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inflação brasileira Archives - Análise Macro

Clube do Código: Estimando o repasse externo sobre a inflação brasileira

By | Clube AM

Está disponível para os membros do Clube do Código a edição 48, titulada Estimando o repasse externo sobre a inflação brasileira, de autoria do Renato Lerípio, seu primeiro exercício para o Clube. No exercício, o membro aprenderá na prática a estimar uma Curva de Phillips com restrição de verticalidade, usando para isso as funções do pacote tidyverse. Uma vez estimada a Curva, é possível identificar a magnitude do coeficiente de repasse externo, sabendo qual o seu efeito sobre a inflação doméstica. Todos os códigos de R estão disponíveis em pdf detalhado para que o membro possa não apenas compreendê-lo, como reproduzi-lo.

Análise da PNAD Contínua com o R: desemprego atinge 12,4% da PEA

By | Mercado de Trabalho

O IBGE divulgou hoje os resultados da PNAD Contínua referentes ao trimestre móvel encerrado em junho último. De uma população de pouco mais de 208 milhões de pessoas, quase 13 milhões encontravam-se desocupadas naquele período. Esse número é 3,9% menor do que o registrado no trimestre móvel encerrado em junho do ano passado. Na mesma métrica, a população ocupada aumentou 1,1% e a população economicamente ativa (PEA) teve aumento de 0,5%. Em termos percentuais, o desemprego atingiu 12,4% da PEA. Na sequência do post, coletamos e tratamos dados da PNAD Contínua com códigos de R que são detalhadamente explicados em nosso Curso de Análise de Conjuntura usando o R.

Com o uso do R, é possível integrar em um único ambiente a coleta, tratamento e apresentação de dados como os da PNAD Contínua, gerando um produto final como esse aqui sem a necessidade de abrir múltiplos programas ou perder tempo entrando em sites para baixar dados. Tudo é feito via uma plataforma integrada como o RStudio, que possibilita um aumento incrível de produtividade. A começar pela coleta de dados, que hoje já pode ser feita de uma base de dados como o SIDRA com um pacote do R, como no código a seguir.


library(sidrar)

### Coletar dados no SIDRA IBGE

data = get_sidra(api='/t/6022/n1/all/v/606/p/all')

Os dados coletados, naturalmente, estão desorganizados, de modo que é preciso tratá-los, transformando-os em uma matriz amigável para que se possa fazer uma exploração dos mesmos via, por exemplo, construção de gráficos. Essa etapa é particularmente importante para quem lida com dados todos os dias, de modo que passamos um tempo considerável do nosso Curso de Análise de Conjuntura usando o R mostrando para os alunos como utilizar o para essa tarefa. Uma vez que o código esteja pronto, sua tarefa de coleta e tratamento de dados está automatizada, de modo que da próxima vez que você for atualizar os dados, perdera minutos nessa etapa. Isto é, poderá se concentrar na parte de análise e comunicação de resultados, sofisticando de modo bastante interessante suas apresentações.

Seus gráficos ficarão bem mais ilustrativos, o que lhe trará maiores insights para desenvolver argumentos econômicos mais sólidos, bem como fomentar a etapa posterior de modelagem e previsão, que pode ser vista nos cursos de Séries Temporais e Construção de Cenários e Previsões. Não perca tempo e venha já para o mundo do R!

Inflação no Brasil vs. Inflação nos Estados Unidos: você sabe a diferença?

By | Inflação

O leitor mais frequente desse espaço já deve ter notado que um dos meus temas favoritos em economia é inflação e política monetária. De fato, tanto minha monografia quanto a dissertação foram em política monetária, envolvendo exercícios econométricos na área. Isso dito, confesso que ainda me espanta (certamente, a essa altura, não deveria) que alguns economistas brasileiros advoguem pelo surrado um pouquinho mais de inflação por um pouquinho mais de crescimento. Sabemos, há mais de cinquenta anos, desde o trabalho seminal de Friedman, que não existe uma troca permanente e estável entre inflação e crescimento (ou menos desemprego).

