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aumento da inflação Archives - Análise Macro

Pandemia causou aumento da inércia inflacionária no Brasil

By | Comentário de Conjuntura

Ao longo dos últimos meses, temos comentado por diversas vezes aqui nesse espaço sobre o comportamento da inflação. A pandemia deixou sequelas relevantes nesse assunto, com mudança abrupta no comportamento da maioria dos preços. Mostramos, como é visto no nosso Curso de Análise de Conjuntura usando o R, as diversas aberturas da inflação, bem como o comportamento dos núcleos e da difusão, que caracterizam o aumento persistente e generalizado de preços, a própria definição do processo inflacionário.

Outro aspecto importante da inflação, que analisamos em nosso Curso de Previsão e Modelos Macroeconômicos em Bancos Centrais, é o comportamento da inércia inflacionária. Esse, inclusive, foi um dos temas que chamaram atenção do Comitê de Política Monetária (Copom), em sua última reunião.

Inércia ou simplesmente persistência não é exclusividade do processo inflacionário. Em uma leitura econométrica, pode-se dizer que a maior parte das variáveis macroeconômicas possui algum grau de persistência, ilustrado por uma autorregressividade positiva. Em outras palavras, se uma variável macroeconômica qualquer puder ser descrita por um processo autorregressivo de ordem um, como em

(1)   \begin{align*} y_t = \alpha y_{t-1} + \varepsilon_t  \end{align*}

onde \alpha > 0, então diz-se que a variável em questão apresenta algum grau de persistência. E o grau aqui é de suma importância. Isso porque, como sabemos do estudo de séries temporais, se \alpha estiver no intervalo aberto entre 0 e 1, o processo autorregressivo é dito estacionário. Nesse caso, mesmo que haja um grau elevado de persistência (isto é, \alpha está mais próximo de 1), \emph{choques de oferta} gerarão efeito, mas se dissiparão ao longo do tempo. Contudo, se \alpha for maior ou igual a 1, a série passa a não ser mais estacionária, o que implica em desvio permanente na ocorrência de um determinado choque sobre a variável em questão.

A diferença entre um estado e outro, no caso do processo inflacionário, é o que define uma situação controlada ou de estabilidade monetária e outra, de hiperinflação; como a vivida pelo Brasil na década de 80 do século passado ou nos tempos atuais pela Venezuela.

Isso dito, parece razoável supor que o coeficiente \alpha em 1 nos dará o grau de persistência, para qualquer variável macroeconômica ou de inércia, no caso específico da inflação.

De fato, é possível verificar isso na prática ao estimar 1 por meio de rolling regressions e ir guardando os resultados do coeficiente autorregressivo. O gráfico a seguir ilustra.

O gráfico ilustra o comportamento do componente autorregressivo ao longo do tempo, bem como o intervalo de confiança. Observa-se que, de fato, na margem houve um aumento do coeficiente, que está correlacionado com o avanço da pandemia.

É possível, ainda, adicionar controles à equação, de modo a investigar melhor o comportamento do componente autorregressivo ao longo do tempo. O gráfico a seguir ilustra.

O aumento da inércia na margem se mantém, mesmo com a adição de controles. De fato, o que temos visto é uma sucessão de evidências que vai de encontro a ideia de que a inflação está pressionada no país. Na última leitura divulgada pelo IBGE essa semana, mesmo a inflação de julho, sazonalmente menor, veio acima das previsões, o que levou a inflação em 12 meses para próximo de 9%.

Como se pode ver pelo gráfico acima, não apenas a inflação cheia está acima do intervalo superior da meta, como a média dos 7 núcleos também se encontra em patamar elevado. Todos os núcleos, diga-se, encontram-se pressionados, como é possível verificar abaixo.

A inflação pegou no breu. Não por outro motivo, o Banco Central elevou a taxa básica de juros em 100 pontos-base na última reunião e se comprometeu a ir além do juro neutro no atual ciclo de contração monetária.

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(**) O Comentário de Conjuntura passa a ser publicado a partir dessa semana às quintas-feiras.

