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5 frágeis Archives - Análise Macro

Momento exige calma

By | Artigos de Economia

Calma. É preciso ter calma para não ceder à tentação pessimista que está tomando conta de todos. Dos investidores privados ao Federal Reserve. O Brasil, aquele país que apareceu decolando na The Economist, hoje está entre os mais frágeis do mundo. Percepção exagerada, provavelmente, mas que tem sido tomada mais por mal estar com a má condução dos instrumentos de política econômica. No âmbito fiscal, a contabilidade criativa, no âmbito monetário, o excesso de crédito dos bancos públicos, as sucessivas falhas de comunicação do banco central e a ânsia em colocar a taxa de juros real em números mínimos, ignorados os fundamentos. 2014 começou intenso, com perspectivas de menor crescimento, mais inflação e impasse externo. Calma em momentos como esse parece ser mesmo o melhor a recomendar.

A clientes, principalmente. Estão todos eufóricos com o sabor das muitas variáveis macroeconômicas e financeiras. As bolsas de todo o mundo oscilam sem mostrar tendência, refletindo a incerteza, o pessimismo, a descrença. O mercado de divisas, com moedas sofrendo - umas mais, outras menos - os recentes desdobramentos da política monetária norte-americana. O investimento, esse, coitado, definha, frente expectativas deterioradas. O empreendedor, sujeito crédulo no futuro, por princípio, refaz suas contas, rearranja suas planilhas, repensa o que fazer. Enquanto o faz, o investimento não se materializa e a oferta de bens e serviços não se expande. O crescimento recua em tom melancólico, como o ator que interroga o silêncio de uma plateia vazia.

A inflação, doença que nem a moderna teoria macroeconômica conseguiu curar, se espalha pelo organismo econômico brasileiro, refletindo o descompasso contundente entre salários e produtividade. O pleno emprego tupiniquim, fruto de um crescimento vindouro de outros tempos com menor procura por trabalho, alimenta o processo inflacionário. A inflação, sem cura e sem o freio de uma política monetária bem administrada ou de um crescimento da oferta de bens e serviços, assola o país. Está em todos os cantos, em todas as cestas de todos os consumidores.

E à inflação alta e ao baixo crescimento se junta o impasse externo. Os estímulos à demanda, feitos pelo crédito dos bancos públicos, pela política monetária e fiscal frouxas, desmantelam o equilíbrio macroeconômico. A demanda cresce mais que a oferta, gera uma inundação de importados na economia, eleva o déficit em conta corrente. É a resultante macroeconômica de baixa poupança doméstica, seja dos agentes privados, seja dos governos. A poupança baixa solicita poupança externa, financiamento do resto do mundo às nossas demandas do presente. O almoço nunca é de graça, afinal, escolhe-se sempre entre ele e o dinheiro que se dispõe na carteira. Na macroeconomia não é diferente.

E depois de desdizer do ambiente macroeconômico, por que peço calma? A calma, leitor, é uma virtude importante em momentos conturbados como esse. Nem o Brasil é o melhor, nem é o pior lugar do mundo. Temos todas as fragilidades listadas, mas somos um país melhor do que a Turquia, Indonésia, África do Sul e Índia. Não estamos à beira de um colapso dantesco, como a Argentina ou a Venezuela. A calma nos levaria imediatamente para outro patamar. Vejamos por quê.

A calma, por exemplo, é vital para recuperarmos a credibilidade da política monetária. É preciso elevar os juros até o ponto em que eles inibam o crescimento da demanda acima do da oferta. E isso já está ocorrendo. Na margem, o hiato entre varejo e indústria se reduz, evidenciando menor pressão sobre os preços, o que é um indício de que o "ajuste" está em curso.

Também é vital para recuperar a política fiscal, tão prejudicada pela criatividade do governo, pela falta de transparência. Não é difícil, digo, basta vontade. Anunciar e cumprir um nível de superávit primário acima de 2,5%. Sem a recorrência de receitas extraordinárias. Reduzir os aportes aos bancos públicos, notadamente ao BNDES, mas também à Caixa e ao Banco do Brasil.

Azeitada a política econômica, um pouco mais de calma, principalmente nos meses próximos às eleições presidenciais. Lá será preciso cobrar reformas estruturais dos candidatos. Mas não palavras ao vento: é preciso uma agenda positiva, que inclua a reforma política, a tributária, a do judiciário, da desburocratização do ambiente de negócios, do marco regulatório definitivo para a infraestrutura. Calma, leitor, para que o debate dos economistas chegue ao debate político. Todas as reformas importantes para elevar a produtividade da economia, fazer crescer a oferta, em um momento de pleno emprego do fator trabalho. Só assim para a inflação sem cura deixar de se manifestar.

O Brasil não é frágil como quer o Federal Reserve de Janet Yellen. Mas nossa inoperância em não fazer o que é correto em termos conjunturais e estruturais nos deixa no clube privativo de países arredios. E como cobrar coerência dos mercados se nós mesmos não somos coerentes? Nosso passado de absurdos gloriosos, como bem nos disse Renato Russo, dá margem a todo o tipo de dúvida. E como vivemos em tempos anormais, uma simples dúvida é capaz de aflorar o mais crédulo dos investidores. Calma, muita calma, para que a sociedade consiga cobrar de seus prováveis governantes as soluções concretas para todos esses problemas.

