O impulso de crédito mede a aceleração do crédito em proporção do PIB e funciona como um indicador antecedente da atividade econômica. Neste tutorial, mostramos como construímos o indicador para o Brasil no Python, usando apenas séries públicas do Banco Central, e o decompomos entre recursos livres e direcionados para revelar qual segmento comanda cada fase do ciclo.
O resultado é um termômetro que ajudou a antecipar a recessão de 2015-16, expôs a resposta anticíclica do crédito na pandemia e explica por que a atividade cresceu nos últimos anos mesmo com o crédito em terreno contracionista. Tudo com dados abertos e reproduzíveis.

O gráfico acima resume o exercício: a linha navy costuma virar antes da linha vermelha. É essa antecedência que faz do indicador uma ferramenta de monitoramento do ciclo — e o caminho até ele é mais curto do que parece.
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O que é o impulso de crédito
A análise tradicional olha para o crescimento do estoque de crédito: quanto a economia deve no total. O problema é que o PIB é uma variável de fluxo — o que move a demanda agregada de hoje é quanto crédito novo está entrando na economia, e não o tamanho da dívida acumulada.
O trabalho de Biggs, Mayer e Pick (2010) dá um passo além: a demanda responde à variação do fluxo de novos empréstimos, ou seja, à aceleração do crédito. Se o fluxo cresce, o impulso é positivo e soma ao PIB. Se cresce a uma taxa constante, o impulso é zero. Se desacelera, mesmo continuando positivo, o impulso fica negativo e age como freio.
Essa lógica explica os "phoenix miracles" do título do paper: economias se recuperam de recessões mesmo com o crédito total ainda caindo, porque basta o fluxo parar de piorar para o impulso virar positivo. O Banco Central e o BNDES publicaram boxes com essa mesma metodologia para o Brasil.
Na prática, o cálculo compara o fluxo de crédito acumulado em 12 meses com o fluxo dos 12 meses anteriores, cada um dividido pelo PIB nominal acumulado do seu período. O resultado é lido em pontos percentuais (p.p.) do PIB: um impulso de +2 significa que o fluxo anual de crédito cresceu o equivalente a 2% do PIB em relação ao ano anterior.
Como o indicador foi construído
O exercício inteiro roda em Python e segue quatro etapas, todas com dados públicos do Sistema Gerenciador de Séries Temporais (SGS) do Banco Central:
A coleta usa a API aberta do SGS, que devolve cada série em CSV a partir do código dela — sem cadastro e sem chave. O tratamento e o cálculo ficam com o pandas, e os gráficos com o plotnine, a gramática de gráficos do ggplot em Python. A série final começa em 2009: a fórmula precisa de dois anos de dados para a primeira observação completa.
A decomposição vem de um detalhe conveniente do dado brasileiro: o BCB publica os saldos separados em recursos livres (operações pactuadas em condições de mercado, como capital de giro e crédito pessoal) e recursos direcionados (operações reguladas ou subsidiadas, como crédito rural, habitacional e repasses do BNDES). Como o total é a soma dos dois e o denominador é o mesmo, os impulsos parciais somam exatamente o impulso total.
O que a decomposição revela

Os dois segmentos contam histórias diferentes. O crédito livre é sensível ao juro de mercado: mergulhou no aperto monetário de 2022-23, liderou a recuperação de 2024-25 e voltou a desacelerar na ponta. O direcionado, com funding menos elástico à Selic, passa a maior parte do tempo perto de zero — e dispara justamente nos episódios de política pública, como os programas emergenciais de crédito da pandemia.
A tabela abaixo traz o impulso no fechamento de cada ano, com a contribuição de cada segmento:
| Ano | Impulso total (p.p. do PIB) | Recursos livres | Recursos direcionados |
|---|---|---|---|
| 2009 | -3,73 | -4,52 | 0,79 |
| 2010 | 1,92 | 1,84 | 0,09 |
| 2011 | -0,18 | 0,09 | -0,27 |
| 2012 | -0,40 | -0,60 | 0,20 |
| 2013 | -0,52 | -1,38 | 0,86 |
| 2014 | -1,11 | -0,81 | -0,30 |
| 2015 | -1,79 | -0,13 | -1,67 |
| 2016 | -5,30 | -2,36 | -2,94 |
| 2017 | 1,58 | 1,70 | -0,12 |
| 2018 | 2,49 | 2,04 | 0,45 |
| 2019 | 0,59 | 0,86 | -0,26 |
| 2020 | 4,29 | 0,70 | 3,59 |
| 2021 | 0,17 | 1,25 | -1,08 |
| 2022 | -0,56 | -1,12 | 0,56 |
| 2023 | -2,77 | -2,51 | -0,26 |
| 2024 | 1,59 | 1,52 | 0,06 |
Impulso de crédito no fechamento de cada ano (dezembro, acumulado em 12 meses). Fonte: BCB (SGS), elaboração Análise Macro.

Três episódios que o indicador explica
- 2015-16: o ciclo clássico. A contração do impulso chegou perto de -5,5 p.p. do PIB, com mercado e bancos públicos recuando juntos — o crédito acompanhou e aprofundou a recessão.
- 2020: o descolamento anticíclico. O impulso disparou a +4,3 p.p. em plena queda da atividade, quase todo vindo do crédito direcionado — o rastro dos programas emergenciais (Pronampe, PESE) na pandemia.
- 2022-24: o canal enfraquecido. A atividade cresceu com o impulso negativo. O crescimento veio de impulsos fiscais e da supersafra agrícola, e não do crédito — que só voltou a contribuir em 2024, puxado pelos recursos livres.
Na leitura mais recente, o impulso voltou a ficar levemente negativo (por volta de -1 p.p. do PIB), sinalizando que o aperto das condições financeiras segue limitando a contribuição do crédito para a atividade.
As ferramentas por trás

pandas e plotnine.
Considerações finais
O exercício mostra que olhar o estoque de crédito engana: o que move a demanda é a aceleração do fluxo. Com cinco séries públicas e uma função de poucas linhas, sai um indicador antecedente que ajuda a interpretar cada ciclo brasileiro desde 2009 — e a decomposição diz se cada fase é fenômeno de mercado ou de política pública.
O caminho percorrido aqui — coletar via API, transformar, calcular e visualizar — se repete em quase todo problema de análise macroeconômica. O que muda é a aplicação:
- Analistas de mercado: monitoram o canal do crédito como insumo de cenário para PIB e Selic.
- Economistas de bancos e consultorias: replicam a metodologia dos boxes do BCB e do BNDES com dados sempre atualizados.
- Gestores e áreas de risco: antecipam pontos de virada do ciclo que afetam inadimplência e apetite de crédito.
- Estudantes e pesquisadores: transformam um paper de referência em evidência empírica reproduzível para o Brasil.
Aprender Python aplicado à macroeconomia é o que abre a porta para todas essas frentes.
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