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O caso Yoani, o PT e a oposição.

By | Reformas Econômicas

O caso Yoani me deixou estarrecido, leitor. Não nutro, infelizmente, mais a inocência de alguns anos, quando acreditava que a liberdade de expressão estava intacta em nosso país. Mas os protestos contra a blogueira cubana foram um pouco além da conta. Corrijo-me: foram absurdamente despropositados. Quer dizer, então, que uma pessoa não pode mais se expressar sem que a patrulha esteja em seus calcanhares? Quer dizer, então, que um assessor do Palácio do Planalto recebeu um dossiê contra a jornalista? Yoani Sánchez, leitor, é o meu limite: estou farto do PT.

Há cerca de dois anos escrevi um texto, titulado “Relatos de um Oposicionista Desiludido” (disponível aqui), no qual expunha os motivos pelos quais deixei de escrever sobre política – e mesmo sobre economia – durante alguns meses. A ilusão do crescimento econômico brasileiro no período 2003-2007 proporcionou ao Partido dos Trabalhadores um imenso capital político. E isso é simbolizado pelos índices de popularidade da atual presidente. Mesmo a despeito de escândalos, de acordos suspeitos, alianças descabidas, soberba e uso indevido da máquina administrativa. Tudo suportado pela maior parte da sociedade brasileira, graças à redução na taxa de desemprego e o consequente aumento da massa salarial.

Voltei a escrever a partir daquele texto, mas completamente focado no meu campo profissional: a macroeconomia. Desisti da política desde então. Só a sublinho em meus artigos, quando trato da importância fundamental de se implementarem as reformas estruturais que o PT esqueceu. Amarrei-me às correntes, tentando resistir ao título de economista-militante, tecendo apenas comentários técnicos sobre os desafios do desenvolvimento brasileiro. Mas o caso Yoani parece ser meu limite, como deveria ser também de todos aqueles que defendem a liberdade, qualquer tipo de liberdade.

Yoani Sánchez, leitor, é uma simples blogueira. Seu crime: criticar um sistema de governo. Ela não critica o PT, diga-se: ela critica o governo de seu país, Cuba. Por que diabos, então, foi recebida no Brasil com tanta revolta? Por que, diabos, leitor, tantas vozes tentaram lhe calar? O que incomoda tanto essa gente que lá foi tentar interrompê-la?

Honestamente, não estou nem ai para isso. Peço desculpas a Yoani por esses patetas, mas não perco um segundo do meu tempo tentando entender o que se passa na cabeça de quem grita “Cuba sim, ianques não”. Minha revolta, afinal, está toda direcionada para o PT: por que um assessor do Palácio do Planalto, Sr. Ricardo Poppi, recebeu um suposto dossiê contra a blogueira cubana? Por que uma pessoa íntima da Presidência da República está envolvida na difamação de uma simples jornalista?

A resposta, leitor, é que o PT tem sérios problemas com a democracia, com a liberdade e com o Estado de Direito. Ele, infelizmente, não está sozinho. Há uma série de exemplos, brasileiros e estrangeiros, de partidos que se acham acima das leis. Para esse tipo de instituição os fins acabam justificando os meios. Logo, atropelar direitos e liberdades torna-se um passo necessário para que um dito fim iluminado possa ser alcançado. O PT está disposto a pagar por esses preços. Eu, não.

Em particular, o PT aceita um pouco mais de inflação em troca de mais crescimento. Os economistas-militantes ligados ao PT acham que isso é possível. O PT acha normal gerar um superávit primário artificial, porque afinal responsabilidade fiscal é coisa de neoliberal entreguista. O PT acha normal ser contra privatização durante vinte anos, mas quando a taxa de desemprego ameaça seu projeto de poder, resolve que é tempo de conceder à iniciativa privada, de forma racional, mas não entreguista. Porque, afinal, o PT é o povo e o povo é o PT.

O PT, leitor, é prepotente. Ele não aprendeu nada com o mensalão. Comemora dez anos no poder acreditando, enquanto instituição, que mudou o Brasil. O PT acha que sem ele, nós hoje seriamos um país muito pior. Muito mais desigual, com muito menos crescimento econômico e, logo, mais desemprego. O PT, realmente, tem sérios problemas.

O caso Yoani foi meu limite, leitor. Assumo minha condição de macroeconomista-militante, como talvez sejam todos os macroeconomistas – mesmo os que não querem sê-lo. Assumo que faço oposição ao Partido dos Trabalhadores. O faço tanto em termos econômicos quanto filosóficos. Como economista, observo que o projeto (novo) desenvolvimentista do PT é um retrocesso, dado o dirigismo inconsequente de um capitalismo de Estado fora de moda. Como social-liberal, repito que o PT representa uma séria ofensa à democracia, às liberdades e ao Estado de Direito.

Penso, enfim, que a oposição ao PT precisa se fortalecer. Não a oposição partidária, essa é apenas a última fase do processo. Ressalto a oposição de ideias. O PT e seus militantes acham que os fins justificam os meios – sejam lá quais forem esses fins. A oposição ao PT acha que o custo, em termos de perda de liberdade, ofensa ao Estado de Direito e à democracia, não compensa. É essa oposição, esse tipo de pensamento, que precisa mostrar-se, em todas as suas dimensões. Somente quando essas pessoas começarem a se expressar é que a oposição irá se fortalecer. Não antes disso.

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