O maior salário de admissão do Sudeste em 2025 foi de R$ 49.000, pago em São Paulo para a contratação de um diretor de operações de serviços de armazenamento. Esse número vem dos microdados do Novo CAGED, a base do Ministério do Trabalho que registra cada admissão formal do país, e revela o preço que as empresas pagaram para atrair profissionais no ano.
Este tutorial mostra como chegar a esse ranking: coletar os microdados mensais do Novo CAGED, filtrar as admissões válidas e calcular a mediana do salário de contratação por ocupação, em cada estado do Sudeste. O resultado é o painel abaixo, com as 15 ocupações mais bem pagas em SP, RJ, MG e ES.

Em São Paulo, a lista é dominada por cargos de direção do setor financeiro. No Espírito Santo, por engenharias e tecnologia. Cada estado tem um perfil, e o método para chegar a ele é o mesmo. Veja como foi construído.
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O que é o salário de admissão
O salário de admissão é o valor que a empresa paga a quem acabou de contratar. Ele difere do salário médio da economia, que carrega décadas de dissídios e planos de carreira de quem já está empregado há anos.
Por olhar só para o contratado de hoje, esse número funciona como um termômetro do presente. Ele mede quanto vale, agora, uma qualificação específica no mercado, sem a inércia dos contratos antigos. Para um economista que acompanha o mercado de trabalho, é o sinal mais rápido de pressão salarial por ocupação.
Uma ressalva vem junto: o valor calculado aqui vale só para quem foi admitido em 2025. Um diretor recém-contratado e um diretor com vinte anos de casa recebem valores diferentes, e este estudo enxerga apenas o primeiro. O ranking não é a média salarial da profissão, é o preço de entrada nela.
De onde vêm os dados: o Novo CAGED
O Novo CAGED é o cadastro do Ministério do Trabalho e Emprego que registra todas as admissões e desligamentos formais do país, mês a mês. Cada linha é um contrato, e entre as variáveis está o salário registrado na admissão.
O desafio não é estatístico, é de volume. Cada arquivo mensal, descompactado, passa de 450 MB de texto puro. O ano inteiro ultrapassa 5 GB. Processar isso na força bruta trava a memória de um computador comum, e é aí que a forma de ler os dados pesa tanto quanto o cálculo.
Como o ranking foi construído
O caminho tem quatro etapas: coletar os arquivos, filtrar as admissões válidas, calcular a mediana e visualizar. Cada uma resolve uma parte do problema.
A coleta, sem estourar a memória
Os arquivos vêm compactados em .7z no servidor do MTE. O pipeline baixa quatro meses ao mesmo tempo, porque o gargalo é a velocidade do servidor, não o computador. A descompactação acontece dentro do Python, sem depender de nenhum programa externo instalado no sistema, o que faz o mesmo código rodar igual no Windows, no Linux ou no Google Colab.
A leitura usa streaming: em vez de carregar os 450 MB de um mês na memória, o programa processa o arquivo em blocos e descarta o que não interessa na entrada. O pico de memória fica em poucas centenas de megabytes, mesmo com milhões de linhas por arquivo.
Os filtros que definem a qualidade
O CAGED registra todo tipo de movimentação. Para chegar às admissões comparáveis, o código aplica seis filtros. Mantém só admissões (descarta desligamentos), declarações no prazo e contratos de jornada cheia. O filtro mais importante mantém apenas salários com periodicidade mensal, descartando os cadastrados por hora, dia ou semana, que teriam bases de comparação diferentes.
Depois, dois cortes de higiene: fica só o Sudeste (SP, RJ, MG e ES) e salários maiores que zero, o que remove erros de preenchimento. O que sobra são as contratações padronizadas de 2025, prontas para o cálculo.
Por que a mediana, e não a média
A mediana é a escolha econométrica correta para dados de salário. Salários têm distribuição com cauda longa, e o eSocial ocasionalmente registra valores na casa dos milhões por erro de digitação. A média é puxada por esses extremos e distorce o resultado.
A mediana, o valor do meio da distribuição, ignora os outliers. Ela responde à pergunta certa: qual o salário típico de contratação naquela ocupação. Um filtro final protege o ranking de distorções, exigindo pelo menos 10 contratações no ano para a ocupação entrar, o que evita que uma única admissão atípica ocupe o topo por acaso.