 

Janet Yellen, Dilmanópolis e os 5 frágeis

By | Crônicas Econômicas

Janet Yellen, a nova "chairwoman" do Federal Reserve, em substituição a Ben Bernanke, fala ao Congresso norte-americano, em rito para comunicar os rumos da política monetária. Diz que o processo de redução dos estímulos, a compra mensal de, agora, US$ 65 bilhões em títulos públicos e privados, continuará, mesmo com as informações contraditórias vindas do mercado de trabalho. Somente dados consolidados de deterioração do nível de atividade poderiam parar o processo de tapering, a normalização das condições monetárias. Enquanto a economia prosseguir em ritmo de retomada, as compras cederão: mas gradualmente, para não assustar os mercados. E quem estiver sofrendo com isso, diz Janet, a culpa não é nossa, afinal entre os emergentes é preciso diferenciar o joio do trigo. Há os que tem seu rating aumentado pelas agências de risco, caso do México, há os que, do contrário, são considerado frágeis. Até um nome criaram: "Os cinco frágeis". Clube restrito, de entrada privativa aqueles países que fizeram por merecer, alerta Yellen: Índia, Indonésia, África do Sul, Turquia e Dilmanópolis.

Os tempos são mesmo difíceis em Dilmanópolis, o povoado surrealista encravado no Cone Sul, com vizinhos esquizofrênicos, que atacam o "sistema" com unhas e dentes. O povoado de Dilmanópolis, acostumado com os bons tempos do rei anterior, sofre agora as consequências do flerte com a irresponsabilidade fiscal, a perda de poder de compra de sua moeda, o surreal, a disparada da taxa de câmbio, o baixo crescimento da economia e o aumento do déficit em conta corrente. Entre as variáveis mais importantes, os juros sobem, na tentativa de conter a inflação, enquanto o desemprego oscila menos, mascarado pelas políticas públicas que reduzem a procura por emprego. 

Janet Yellen dá de ombro para os problemas de Dilmanópolis, porque tem independência formal em relação ao Congresso de seu país, por que se preocuparia com o Brasil? Ela conhece os efeitos que uma política monetária menos "acomodatícia" tem sobre países frágeis, como Dilmanópolis. Menos estímulos, alta de juros de longo prazo, saída de capital dos "5 Frágeis", volatilidade nos mercados financeiros, aumento dos "prêmios de risco". A Turquia, por exemplo, para conter essa cadeia atômica de causalidade teve de dar um "shutdown" na taxa básica de juros, fazendo-a avançar 425 pontos-base, de uma tacada só. A Índia, com seu banqueiro central vindo das cadeiras do FMI, parece tomar outro caminho, adotando agora o regime de metas para inflação. E Dilmanópolis?

Em termos monetários, o Banco Central do reino de Dilmanópolis vai colhendo os primeiros frutos de sua confusa luta contra a inflação. A despeito de ainda acreditar na neutralidade da política fiscal, a inflação cede, mais pela menor pressão do grupo de alimentos no segundo semestre do ano passado, do que propriamente por melhora nas expectativas. Essas, só agora parecem reagir ao orçamento de 325 pontos-base de aumento na taxa básica de juros. Ou seja, leitor, alívio efetivo sobre a inflação só daqui a alguns trimestres. Por enquanto, continuamos com o índice cheio na casa dos 5,5%, o novo patamar do aumento de preços no reino.

Já o crescimento parece retomar uma trajetória positiva, após o tombo visto no terceiro trimestre. A produção industrial contará esse ano, uma vez mais, com o aumento na venda de veículos, o que deve aliviar a pressão do passado recente. Mas nada muito robusto. Com crescimento da população em torno de 1% e da produtividade em 1,5%, tudo indica que o potencial de crescimento da economia desponta mesmo ao redor de 2,5%. Qualquer coisa acima disso gera desequilíbrios, seja em mais inflação, seja em aumento do déficit em conta corrente (mais importações que exportações).

O quadro é tenso mesmo no âmbito fiscal. Se crescimento baixo e a inflação alta nos fez flertar com os 5 frágeis, a contabilidade criativa de Dilmanópolis nos colocou em relacionamento firme. Os repasses para o BNDES e a manutenção de reservas internacionais (para nos defender dos raivosos investidores estrangeiros) impõem custos não desprezíveis ao endividamento público. Sobre o bruto, que fique claro! Sobre o líquido, variações cambiais positivas (desvalorização) são boas notícias: elas reduzem a dívida líquida. Sem transparência sobre o real número do superávit primário, contando todos os anos com as receitas extraordinárias, os agentes passam a se perguntar sobre a sustentabilidade da dívida pública. E não só se perguntam: passam a pedir mais para financiar os programas do governo, via taxas de juros mais elevadas. Hoje, a taxa de juros implícita bate nos 20%.

Crescimento baixo, déficit em conta corrente alto, inflação batendo o limite da meta e irresponsabilidade fiscal, entretanto, não parecem ser motivos suficientes para tirar o sono de Mantega, o economista-chefe de Dilmanópolis. E é provável que rebata o discurso de Janet Yellen, culpando sim o tapering por nossas fragilidades, negando a realidade que cerca o reino. Talvez, Mantega, inclusive, possa até jogar nos ombros de Yellen as manifestações de junho, os atrasos nas obras para a Copa, os atrasos do PAC e todo o nervosismo do mercado para com o reino. Boa ideia, hein, Mantega!

Dilmanopólis terá sua chance de reagir, por fim, no plebiscito desse ano. Poderá escolher entre permanecer no regime monárquico ou retomar o republicano, abandonado no início da década passada. Pode escolher outro rumo, que não seja culpar terceiros por nossos problemas. Dilmanópolis pode deixar o clube privativo dos "5 frágeis" e buscar outro caminho, com aumento de produtividade, vindo da aprovação de uma agenda de reformas. Dilmanópolis tem a chance de se reiventar: basta que seu povoado esteja afim.

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