Decomposição do Impulso de Crédito no Brasil usando Python

Neste exercício, mostramos como o Python pode ser utilizado para calcular uma métrica central para a compreensão da dinâmica entre crédito e atividade econômica no Brasil, a partir de um ciclo completo e altamente reprodutível de coleta, tratamento e análise de dados.

O impulso de crédito mede a aceleração do crédito em proporção do PIB e funciona como um indicador antecedente da atividade econômica. Neste tutorial, mostramos como construímos o indicador para o Brasil no Python, usando apenas séries públicas do Banco Central, e o decompomos entre recursos livres e direcionados para revelar qual segmento comanda cada fase do ciclo.

O resultado é um termômetro que ajudou a antecipar a recessão de 2015-16, expôs a resposta anticíclica do crédito na pandemia e explica por que a atividade cresceu nos últimos anos mesmo com o crédito em terreno contracionista. Tudo com dados abertos e reproduzíveis.

Gráfico do impulso de crédito total do Brasil comparado ao IBC-Br acumulado em 12 meses, de 2009 a 2026, mostrando o indicador antecipando os ciclos da atividade
O impulso de crédito (navy) e o IBC-Br (vermelho), ambos acumulados em 12 meses. Na ponta, o impulso voltou ao negativo. Fonte: BCB (SGS).

O gráfico acima resume o exercício: a linha navy costuma virar antes da linha vermelha. É essa antecedência que faz do indicador uma ferramenta de monitoramento do ciclo — e o caminho até ele é mais curto do que parece.

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O que é o impulso de crédito

A análise tradicional olha para o crescimento do estoque de crédito: quanto a economia deve no total. O problema é que o PIB é uma variável de fluxo — o que move a demanda agregada de hoje é quanto crédito novo está entrando na economia, e não o tamanho da dívida acumulada.

O trabalho de Biggs, Mayer e Pick (2010) dá um passo além: a demanda responde à variação do fluxo de novos empréstimos, ou seja, à aceleração do crédito. Se o fluxo cresce, o impulso é positivo e soma ao PIB. Se cresce a uma taxa constante, o impulso é zero. Se desacelera, mesmo continuando positivo, o impulso fica negativo e age como freio.

Essa lógica explica os "phoenix miracles" do título do paper: economias se recuperam de recessões mesmo com o crédito total ainda caindo, porque basta o fluxo parar de piorar para o impulso virar positivo. O Banco Central e o BNDES publicaram boxes com essa mesma metodologia para o Brasil.

Na prática, o cálculo compara o fluxo de crédito acumulado em 12 meses com o fluxo dos 12 meses anteriores, cada um dividido pelo PIB nominal acumulado do seu período. O resultado é lido em pontos percentuais (p.p.) do PIB: um impulso de +2 significa que o fluxo anual de crédito cresceu o equivalente a 2% do PIB em relação ao ano anterior.

Como o indicador foi construído

O exercício inteiro roda em Python e segue quatro etapas, todas com dados públicos do Sistema Gerenciador de Séries Temporais (SGS) do Banco Central:

📥

Coleta via API
Cinco séries do SGS/BCB: saldos de crédito (total, livre e direcionado), PIB mensal nominal e IBC-Br.
🧮

Acumulados em 12 meses
Fluxo de crédito e PIB em janelas anuais, o que suaviza a volatilidade e elimina a sazonalidade mensal.

Cálculo do impulso
Fluxo atual menos fluxo de um ano atrás, em p.p. do PIB — a aceleração do crédito, para o total e cada segmento.
📊

Visualização
Três gráficos: impulso vs atividade, decomposição em linhas e a contribuição anual em barras empilhadas.

A coleta usa a API aberta do SGS, que devolve cada série em CSV a partir do código dela — sem cadastro e sem chave. O tratamento e o cálculo ficam com o pandas, e os gráficos com o plotnine, a gramática de gráficos do ggplot em Python. A série final começa em 2009: a fórmula precisa de dois anos de dados para a primeira observação completa.

A decomposição vem de um detalhe conveniente do dado brasileiro: o BCB publica os saldos separados em recursos livres (operações pactuadas em condições de mercado, como capital de giro e crédito pessoal) e recursos direcionados (operações reguladas ou subsidiadas, como crédito rural, habitacional e repasses do BNDES). Como o total é a soma dos dois e o denominador é o mesmo, os impulsos parciais somam exatamente o impulso total.