Os resultados por estado
Ao todo, o pipeline processou 11,9 milhões de admissões válidas no Sudeste em 2025. A tabela abaixo traz o Top 15 de São Paulo, o mercado com os maiores patamares. A coluna de contratações mostra o volume por trás de cada mediana.
| # | Ocupação (CBO) | Salário mediano de admissão | Contratações em 2025 |
|---|---|---|---|
| 1 | Diretor de operações de serviços de armazenamento | R$ 49.000 | 15 |
| 2 | Diretor de produtos bancários | R$ 48.000 | 19 |
| 3 | Diretor de crédito (exceto crédito imobiliário) | R$ 46.452 | 11 |
| 4 | Diretor de tecnologia da informação | R$ 44.490 | 196 |
| 5 | Diretor comercial em operações de intermediação financeira | R$ 43.710 | 41 |
| 6 | Diretor de riscos de mercado | R$ 40.000 | 37 |
| 7 | Diretor de suprimentos | R$ 40.000 | 57 |
| 8 | Diretor de produção e operações da indústria de transformação, extração mineral e utilidades | R$ 40.000 | 70 |
| 9 | Diretor de recursos humanos | R$ 40.000 | 147 |
| 10 | Diretor de pesquisa e desenvolvimento (P&D) | R$ 40.000 | 28 |
| 11 | Diretor comercial | R$ 37.888 | 906 |
| 12 | Diretor de marketing | R$ 35.657 | 251 |
| 13 | Diretor financeiro | R$ 35.000 | 302 |
| 14 | Diretor de planejamento estratégico | R$ 25.000 | 223 |
| 15 | Diretor de compliance | R$ 25.000 | 78 |
Top 15 ocupações por salário de admissão em São Paulo, 2025. Fonte: Microdados do Novo CAGED (MTE).
O padrão de São Paulo é o de um polo financeiro: diretorias de bancos, crédito e riscos ocupam quase toda a lista. Note a diferença de volume. O diretor de operações de armazenamento aparece no topo com 15 contratações, enquanto o diretor comercial soma 906 admissões a uma mediana de R$ 37.888, um valor alto sustentado por um número grande de contratos.
Nos outros estados, o mapa muda com a economia local. Rio de Janeiro combina direção industrial e ocupações da marinha mercante, reflexo do petróleo e da logística portuária. Minas Gerais é liderada pela direção da indústria extrativa, coerente com a mineração. Espírito Santo tem o perfil mais técnico, com engenheiro de aplicativos em computação (R$ 14.100) e cientista de dados (R$ 13.250) no topo.
As ferramentas por trás

O que o resultado revela
- O topo é de diretoria. Em SP, RJ e MG, cargos de direção puxam a lista, com salários de admissão entre R$ 37 mil e R$ 49 mil.
- Cada estado espelha sua economia. Finanças em SP, indústria e mar no RJ, mineração em MG, tecnologia no ES.
- Volume e valor não andam juntos. As maiores medianas às vezes vêm de poucas contratações, e o filtro de 10 admissões separa o sinal do ruído.
Considerações finais
Este exercício reconstrói, com dados públicos e um pipeline que roda em um notebook comum, um retrato salarial que costuma ficar restrito a relatórios de consultoria. A dificuldade real não estava no cálculo da mediana, e sim em processar gigabytes de microdados sem travar a máquina, um problema que Python e Polars resolvem em poucos minutos.
Python é a ferramenta certa para esse tipo de trabalho porque reúne, num só ambiente, a coleta, o tratamento de arquivos massivos, o cálculo estatístico e a visualização. O mesmo caminho (coletar, tratar, calcular, visualizar) se repete em quase todo problema de dados econômicos. O que muda é a aplicação:
- Economista: monitora pressão salarial por ocupação e setor como leitura antecipada do mercado de trabalho.
- Analista de RH e recrutamento: compara o salário de contratação da empresa com a mediana de mercado, por cargo e estado.
- Analista de dados: domina o padrão de processar registros administrativos massivos, que se repete no CAGED, na RAIS e em bases de saúde e educação.
- Gestor e consultor: embasa decisões de remuneração e expansão regional com o dado oficial, não com estimativa de mercado.
Aprender a linguagem é o que abre a porta para todas essas frentes, com os dados que já são públicos.
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