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consumo Archives - Análise Macro

A fada da confiança e a incerteza

By | Comentário de Conjuntura

Um dos aspectos mais trágicos da atual conjuntura é a lenta recuperação da economia. O hiato do produto, a diferença entre o PIB efetivo e o PIB potencial, segue em terreno bastante negativo e a taxa de desemprego segue elevada. A pergunta que fica é, portanto, quando voltaremos a crescer? Para respondê-la, precisamos seguir alguns passos. Antes de tudo, é preciso que a incerteza, causada sobretudo pelo ambiente político, ceda. Uma vez que a incerteza diminua, os agentes aumentarão a confiança no futuro e voltarão a consumir e investir.

Para ilustrar, mostramos aqui a correlação negativa entre incerteza e confiança do consumidor. Para isso, pegamos os dados da FGV, que podem ser lidos com o pacote readr.


library(readr)

data = read_csv2('confianca.csv',
col_types =
list(col_date(format='%d/%m/%Y'),
col_double(),
col_double(),
col_double(),
col_double(),
col_double(),
col_double()))

data = data[complete.cases(data),]

Uma vez lidos os dados, podemos gerar um gráfico com o pacote ggplot2 como abaixo.


library(ggplot2)
library(gridExtra)
library(scales)

g1 = ggplot(data, aes(Data, icc_exp_sa))+
geom_line()+
scale_x_date(breaks = date_breaks("2 year"),
labels = date_format("%Y"))+
theme(axis.text.x=element_text(angle=45, hjust=1))+
labs(x='', y='Índice',
title='Índice de Confiança do Consumidor')

g2 = ggplot(data, aes(Data, iie))+
geom_line()+
scale_x_date(breaks = date_breaks("2 year"),
labels = date_format("%Y"))+
theme(axis.text.x=element_text(angle=45, hjust=1))+
labs(x='', y='Índice',
title='Incerteza')

g3 = ggplot(data, aes(iie, icc_exp_sa))+
geom_point(colour='black', size=2)+
geom_smooth(method='lm', se=FALSE, colour='red',
linetype='dashed')+
labs(x='Incerteza', y='Confiança Consumidor',
title='Incerteza vs. Confiança do Consumidor',
caption='Fonte: analisemacro.com.br')

grid.arrange(g1, g2, g3, ncol=2, nrow=2,
layout_matrix= rbind(c(1,2), c(3,3)))

E o gráfico...

A correlação entre o ICC (Índice de Confiança do Consumidor) e o IIE (Índice de Incerteza Econômica) é de -0,57 para a amostra de dados disponível. Para entender melhor aqueles passos, precisamos agora construir um modelo colocando incerteza, confiança e consumo, para que possamos entender essa cadeia de causalidade.

Não me parece correto, entretanto, criticar o nó confiança => consumo, sem se atentar para o efeito da incerteza sobre a confiança do consumidor e dos empresários...

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O arquivo confianca.csv está disponível no repositório do Blog.

O problema da baixa poupança

By | Indicação de Leitura Econômica

Falar em poupança no Brasil é quase como cometer algum tipo de "crime intelectual". A panacéia é que basta que o Investimento cresça e que a Poupança aumentará ex-post. Daí que o importante é incentivar a demanda e que tudo estará resolvido. É sério, leitor: tem muita gente que acredita nesse tipo de raciocínio simples e pretensamente keynesiano. Mas há, é claro, o outro lado: o pessoal que pensa nos determinantes da oferta. Entre estes, uma boa carta do IBRE aqui e um bom post do Mansueto aqui. Acho que passou da hora de alguém em Brasília verificar que é preciso cuidar de outras coisas que não apenas de instrumentos fiscais, monetários e cambiais para incentivar a indústria - essa locomotiva tão potente para o crescimento sustentável! 🙂

Consumo, Investimento e Crescimento econômico

By | PIB

Nos últimos trinta trimestres o Consumo das Famílias só teve dois períodos de crescimento negativo na margem (contra o trimestre imediatamente anterior). A média de crescimento nesse tipo de comparação foi de 1,3% - o que anualizado chega a 5,3%. No último trimestre de 2010 esse número anualizado vem para provar a força desse componente da demanda: 10,4%. Os principais fatores que explicam tal crescimento são principalmente o aumento da massa salarial e do crédito. Além disso, não se pode deixar de citar o aumento real do salário mínimo e os programas de transferência de renda do governo, que possuem alta propensão ao consumo.

