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Previsão da inflação (EUA) com fatores textuais do FOMC

By | Data Science

Reflexo da era da informação, atualmente não se faz mais política monetária sem uma boa dose de comunicados, atas, entrevistas, conferências, etc. Os chamados central bankers atuam, sobretudo, como comunicadores e qualquer pequena nuance em sua comunicação (futuros passos da política monetária) pode ser um sinal para alvoroço nos "mercados".

Nesse sentido, uma área da literatura econômica que vem prosperando busca investigar o chamado canal informacional (de transmissão) da política monetária, propiciando uma intersecção entre métodos econométricos e de machine learning. Como exemplo, Lucca e Trebbi (2009) exploram a relação entre mudanças nos comunicados (statements) do Federal Open Market Committee (FOMC) com variáveis macroeconômicas, como taxas de juros, mostrando que há poder preditivo no conteúdo informacional dos comunicados. De forma similar, Ferreira (2022) expande um modelo VAR usando fatores textuais extraídos dos comunicados do FOMC, mostrando que a técnica (denominada VAR-teXt) é útil para finalidade de previsão.

Mais informalmente, neste espaço da Análise Macro já exploramos a extração de sentimentos e de tópicos latentes dos comunicados do Banco Central do Brasil (BCB). De forma a avançar mais nessa área, no exercício de hoje exploramos, de forma similar a Ferreira (2022), a utilidade de tópicos latentes extraídos dos comunicados do FOMC, por um modelo LDA, na previsão da inflação norte-americana, medida pelo CPI. O objetivo é comparar um modelo econométrico simples, tal como um AR-GAP de Faust e Wright (2013), em especificações com e sem os fatores textuais.

Uma visão geral

O exercício de previsão em questão consiste em extrair os dados de interesse das devidas fontes (FRED-MD e FOMC/FED), realizar o pré processamento e extração de fatores textuais e, por fim, treinar duas especificações de modelos simples para o CPI: AR e AR-teXt (i.e., um modelo autoregressivo com fatores textuais como variáveis exógenas). O diagrama abaixo ilustra os principais procedimentos:

Recomenda-se a leitura prévia dos textos a seguir, assim como referências correspondentes, para uma boa compreensão do exercício proposto:

Dados e especificação

Os modelos são estimados em frequência trimestral, onde a variável de interesse, o CPI, é medido como a variação percentual em relação ao trimestre imediatamente anterior.

As fontes de dados são:

  • CPI (variável endógena) é proveniente do banco de dados FRED-MD (código CPIAUCSL), veja McCracken e NG (2016);
  • Tópicos textuais (variáveis exógenas) são extraídos através do modelo LDA, tendo como origem os statements do FOMC/FED.

As especificações dos modelos são:

Partindo da construção de uma medida de tendência, τt, do CPI, πt, definimos o "gap" da inflação como gt = πt − τt e consideramos essa medida nos modelos abaixo, tal como em Faust e Wright (2013).

  • AR(p): gt = α1 gt-1 + … + αpgt-p + ϵt
  • AR-teXt(p,s): gt = α1 gt-1 + … + αpgt-p + βsxt-s + ϵt

onde αi e βi são coeficientes dos modelos, xt são as variáveis exógenas e ϵt é o erro do modelo.

Em nosso exercício geramos previsão 10 trimestres à frente (pseudo fora da amostra) e, então, adicionamos de volta a tendência, τt, para obter a previsão "final". A amostra utilizada é de 1998 até a observação mais recente do ano atual, 2022.

Visualização de dados

Abaixo plotamos um gráfico de linha da série de interesse, o CPI dos Estados Unidos em variação percentual trimestral:

E na imagem a seguir trazemos a estrutura textual de apenas um dos statements do FOMC/FED que foram extraídos (web scraping) de forma online para construção dos fatores textuais.

Vale pontuar que a estrutura textual dos comunicados pode variar consideravelmente no tempo.

Resultados

Os procedimentos brevemente descritos acima foram implementados através da linguagem R usando, para estimação, o pacote {fable} (veja um tutorial aqui)). Os modelos foram treinados usando validação cruzada, considerando uma janela amostral crescente, partindo de 60 observações iniciais e adicionando 1 observação a cada iteração. O cálculo de métricas de acurácia foi realizado por horizonte preditivo (1, 2, ..., 10 trimestres).

A seguir resumimos os resultados de acurácia em um gráfico que mostra o RMSE por horizonte de previsão dos dois modelos considerados:

Comentários

  • Modelo com fatores textuais parece performar melhor no curto prazo em relação ao benchmark (AR);
  • Os resultados apresentados estão em linha com o encontrado por Ferreira et al. (2020), que considera uma abordagem vetorial com diferente método de estimação (e aqui não aplicamos testes estatísticos para comparar previsões);
  • Pontua-se que a performance do modelo proposto, AR-teXt, pode ser consideravelmente sensível a escolha do número de tópicos definidos, assim como ao tratamento dos dados textuais;
  • O modelo de tópicos LDA é intensivo computacionalmente.