O que a decomposição revela

Gráfico de linhas do impulso de crédito decomposto entre recursos livres e recursos direcionados no Brasil, de 2009 a 2026
Recursos livres (verde) oscilam com a Selic; direcionados (laranja) só saem de perto do zero em episódios de política pública. Fonte: BCB (SGS).

Os dois segmentos contam histórias diferentes. O crédito livre é sensível ao juro de mercado: mergulhou no aperto monetário de 2022-23, liderou a recuperação de 2024-25 e voltou a desacelerar na ponta. O direcionado, com funding menos elástico à Selic, passa a maior parte do tempo perto de zero — e dispara justamente nos episódios de política pública, como os programas emergenciais de crédito da pandemia.

A tabela abaixo traz o impulso no fechamento de cada ano, com a contribuição de cada segmento:

Ano Impulso total (p.p. do PIB) Recursos livres Recursos direcionados
2009 -3,73 -4,52 0,79
2010 1,92 1,84 0,09
2011 -0,18 0,09 -0,27
2012 -0,40 -0,60 0,20
2013 -0,52 -1,38 0,86
2014 -1,11 -0,81 -0,30
2015 -1,79 -0,13 -1,67
2016 -5,30 -2,36 -2,94
2017 1,58 1,70 -0,12
2018 2,49 2,04 0,45
2019 0,59 0,86 -0,26
2020 4,29 0,70 3,59
2021 0,17 1,25 -1,08
2022 -0,56 -1,12 0,56
2023 -2,77 -2,51 -0,26
2024 1,59 1,52 0,06

Impulso de crédito no fechamento de cada ano (dezembro, acumulado em 12 meses). Fonte: BCB (SGS), elaboração Análise Macro.

Gráfico de barras empilhadas com o impulso de crédito anual do Brasil decomposto entre recursos livres e direcionados, 2009 a 2024
Dois grandes freios (2016 e 2023) e um grande empurrão anticíclico (2020). Fonte: BCB (SGS).

Três episódios que o indicador explica

  • 2015-16: o ciclo clássico. A contração do impulso chegou perto de -5,5 p.p. do PIB, com mercado e bancos públicos recuando juntos — o crédito acompanhou e aprofundou a recessão.
  • 2020: o descolamento anticíclico. O impulso disparou a +4,3 p.p. em plena queda da atividade, quase todo vindo do crédito direcionado — o rastro dos programas emergenciais (Pronampe, PESE) na pandemia.
  • 2022-24: o canal enfraquecido. A atividade cresceu com o impulso negativo. O crescimento veio de impulsos fiscais e da supersafra agrícola, e não do crédito — que só voltou a contribuir em 2024, puxado pelos recursos livres.

Na leitura mais recente, o impulso voltou a ficar levemente negativo (por volta de -1 p.p. do PIB), sinalizando que o aperto das condições financeiras segue limitando a contribuição do crédito para a atividade.

As ferramentas por trás

Logo do Python
Python — a linguagem do exercício: coleta, cálculo e visualização num único script, com pandas e plotnine.
Logo do Banco Central do Brasil
Banco Central (SGS) — a fonte dos dados: saldos de crédito, PIB mensal e IBC-Br, via API aberta, sem cadastro e sem chave.

Considerações finais

O exercício mostra que olhar o estoque de crédito engana: o que move a demanda é a aceleração do fluxo. Com cinco séries públicas e uma função de poucas linhas, sai um indicador antecedente que ajuda a interpretar cada ciclo brasileiro desde 2009 — e a decomposição diz se cada fase é fenômeno de mercado ou de política pública.

O caminho percorrido aqui — coletar via API, transformar, calcular e visualizar — se repete em quase todo problema de análise macroeconômica. O que muda é a aplicação:

  • Analistas de mercado: monitoram o canal do crédito como insumo de cenário para PIB e Selic.
  • Economistas de bancos e consultorias: replicam a metodologia dos boxes do BCB e do BNDES com dados sempre atualizados.
  • Gestores e áreas de risco: antecipam pontos de virada do ciclo que afetam inadimplência e apetite de crédito.
  • Estudantes e pesquisadores: transformam um paper de referência em evidência empírica reproduzível para o Brasil.

Aprender Python aplicado à macroeconomia é o que abre a porta para todas essas frentes.

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