O entendimento disso, a propósito, é o que difere a política econômica e, com efeito, a inflação entre os países. Economias onde a política monetária tem como único objetivo a estabilidade do poder de compra da moeda são economias com inflação mais baixa. Já países onde os Bancos Centrais ainda insistem em explorar aquele trade-off de curto prazo entre inflação e crescimento, são países onde a inflação será mais elevada.

Para ilustrar, vamos comparar a inflação norte-americana com a inflação brasileira. Nos Estados Unidos, desde a passagem de Paul Volcker pelo Federal Reserve, o Banco Central deles, vale o princípio de Taylor, isto é, na ocorrência de um desvio da inflação em relação à meta, os juros aumentam mais do que proporcionalmente. Isso garante que a inflação não persiga uma trajetória explosiva. Já no Brasil, como sabe o leitor doméstico, nem sempre é assim, não é mesmo?

O resultado esperado dessa postura é que a inflação norte-americana será mais baixa do que a brasileira. Para ver se é isso mesmo, vamos tomar os índices de inflação dos dois países. O código de R (saiba mais sobre R aqui ) abaixo coleta os dados a partir da base de dados quantmod para o CPI norte-americano e do IPEADATA para o IPCA brasileiro.


library(quantmod)
library(ecoseries)

getSymbols('CPIAUCSL', src = "FRED")

cpi.eua = window(ts(CPIAUCSL, start=c(1947,01), freq=12),
start=c(1994,07))

ipca = window(ts(series_ipeadata('36482', 
periodicity = 'M')$serie_36482$valor,
start=c(1979,12), freq=12), start=c(1994,07))

Tomamos o CPI norte-americano e o IPCA brasileiro desde julho de 1994, quando a economia brasileira passou a conviver com um processo inflacionário estacionário. Os gráficos abaixo ilustram os dois índices.

Ao comparar os índices, observe que não há muita diferença entre eles. Ambos apresentam uma tendência positiva ao longo do tempo, evidenciando que os preços tendem a subir ao longo do tempo. A grande questão aqui é saber em qual velocidade os preços sobem. É basicamente isso que vai garantir o tal poder de compra de uma moeda ao longo do tempo. Economias onde a inflação, a velocidade em que os preços sobem, é muita alta, serão economias onde o poder de compra da moeda não se manterá ao longo do tempo, fazendo com que suas populações busquem alternativas para manter esse poder de compra.

Assim, apesar dos índices de inflação dos dois países apresentarem um comportamento, digamos, bastante similar, a velocidade em que crescem será bastante diferente. Para que você veja, o código abaixo traz a inflação acumulada nos dois países, medida pelos respectivos índices, entre julho de 1994 e junho de 2018.


(tail(cpi.eua,1)/head(cpi.eua,1)-1)*100
(tail(ipca,1)/head(ipca,1)-1)*100

O resultado não deixa de ser surpreendente. Enquanto nos Estados Unidos, a inflação acumulada nesse período foi de 69,04%, no Brasil ela foi de incríveis 450,74%. Se, alternativamente, tomarmos o período a partir de julho de 1999, quando passou a vigorar no Brasil o regime de metas para inflação, o resultado fica inflação de 50,48% nos EUA e de 229,17% no Brasil. Para todos as janelas que se tomar, a propósito, o resultado vai ser o mesmo: uma goleada de inflação por aqui.

Isso, como eu disse no início desse post, não é por acaso. Nos Estados Unidos, o Banco Central é independente, não há ingerência política sobre o presidente do FED e seus diretores. E a despeito deles terem um duplo mandato, isto é, baixa inflação e baixo desemprego, não existe uma "meta de desemprego", o que seria algo estranho considerando a teoria econômica, mas sim uma meta implícita de inflação de 2% ao ano. Já no Brasil, as instituições monetárias ainda são muito frágeis. O próprio regime de metas está baseado em um decreto, que pode ser revogado a qualquer momento. O presidente e os diretores do Banco Central não têm autonomia formal para seguir o princípio de Taylor. E, pasmem, quando se quer reduzir a meta para 3,75%, um valor alto considerando países civilizados, há uma gritaria grande entre economistas mal treinados que assessoram candidatos à presidência! Essa diferença institucional, por suposto, vai gerar aqueles resultados de inflação acumulada.