Códigos de R para replicação estão disponíveis para membros do Clube AM da Análise Macro.

Referências

Faust, J., & Wright, J. H. (2013). Forecasting inflation. In Handbook of economic forecasting (Vol. 2, pp. 2-56). Elsevier.

Ferreira, L. N. (2022). Forecasting with VAR-teXt and DFM-teXt Models: exploring the predictive power of central bank communication. BCB Working Paper Serie No. 559.

Lucca, D. O., & Trebbi, F. (2009). Measuring central bank communication: an automated approach with application to FOMC statements. National Bureau of Economic Research (No. w15367).

McCracken, M. W., & Ng, S. (2016). FRED-MD: A monthly database for macroeconomic research. Journal of Business & Economic Statistics, 34(4), 574-589.

O problema está no ruído

By | Artigos de Economia

O filósofo prussiano Immanuel Kant (1724-1804) resume bem o que vem a ser credibilidade na boa teoria macroeconômica. Para ele, se você quer ter credibilidade deve necessariamente cumprir com suas promessas. Todo o regime de metas de inflação, diga-se, está fundado nesse pequeno grande conceito.

É de se perguntar justamente porque os bancos centrais devem perseguir uma meta de inflação. Por que não uma meta de crescimento ou mesmo uma de câmbio? Melhor ainda: por que não as três? Tais questionamentos estão todos os dias nos jornais, envolvendo economistas das mais diferentes escolas de pensamento. Aqui exponho alguns argumentos a favor do regime de metas de inflação, implantado “meio que por acaso” no Brasil, em 1999.

O debate sobre se um banco central deve ou não seguir uma meta tem seu ponto alto no modelo Barro-Gordon, de 1983[1]. Neste, os bancos centrais discricionários estão sujeitos ao que ficou conhecido como viés inflacionário. Em outros termos, dão preferência a um pouco mais de inflação por um pouco mais de crescimento.

O diabo, leitor, é que aquela correção positiva entre crescimento e inflação ganhou nova roupagem na década de 70. Dadas as mudanças na economia mundial (choque de commodities, principalmente petróleo), a troca entre um e outro deixou de ser estável – se é que algum dia o foi. Em outras palavras, mais crescimento implica em uma inflação em contínuo aumento. Daí que para evitar o viés inflacionário e ciclos políticos (alternância entre governos “gastadores” e governos “conservadores” em termos de política econômica), viu-se que metas factíveis seriam melhor para promoção do bem-estar.

Há, é claro, muitas outras questões teóricas envolvidas. O consenso que se formou a partir do debate sobre se um banco central deveria conduzir a política monetária via regras ou via discrição (ausência de regras) tem outras suposições. As duas mais importantes referem-se ao que vem a causar o crescimento econômico. No curto prazo, um aumento de demanda (consumo das famílias, financiado via crédito bancário), pode gerar um aumento de produção. Entretanto, no médio e longo prazo, aumentos na produção de bens e serviços estão condicionados à disponibilidade de tecnologia, capital e mão de obra qualificada. E sobre isso, poucos economistas discordam.

A discordância está basicamente em um outro aspecto do regime de metas de inflação. Para muitos críticos, a suposição implícita do modelo é que a política monetária é neutra em relação a variáveis reais, i.e., uma elevação na oferta de moeda só tem o poder de elevar preços e não causa, portanto, crescimento econômico. Essa suposição implicaria que a economia trabalha o tempo o todo naquilo que os economistas chamam de produto de equilíbrio ou pleno emprego de fatores. O que, sob o olhar dos dados, seria uma aberração. Daí que a busca da estabilidade de preços, como meta única, seria algo extremamente míope, frente a outras variáveis econômicas, como desemprego de mão de obra. A crítica, leitor, é correta?

Definitivamente, não. Em primeiro lugar, a operacionalidade do regime de metas não supõe que o produto trabalha o tempo todo em equilíbrio. Pode haver discrepâncias – às vezes grave – entre o que pode ser considerado o potencial de crescimento de uma economia e aquilo que de fato é observado. Isso pode ocorrer por diferentes razões, tais como deterioração de expectativas tanto de consumidores quanto de empresários sobre o cenário econômico. Uma medida usual para captar esse desvio entre o que podemos e que de fato crescemos chama-se hiato do produto, insistentemente monitorado pelos bancos centrais ao redor do mundo.

Em um cenário adverso, portanto, onde a economia cresce abaixo do potencial é recomendável – se for possível – que o Banco Central baixe a taxa básica de juros, a fim de induzir maior crescimento. Desse modo, podemos classificar que se o objetivo explícito da autoridade monetária é a estabilidade de preços, o objetivo implícito é manter a economia crescendo naquilo que é seu potencial. Em outros termos, o Banco Central procura minimizar a diferença entre o crescimento efetivo e o potencial, de modo a manter tanto a inflação controlada quanto a economia crescendo de acordo com a disponibilidade de fatores de produção.

