Política Monetária

Por que o Banco Central está subindo os juros?

By 22 de janeiro de 2015 janeiro 23rd, 2015 No Comments

Ontem, após ler a decisão do Comitê de Política Monetária de elevar a taxa básica de juros em meio ponto percentual, pensei nas preferências do Banco Central. Afinal, ele as tem tanto quanto eu e você, leitor. Podemos, dizer, inclusive que ele pode preferir entre estabilizar o PIB ou conter o desvio entre inflação e meta para inflação. Essa é a forma tradicional que os economistas pensam quando querem expressar as preferências de um banqueiro central. Pois bem, e daí, pergunta você. E daí que ontem, o Banco Central tinha duas opções: pensar no baixo crescimento da economia brasileira ou na inflação cada vez mais distante da meta. A decisão de 50 pontos-base sinalizou qual caminho ele está querendo seguir.

A inflação medida pelo IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) registrou em 2014 seu quinto ano seguido de números superlativos: 6,41% a.a.. Nos últimos 60 meses ela tem flertado com o que se convencionou chamar de "limite superior" da meta. Trocando em miúdos e indo direto ao ponto, significa dizer que o Banco Central preferiu nesse período "estabilizar" o PIB, mantendo a inflação sempre distante da meta.

inflacao

Talvez, claro, você concorde com isso. Afinal, você pode pensar que uma inflação de 6,41% não seja tão alta assim. Certo?

Não, por basicamente dois motivos: um teórico e outro mais prático. O teórico eu já tratei aqui nesse espaço por diversas vezes e diz respeito ao fato de que mais inflação não está associado a mais crescimento ou menor desemprego. Hoje, entretanto, eu queria tratar o problema da inflação de um ponto de vista mais prático. Afinal, leitor, os tais 6,41% de inflação em 2014 representam uma média ponderada das variações de preços de 373 bens e serviços. É pouco provável, nesse sentido, que você os consuma de forma integral, todos os meses. Logo, a inflação que você percebe dificilmente é essa, de 6,41%.

Se, por exemplo, você se alimenta todos os dias fora de casa, deve ter percebido que está cada vez mais caro fazê-lo, não é mesmo? Não é impressão, afinal, a alimentação fora de casa acumula aumento de 60% nesses cinco anos. A inflação de todos os itens, por seu turno, acumulou 35%. Ou seja, leitor, se você frequenta muito restaurantes e bares, é provável que tenha percebido um aumento de preços muito superior à média. E isso pode ser replicado de forma muito parecida para o caso dos serviços, em geral. Se você paga aluguel, vai a médico particular, frequenta salão de beleza, paga empregado doméstico, etc, deve ter percebido uma inflação muito superior à média que é divulgada.

É nesse contexto que gostaria de dizer a você, leitor, que 6,41% é um número bastante elevado. Ora, se em média os preços estão se elevando a uma taxa de 6,41% ao ano, o que dirá de determinados grupos de preços, não é mesmo? A média de 6,41% pode estar, inclusive, escondendo alguns artifícios. Imagine, por exemplo, que daqueles 373 bens e serviços que formam o índice de preços, o governo tenha controle sobre 23. Imagine ainda que entre esses estão produtos essenciais para todos nós, consumidores e empresários, como, por exemplo, energia elétrica, gás, telefone, transporte, combustíveis, etc. Ou seja, se o governo controla o preço desses bens e serviços, ele tem controle indireto sobre diversos outros bens e serviços, não é mesmo? Afinal, energia elétrica, por exemplo, é insumo para praticamente tudo o que se produz em uma economia moderna como a nossa, certo?

Pois bem, se é assim, imagine por fim que o governo decida "congelar" o preço de alguns desses 23 itens. Como consequência, a economia pode conviver com alguns preços crescendo a 9,5%, digamos, e outros crescendo a 3,5%, por exemplo. Na média, todos os preços estarão crescendo a 6,5%, não é mesmo? Você pode dar azar ou sorte, se consumir mais daqueles ou destes. Isso, entretanto, é o menos importante. Simplesmente porque o governo não conseguirá manter o tal congelamento por muito tempo.

Para manter alguns preços congelados, ele precisa subsidiar os empresários que os produzem, afinal, somente assim eles "topariam" algo do tipo. Para que o subsídio seja possível, é preciso que haja espaço no orçamento do governo, não é mesmo? Sem dinheiro em caixa, nada de subsídio e, portanto, nada de congelamento de preços. Desse modo, se esses preços que o governo consegue controlar tem de aumentar, aquela média de 6,5% vai acabar subindo, não é mesmo?

Pois é, leitor, é justamente para que a média dos tais 373 preços não "exploda" que o Banco Central tem de agir, elevando os juros. O controle da inflação via congelamento de alguns preços, como foi feito largamente nos últimos cinco anos no Brasil, só produz distorções na economia e no próprio orçamento do governo. Veja o caso do setor elétrico: as distribuidoras de energia estão com problemas de fluxo de caixa porque as tarifas foram mantidas artificialmente baixas nesses anos. Não por outro motivo, tem se anunciado aumentos da ordem de 30% a 40% para 2015. E também por isso que o governo acaba de aumentar impostos, objetivando reequilibrar o seu orçamento, fragilizado por conta de um monte de subsídios que deu ao longo desses anos.

Durante esse período, o Banco Central brasileiro preferiu acomodar a inflação sempre no tal limite superior da meta, dando peso maior à estabilização do produto. Como resultado, tem colhido uma inflação acima de 8% em determinados grupos, como serviços, que representam 35% do índice cheio. Ademais, não conseguiu "estimular" a economia, haja vista que o que gera maior crescimento não está ao alcance da política monetária. Em assim sendo, nesse momento, o Banco Central sobe juros para tentar trazer a inflação de volta para a meta, algo que ele próprio afastou ao longo desse período. Conseguirá? A conferir...

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