Não seria extraordinário se essa lição fosse aprendida pelo nosso país?

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ps: Hoje, 31 de julho, Milton Friedman faria 106 anos se vivo fosse. O post é uma homenagem a ele... 🙂 

 

"São quantos surreais?"

By | Inflação

surrealContinua repercutindo o "manifesto" "Rio $urreal - Não Pague". Matéria publicada no El País, em sua versão eletrônica nacional, faz a pergunta do título. Eu achei interessante a matéria porque ela revela o que o senso comum pensa em relação ao aumento de preços na cidade do Rio de Janeiro, notadamente nos bairros praianos. Apesar de simpática, entretanto, a reportagem transmite alguns equívocos econômicos. Quando, por exemplo, relata que "Em uma simples barraca de praia carioca, uma reles batata frita pode custar 28 reais, valor suficiente para comprar 16 quilos do tubérculo em um supermercado", omite que para preparar a batata o dono da barraca deve pagar energia elétrica, funcionários, aluguel etc. Além disso, e o que considero mais importante, o dono da barraca só pode cobrar os tais 28 reais porque alguém está disposto a pagar: é o que os economistas chamam de "preço de reserva" dos consumidores. Acaso não houvesse demanda, o preço se reduziria. Desse modo, leitor, será que o dono da barraca é o verdadeiro vilão dessa estória?

Para entender o motivo de "preços surreais" é preciso, nesse aspecto, entender como se comportam a oferta e a demanda por bens e serviços. Se estamos interessados em entender por que restaurantes, bares, boates e demais estabelecimentos similares estão com preços elevados, precisamos entender as restrições impostas à oferta dos bens e serviços oferecidos, bem como descrever os demandantes por esses serviços.

A discussão sobre "por que os preços são tão altos no Brasil?" não é nova. As restrições impostas ao aumento da oferta - que poderiam reduzir a pressão sobre os preços - são relevantes, como mostra o Relatório Doing Business, do Banco Mundial. A carga tributária não é apenas alta, mas difícil de ser paga, existe uma infinidade de licenças para se abrir uma empresa, o sistema judiciário é esquizofrênico, as leis trabalhistas são caducas, a infraestrutura para transportar produtos de um ponto a outro é rala dentre tantos outros fatores. Tais restrições são automaticamente repassadas para o preço da batata frita...

Mas, claro, convém olhar para a demanda também. Isto porque, o dono da barraca só pode cobrar os 28 reais se alguém aceitar pagar. A oferta restringida eleva os preços: mas só até certo ponto. Uma parte importante dos 28 reais refere-se ao que os economistas chamam de apropriação do "excedente do consumidor". Em outros termos, você leitor tem um "preço de reserva" para todos os bens e serviços que consome: o quanto você está disposto a pagar. Por exemplo, se você sai da praia e está disposto a pagar R$ 40 por uma batata frita e pagou R$ 28, seu excedente é de R$ 12: aquilo que você deixou de pagar, mas estava disposto a fazê-lo.

Observe, nesse aspecto, que os produtores de bens e serviços estarão a todo o tempo tentando se apropriar do seu excedente enquanto consumidor. Se conseguem ou não tem a ver com inúmeros fatores, como estratégias de discriminação de preço, por exemplo. Mas a variável-chave para o sucesso ou insucesso de suas tentativas dependerá sempre da demanda dos consumidores. Nesse ponto, é simples explicar a seguinte passagem da matéria: "Lá, uma internauta conta que um café que ela costuma frequentar passou a cobrar 96 reais por um prato de filé. 'Levantei e fui embora me sentindo agredida. Olhei o restaurante cheio e me deu vontade de cantar ‘Quanto riso, oh, quanta alegria, mais de mil palhaços no salão….'". O rapaz que foi embora tinha um preço de reserva menor para o prato de filé: as pessoas que lotavam o restaurante não.