 

Clique na figura para ampliar

 

No gráfico acima é possível verificar a contribuição dos componentes da demanda (FBKF, Consumo Final, Exportações e Importações) para o crescimento do PIB no período que vai de 2003 até 2010. Vale ressaltar que o componente Consumo agrega tanto o das Famílias, quanto o da Administração Pública. É nítido no gráfico que esse componente tem garantido o crescimento do PIB no ciclo que tem início no terceiro trimestre de 2003. Uma diferença interessante desse para os demais ciclos do Plano Real é que a Formação Bruta de Capital Fixo (os investimentos) reagiu ao aumento contínuo do Consumo, contribuindo de um lado para o próprio crescimento da demanda, quanto para a expansão da capacidade produtiva.

Os que acompanham a Conjuntura ao longo do Plano Real sabem que a expansão dos investimentos é uma das variáveis-chaves para entender a sustentabilidade do crescimento econômico. Isto porque, em todos os ciclos anteriores, ou esse crescimento foi abortado por um choque externo, ou pela escalada do processo inflacionário. Em ambos os casos o remédio amargo utilizado é a política monetária.

Um choque externo provoca fuga de capitais, o que desvaloriza a taxa de câmbio e provoca problemas de financiamento do balanço de pagamentos. Já a escalada da inflação é provocada sobremaneira pela maior ocupação da capacidade instalada, dado o crescimento dos componentes da demanda (notadamente o Consumo). No primeiro caso o Banco Central é obrigado a subir os juros para evitar a fuga de capitais e, portanto, os problemas de financiamento do balanço de pagamentos - assim como evitar uma maior desvalorização do câmbio, algo nefasto para os índices de preços domésticos. Já no segundo caso, a autoridade monetária busca adequar o crescimento da economia aquilo que nós chamamos como crescimento potencial, ou seja, tudo o que é possível crescer sem gerar inflação. Se esta se manifesta é porque o potencial está perto de ser atingido.

No ciclo atual os investimentos cresceram, tanto na margem quanto no acumulado em 12 meses, o que garantiu não apenas sustentabilidade ao crescimento, como abortou maiores necessidades de subida de juros. Além disso, o cenário internacional foi extremamente favorável, possibilitando ao país o acúmulo de reservas internacionais, o que gera maior proteção nos momentos de choques externos - os agentes sabem que o poder de reação do Banco Central é maior com US$ 300 bilhões em caixa do que com US$ 30 bilhões.

Nesse contexto, a grande questão no final de 2009 e início de 2010 era se os investimentos continuariam crescendo, aumentando a taxa de investimento em relação ao PIB e, portanto, aumentando o crescimento potencial da nossa economia. O que se vê hoje, março de 2011, é que os investimentos perderam fôlego ao longo do ano passado, tendo um crescimento na margem menor. Isso pode ser explicado pelos gargalos da economia brasileira - problemas de infra-estrutura, burocracia, dificuldade de acesso à crédito etc. Para que o crescimento seja sustentado não basta, portanto, que o governo gere incentivos ao consumo, mas que possibilite um aumento persistente da taxa de investimento.

Assim sendo, é falso o dilema entre incentivos de demanda e de oferta. É preciso sim que o Consumo das Famílias seja incentivado, mas é peremptório que os investimentos sejam facilitados. É muito simples nesse momento culpar o Banco Central por estar subindo os juros. O que não se vê, entretanto, é o clamor pelas reformas que poderiam facilitar o caminho dos investimentos.

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