela esteja comendo a bola, não?

Sabe de uma coisa que EU aprendi em 11 anos de vida profissional? Os caras e as moças que passam mais tempo no escritório são, geralmente, os menos produtivos. Não sei exatamente porquê, mas minha teoria é que esse pessoal faz isso para compensar sua já conhecida incompentência. Ou, claro, são de fato workaholics - e nem todo workaholic é incompetente, believe me! Nossa amiga engenheira era uma forte evidência para a minha teoria: ela ficava muito tempo no escritório para TENTAR dar conta do trabalho que ela recebia.

Quando alguém tentava ajudá-la, ela não conseguia, de verdade, entender de primeira uma linha de raciocínio. Era preciso repetir duas ou três vezes a mesma explicação para que ela conseguisse pegar o fio da meada. Agora o leitor junte os dois pontos: uma pessoa que vem de fora, ganhando bem, com uma suposta grande experiência e demonstra esse tipo de problema, a coisa fica ruim na equipe, não?

Pois é, o roteiro, nesse caso, é em parte idêntico ao do nosso amigo engenheiro. A maior parte do escritório meio que cansou de ajudá-la, passados alguns meses. Ninguém aguenta ficar repetindo duas ou três vezes a mesma coisa para a mesma pessoa, não é mesmo? Infelizmente (ou felizmente) para nossa amiga engenheira, o fim da estória não foi igual ao nosso primeiro personagem. A empresa onde ela trabalhava era severa no quesito meritocracia: ou você é competente, ou você não é. Tão simples quanto isso.

A política de RH era bem simples: se eu estou contratando alguém que possui experiência, está ganhando bem e, portanto, espera-se que esteja motivada, três meses são suficientes para mostrar a que veio. Claro que nesse período não se espera que ela ganhe um campeonato - feche um contrato, acerte o rumo do preço da energia no mercado spot, preveja o crescimento do PIB etc - mas espera-se que, ao menos, faça boas partidas. Dê alguns bons passes, faça alguns gols, corra o campo todo etc. Espera-se, enfim, que ela valha o investimento feito. E, quando isso não acontece, as regras da meritocracia são simples: foi bom enquanto durou, bye bye.

Algumas pessoas podem até achar que seja duro demitir alguém. Mas, sério, entre as duas estórias, qual das empresas você acha que tem o maior faturamento? Qual delas você acha que está no topo da BOVESPA? Qual das duas empresas você, caro leitor, acha que oferece os melhores produtos e, portanto, têm os clientes mais satisfeitos? Qual delas representa melhor o que seja capitalismo? Qual das duas você acha que NÃO depende de uma ajudinha do governo para progredir? Se você falar que é a primeira empresa, sério: você também é incompetente no que faz.

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