Os preços nas praias cariocas são elevados, então, porque, de um lado a oferta é restringida por uma série de constrangimentos e de outro, há consumidores com preços de reserva suficientes para bancar a empreitada. Essa é a questão mais estrutural que explica a trajetória dos preços, não apenas no Rio, mas em qualquer outro lugar. Além disso, há duas questões conjunturais importantes.

A primeira refere-se aos eventos esportivos que a cidade está prestes a sediar. Se está aumentando o número de turistas na cidade, é natural que o preço de bens e serviços reflita esse avanço. A segunda, um pouco mais complexa, refere-se à macroeconomia: os preços dos serviços, que incluem todos os listados na reportagem do El País, como "alimentação fora de casa", têm avançado a uma taxa próxima a 9% ao ano. Bem superior ao número da inflação oficial (5,91% em 2013). Os serviços, intensivos em mão de obra, refletem o avanço dos salários, dada a baixa taxa de desemprego da economia brasileira. Se os salários aumentam mais do que a produtividade (produção/pessoas contratadas), os custos desses empreendedores aumentam e, se há demanda, são repassados para o consumidor.

Em assim sendo, leitor, a batata frita de 28 reais reflete tanto aspectos estruturais - restrições impostas à oferta e preço de reserva de consumidores - quanto conjunturais - eventos esportivos e inflação de serviços. Você pode questionar "quantos surreais" são necessários para pagar a batata: mas será que o dono da barraca é o vilão dessa estória? 🙂

(*) A matéria completa aqui.

(**) Em post anterior chamei atenção para o fato de que a criação de "moedas paralelas" (ainda que o surreal não se configure, ainda, nessa classificação) faz parte de processos inflacionários consolidados. Minha leitura é que estamos no início de uma espiral inflacionária, que está sendo combatida - com muita dificuldade - pela política monetária operada pelo Banco Central. Até quando ela vai dependerá, em grande medida, da combinação de política econômica, isto é, o quanto o governo federal estará disposto a reduzir seus gastos, bem como incentivar - via reformas estruturais - o aumento da oferta agregada. Leia o post aqui.

 

Estabilidade de preços: objetivo central da política econômica.

By | Inflação

Em post anterior procurei unificar, com base na moderna teoria econômica, visões diferentes sobre o processo inflacionário. Se no curto prazo a inflação pode ser causada por diferentes distúrbios, tais como desvalorização cambial, desvio de expectativas ou quebra de safras, no longo prazo ela é reflexo do que os economistas chamam de liquidez da economia. Ou seja, a relação entre meios de pagamentos e quantidade de transações comerciais e financeiras. Quanto maior for o  primeiro em relação ao segundo, maior será a probabilidade da inflação se mostrar em contínuo aumento. É esse raciocínio simples que dá origem ao que Milton Friedman classificou como fenômeno monetário, quando discorreu sobre o tema da inflação. Explicada a teoria, chega o momento de tratar das causas da inflação brasileira. Ela foi de 6,5% em 2011 e de 5,8% em 2012: bem acima do centro da meta. Isso a despeito do crescimento médio no período ter sido bem abaixo do potencial, de 1,8%. No presente post, busco identificar o papel do banco central na estabilidade de preços.

Inflação brasileira: aspectos conjunturais e estruturais.

