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Economia

Um país frustrante

By | Comentário de Conjuntura

Há uma séria frustração com a economia brasileira. E não estou me referindo propriamente ao resultado do PIB do 2º trimestre divulgado ontem pelo IBGE. Desde o 2º trimestre de 2014, os resultados apresentados pela economia brasileira têm sido pífios. Para ser bondoso. O gráfico abaixo ilustra o comportamento da variação marginal do PIB, isto é, quando se confronta o PIB em t contra o PIB em t-1. Das 29 observações dessa métrica desde então, 14 delas foram negativas.

Nos últimos trimestres, como também é possível verificar no gráfico acima, o PIB vem lentamente convergindo para uma variação na margem estagnada, após alguma recuperação cíclica do pior momento da pandemia no ano passado. Para além do curtíssimo prazo, o que se vê é um PIB que converge para a mediocridade.

Não há, por suposto, sinais de melhora no ar. A conjuntura de curto prazo está repleta de fumaça, com um ambiente político carregado, risco fiscal ampliado, choques inflacionários importantes que levam a aumento de juros e, ainda, um risco de racionamento de energia rodeando o cenário.

Frustrante.

Mas quem disse que não pode piorar? Quando se olha para 2022, o quadro político-eleitoral se desenha com um pessimismo atroz. Resquícios de crueldade do autor da novela.

Pensando bem, não sei se existe um autor de novela tão criativo para escrever algo como o enredo da política brasileira.

Diga você, leitor.

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(*) A análise completa do PIB é ensinada no nosso Curso de Análise de Conjuntura usando o R.

Relatório AM #15 - Crédito

By | Indicadores

No Relatório AM dessa semana, vamos comentar sobre o setor de crédito. Como podemos ver nos gráficos abaixo, as concessões de crédito nos últimos anos contam a história recente da economia brasileira através da confiança que os credores têm no estado geral da economia, no caso das concessões livres. Essa medida, que de modo geral está em escala muito maior que o crédito direcionado, sofreu forte impacto com a crise de 2016, porém já estava em plena recuperação no começo de 2020. Com a incerteza causada pela pandemia, há um duro choque nas concessões, porém os dados indicam novamente a recuperação. Por outro lado, o crédito direcionado, que esteve em seu auge até 2015, não se recuperou da crise de 2016, aumentando apenas durante a pandemia, com a concessão de crédito sendo utilizada como um combate à recessão.

Outro efeito da crise de 2016 que pode ser observado é o recuo da participação do crédito privado no crédito total. Isso pode ser considerado indicativo de que, com o estouro da crise, os credores estavam sendo mais cautelosos frente à incerteza da economia, o que é corroborado pela diminuição do estoque de crédito entre seu pico em 2016 e 2019.

Para finalizar, visualizamos abaixo a pesquisa trimestral de condições de crédito. É interessante notar que os movimentos não são perfeitamente sincronizados com a tendência generalizada, com a oferta de crédito habitacional e para grandes empresas sendo desfavorecida logo no começo de 2015, enquanto que o crédito para consumo e para pequenas empresas (MPMEs) demorou a se retrair. Com a pandemia, todos os 4 tipos tiveram redução nas condições de oferta, e, apesar das últimas pesquisas apresentarem melhora, o patamar do final de 2019 não foi recuperado.

Deterioração do debate fiscal e seus efeitos sobre as expectativas dos agentes

By | Comentário de Conjuntura

O debate fiscal se deteriorou nas últimas semanas. A discussão sobre precatórios, bem como a andamento da reforma tributária têm estragado o humor dos agentes de mercado. Esse recrudescimento do ambiente doméstico tem efeitos diretos sobre as expectativas dos agentes. Em particular, houve uma empenada na Curva de Juros.

A Estrutura a Termo da Taxa de Juros (ETTJ), como pode ser visto no gráfico acima, retrata esse comportamento dos agentes. A ETTJ é um dos principais canais de transmissão da política monetária (como aprendemos em nosso Curso de Análise de Conjuntura usando o R).

De certa forma, essa empenada na Curva amplifica o movimento de alta do juro real, empreendido pelo Banco Central a partir das últimas decisões do Comitê de Política Monetária. Como mostra o gráfico acima, o juro real está se aproximando do juro neutro, cujos efeitos se dão, primeiro, sobre o hiato do produto e, posteriormente, sobre a inflação (veja nosso Curso de Macroeconometria usando o R). 

Uma externalidade (ruim) do recrudescimento do ambiente político é o seu efeito sobre as expectativas. A tabela abaixo, construída de forma automatizada com o R a partir do boletim Focus, ilustra (como aprendemos em nosso Curso de Análise de Conjuntura usando o R).

A expectativa para a inflação segue em crescimento, tanto para 2021 quanto para 2022, horizonte agora mais relevante para a política monetária.

Há, também, um início de correção do crescimento do PIB em 2021. O mercado passa, cada vez mais, a corrigir o seu otimismo com o dado do primeiro trimestre e esboça mais pessimismo com a deterioração do debate fiscal.

Dada essa conjuntura, espera-se que o Banco Central siga aumentando a taxa básica de juros, tentando ancorar as expectativas de inflação para o ano que vem.

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(*) Os códigos desse Comentário de Conjuntura fazem parte do Monitor de Política Monetária, desenvolvimento dentro do Curso de Análise de Conjuntura usando o R, onde os alunos aprendem também a desenvolver dashboards em shiny como esse aqui.

(**) Membros do Clube AM têm acesso aos códigos desse e de todos os outros Comentários de Conjuntura, além de acessar também nossos demais exercícios.

Relatório AM #14 - Política fiscal

By | Indicadores

No Relatório AM de hoje, vamos comentar a situação da política fiscal nos últimos meses. A análise é feita com os dados disponibilizados pelo STN, porém a última atualização ocorreu em maio desse ano, então há certa defasagem nos valores apresentados. Inicialmente, vamos apresentar os resultados acumulados em 12 meses para maio desse ano, e do ano passado:

Como podemos ver, as receitas do governo parecem ter um crescimento estável, porém as políticas necessárias para o combate da pandemia e manutenção do bem-estar da população aumentaram fortemente as despesas, abrindo o déficit nominal. É interessante notar que essa trajetória negativa vai na contramão da tendência pré-pandemia, que era de melhora do resultado nominal, em face da crise de 2016:

Ademais, podemos ver que a composição dos gastos foi diferente durante a pandemia, correspondendo ao caráter emergencial das medidas tomadas. Com isso, era esperado que o resultado fiscal fosse melhor após o aumento do estoque de pessoas vacinadas.

Há, porém, uma grande dúvida aberta em torno da agenda fiscal que tem sido tocada pelo Congresso. Em particular, temas antigos como o dos precatórios voltaram à pauta, bem como há diversos questionamentos em relação à reforma tributária.

Todos esses questionamentos se refletem no aumento do risco-país nas últimas semanas, como pode ser visto no gráfico abaixo.

Pandemia causou aumento da inércia inflacionária no Brasil

By | Comentário de Conjuntura

Ao longo dos últimos meses, temos comentado por diversas vezes aqui nesse espaço sobre o comportamento da inflação. A pandemia deixou sequelas relevantes nesse assunto, com mudança abrupta no comportamento da maioria dos preços. Mostramos, como é visto no nosso Curso de Análise de Conjuntura usando o R, as diversas aberturas da inflação, bem como o comportamento dos núcleos e da difusão, que caracterizam o aumento persistente e generalizado de preços, a própria definição do processo inflacionário.

Outro aspecto importante da inflação, que analisamos em nosso Curso de Previsão e Modelos Macroeconômicos em Bancos Centrais, é o comportamento da inércia inflacionária. Esse, inclusive, foi um dos temas que chamaram atenção do Comitê de Política Monetária (Copom), em sua última reunião.

Inércia ou simplesmente persistência não é exclusividade do processo inflacionário. Em uma leitura econométrica, pode-se dizer que a maior parte das variáveis macroeconômicas possui algum grau de persistência, ilustrado por uma autorregressividade positiva. Em outras palavras, se uma variável macroeconômica qualquer puder ser descrita por um processo autorregressivo de ordem um, como em

(1)   \begin{align*} y_t = \alpha y_{t-1} + \varepsilon_t  \end{align*}

onde \alpha > 0, então diz-se que a variável em questão apresenta algum grau de persistência. E o grau aqui é de suma importância. Isso porque, como sabemos do estudo de séries temporais, se \alpha estiver no intervalo aberto entre 0 e 1, o processo autorregressivo é dito estacionário. Nesse caso, mesmo que haja um grau elevado de persistência (isto é, \alpha está mais próximo de 1), \emph{choques de oferta} gerarão efeito, mas se dissiparão ao longo do tempo. Contudo, se \alpha for maior ou igual a 1, a série passa a não ser mais estacionária, o que implica em desvio permanente na ocorrência de um determinado choque sobre a variável em questão.

A diferença entre um estado e outro, no caso do processo inflacionário, é o que define uma situação controlada ou de estabilidade monetária e outra, de hiperinflação; como a vivida pelo Brasil na década de 80 do século passado ou nos tempos atuais pela Venezuela.

Isso dito, parece razoável supor que o coeficiente \alpha em 1 nos dará o grau de persistência, para qualquer variável macroeconômica ou de inércia, no caso específico da inflação.

De fato, é possível verificar isso na prática ao estimar 1 por meio de rolling regressions e ir guardando os resultados do coeficiente autorregressivo. O gráfico a seguir ilustra.

O gráfico ilustra o comportamento do componente autorregressivo ao longo do tempo, bem como o intervalo de confiança. Observa-se que, de fato, na margem houve um aumento do coeficiente, que está correlacionado com o avanço da pandemia.

É possível, ainda, adicionar controles à equação, de modo a investigar melhor o comportamento do componente autorregressivo ao longo do tempo. O gráfico a seguir ilustra.

O aumento da inércia na margem se mantém, mesmo com a adição de controles. De fato, o que temos visto é uma sucessão de evidências que vai de encontro a ideia de que a inflação está pressionada no país. Na última leitura divulgada pelo IBGE essa semana, mesmo a inflação de julho, sazonalmente menor, veio acima das previsões, o que levou a inflação em 12 meses para próximo de 9%.

Como se pode ver pelo gráfico acima, não apenas a inflação cheia está acima do intervalo superior da meta, como a média dos 7 núcleos também se encontra em patamar elevado. Todos os núcleos, diga-se, encontram-se pressionados, como é possível verificar abaixo.

A inflação pegou no breu. Não por outro motivo, o Banco Central elevou a taxa básica de juros em 100 pontos-base na última reunião e se comprometeu a ir além do juro neutro no atual ciclo de contração monetária.

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(*) Membros do Clube AM têm acesso aos códigos desse Comentário. Veja como ser assinante aqui.

(**) O Comentário de Conjuntura passa a ser publicado a partir dessa semana às quintas-feiras.

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