Artigos de EconomiaEconomia HeterodoxaEnsino de Economia

Sobre Porcos, Cordeiros e Notas de Repúdio

By 29 de dezembro de 2015 No Comments

Na noite do dia 25 de dezembro, tomei conhecimento por meio do blog do Mansueto Almeida, que um grupo de economistas e não economistas havia redigido uma nota de repúdio ao texto "O Porco e o Cordeiro" de autoria de Alexandre Schwartsman. Reclama a nota, "Nós, abaixo assinados, vimos a público protestar veementemente contra a vileza de Alexandre Schwartsman ('O Porco e o Cordeiro', Folha de S. Paulo, 16/12/2015), que atinge de forma acintosa a professora Leda Paulani e o economista Luiz Gonzaga Belluzzo, com quem o colunista mantém divergências públicas no campo das ideias, aludidos covarde e indiretamente como 'Leitoa' e 'Porco'".  Nesse pequeno post, crio também minha nota de repúdio. Aos pais (ocultos que estão) de mais um experimento heterodoxo implementado no país: a Nova Matriz Econômica.

Ao leitor, cabe informar o que foi a Nova Matriz. Os leitores particulares desse blog, claro, já sabem. Mas ao grupo mais geral, vai ai a definição do ex-ministro da fazenda, Guido Mantega:

"O governo Dilma Rousseff elegeu como um dos seus principais desafios dar um salto de competitividade na economia brasileira, sem abrir mão de se manter na rota da inclusão social e da redução da desigualdade trilhada nos anos precedentes. Nesse sentido, colocava-se como absolutamente estratégico remover, ou pelo menos minimizar, a distorção que havia nos dois principais preços do país: juros e câmbio". ('O primeiro ano da nova matriz econômica', 19/12/2012, jornal Valor Econômico).

Entre outras coisas, portanto, estava dado o recado: o governo Dilma Rousseff interveio (se ainda restava dúvidas naqueles idos de 2012) no Banco Central, forçando uma queda da taxa básica de juros, e no mercado de câmbio, tornando a taxa R$/US$ mais desvalorizada do que deveria ser. Tudo isso para quê, leitor? Juros mais baixos reduziriam o custo de capital para a indústria, bem como incentivaria o consumo das famílias, enquanto o câmbio mais desvalorizado tornaria os produtos brasileiros mais competitivos no exterior. Ok?

Juros altos e câmbio valorizado são os reclames de 9 em cada 10 economistas heterodoxos. Desde o início do plano Real, em julho de 1994. A crise de 2008 era, nesse contexto, a desculpa perfeita para interferir nesses dois preços da economia - não ficou só neles, como bem sabe o leitor, vide o ocaso da energia elétrica. E assim o fizeram: reduziram o juro real para menos de 2% a.a. em 2012 e interviram fortemente no mercado de câmbio, gerando uma taxa mais depreciada do que seria usual. Resultados?

Era preciso combinar com os russos, diria alguém. Ou, no caso específico, com a inflação. Juros mais baixos e câmbio mais desvalorizado não fizeram a economia crescer mais, pelo contrário o crescimento se reduz desde o final de 2010. E a inflação só fez aumentar desde então. Mas dados, afinal, não são mesmo o forte dessa turma, não é mesmo?

grafico

Fonte: elaboração própria com dados do Banco Central.

Paralelo à redução forçada dos dos juros e à desvalorização do câmbio, o governo usou de mecanismos não monetários para (tentar) controlar a inflação. Em outras palavras, congelou o preço da gasolinareduziu o preço da energia elétrica, além de interferir em outros preços administrados. O respaldo acadêmico disso está na tal teoria pós-keynesiana e no diagnóstico de que a inflação brasileira não seria de demanda, mas de custos, logo não se deve utilizar a política monetária para controlá-la.

Em outras palavras, leitor, o governo usou teorias heterodoxas, disponíveis por aí, para construir a Nova Matriz Econômica. Os novos-desenvolvimentistas, liderados pelo economista Bresser Pereira, estão roucos de supor que uma taxa de câmbio mais depreciada seria necessária para criar o desenvolvimento econômico. Os pós-keynesianos, como dito acima, cansam de repetir que não se deve usar a política monetária para controlar a inflação brasileira. E agora, que tudo deu errado (poderia dar certo?), onde estão os pais da Nova Matriz?

________________________________

(*) Marcos Lisboa e Carlos Eduardo Gonçalves publicaram artigo interessante sobre o assunto, titulado "A Crise e os Porcos" aqui.

(**) Minha experiência com a heterodoxia, aqui.

Receba diretamente em seu e-mail gratuitamente nossas promoções especiais
e conteúdos exclusivos sobre Análise de Dados!

Assinar Gratuitamente