Difusão da inflação e a fala do ministro Guido Mantega

By | Inflação

difusãoO ministro da fazenda, Guido Mantega, deu a seguinte declaração, em resposta às indagações de jornalistas sobre o aumento da taxa básica de juros feito pelo Copom: “É preciso evitar que essa inflação contamine outros produtos que não mostram pressões inflacionárias" (grifo nosso). Eu gostaria de sentar com o ministro em um entardecer desses no Lago Sul, em Brasília, e perguntar algo do tipo "mas então, Guidão, o que você quis dizer com esse negócio essa inflação contamine outros produtos?". Como, infelizmente, eu provavelmente não terei essa oportunidade, só me resta cumprir minha missão aqui na Terra e mostrar ao nobre leitor o gráfico ao lado de difusão da inflação. É uma métrica simples: ela mede a razão entre quantos bens ou serviços sofreram aumento na passagem de um mês para outro em relação ao total de bens e serviços que integram o IPCA, expresso em percentagem. Como é perceptível, não se trata de alguns poucos produtos - como o "essa inflação" dá a entender - pressionando o índice, mas de alastramento do processo inflacionário. Nessa mesma tarde, diante dos dados, eu gostaria de ver a face do ministro: será que ele ruborizaria, leitor? Eu honestamente acho que não... 🙁

 

Banco Central acalma os "inflacionistas", aumentando Selic em 25 pontos-base.

By | Política Monetária

Nós gritamos, leitor, e não é que deu certo? Após um amontoado de artigos, entrevistas e discussões sobre o fato de a inflação estar em ascenção no Brasil, o Banco Central resolveu aumentar a taxa básica de juros, a Selic, em 25 pontos-base. Desse modo, após uma "parada técnica" que durou três reuniões, ele muda o curso da política monetária, que estava sendo dado pela inflexão da fatídica reunião de 31 de agosto de 2011. Hoje, é mais claro que o processo de redução da Selic de 12,5% para 7,25% não engendrou - como queria a equipe econômica - os estímulos anticíclicos que se esperava, muito em função do elevado endividamento das famílias.

No comunicado divulgado após a reunião, a autoridade monetária resumiu assim a justificativa do aumento:

"O Copom decidiu elevar a taxa Selic para 7,50% a.a., sem viés, por seis votos a favor e dois votos pela manutenção da taxa Selic em 7,25% a.a. O Comitê avalia que o nível elevado da inflação e a dispersão de aumentos de preços, entre outros fatores, contribuem para que a inflação mostre resistência e ensejam uma resposta da política monetária. Por outro lado, o Copom pondera que incertezas internas e, principalmente, externas cercam o cenário prospectivo para a inflação e recomendam que a política monetária seja administrada com cautela".

Você pode achar que isso seja uma vitória dos "inflacionistas", adjetivo pejorativo cunhado pelo terno de brilhantes economistas que auxilia a nossa Dama de Ferro - Delfim Neto, Belluzzo e Nakano. Mas, não se trata disso. Se, de fato, o governo estivesse preocupado com a inflação, esse aumento já teria vindo há mais tempo. Isto porque, como sabem os economistas que leram alguma coisa sobre a "ciência monetária" nos últimos 20 anos, a atuação da política monetária se dá de forma prospectiva. Em outros termos, ela deve antecipar movimentos dos agentes econômicos, de forma a balizá-los na trajetória que a convém - nesse caso para o centro da meta de inflação.

Comportamento completamente distinto, portanto, é um movimento reativo, isto é, quando a política monetária passa a reagir a pressões inflacionárias ao invés de se antecipar a elas. Ao tomar esse tipo de postura, o Banco Central não apenas compromete a convergência da inflação efetiva para a meta, como de quebra também perde credibilidade perante os agentes econômicos.

Você pode achar que isso é coisa de gente que não olha a realidade, dado que o PIB de 2012 cresceu míseros 0,9% em relação ao ano anterior. Se você pensa assim, você deveria verificar os dados do mercado de trabalho, que ensejam uma distensão entre produtividade e crescimento da massa salarial. Mas, se mesmo assim você ficar reticente, acredito que a difusão do aumento de preços - na casa dos 70% - lhe faça perceber que a inflação é algo que não se administra: se combate.

Para fechar, eu honestamente não acho que esse aumento indique uma maior preocupação com o processo inflacionário. Como faço crer no título do artigo, me parece que tal mudança foi apenas para acalmar os "inflacionistas". Isso me é mais nítido quando eu lembro que na semana passada o trio ternura abaixo foi visitar a nossa Dama de Ferro...

conselheiros

 

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