Relatório de Inflação informa: inflação não converge nem em 2016!

tabela61O Banco Central costuma informar nas atas do Comite de Política Monetária (Copom) a direção das suas projeções para a inflação no curto prazo. Esse dado é colocado na seção "avaliação prospectiva das tendências de inflação". Na última reunião, por exemplo, o comitê disse que " O cenário de referência leva em conta as hipóteses de manutenção da taxa de câmbio em R$2,40/US$ e da taxa Selic em 10,50% ao ano (a.a.) em todo o horizonte relevante. Nesse cenário, a projeção para a inflação de 2014 se manteve relativamente estável, comparativamente ao valor considerado na última reunião, e permanece acima da meta de 4,5% fixada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN)". Destaque para a parte sublinhada do comunicado: "permanece acima da meta de 4,5%". Nos relatórios de inflação do banco, divulgados trimestralmente, são detalhadas essas projeções na tabela 6.1, que considera o cenário de referência ilustrado acima. Ela foi colocada acima, para que possamos discutir um pouco a situação da inflação nos próximos trimestres.

Como pode-se observar, a última coluna representa o centro das projeções. Na última linha está o primeiro trimestre de 2016: e a inflação medida pelo IPCA é de 5,4%. O intervalo de confiança é de 4,3% a 6,4%. Em outras palavras, significa dizer que, dada Selic em 10,75% e câmbio em 2,35%, o Banco Central projeta que a inflação deve ficar em 5,4% no primeiro trimestre de 2016, não convergindo, portanto, para a meta de 4,5%. Ele  detalha, dessa forma, a informação prestada nas atas do Copom, quando diz que as projeções indicam que a inflação permanece acima da meta. Ela está cerca de um ponto percentual acima dos 4,5% no horizonte considerado.

Acredito que seja uma informação importante por ao menos um motivo. No relatório de inflação de dezembro, o IPCA ficaria em 5,4% no último trimestre de 2015. A cada nova edição do relatório, a projeção "anda" um trimestre. Nesse caso, se o esforço de elevação de juros estivesse tendo o efeito esperado sobre a economia, a projeção da inflação no primeiro trimestre de 2016 deveria ser menor do que a do último trimestre do relatório anterior. Infelizmente, entretanto, a projeção permanece no mesmo patamar.

Ocorre que o custo de desinflacionar a economia se elevou, dada a condução equivocada da política monetária nos últimos anos. Significa dizer, nesse aspecto, que para fazer a inflação convergir no horizonte relevante exigem-se aumentos adicionais de juros. Isso porque os canais de transmissão da política monetária estão truncados, com destaque para as expectativas. Essas permanecem em nível bastante elevado, não sentindo até aqui os efeitos do aumento da Selic - pelo contrário, como escrevi aqui.

É uma comunicação importante porque se o banco central identifica não convergência da inflação, ele está sinalizando para o mercado que deve continuar elevando juros. Em outros termos, ratifica-se que a Selic deve mesmo passar dos 11% nas próximas reuniões. Difícil dizer, entretanto, onde irá parar. Pelas minhas contas, o intervalo de juros está entre 11% e 14,5%, para fazer a inflação convergir para o centro da meta. Ressalta-se que só agora, com Selic em 10,75%, estamos na região de "juro neutro", isto é, com juros reais próximos à taxa que não pressiona a inflação. Qualquer esforço contracionista, nesse aspecto, acabou de começar. A acompanhar, portanto, o comprometimento da autoridade monetária com a queda da inflação: objetivo que temos duvidado nos últimos anos.

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