É claro que isso não é uma tarefa simples. Saber, por exemplo, qual o potencial de crescimento da economia brasileira está baseado em estimações estatísticas. Sob diferentes abordagens, todos os parâmetros estimados estão sujeitos a certa dose de suposições, o que depende explicitamente da formação do economista envolvido. E é justamente nesse ponto onde convergem todas as críticas em relação à condução da política monetária nos últimos anos. Para estes, o Banco Central teria condenado a economia brasileira a crescer menos do que poderia, a título de uma pretensa estabilidade de preços. Seria isso verdade?

Novamente os dados discordam. Nos últimos onze anos de operacionalização do regime de metas, a economia cresceu a uma média de 3,4% a.a., e a inflação oficial – medida pelo IPCA – ficou em 6,79% no mesmo período. Em apenas três anos o centro da meta foi alcançado. Daí que, mesmo sob o olhar bruto da realidade, não se pode classificar o Banco Central como obcecado pelo controle de preços. Um olhar mais amplo sobre o período daria atenção aos choques pelos quais passou a economia brasileira. No período recente, os mais importantes foram os choques de commodities e o descompasso crescente entre oferta e demanda, principalmente dado o contínuo aumento dos gastos públicos e os gargalos da economia brasileira – que impedem um crescimento mais significativo da oferta doméstica.

Nesse contexto, o Banco Central tem feito um bom trabalho, dadas as dificuldades que a realidade lhe impõe. Mais do que isso: ele tem feito um trabalho dobrado, dada a rigidez da política fiscal e os problemas com a disponibilidade de fatores. Daí que o modelo de metas de inflação põe o dedo na ferida: crescimento econômico está muito além da política monetária. Ele depende de como a economia incorpora tecnologia, em como aumenta o estoque de capital e, mais do que nunca, em como qualifica sua mão de obra. Nada disso, leitor, está sob o controle da autoridade monetária.

Daí que sob a égide de uma estrutura produtiva, o Banco Central compromete-se em entregar um determinado nível geral de preços. Afinal, a sua causa última, a oferta de moeda, é a única variável sob a qual ele possui algum grau de controle. Mas não mais no sentido Friedman estrito, mas no que Svensson classificou como “modelo baseado em expectativas”. A autoridade monetária é, no fim das contas, um coordenador de expectativas. E para fazer seu trabalho bem feito é que ele precisa seguir o conselho de Kant: precisa cumprir suas promessas. Quando não cumpre, perde credibilidade, deixa de influenciar expectativas, deixa de exercer influência sobre o nível de preços.

Mas não é apenas isso e é ai que eu entro no título do artigo. Entre promessas e credibilidade há algo pouco compreendido por alguns economistas: comunicação. Se o regime é de metas de inflação, está explícito que a autoridade monetária deve perseguir um determinado nível de preços em um horizonte predeterminado de tempo. Daí que se ele alcança é porque possui credibilidade junto aos agentes econômicos. Se não obtém sucesso é porque não conseguiu se fazer entender. Em outras palavras, o Banco Central não possui controle sobre o objetivo (estabilidade de preços), mas apenas influência sobre os formadores de preços (consumidores e empresários). Se estes não entendem o cenário desenhado pela autoridade monetária ou ficam confusos com as declarações do seu controlador (o governo), tendem a se proteger de eventuais deteriorações de preços, via reajustes de salários e repasse para preços.

Entende-se assim que um Banco Central que não consegue convencer os agentes sobre seus planos não consegue portanto alcançar um determinado nível de preços. E é justamente isto, leitor, que está ocorrendo na conjuntura econômica atual: um problema de ruído. O Banco Central revela em seus cenários prospectivos que a convergência para a meta de 4,5% se dá no segundo trimestre de 2013, tendo como premissas uma taxa de juros de 12% a.a. e uma taxa de câmbio de 1,65 R$/US$. Mas coloca ruído na mensagem, quando não revela outras hipóteses consideradas em um cenário alternativo, que prevê basicamente uma deterioração no cenário externo. Aumenta-se o ruído quando há ingerência sobre as decisões do central banker, ou seja, quando o ministério da Fazenda e a presidente dizem em alto e bom som que perseguem juros reais em torno de 2% a.a.

É nesse aspecto, leitor, que uma melhora urgente na comunicação entre o governo e o mercado é onde está a chave para alcançar a meta de 4,5% e a menor perda possível de crescimento econômico. Não há ideologias aqui. Independente do que pensa o ministro da fazenda ou a presidente, é fato que não há coerência entre os discursos. A presidente quer defender a todo o custo um nível de crescimento, mas pouco se preocupa com a inflação. E isso acaba por confundir os agentes econômicos. O problema é, portanto, basicamente de ruído na comunicação.


[1] Barro, Robert J. & Gordon, David B., 1983. "Rules, discretion and reputation in a model of monetary policy," Journal of Monetary Economics, Elsevier, vol. 12(1), pages 101-121.

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