Para fazer uma análise de dados de crédito no Python, você coleta as séries oficiais do Banco Central (concessões, taxa de juros, spread e inadimplência) e monta, em poucas linhas, um painel do mercado de crédito brasileiro. Este guia mostra como, do dado bruto ao gráfico.
O crédito é um dos termômetros mais sensíveis da economia: reage rápido quando a atividade aquece e quando o Banco Central mexe nos juros. Abaixo você vê o retrato que vamos construir, com dados reais até 2026, e o caminho para reproduzi-lo.

As concessões saíram de cerca de R$ 200 bilhões/mês em 2011 para perto de R$ 700 bilhões em 2026. Mas cuidado: esse gráfico é nominal, e parte da alta é só inflação. O tutorial mostra como separar o crescimento do crédito do efeito dos preços.
Quer reproduzir este painel?
O script completo em Python (coleta das séries do Banco Central, deflacionamento pelo IPCA e todos os gráficos) vai para os assinantes do Boletim AM. Assine, é gratuito, e receba no seu e-mail o código pronto para rodar.
O que é análise de dados de crédito
Analisar o mercado de crédito é acompanhar quanto se empresta, para quem, de que tipo e a que custo. Cada uma dessas dimensões tem uma série pública no Banco Central, e juntas elas descrevem o momento do consumo e do investimento.
A fonte de tudo é o SGS, o Sistema Gerenciador de Séries Temporais do Banco Central. É um banco de dados aberto com milhares de séries econômicas, cada uma com um código numérico. No Python, a biblioteca python-bcb busca essas séries direto, sem download manual.
Como o pipeline foi montado
O trabalho segue quatro etapas, sempre dentro do Python. Nenhuma delas exige planilha ou copiar e colar dado: tudo vem por API e vira gráfico no mesmo script.
Concessões: quem toma e de que tipo
A primeira quebra é por tomador. O crédito a pessoa física (famílias) e a pessoa jurídica (empresas) andava junto até por volta de 2019. A partir de 2020, a pessoa física descola e passa a liderar as novas concessões.

A segunda quebra é por tipo de recurso. No crédito livre, banco e cliente negociam a taxa (cartão, capital de giro, cheque especial). No crédito direcionado, a destinação e o custo seguem regra ou programa público (imobiliário, rural, BNDES). O livre domina e cresce mais rápido; o direcionado é menor e mais estável.

Por que deflacionar muda a história
Deflacionar é remover o efeito da inflação de uma série em reais, para comparar o poder de compra entre datas diferentes. Sem isso, uma alta nas concessões pode ser só o real valendo menos, e não mais crédito concedido.
A conta usa o índice do IPCA: divide-se o índice da data mais recente pelo índice de cada mês, e o resultado multiplica o valor nominal. O efeito é grande. Em termos reais, o crédito recuou de 2011 até 2016-2017, o auge da recessão, e só depois retomou, algo que a série nominal esconde.

O próximo passo: dessazonalizar
Deflacionar corrige a inflação, mas não o calendário. Séries mensais de crédito repetem um padrão todo ano (dezembro forte, começo do ano fraco), e esse efeito sazonal atrapalha comparar um mês com o anterior. Para análise de conjuntura mês a mês, a etapa seguinte é o ajuste sazonal (por métodos como o X-13ARIMA-SEATS, o mesmo do IBGE e do Banco Central), que separa a série em tendência, sazonalidade e ruído. Aqui trabalhamos com as séries brutas; o ajuste sazonal fica como o passo natural para quem for adiante.
Juros, spread e inadimplência
Volume é metade da história; a outra metade é o preço e o risco do crédito. O spread bancário é a diferença entre a taxa que o banco cobra e o seu custo de captação, a margem da operação. A inadimplência é a fatia da carteira em atraso relevante, o sinal de estresse.
Os três reagem ao ciclo e à política monetária. Juros e spread sobem quando o Banco Central aperta e quando o risco cresce; a inadimplência responde com defasagem, subindo depois que o crédito encarece e a atividade esfria.

O retrato do crédito hoje
Os últimos valores das séries, para maio de 2026, resumem o estado do mercado de crédito brasileiro:
| Indicador | Valor (mai/2026) | O que mede |
|---|---|---|
| Concessões totais | R$ 694,2 bi/mês | Fluxo de crédito novo no mês |
| Concessões a pessoa física | R$ 373,6 bi/mês | Novo crédito a famílias |
| Concessões a pessoa jurídica | R$ 320,6 bi/mês | Novo crédito a empresas |
| Crédito livre | R$ 620,9 bi/mês | Taxas negociadas no mercado |
| Crédito direcionado | R$ 73,2 bi/mês | Programas e regras públicas |
| Taxa média de juros | 33,4% a.a. | Custo médio do crédito |
| Spread bancário | 22,1 p.p. | Margem sobre o custo de captação |
| Inadimplência | 4,7% da carteira | Atrasos relevantes na carteira |
Indicadores do mercado de crédito, maio de 2026. Fonte: BCB/SGS.
As ferramentas por trás

O que o painel revela
- A pessoa física lidera. Desde 2020 as famílias tomam mais crédito novo que as empresas, uma mudança estrutural na composição.
- Nominal engana. Em termos reais, o crédito caiu na recessão de 2015-2016; a alta contínua só aparece na série sem deflacionar.
- Custo e risco em alta. Juros (33% a.a.), spread e inadimplência voltaram a subir no fim da série, coerente com o aperto monetário.
Vá além: outras séries para explorar
O SGS tem milhares de séries, e o crédito é muito maior do que as oito deste guia. Com o mesmo caminho (achar o código no SGS e coletar), fica o desafio de expandir a análise por conta própria. Algumas frentes para explorar:
- Crédito por modalidade da PF: cartão, cheque especial, consignado, veículos, cada um com sua taxa e inadimplência.
- Endividamento e comprometimento de renda das famílias: quanto da renda mensal vai para pagar dívidas.
- Saldo da carteira de crédito: o estoque total em aberto, e sua relação com o PIB.
- Juros e inadimplência separados por PF, PJ ou modalidade: o risco não é igual em todo lugar.
Considerações finais
Este exercício mostra o que o Python entrega para quem acompanha a economia: reproduzir, com dados públicos e poucas linhas, um painel de crédito antes restrito a áreas de pesquisa de banco. O dado sai da fonte oficial e vira gráfico no mesmo lugar.
A vantagem da linguagem é reunir tudo num fluxo só: coleta por API, tratamento com pandas, deflacionamento e visualização. Quando o Banco Central atualiza a série, basta rodar o script de novo e o painel se atualiza.
O alcance vai além do crédito. O mesmo caminho (coletar, tratar, deflacionar e visualizar) se repete em quase todo problema de conjuntura. O que muda é a aplicação:
- Economista: monta o painel de crédito do relatório de conjuntura em minutos, sempre atualizado.
- Analista de risco / crédito: acompanha inadimplência e spread do sistema como referência de mercado.
- Gestor / investidor: lê o ciclo de crédito para antecipar o momento do consumo e da atividade.
- Jornalista / pesquisador: checa e visualiza dados oficiais do Banco Central sem depender de terceiros.
Aprender a coletar e tratar esses dados é o que abre a porta para todas essas frentes.
Você viu o resultado; aprenda a construir o pipeline
O mesmo pipeline de crédito, câmbio, inflação e atividade que você viu aqui é o que se aprende na Formação em Análise Macroeconômica, toda em Python. Quem quer acesso a todas as formações tem o AM Black, a assinatura anual.
Conheça a Formação em Análise Macroeconômica →Ver o AM Black →
Leia também: