Ciclo Econômico: Economia no Curto Prazo

O ciclo econômico é o que explica a economia no curto prazo, e a brasileira passou por seis recessões desde 1996 — a mais recente com apenas dois trimestres. Explicamos as quatro fases do ciclo, como o CODACE data as recessões no Brasil (e por que a regra dos dois trimestres de queda do PIB não é o critério), e o que o hiato do produto mede sobre a distância entre o que a economia produz e o que poderia produzir.


A economia brasileira passou por seis recessões desde 1996, e a mais recente durou apenas dois trimestres. Saber em que ponto do ciclo a economia está muda decisões de investimento, contratação e política econômica, e é por isso que existe um comitê dedicado a datar esses períodos.

Duas perguntas organizam essa leitura. Em que fase a economia está agora, e quão distante ela se encontra do que conseguiria produzir. A primeira se responde com a datação do ciclo; a segunda, com o hiato do produto.

O que são ciclos econômicos

A definição clássica vem de Burns e Mitchell, em 1946: o ciclo econômico é uma flutuação recorrente da atividade agregada, em que uma expansão espalhada por muitos setores dá lugar a uma recessão, seguida de recuperação, que por sua vez se consolida na expansão do ciclo seguinte.

O ciclo é recorrente, porque a sequência de fases se repete. E é não periódica, porque o intervalo entre uma repetição e a seguinte não tem regularidade: os próprios autores registram ciclos que variam de pouco mais de um ano a dez ou doze anos.

No Brasil, essa irregularidade aparece nos próprios números: a recessão mais curta da série durou dois trimestres, e a mais longa, onze.

Curva mostrando as quatro fases do ciclo econômico, com pico, recessão, vale e recuperação em torno de uma tendência de longo prazo
As quatro fases e os dois pontos de virada. Elaboração: Análise Macro.

O pico é o ponto em que a expansão termina e a atividade começa a cair. O vale é o fundo, onde a recessão acaba e a recuperação começa. Entre esses dois pontos de virada ficam as quatro fases.

  • Expansão: a atividade cresce de forma disseminada pelos setores.
  • Recessão: a partir do pico, a atividade recua de maneira persistente e generalizada.
  • Recuperação: depois do vale, a atividade volta a crescer, mas ainda abaixo do nível anterior ao pico.
  • Novo ciclo: quando o nível do pico anterior é superado, a recuperação se consolida em nova expansão.

A linha tracejada do gráfico representa a tendência de longo prazo, em torno da qual a atividade oscila. Essa tendência é o produto potencial, o nível de produção que a economia sustenta com os fatores de que dispõe. A atividade oscila em torno dele, e medir essa distância é o assunto da segunda metade deste texto.

Recessão não é o que o noticiário costuma dizer

A regra dos "dois trimestres seguidos de queda do PIB" circula como definição de recessão, mas não é o critério dos comitês que fazem a datação oficial. Eles avaliam três dimensões: profundidade da queda, duração e difusão entre os setores.

Uma queda concentrada num único setor, ainda que forte, não caracteriza recessão, porque falta difusão. E uma contração breve mas profunda e disseminada pode ser datada como recessão mesmo sem completar dois trimestres negativos.

Quem data as recessões no Brasil

No Brasil, essa tarefa cabe ao CODACE, o Comitê de Datação de Ciclos Econômicos, criado em 2004 e abrigado no Ibre/FGV, que divulgou sua primeira cronologia em 2009. Suas decisões são independentes, e o método segue o do NBER americano, cujo comitê existe desde 1978.

O comitê trabalha com defasagem proposital. A datação exige confirmação de que a virada foi persistente, e revisões dos dados podem mudar o quadro. O vale da recessão de 2020, por exemplo, só foi anunciado em 31 de janeiro de 2023, dois anos e meio depois de ter ocorrido.

PIB trimestral brasileiro desde 1996 com as seis recessões datadas pelo CODACE destacadas em faixas vermelhas
As recessões brasileiras sobre a série do PIB. Dados: IBGE/SIDRA e CODACE/FGV. Elaboração: Análise Macro.

As recessões brasileiras são muito diferentes entre si em duração e profundidade, o que a leitura mês a mês do noticiário não deixa ver.

Recessão Duração Queda do PIB Contexto
1998 T1 a 1999 T1 5 trimestres -1,3% Crise cambial e pressão sobre o câmbio fixo
2001 T2 a 2001 T4 3 trimestres -1,3% Crise energética e desaceleração global
2003 T1 a 2003 T2 2 trimestres -1,3% Aperto monetário e incerteza na transição de governo
2008 T4 a 2009 T1 2 trimestres -5,2% Crise financeira internacional
2014 T2 a 2016 T4 11 trimestres -8,1% A mais longa da série
2020 T1 a 2020 T2 2 trimestres -11,0% A mais curta e a mais profunda: a pandemia

Cronologia oficial do CODACE de 1996 em diante, com a queda acumulada do PIB de pico a vale. Fontes: FGV/IBRE e IBGE/SIDRA. Elaboração: Análise Macro.

A coluna da direita mede a queda acumulada do PIB entre o trimestre do pico e o do vale. Uma recessão pode ser longa e rasa, ou curta e profunda, e é por isso que duração e queda acumulada aparecem em colunas separadas. As duas linhas destacadas são os extremos de cada uma delas.

A recessão de 2014 a 2016 foi a mais longa, com onze trimestres, e derrubou o PIB em 8,1%. A de 2020 durou dois trimestres, a mais curta da série, e ainda assim tirou 11,0% da atividade: é a queda quase vertical do gráfico.

Ou seja, a recessão mais profunda foi também a mais breve. A de 2020 derrubou a atividade em poucos meses e a devolveu rápido; a de 2014 a 2016 reduziu o nível de atividade aos poucos, e o PIB levou anos para retomar o pico anterior.

As recessões de 1998, 2001 e 2003 tiveram quedas próximas de 1,3%, apesar de durações diferentes. Nelas o PIB quase não recua, apenas para de crescer, e é por isso que a datação não se apoia só na variação do PIB.

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Do ciclo ao hiato do produto

A datação diz em que fase a economia está, mas não quanto ela deixa de produzir. Para isso, decompomos o PIB em duas partes: uma tendência e um componente cíclico.

A tendência é o produto potencial, o nível que a economia conseguiria sustentar com os fatores de que dispõe sem pressionar os preços. Ele reflete condições estruturais: população em idade ativa, estoque de capital, escolaridade, qualidade das instituições.

O componente cíclico é o hiato do produto, a distância entre o PIB efetivo e esse potencial. Ele reflete condições conjunturais: choques de demanda e oferta, política econômica, clima, incerteza.

Como ler o sinal do hiato

  • Hiato positivo: o PIB efetivo supera o potencial. A economia opera acima da capacidade, e a pressão sobre os preços tende a subir.
  • Hiato negativo: o PIB efetivo fica abaixo do potencial. Há capacidade ociosa, e a pressão inflacionária cede.
  • Hiato zero: a economia opera no potencial. É o equilíbrio de referência, raramente observado na prática.

Se os preços fossem totalmente flexíveis, o ajuste seria instantâneo e o hiato seria sempre zero. É justamente a rigidez de preços e salários que faz a economia levar tempo para voltar ao equilíbrio, e é dessa demora que o ciclo se alimenta.

Dois painéis: PIB efetivo oscilando em torno do PIB potencial, e o hiato do produto resultante em percentual
PIB efetivo, potencial e o hiato, de 1993 a 2020. Dados: Indicador Ipea de Hiato do Produto, série descontinuada em outubro de 2020. Elaboração: Análise Macro.

À esquerda, o PIB efetivo cruza a linha do potencial para cima e para baixo ao longo de quase trinta anos, sem nunca se fixar nela. À direita está a diferença entre as duas linhas, que é o hiato. A queda acentuada no fim da série é o segundo trimestre de 2020, com o hiato em -13,9%, o menor valor registrado.

Em boa parte do período o hiato é negativo. Na série do Ipea, que vai de 1993 a 2020, a economia operou acima do potencial em 39 dos 110 trimestres, e abaixo dele nos outros 71. O potencial estimado é, portanto, uma referência exigente, em torno da qual a economia passa mais tempo abaixo do que acima.

O produto potencial não é observável

O produto potencial é uma variável não observada, ou seja, uma grandeza que a teoria define mas que nenhuma pesquisa coleta diretamente. Ele precisa ser estimado a partir do comportamento do PIB, do emprego e do capital ao longo do tempo.

Como o valor vem de uma estimativa, ele depende do método escolhido.

Os dois caminhos usuais são o filtro estatístico, que separa a série do PIB em tendência e ciclo, e a função de produção, que estima o potencial a partir de capital, trabalho e produtividade. Tratamos dessas alternativas em Qual o hiato do produto no Brasil?

Cada método entrega um número diferente para o mesmo trimestre, e a divergência aumenta nos trimestres do fim da amostra, que são os que interessam a quem decide hoje. Detalhamos esse problema em um exercício dedicado ao tema.

Por isso o hiato é uma das variáveis mais debatidas da análise macroeconômica: duas instituições competentes podem discordar sobre se a economia está acima ou abaixo do potencial no mesmo trimestre, sem que nenhuma esteja errada.

Para que isso serve na prática

O hiato entra diretamente nas equações que os bancos centrais usam para decidir a taxa de juros, ligando o nível de atividade à inflação e, daí, à política monetária. Tratamos dessa engrenagem no post sobre o modelo de pequeno porte do Banco Central.

Fora do banco central, a leitura do ciclo orienta decisões concretas:

  • Investimento produtivo: ampliar capacidade num pico de ciclo costuma significar inaugurar a fábrica na recessão seguinte.
  • Alocação em ativos: setores cíclicos, como construção e bens duráveis, reagem à fase do ciclo de forma diferente dos defensivos.
  • Crédito: a inadimplência acompanha o ciclo com defasagem, o que muda a política de concessão dos bancos.
  • Política fiscal: parte da arrecadação sobe e desce com o ciclo, e separar esse componente do estrutural é o que mostra se a melhora de um resultado fiscal veio de decisão de política ou de economia aquecida.

O PIB sai trimestralmente e com defasagem, então indicadores mensais servem de termômetro no intervalo, como discutimos em O IBC-Br é um bom preditor do PIB?. A mesma lógica de ciclo se aplica a outras séries, como em Avaliando os ciclos da taxa de desocupação brasileira.

Assista também à explicação em vídeo no canal da Análise Macro.

Considerações finais

Ciclos econômicos são flutuações recorrentes da atividade agregada, com quatro fases delimitadas por dois pontos de virada. No Brasil, o CODACE data essas fases olhando profundidade, duração e difusão, e não a regra simplificada dos dois trimestres.

O hiato do produto complementa a datação com uma medida de intensidade: quanto a economia está acima ou abaixo do que conseguiria produzir. Como o potencial não é observável, o hiato é sempre uma estimativa, e o método escolhido muda o resultado.

Quem acompanha conjuntura ganha ao manter as duas leituras juntas. A datação diz onde a economia esteve, com a segurança de quem olha para trás; o hiato arrisca uma leitura do presente, com a incerteza que isso carrega.

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