Sem embargo, a inflação brasileira é um misto de conjuntura e estrutura. Na primeira estão colocadas todas aquelas complexidades tratadas em post anterior, enquanto na segunda está a ainda resistente indexação da economia, o que em português significa dizer que uma parte não desprezível dos preços de bens e serviços não flutua de acordo com a oferta e a demanda dos mesmos. A indexação significa que tais preços estão ancorados por índices, que são corrigidos sem se levar em conta nem a oferta, nem a demanda. Isso significa que uma parte da inflação brasileira é mesmo inercial, ou seja, a inflação de hoje é em parte explicada pela inflação de ontem, algo que faz parte da estrutura da economia brasileira e, portanto, não é impactada por medidas de política monetária. E isto explica, em parte, porque a inflação brasileira é historicamente maior do que a de seus pares. Para efeito de comparação, enquanto o centro da meta de inflação brasileira é de 4,5%, o do Chile e do México é de 3% - com margem de tolerância de 1%, enquanto a nossa é de 2%.

E aqui é importante explicar que em um regime de metas de inflação, esse valor [4,5%] serve como norte para o cálculo econômico dos agentes. Se, portanto, a política monetária é crível [tem credibilidade], os agentes usarão em seus cálculos esse valor de inflação futura. É claro que ela pode ser um pouco maior [ou menor], mas cabe a um Banco Central com credibilidade coordenar as expectativas dos agentes na direção desse ponto, do centro da meta. A flexibilidade do regime está nas bandas de tolerância. Elas servem para admitir, por exemplo, choques inesperados de oferta, como quebra de safras em alguns alimentos ou aumento de preços tidos como importantes, como petróleo.

Acima retomamos a equação do post anterior para melhor explicar os determinantes da inflação brasileira no período recente. A inercia comentada anteriormente entra no primeiro termo à direta. O segundo termo são as expectativas dos agentes em relação à inflação futura. Esse termo é influenciável por medidas de política monetária. Não apenas pelo aumento ou queda dos juros, mas principalmente pela credibilidade alcançada pela autoridade monetária ao longo dos anos. No gráfico abaixo vemos o comportamento do desvio dessas expectativas em relação à meta [de 4,5%] - quanto maior o desvio, menor [em tese] a confiança dos agentes em que a inflação seguirá para o centro da meta.

Observe, leitor, que dois períodos distintos no comportamento do desvio saltam aos olhos. Até 2008, elas são decrescentes, indicando que os agentes tendem a confiar que a meta de inflação será alcançada. A partir daí há um processo de aumento da desconfiança do mercado em relação ao cumprimento da meta, o que significa em aumento dos desvios entre expectativa de inflação e o centro da meta [de 4,5%]. Sendo as expectativas um importante canal de transmissão da política monetária, é um dado negativo que haja esse aumento do desvio.

O terceiro termo daquela equação é o que os economistas chamam de hiato do produto, que nada mais é do que a diferença entre o PIB efetivamente observado e o PIB potencial - aquele que seria alcançado caso "todos" os fatores [capital e trabalho] à disposição fossem alocados no processo produtivo.  Em assim sendo, quanto maior o hiato [mais positivo], maior será a pressão inflacionária. Como comentado em posts anteriores, o crescimento brasileiro está abaixo do potencial, logo esse termo tem contribuído de forma negativa para o processo inflacionário.

O quarto termo significa o efeito do câmbio sobre os preços. Isso ocorre porque uma parte dos produtos que consumimos são importados. Outra parte são insumos importados utilizados em grande parte dos produtos produzidos no país. Logo, caso ocorra uma desvalorização cambial, há um repasse para os índices de preços [chamado em economia de Pass-Through]. Isso significa que manter a taxa de câmbio acima de um determinado patamar, por exemplo 2,10 R$/US$, tem um custo em termos de inflação maior.

O último termo da equação são os choques de oferta que já foram enunciados. Eventos aleatórios, não esperados, podem atuar de forma negativa ou positiva sobre a inflação. Uma seca nos EUA, por exemplo, reduz a oferta de bens agrícolas, aumentando o índice de commodities internacionais, sendo repassado para os índices de preços atacado e, posteriormente, para os índices ao consumidor no Brasil. Uma safra recorde teria efeito contrário.

O papel da política econômica

Observa-se, nesse sentido, que não apenas o hiato do produto, isto é, o crescimento da economia, tem efeito sobre a inflação brasileira. Ela é composta por estrutura e conjuntura. Na primeira estão as coisas que a política monetária não controla e deve tomar como dado da economia brasileira. Na segunda estão os eventos sistemáticos que ocorrem sobre o organismo econômico. Alguns o Banco Central pode influenciar [caso das expectativas, do próprio hiato e mesmo do câmbio], outros pode reagir [caso dos choques de oferta].

É justamente nesse último ponto que é importante salientar o comportamento da autoridade monetária de um país. Ele possui enorme responsabilidade sobre o comportamento da inflação, na medida em que tanto pode influenciar suas causas quanto reagir a eventos não previsíveis. Um Banco Central conservador, por exemplo, reage a choques negativos de oferta, evitando maior variabilidade da inflação efetiva. Do contrário, um Banco Central mais flexível admite maior variabilidade da inflação em troca de menor impacto sobre o nível de atividade.

Nesse contexto, a despeito do crescimento brasileiro ter sido baixo nos últimos dois anos, entende-se que outros fatores contribuíram para que a inflação fechasse janeiro de 2013 em 6,15% em 12 meses. Em post anterior, eu discuti justamente esses outros fatores, dividindo-os em três blocos. Já aqui, minha argumentação vai em outra direção: ela busca ilustrar ao leitor que o objetivo central da política econômica não é o crescimento econômico, mas sim a estabilidade de preços.

A política monetária, afinal, não afeta variáveis reais no longo prazo. O crescimento econômico é causado por aumento do estoque da capital, emprego de maior quantidade de mão de obra com melhor qualidade e maior produtividade total dos fatores. O que a política monetária pode fazer é moderar os ciclos econômicos, fazendo com que o hiato do produto não  se abra em demasia, causando superqueciamento ou recessões abruptas.

Isso vale também para a política fiscal na medida em que ela deve sim ser utilizada para moderar o ciclo, na medida em que grandes recessões ocorrem. Mas em tempos normais de temperatura e pressão, o orçamento do governo deve ser equilibrado, afim de não gerar pressão aumento do endividamento público, ou emissão de moeda ou mesmo aumento de impostos em um futuro próximo. A política fiscal deve ser guiada com responsabilidade em tempos de paz.

Isto posto, chegamos a conclusão que a política econômica pode ser um fator gerador de mais ou menos incerteza no ambiente de negócios. Se o governo usa os instrumentos fiscais, monetários, cambiais, parafiscais que possui a todo o tempo deixa o empresário confuso sobre o que fazer. Para este é válida a pergunta: é melhor ser eficiente ou é mais eficiente estar perto do centro de decisão? Afinal, em um ambiente que prima por escolher os "campeões", mas vale ser amigo do Rei. É esse tipo de política econômica que vigorou, sem muito sucesso, ao longo das décadas  do Modelo de Substituição de Importações (MSI) e da hiperinflação: tudo, absolutamente tudo, era permitido aos condutores da política econômica.

Desse modo, eleger a estabilidade de preços como prioridade da política econômica é a forma que os muitos modelos das décadas de 80 e 90 observaram ser a forma mais pragmática de ação dos governos. Evita-se interferências desnecessárias que só geram desconfiança, aumento da aversão a risco, incerteza e, consequentemente, menor investimento. Eu diria, baseado nisso, que o governo atual erra a mão ao tentar promover a um só tempo três objetivos: mais crescimento, menos inflação e câmbio fixo. Como se vê, dadas as constantes interferências na política econômica [fiscal, monetária, creditícia, cambial e parafiscal], ele não tem obtido sucesso em nenhuma. O tempo é, portanto, de rever o objetivo central do regime de política econômica brasileira, antes que seja tarde demais.

 

 

 

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